sábado, 13 de junho de 2026

Análise: Caderno de Memórias Coloniais

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata

A Editorial Caminho publicou, há poucas semanas, o livro Caderno de Memórias Coloniais que é uma adaptação para banda desenhada da obra homónima de Isabela Figueiredo, editada originalmente em 2009. A adaptação para BD contou com a própria Isabela Figueiredo, que reviu o seu texto, e com Júlia Barata que transformou o relato em imagens.

Caderno de Memórias Coloniais é uma obra autobiográfica em que Isabela Figueiredo revisita a sua infância vivida em Moçambique durante o período colonial português. A narrativa é construída a partir de memórias fragmentadas e intensas, nas quais descreve o ambiente social marcado pela desigualdade racial e pela violência estrutural do colonialismo. A autora expõe o quanto o racismo era natural entre os colonos brancos, incluindo dentro da sua própria família, revelando como esse sistema moldava comportamentos e relações quotidianas.

Ao longo do livro, Isabela Figueiredo confronta a figura do pai, um colono português que exemplifica a mentalidade dominante da época, autoritária e profundamente racista. A relação ambígua com ele é central: ao mesmo tempo em que ele representa afeto e proteção na infância, também encarna a violência do sistema colonial. Essa tensão contribui para o tom crítico e doloroso da narrativa, em que a autora procura compreender e denunciar o papel dos colonos, sem se poupar a si mesma enquanto testemunha e participante passiva nesse contexto.

E talvez seja esse o ponto que traz mais força ao relato. É que, falando do próprio pai, a autora alcança uma dicotomia narrativa interessante: é que, por um lado, traz-nos memórias que se revelam fraternas, pois trata-se da relação especial que tinha com o pai; por outro lado, ao dar especial enfoque ao seu pai e aos comportamentos do mesmo, acaba por nos traçar um retrato cru do homem branco colono que, invariavelmente, era racista. Eram outros tempos, era outra época e, se calhar, à luz desse tempo passado, certos comportamentos não eram socialmente questionados ou condenados da mesma forma que hoje são. Faz parte da evolução humana termos comportamentos mais certos e justos à medida que o tempo vai passando, diria. Ou, pelo menos, assim deveria ser. Digo eu, que sou otimista. Com efeito, revivendo agora no tempo presente estes eventos, quer autora, quer os seus leitores, se apercebem do que hoje não pode nem deve ser tolerado.

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
E esta duplicidade traz-nos duas valências importantes: 1) Isabela Figueiredo é uma autora corajosa e de uma honestidade intelectual louvável; 2) este livro é um belo exemplo daquilo que, quanto a mim - e isto é uma opinião muito pessoal, reconheço - deve ser a reflexão sobre erros passados: mais do que recriminação, mais do que "cancelamento" a posteriori, mais do que a reescritura da História, devemos olhar para o passado com a luz do nosso tempo presente, mas sabendo contextualizar devidamente aquilo que fizemos, enquanto sociedade, no passado. Não me entendam mal: não defendo que se deve desculpar ou minorar o sofrimento infligido pelos (ou aos) nossos antepassados. Pelo contrário! Mas defendo que devemos olhar para o passado com um olhar clínico mais didático, para que aprendamos a não perpetuar os erros passados e a incrementar as coisas que foram bem feitas.

E considero que, de facto, Caderno de Memórias Coloniais consegue fazer isto muito bem. Consegue ser uma boa ferramenta de aprendizagem e reflexão, sim, mas de um modo redentor, apontando mais um caminho para o presente e futuro do que negando o passado. 

Além disso, a obra também reflete sobre o retorno a Portugal após a independência de Moçambique, destacando o sentimento de desenraizamento e deslocamento vivido por Isabela Figueiredo. A autora aborda a dificuldade de reconstruir a identidade após a ruptura com o passado colonial, evidenciando a experiência dos chamados “retornados”. O livro, assim, articula memória pessoal e reflexão histórica, oferecendo uma denúncia contundente do colonialismo e um testemunho íntimo das suas marcas duradouras.

