quarta-feira, 22 de julho de 2026

Análise: O Diabo e a Coral


O Diabo e a Coral, de Homs

A Ala dos Livros prepara-se para editar, a partir do próximo dia 28 de julho, o livro O Diabo e a Coral, que marca a estreia do autor José Homs, enquanto autor completo, assegurando argumento e ilustração de uma banda desenhada. Eu já tive o privilégio de ler esta obra, duas vezes, e trago-vos agora a minha análise à mesma.

Esta é uma história que decorre em Praga, capital da atual República Checa, em 1938, num período histórico em que a Europa se encontrava cada vez mais dominada pelo ódio, pela intolerância e pela ameaça iminente da Segunda Guerra Mundial. Acompanhamos a personagem de Coral Loew, uma jovem adulta, de 19 anos, num contexto de vida difícil e complexo, já que se viu forçada, por incompatibilidades irreconciliáveis, a afastar-se emocionalmente do seu pai que, no presente momento, é um homem cuja existência é quase senil. No entanto, o seu pai foi verdadeiramente importante noutro tempo. Coral pertence a uma trupe de circo e é uma jovem mulher carregada de traumas e demónios. Sendo que, no seu caso, mantém uma existência próxima do Diabo, que nos surge enquanto personagem quase omnipresente ao longo da narrativa, permitindo que nós, leitores, possamos acompanhar os diálogos entre Coral e o Diabo. Ninguém além de Coral - e, por extensão, do leitor - consegue ver ou falar com o Diabo.

As duas personagens centrais desenvolvem, então, uma relação complexa, feita de desconfiança, confrontos e cooperação. O Diabo, sendo astuto, provocador e maldoso, parece procurar sempre uma forma de tirar a pouca harmonia que Coral ainda tem na sua vida. É uma história que se vai desvendando às camadas e, por esse motivo, não queria falar muito mais da mesma, além de dizer que esta estranha parceria entre Coral e o Diabo vai levar-nos até aos confins do inferno, enquanto a protagonista procura perceber melhor quem era o seu pai e qual a relevância que o mesmo teve na vida de tantas pessoas, enquanto assumia as funções de rabino. 

A história apoia-se bastante no folclore eslavo, apresentando-nos uma figura tão emblemática como o Rabino Loew, que se apoia na tradição judaica da cidade de Praga, bem como na figura de Golem. 

À medida que a narrativa avança, o enigma parece conduzir ao passado da família de Coral, em particular ao seu pai, o Rabino Loew, uma figura  histórica real, que foi um dos mais importantes rabinos, filósofos e estudiosos judaicos da Europa Central do século XVI. Com a passagem dos anos, a figura do Rabino Loew foi ficando associada à lenda da figura de Golem. Para quem não sabe, o Golem ainda hoje é uma figura central na cidade de Praga - uma personagem mitológica que, tal como um Galo de Barcelos para Portugal, aparece em qualquer loja de souvenirs em Praga. Reza a lenda que foi o Rabino Loew quem criou esta figura monstruosa, através do barro e da argila, que obedecia às suas ordens. Pensem num Hulk ou num Thing, dos Fantastic Four.

Ora, toda estas menções e alegorias, fazem com que este O Diabo e a Coral consiga misturar ficção histórica, com fantasia e mistério, enquanto se tem como pano de fundo a ascenção do nazismo e a invasão da cidade - e do país - por parte do exército alemão. A própria figura de Adolf Hitler aparece na história, com o Diabo a demonstrar-se, naturalmente, apreciador da sua grande "obra".  

Sendo a primeira vez em que Homs se aventura na concepção de um argumento para banda desenhada, diria que há aqui alguns belos feitos por parte do autor: a história é cativante e prende-nos desde o primeiro momento; as duas personagens principais, tanto Coral como o próprio Diabo, são absolutamente impactantes e carismáticas; e o próprio enredo consegue estar bem construído, com a história a saber piscar o olho a numerosas referências. Belo início enquanto argumentista, diria!

