Uma das coisas que mais temos visto as grandes editoras de comics americanos a fazer, é a apostar em obras que desconstroem os universos já pré-estabelecidos dos vários super-heróis, subvertendo-os de modo a permitir-nos olhar para as personagens que já todos conhecemos através de um novo ângulo. Por exemplo, o recentemente editado Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy, que coloca Batman como o vilão e Joker como o herói, fá-lo brilhantemente.
Este Absolute Batman: O Zoo, inicia um novo arco, arquitetado por Scott Snyder, que nos apresenta, mais uma vez, uma Gotham City reimaginada, em que Batman existe, sim, e é igualmente um lutador contra o mal, mas de um modo muito diferente. Bruce Wayne não é o multimilionário que conhecemos, mas um jovem de classe média, que se tenta sustentar com os trabalhos que aparecem até tirar um curso de engenharia, e que tem uma relação próxima com a sua mãe. Mesmo sendo diferente, há coisas em comum com o Batman que todos conhecemos, nomeadamente o facto de, neste caso, Bruce também ter perdido o seu pai na sua infância, que acabou assassinado numa visita de estudo ao jardim zoológico da cidade.
Além disso, Bruce Wayne mantém próximos os seus amigos de infância que são, nada mais, nada menos, do que algumas das personagens que nos habituámos a ver como vilões. Falo de Selina (a Catwoman), Harvey (o Duas-Caras), Ozzie (o Pinguin), Edward (o Enigma) e Waylon (o Crocodilo). Gostei bastante desta dinâmica e até acho que poderia ter sido mais bem explorada. Se bem que fiquei com a ideia que, futuramente, poderemos encontrar novos episódios com estas personagens. Sim, convém dizer-vos que embora possamos considerar este volume como uma história auto-contida, a série Absolute Batman continua noutros volumes, havendo já três deles publicados no mercado norte-americano.
Falando da história, mais em concreto, Gotham é aqui apresentada como uma cidade brutal e quase selvagem, onde o mundo do crime funciona como um ecossistema de predadores. Um dos elementos chave são os Party Animals - desinspiradamente traduzidos, na versão portuguesa, para "Animais da Festa" - que são um gangue violento e caótico que usa máscaras de caveiras negras, semeia o caos e comete crimes como se fossem espetáculos performativos. Bruce está ainda no início da sua carreira como Batman e decide investigar estes crimes enquanto tenta travar a escalada de violência na cidade. Para isso, recorre aos seus amigos de infância, já mencionados por mim acima, para obter mais informações na sua investigação.
À medida que o enredo avança, percebemos que a crescente criminalidade na cidade aparenta estar a ser manipulada por forças mais poderosas que os próprios "Animais da Festa", que pretendem desestabilizar Gotham e quebrar Bruce emocionalmente. Isto acaba por colocar os seus antigos amigos em risco, empurrando-os gradualmente para trajetórias mais sombrias. Assim, este Zoo não é só uma história de origem do Batman, mas também o início da transformação do seu próprio “grupo”, sugerindo como aqueles aliados podem vir a tornar‑se algumas das figuras mais perigosas da sua galeria de vilões. E foi esta a parte que mais apreciei neste livro. Uma vez que Scott Snyder consegue trazer para cima da mesa algo que tem pano para mangas.
E depois, há, claro, muita ação e violência. Por vezes, até me pareceu que essa violência era um pouco gratuita, uma vez que se "gastam" demasiadas páginas com cenas de ação que poderiam ter sido mais bem aproveitadas com o desenvolvimento do enredo, parece-me.
Sem ser uma leitura que considerei espetacular, reconheço que me diverti bastante a ler este livro e que o mesmo me entreteu enquanto o lia. Há boas ideias e bons diálogos, mesmo que, por vezes, possa parecer que o Scott Snyder se limitou a pegar nos estereótipos da série e a subvertê-los apenas, sem um real e mais complexo estudo das personagens ou das suas possibilidades. Pelo menos, por agora. Porém, funciona bem. É giro. Mas não é, aos meus olhos, algo fantástico ou que iremos recordar daqui a 10 anos.
Quanto aos desenhos de Nick Dragotta, estes apresentam-se como um dos grandes pontos fortes da obra. O trabalho do autor é muito sólido e cheio de personalidade, com composições dinâmicas, poses altamente estilizadas e várias imagens marcantes que ajudam a dar identidade própria a esta versão da personagem. Há vários momentos em que o desenho ganha um impacto especialmente icónico, nomeadamente, quando Batman surge em posturas amplas, dominando a página, e reforçando a ideia da sua força incrível e presença marcante. De resto, a narrativa visual é fluida, com páginas bem construídas que conseguem equilibrar ação com atmosfera, contribuindo para esse tom mais cru e físico que a série pretende transmitir. A planificação também é muito diversificada, havendo vinhetas de todos os tamanhos.
Ainda assim, não gostei particularmente da maneira exagerada, carregada de esteroides, como o corpo de Batman é representado. Dragotta opta por uma representação extremamente musculada, fazendo Bruce parecer quase um “tanque humano”, mais próximo de figuras como o Coisa, do Quarteto Fantástico, ou o Hulk do que do Batman tradicional. Essa fisicalidade extrema reforça a brutalidade do personagem, mas ao mesmo tempo afasta‑o da elegância e agilidade que associo ao Cavaleiro das Trevas. Um contraponto interessante surge, todavia, no capítulo desenhado por Gabriel Hernández Walta (autor que desenhou Senciente, de Jeff Lemire). Sendo esta parte da história um flashback, a diferença, por ventura abrupta, entre o estilo de Walta e Dragotta, até funciona bem, permitindo que a história pare um pouco para respirar.
De resto, as cores de Frank Martin funcionam bastante bem, encaixando-se bem no espírito da história e dos desenhos. Nota ainda para as ilustrações entre capítulos, de página dupla, que são verdadeiramente espetaculares, deixando-nos de queixo caído.
Em termos de edição, o trabalho da Devir é bastante bem-feito. Estamos perante um livro em capa dura baça, com bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. Como material adicional, o livro inclui ainda uma galeria de capas alternativas (todas elas verdadeiramente espetaculares), estudos de personagem e um posfácio de José Castello-Branco.
Em suma, Absolute Batman: O Zoo revela-se uma abordagem interessante e competente dentro desta tendência de reinvenção dos grandes mitos dos super‑heróis, trazendo ideias frescas - sobretudo na relação entre Bruce e o seu círculo de amigos - e um ambiente mais cru e físico que resulta em vários momentos impactantes. Não sendo uma obra extraordinária ou particularmente memorável a longo prazo, é um arranque sólido, com identidade própria, que justifica a curiosidade para acompanhar o desenvolvimento desta nova visão de Batman.
NOTA FINAL (1/10):
8.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário