A editora ASA lançou há poucas semanas o segundo volume do tríptico Slava, do autor Pierre-Henry Gomont. Intitulado Os Novos Russos, este novo álbum aumentou ainda mais o meu interesse nesta história, confirmando a sua qualidade e unindo algumas pontas soltas que tinha encontrado no primeiro volume, Depois da Queda. Na verdade, se o primeiro volume já deixava antever uma obra com ambição e identidade, este segundo tomo não só cumpre essas promessas como, em muitos aspectos, as ultrapassa com notável convicção.
Retomando a narrativa na Rússia dos anos 90, Pierre-Henry Gomont volta a mergulhar-nos nesse período caótico, onde o colapso da União Soviética abriu espaço a uma nova ordem marcada pela ausência de regras e por uma voracidade económica quase predatória, que havia de dar origem à famosa "ordem" dos oligarcas. O conceito de “novos russos”, isto é, aqueles que enriqueceram rapidamente à custa de expedientes duvidosos, torna-se aqui o eixo temático central, abordado com um tom que, apesar da dureza do contexto, conserva uma leveza surpreendente, e por vezes até bem‑humorada.
A história divide-se de forma mais clara do que no primeiro volume, entre os percursos de Slava e Lavrine, agora separados por circunstâncias particularmente duras. Lavrine surge numa situação de absoluta decadência: abandonado, mutilado e reduzido a uma existência quase espectral numa aldeia remota. A sua transformação é um dos pontos mais interessantes deste volume, não tanto pela redenção, mas pela forma como Gomont nos oferece uma personagem tão carismática e que acaba, quase sempre, por se mover apenas com base nos seus impulsos egoístas. Ou de sobrevivência.
Já Slava permanece ligado à mina - e à bela Nina - tentando negociar com os grandes poderosos algumas das máquinas mais valiosas presentes nessa mina. O seu relacionamento clandestino com Nina ganha protagonismo neste volume, criando uma tensão constante com Arkady, o noivo desta. Há aqui um jogo emocional e moral mais aprofundado, onde Slava oscila entre a paixão, a responsabilidade e a sua própria crise identitária, acentuada pela vontade de regressar à pintura como forma de encontrar equilíbrio.
Se no primeiro volume, a narrativa me pareceu por vezes indecisa, com momentos dispersos e alguma dificuldade em encontrar um rumo coeso, neste segundo tomo Gomont demonstra um controlo muito mais premente do enredo. As pontas soltas são aqui trabalhadas com maior cuidado, e aquilo que antes parecia quase aleatório ganha agora função e peso dentro da estrutura narrativa.
Para isso, também conta que a obra nos ofereça belas personagens: Slava continua a ser um protagonista sólido, com traços de idealismo que contrastam com o mundo que o rodeia, enquanto Nina mantém o seu carisma e complexidade, funcionando não apenas como interesse amoroso, mas também como catalisadora de decisões e conflitos. Ainda assim, é impossível não destacar Lavrine como a verdadeira estrela deste volume. Politicamente incorreto, manipulador, sem escrúpulos e totalmente focado no enriquecimento pessoal, é uma daquelas personagens que fascinam precisamente pelas suas falhas. Mesmo em ruína, Lavrine mantém um magnetismo difícil de ignorar, e o seu percurso neste volume dá-lhe uma profundidade inesperada. A obra chama-se "Slava" mas, quanto a mim, bem que podia chamar-se "Lavrine".
Outro aspecto que merece destaque é a forma como Gomont torna a leitura mais fluida neste volume. O ritmo está melhor calibrado e a articulação entre cenas é mais natural, contribuindo para uma experiência mais coesa e envolvente. Mesmo quando a história abranda, fá-lo com intenção, aprofundando personagens em vez de dispersar a atenção.
E o equilíbrio entre o humor e a crítica social é outro dos grandes méritos da obra. Gomont consegue abordar temas pesados, como a corrupção, o oportunismo e a desagregação social, com um tom que nunca resvala para o moralismo, optando antes por uma ironia subtil que torna tudo mais acessível e, paradoxalmente, mais incisivo. Não é bem daqueles livros que nos faz rir à gargalhada, mas certamente coloca um sorriso mordaz nas nossas faces.
Em termos visuais, as ilustrações presentes neste segundo volume vão ao encontro do bom trabalho que o autor já nos havia dado no primeiro tomo da série. O traço continua dinâmico, expressivo e cheio de movimento, lembrando, com as devidas distâncias, o estilo de Christophe Blain. As figuras parecem constantemente em fluxo, deformando-se ligeiramente para acentuar emoções e criar uma sensação de urgência que casa perfeitamente com o cenário retratado. E as próprias máquinas e ambiente fabril da mina dos trabalhadores, bem como os cenários gélidos russos, são especialmente bem reproduzidos. Gosto muito do desenho do autor e, já agora, acho a ilustração da capa profundamente linda.
E também a cor continua a desempenhar um papel fundamental. As paletas carregadas e algo sujas reforçam a atmosfera de decadência, ao mesmo tempo que sublinham os contrastes emocionais e narrativos. São cores que, mais do que serem meramente ilustrativas, conseguem ser parte integrante da narrativa visual, ajudando a construir o ambiente e a psicologia das personagens. tudo muito bem feito.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no miolo, e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos.
Em conclusão, Slava #2 – Os Novos Russos revela-se não apenas uma continuação competente, mas um claro passo em frente relativamente ao primeiro volume. Mais focado, mais maduro e com personagens ainda mais bem trabalhadas, este segundo tomo consolida a série como uma fantástica e inspirada abordagem à Rússia pós-soviética, com todos os seus podres. Fica, assim, a expectativa bem elevada para o desfecho desta singular trilogia! Bela aposta da ASA!
NOTA FINAL (1/10):
9.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Slava #2 - Os Novos Russos
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026
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