Mesmo assim, também tenho que referir que, por vezes, a história sai um pouco dos eixos e torna-se quiçá menos plausível. Não me refiro ao facto de a história ter elementos fantásticos - que nunca serão plausíveis mas isso faz parte das histórias do subgénero do fantástico, claro está - mas sim de certas nuances narrativas que tornam o todo um pouco confuso. Noutros casos, a ação e certos eventos também nos são dados de um modo um pouco forçado, por ventura carecendo de mais páginas para que tivessem sido mais bem introduzidos na trama.

Não obstante, reitero o feito desta obra nos dar uma boa e original história e belas personagens. 

E, claro, belos desenhos!

Homs enquadra-se no meu ciclo restrito de ilustradores preferidos de banda desenhada. E quando assim é, até pode ser complexo explicar o porquê de se gostar tanto do trabalho de um autor. 

Mas vou tentar:

Os desenhos do autor - que também podem ser apreciados na fantástica série Shi, que o autor assina em parceria com o argumentista Zidrou e que por cá tem edição da mesma Ala dos Livros - conseguem ser simultaneamente elegantes, detalhados e extremamente emotivos. Há uma fluidez no traço do autor que torna cada personagem única e reconhecível, enquanto os rostos e expressões revelam uma riqueza emocional pouco comum na banda desenhada. Mesmo nas cenas mais silenciosas, sente-se sempre a presença e a personalidade das personagens.

Além disso, impressiona-me também a capacidade de Homs em "criar ambientes". Homs utiliza a luz, as sombras e a cor de forma magistral, construindo cenários que não servem apenas de fundo, mas que participam ativamente na narrativa. Em O Diabo e a Coral, essa qualidade é particularmente evidente: a cidade de Praga adquire quase o estatuto de personagem, envolta numa atmosfera melancólica, misteriosa e profundamente evocativa que permanece na memória do leitor muito depois de terminada a leitura. Posso dizer que, por motivos profissionais - e pessoais! - conheço bem a cidade de Praga e fiquei especialmente agradado na forma como o autor reproduziu, por exemplo a belíssima Catedral de Nossa Senhora de Týn, na Praça da Cidade Velha, ou o célebre cemitério judeu, de campas sobrepostas umas nas outras. 

E já que falo em representação visual de algo, não posso deixar de referir a maravilhosa e inspirada representação do próprio inferno, enquanto lugar, que se apresenta verdadeiramente visceral e épica. As cenas de ação, a planificação a escolha pelo melhor enquadramento... tudo é feito de forma sublime por parte de Homs.

Quanto à edição, o trabalho da Ala dos Livros volta a não desiludir. O livro apresenta capa dura baça, com textura aveludada e detalhes a verniz; e, no miolo, o papel brilhante utilizado é de extrema qualidade. De resto, a impressão, a encadernação e os acabamentos são de qualidade superior, também.

Resta-me dizer que muito me agrada que, além de Shi, a editora portuguesa brinde agora os leitores portugueses com mais uma obra de Homs. Faço até votos sinceros para que, futuramente, quer o fantástico L' Angelus, quer a adaptação para BD de Millenium, o sucesso literário de Stieg Larsson, possam igualmente ter uma edição portuguesa.

Concluindo, entre uma história envolvente, uma atmosfera única e um trabalho gráfico absolutamente soberbo, O Diabo e a Coral afirma-se como mais um passo certo na construção do catálogo da Ala dos Livros e como uma leitura altamente recomendável para apreciadores de banda desenhada histórica, fantástica e de autor. Uma estreia muito conseguida de Homs como autor completo e, simultaneamente, mais um belo livro a confirmar a consistência editorial da Ala dos Livros.

NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
O Diabo e a Coral
Autor: Homs
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 110, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 243 x 316 mm
Lançamento: Julho de 2026



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