O quarto lançamento da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público trouxe-nos um dos livros de banda desenhada que mais me impactou durante este ano de 2026. Falo de Partir, Ficando, de Christophe Chabouté.
Confesso ser fã da obra do autor francês e de já ter adorado os outros álbuns editados em Portugal pela Levoir, nomeadamente, Moby Dick, Táxi Amarelo ou Acender Uma Fogueira, bem como outros livros de Chabouté que li em edições estrangeiras. E a bela mensagem deste Partir, Ficando até me faz colocar este livro, em particular, como o meu preferido, a par de Moby Dick, do autor.
Isto porque este é um daqueles livros que consegue transformar-nos de forma silenciosa. E, sinceramente, e por muito que eu gostava que acontecesse o contrário, a verdade é que são raros os livros que nos conseguem mudar. Ou, pelo menos, impelir-nos a tentar fazê-lo. E isto não acontece por esta ser uma obra que seja particularmente complexa ou ambiciosa na forma como constrói o seu enredo, mas precisamente porque alcança algo muito mais difícil: faz-nos olhar para o mundo - e para nós próprios - de maneira diferente.
A premissa da obra é de uma simplicidade quase desarmante. Alexandre é um homem comum, um funcionário de um parque de estacionamento cuja vida decorre ao ritmo monótono e previsível dos dias sensaborões que passam sem deixar marca.
É um daqueles indivíduos que encontramos todos os dias sem verdadeiramente os ver. Vive sozinho, trabalha sozinho e parece existir num estado de discreta invisibilidade social. Quantas pessoas não conhecemos que encaixam perfeitamente nesta descrição? Mas, durante este ano, nas suas férias, procura fazer algo diferente. E enceta uma viagem ao Alasca, uma fuga para um lugar longínquo daquele em que vive, que lhe permita quebrar a prisão silenciosa da rotina em que se tornou a sua vida. Mas o destino intervém - não vou contar como, terão que ler o livro - e impede-o de partir nessa tão desejosa viagem.
Impossibilitado de viajar, Alexandre aluga um quarto de hotel no lado oposto da praça em que vive. Só para aproveitar as férias já marcadas e, pelo menos, tentar fazer algo diferente. E é este o ponto de rotura, com Chabouté a levar-nos a uma profunda reflexão sobre aquilo que significa realmente viajar.
A grande força deste Partir, Ficando reside, diria, na capacidade de desmontar uma das ilusões mais modernas da nossa época: a ideia de que a felicidade, a descoberta ou a realização pessoal existem sempre algures longe de nós. Parece que precisamos de ir para longe do sítio em que vivemos para que as viagens que fazemos pareçam mais espetaculares. Além disso, acresce o facto de vivermos numa época em que glorificamos a deslocação constante, a experiência seguinte, o próximo destino, a próxima fotografia. Somos educados para acreditar que a plenitude está sempre noutro lugar. Chabouté responde a essa inquietação com uma pergunta simples: e se estivermos a procurar no sítio errado?
Ao alugar um quarto na mesma rua onde sempre viveu, Alexandre faz algo aparentemente ridículo. A ideia parece quase absurda. Contudo, aquilo que muda não é o espaço geográfico que ocupa, mas a forma como passa a observá-lo. O seu bairro não se transforma; aquilo que se transforma é o seu olhar. A forma como vê o mundo, as pequenas e as grandes coisas à sua volta. E as pessoas que o rodeiam. E é aí que reside a verdadeira aventura.
Poucos autores possuem a capacidade de encontrar poesia onde a maioria das pessoas vê apenas banalidade. Chabouté é um desses raros criadores. Em vez de nos apresentar monumentos, paisagens exóticas ou acontecimentos extraordinários, oferece-nos janelas, passeios, árvores, vizinhos, cafés e ruas comuns. O quotidiano deixa de ser apenas quotidiano e revela-se como um território vasto, misterioso e profundamente humano.
Há, portanto, algo quase zen nesta proposta narrativa. O livro parece recordar-nos constantemente que a vida não acontece apenas nos grandes momentos que guardamos na memória. Acontece também - e talvez sobretudo - nos pequenos instantes que normalmente deixamos escapar.
Por isso mesmo, Partir, Ficando poderá não ter o mesmo impacto junto de todos os leitores. Tenho a convicção de que esta é uma obra que cresce à medida que também nós, leitores, crescemos. Não porque um leitor jovem seja incapaz de a compreender, mas porque certos temas exigem experiência de vida para serem verdadeiramente sentidos. É difícil medir a riqueza de uma rotina quando ainda não se viveu dentro dela. É difícil compreender a solidão urbana quando ainda não se experimentou o peso dos dias semelhantes uns aos outros. E é difícil reconhecer a beleza escondida nos detalhes quando ainda se procura incessantemente o brilho das grandes novidades.
Por tudo isto, considero este um livro maduro, destinado a um público mais vivido. Os leitores mais maduros - e, sobretudo, aqueles que já acumularam algumas derrotas, desilusões, recomeços e aprendizagens - encontrarão aqui uma ressonância especial. Quem nunca acreditou que precisava de mudar de cidade, de trabalho, de país ou de vida para finalmente encontrar aquilo que procurava? Quem nunca confundiu movimento com transformação?
E atenção que, a este respeito, Chabouté nunca cai na armadilha de oferecer respostas fáceis ou mensagens motivacionais simplistas. A obra não nos diz que devemos abandonar os nossos sonhos de viajar. Nem, tampouco, sugere que o mundo exterior não vale a pena ser descoberto. O que faz é muito mais subtil: lembra-nos que nenhuma paisagem distante resolverá aquilo que não conseguimos resolver dentro de nós.
Já falei muito sobre o argumento do livro, mas ainda falta mencionar o belíssimo desenho de Chabouté. Não há aqui grandes novidades, exceptuando a presença de cor em determinados momentos da história - que normalmente é a preto e branco puro - bem como a reprodução das páginas do caderno de viagem do protagonista. De resto, o preto e branco de Chabouté continua a ser verdadeiramente fantástico. Não é apenas bonito... também é expressivo. Há páginas inteiras em que uma sombra comunica mais do que muitos diálogos. Há silêncios que pesam, respiram e emocionam. Poucos desenhadores compreendem tão bem que o vazio também conta uma história.
Quanto à edição da obra, o livro conta com a habitual capa dura baça. No miolo, o papel também é baço e de boa qualidade. A encadernação e impressão também estão boas. Há ainda um prefácio da minha autoria.
Em suma, Partir, Ficando é uma banda desenhada de uma beleza rara, profundamente humana, melancólica, contemplativa e poética. Uma obra que fala de viagens, mas que, afinal, fala de presença. Que fala de distância, mas que, afinal, fala de proximidade. Algumas viagens terminam no exato momento em que regressamos a casa. Mas esta viagem que Chabouté nos propõe, começa precisamente em casa. E é talvez nesse ponto que reside a grandeza desta obra. Na forma discreta como altera a nossa percepção do mundo. Sem ruído. Apenas recordando-nos algo que sempre soubemos, mas que tantas vezes esquecemos: que a vida não é feita apenas dos lugares onde vamos, mas da atenção com que escolhemos habitar os lugares onde já estamos. É um dos livros do ano!
NOTA FINAL (1/10):
10.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
Partir, Ficando
Autor: Christophe Chabouté
Editora: Levoir
Páginas: 152, a preto e branco, com algumas vinhetas a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Julho de 2026
.jpg)
.png)
.png)
.png)
.png)
.png)
.png)
Um bom livro mas continuam por publicar pelo menos três títulos daquilo que muitos (incluindo eu) consideram ser o ápice da narrativa chaboutiana (se assim a podemos designar:
ResponderEliminar- Um pedaço de madeira e aço
- Tout seul
- Henri Désiré Landru e, já agora
- Musée
Relativamente á edição da Levoir, lamento dizê-lo, não valoriza obra. Redução de tamanho em relação ao original, papel semi transparente com evidente efeito translúcido nas manchas mais marcadas a negro. Um autor deste gavaomerecia estar melhor representado no mercado nacional.
…. deste gabarito…
ResponderEliminar