Vou começar por dizer uma coisa: quando soube que a Arte de Autor iria editar este livro em Portugal, senti um arrepio. Deixem-e recuar um pouco no tempo e falar-vos duma história pessoal.
No ano passado, em pleno Amadora BD, recebi um telefonema da minha mulher a dizer para ir para casa, pois o nosso cão Quixote, o meu melhor amigo dos últimos anos, estava a finar-se. Já sabíamos que ele estava doente, com um cancro nas supra-renais já diagnosticado, que era tratado com cuidados paliativos, mas a verdade é que, até àquele dia, a sua vida era feita de forma tão normal quanto possível, sem que ele estivesse em sofrimento. Mas, infelizmente, os cães têm este defeito - talvez o único? - de terem vidas curtas quando comparadas com as nossas. O nosso Quixote acompanhou-nos, a mim e a minha mulher, e às duas filhas que entretanto chegaram, durante 14 anos e meio, tendo estado sempre presente nos momentos-chave dessa década e meia. Perdê-lo custou muito, como devem imaginar.
Portanto, quando soube de lançamento deste livro, sobre a relação de um homem com o seu cão, fiquei com uma enorme vontade de o ler, por um lado, e com receio de mergulhar nesta leitura, por outro.
Esta banda desenhada da autoria de José Luis Munuera resulta da adaptação da obra original de Cédric Sapin-Defour que, em França, alcançou o feito de mais de um milhão de exemplares vendidos.
Este O Cheiro Dele Depois da Chuva é um relato profundamente íntimo e sensível sobre a relação que o autor construiu com o seu cão, Ubac. Mais do que uma simples história sobre um animal de estimação, o livro mergulha na forma como essa ligação se torna central na vida do autor, influenciando o seu quotidiano, os seus pensamentos e até a sua identidade.
É uma história simples e escorreita, que não procura ser lamechas, mas antes demonstrar a beleza da presença e das pequenas rotinas partilhadas, revelando como o vínculo entre um humano e um animal pode ser tão intenso quanto qualquer relação humana.
À medida que Ubac envelhece, a narrativa ganha uma tonalidade mais melancólica, explorando de forma honesta e poética a inevitabilidade da perda. O autor aborda o luto com grande sensibilidade, captando a dor, mas também a gratidão por tudo o que foi vivido.
José Luis Munuera - de quem a Arte de Autor já por cá publicou Um Conto de Natal, Bartleby, o Escriturário, A Corrida do Século e Peter Pan de Kensington - dá-nos aqui aquele que, quanto a mim, passa a ser o melhor livro do autor publicado em Portugal. Talvez por ser uma história simples, mas carregada de emoção e contemplação, sem que isso seja um pretexto para uma dramatização em excesso.
Acompanhamos a vida de um homem de meia idade, Cédric, um professor de educação física, que vive sozinho, de forma desprendida, e que decide adotar um Cão da Montanha de Berna, a quem dá o nome de Ubac. A partir daí, a história de Cédric deixa de ser vivida de forma tão solitária e Ubac passa a estar nos momentos mais importantes da sua vida. Daí a conhecer uma mulher por quem se apaixona, por fazer alterações drásticas na sua profissão e localidade onde vive, é apenas um pequeno passo natural.
É possível que quem leu ou viu Marley e Eu, de John Grogan, encontre alguns pontos em comum com este O Cheiro Dele Depois da Chuva. Todavia, são histórias algo diferentes na abordagem. Este livro de que vos falo tem um tom mais contemplativo, quase poético, que não convida tanto às gargalhadas nem às lágrimas, como o famosíssimo Marley e Eu, embora, ainda assim seja pontuado por alguns momentos mais divertidos ou mais emocionantes.
Munuera parece particularmente inspirado, oferecendo-nos um trabalho que nos faz sentir a ideia da obra original, através de um belo texto em monólogo - possivelmente captando o texto original de Cédric Sapin-Defour - e de ilustrações cativantes e poéticas, que além de nos contarem a história, nos fazem senti-la através dos silêncios, dos enquadramentos e dos ritmos visuais lentos - mas nunca enfadonhos - que surgem em cada página.
O traço de Munuera assume aqui um papel determinante. Com uma linha equilibrada, semi-realista e subtil, o autor consegue captar tanto a expressividade das personagens quanto a atmosfera dos espaços naturais que atravessam a obra. Há uma contenção muito eficaz no desenho: nada é excessivo, mas tudo está carregado de intenção, permitindo que o leitor projete as suas próprias emoções nas cenas.
A cor, trabalhada por Sedyas, reforça essa capacidade evocativa. As tonalidades são ricas sem nunca se tornarem excessivas, criando ambientes que oscilam entre o conforto e a melancolia. Há uma sensibilidade cromática que acompanha o estado emocional da narrativa, sublinhando as transições do tempo e, sobretudo, da vida.
A estrutura da obra, dividida em sete partes que percorrem treze anos de convivência entre Cédric e Ubac, é particularmente feliz. Cada segmento funciona quase como um fragmento autónomo, que vai assinalando momentos relevantes na vida do protagonista. E convém aqui explicar que esses momentos relevantes até podem não ser "grandes acontecimentos". Por vezes, até são os gestos aparentemente insignificantes, como um passeio, um olhar ou uma rotina partilhada, aquilo que constrói verdadeiramente uma relação. E é precisamente nessa atenção ao detalhe que a obra encontra a sua verdade, mostrando como os laços mais fortes se tecem a partir de pequenas repetições.
A questão do apego e da perda entre dono e cão surge de forma inevitável, claro, mas não é um assunto que seja explorado em termos dramáticos até à exaustão. Para quem já passou pela perda de um companheiro de quatro patas, o impacto pode ser verdadeiramente intenso. Ainda assim, importa sublinhar que a obra nunca resvala para o sentimentalismo fácil. É comovente, sim, mas mantém sempre uma elegância emocional que a distingue de narrativas mais "manipuladoras".
É difícil explicar racionalmente porque nos ligamos tanto a um animal, mas a obra consegue tornar essa ligação compreensível através da experiência sensível que nos oferece. E quando chega o momento da despedida, o vazio que fica é grande, mas também é grande a sensação de plenitude de uma vida cheia que tivemos e que devemos guardar, com carinho, nas nossas memórias.
Há também uma dimensão universal que atravessa toda a obra. Embora se centre numa relação muito específica, ela acaba por falar de algo maior: o amor, o tempo, a memória e a inevitabilidade da perda.
A edição da Arte de Autor é em capa dura, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o livro apresenta bom papel baço, boa impressão, boa encadernação e bons acabamentos. Há ainda um posfácio do autor do romance original, Cédric Sapin-Defour, que enaltece a adaptação para banda desenhada de José Luis Munuera.
Em suma, O Cheiro Dele Depois da Chuva deixa-nos com a sensação de termos lido algo verdadeiramente especial. Uma história de amor profundamente tocante, que aquece e aperta o coração ao mesmo tempo. Sensível sem ser piegas, sincera sem ser adornada, bela sem ser demasiado plástica, esta obra é um belo livro que nos lembra do quão importantes são as relações que temos com os nossos amigos de quatro patas.
NOTA FINAL (1/10):
9.4
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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