Quanto às ilustrações de Júlia Barata, as mesmas desempenham um papel fundamental na adaptação de Caderno de Memórias Coloniais para banda desenhada, ao traduzirem visualmente a carga emocional e a densidade das memórias narradas por Isabela Figueiredo. 

O traço de Júlia Barata, bem próximo do que quem acompanha a autora já conhece, apresenta-se simplista, assente numa linha fina e depurada, que privilegia mais a sugestão do que o detalhe. Não obstante, essa contenção gráfica não suaviza em nada a violência descrita. Pelo contrário, acentua-a, criando espaço para que o leitor complete e interprete o que em alguns casos - mas não em todos - está apenas a ser insinuado. Ainda assim, também se encontram alguns momentos em que essa opção por um grafismo mais simples não resulta tão bem, com alguns desenhos a darem a sensação de estarem inacabados.

Por outro lado, o uso da cor revela-se particularmente expressivo e eficaz. A paleta de cores confere aos desenhos um carácter mais próximo do expressionismo, contribuindo decisivamente para a intensidade emocional da obra e aumentando o interesse visual de muitas páginas. Há vários exemplos de composições especialmente bem conseguidas, em que a combinação entre cor e a tal economia de traço, já por mim referida, resulta em imagens visualmente fortes e memoráveis. 

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
No ponto em que, visualmente falando, a obra me deixou menos agradado, foi no cariz menos sequencial da mesma, fazendo com que este Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica se aproxime demasiadas vezes mais de um livro ilustrado, do que de um livro de banda desenhada. Essa sensação é reforçada pela frequência com que se opta por uma única imagem a ocupar uma página, acompanhada de uma legenda extensa no topo. Ainda que essa escolha possa ter sido pensada para preservar a força do texto original, fica a impressão de que, em alguns casos, teria sido mais eficaz dividir essa carga textual por várias vinhetas menores, promovendo um maior dinamismo narrativo e uma articulação mais fluida entre imagem e palavra.

Seja como for, com as suas valências e fraquezas, este é um belo livro que merece ser lido e - porque não? - estudado e analisado em contexto de sala de aula. O relato de Isabela Figueiredo é demasiadamente precioso e relevante para que não seja devidamente difundido. E nesse ponto concreto - que será até o mais relevante, convenhamos -, este livro acaba por funcionar bastante bem.

Para além disso, a edição da Editorial Caminho é em capa mole baça, com badanas, e o papel do miolo do livro é decente. No final da obra, encontramos um posfácio de cada uma das autoras que acabam por ser especialmente úteis para percebermos o "porquê" e o "como" desta obra, bem como as dificuldades que surgiram a Isabela Figueiredo e Júlia Barata durante a feitura da obra.

Em suma, Caderno de Memórias Coloniais afirma-se como um relato histórico de grande importância, não apenas pelo seu valor literário, mas sobretudo pelo seu contributo para a memória coletiva. Ao revisitar, sem concessões, a experiência colonial portuguesa em África, a obra recorda-nos o que foi feito por nós, enquanto sociedade, e pelos nossos antepassados, num período marcado pela violência e pela desigualdade. Sendo um testemunho por vezes revoltante e até vergonhoso, torna-se ainda mais essencial que seja lido e debatido, para que não se apague nem se deturpe esse passado. Importa que todos nós - colonizadores e colonizados - possamos reconhecer os erros cometidos, não para perpetuar culpas, mas para aprender com eles e, assim, contribuir para a construção de um presente mais consciente e um futuro mais justo.

NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho

Ficha técnica
Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica
Autoras: Isabela Figueiredo e Júlia Barata
Editora: Editorial Caminho (LeYa)
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 23,5 x 15,6
Lançamento: Maio de 2026

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