quinta-feira, 11 de junho de 2026

O meu Olhar sobre o Festival de Beja 2026



Decorreu no fim de semana passado mais uma edição do Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, que voltou a dar-nos um evento caloroso para fãs da 9ª Arte. Como sempre costumo dizer: trata-se da "Concentração Anual de Bedéfilos de Portugal". Para mim, ainda é o melhor subtítulo para classificar este evento.

O Festival regressou com a mesma identidade que o tornou um caso único em Portugal, mesmo que esta edição tenha deixado a sensação subtil de alguma diminuição na presença de grandes nomes internacionais e de público.




Senti, de facto, que havia menos público durante esta edição do evento. Não é justo dizer que o evento estivesse vazio - as mesas estavam quase sempre bem preenchidas e o pequeno auditório também - mas, de um modo geral, parecia haver menos gente a circular pelo evento, especialmente na área dedicada às exposições e ao mercado da BD, que muitas vezes pareceu excessivamente grande para o interesse e presença dos poucos visitantes que por ali cirandavam.

Esta quebra em termos de público pode justificar-se de vários modos, mas quer parecer-me que está relacionada com o slot de calendário, um pouco sobrecarregado, que este evento passou a ocupar. É certo e sabido que a haver "proprietário" desta janela temporal, tendo em conta que falamos do segundo evento mais antigo de banda desenhada em Portugal - daqueles que ainda existem -, deveria ser o Festival de Beja a ocupar esta vaga no calendário. Contudo, com a criação do Maia BD, que ocorre com meras duas semanas de intervalo e com a Feira do Livro de Lisboa, que ocorre em simultâneo com o Festival de Beja, quem perde é este último. Falei com muitas pessoas que me disseram que não iriam a Beja, pois já tinham ido à Maia, ou porque tinham coisas a ver na Feira do Livro de Lisboa. 




Olhando para o calendário, parece-me óbvio que a data do Festival deveria ser alterada. E até tenho uma sugestão: que tal no primeiro ou segundo fim de semana de Setembro? Nessa altura, a grande maioria das pessoas já chegou de férias e já está mais disponível; ainda é verão e há bom tempo; não há nenhum evento grande de BD durante essa altura (o Amadora BD só ocorre na última semana de Outubro) e ainda é a rentrée literária, o que possibilitaria ao festival ter vários lançamentos de livros. Além de que, convém não esquecermos, quando o festival regressou após a pandemia de Covid-19, foi mesmo nessa altura que aconteceu essa edição de regresso. É a minha sugestão e a minha proposta. Bem sei que é fácil dar sugestões e que, no final, são as decisões camarárias que imperam para que se faça - ou não - eventos pagos pelos Municípios. Mas não deixa de ser, acredito, uma opção a ter em conta esta de mover a data do Festival de Beja para o início de Setembro. Fica, novamente, a sugestão.




Em termos de lineup de autores internacionais, o Festival deste ano também se mostrou menos forte do que em edições anteriores. Sem desprimor para os nomes internacionais que marcaram presença - todos eles com trabalho digno de admiração - diria mesmo que o grande nome foi o de Thomas Ott, o autor suíço das duas obras publicadas em Portugal A Floresta e O Número 73304-23-4153-6-96-8

Foi um prazer assistir à conversa com o autor, moderada por João Miguel Lameiras, ou assistir à curiosa e impressionante técnica de raspagem que o autor utiliza nas suas ilustrações.




Ora, tirando esta questão da menor afluência de público ou de uma presença menos robusta de autores de renome internacional, como já aconteceu em muitas edições passadas, tudo o resto funcionou bastante bem. À boa maneira de Beja.

As exposições eram boas e variadas e as apresentações eram interessantes. 

Apreciei especialmente o concerto desenhado protagonizado por Vasco Colombo e pela banda Club Makumba - o novo projeto musical de Tó Tripps desde o fim dos Dead Combo. Posso dizer-vos que já vou a Beja há alguns anos e nunca tinha visto um concerto desenhado tão bom como este. É até capaz de ter sido o ponto alto deste festival, marcando uma simbiose entre música e desenho dificilmente alcançada noutras tentativas.




Nota positiva, também, para a presença, pela primeira vez, de uma área dedicada aos editores independentes. Um género de artist alley, denominada Interstício. Esta área estava localizada num terraço situado no primeiro andar, logo por cima das arcadas onde estão as "mesas de confraternização" - gosto de lhes chamar assim. 

Diria que é uma iniciativa bem-vinda, embora me tenha parecido que talvez pudesse estar mais assinalada em termos de sinalética. Pareceu-me um pouco perdida, embora a porta para este espaço até estivesse sempre aberta. Mesmo assim, também é verdade que este é o primeiro ano em que há esta iniciativa e, continuando a acontecer nas próximas edições, os visitantes passarão a saber melhor que este espaço ali se encontra.




De resto, e para além de tudo o que já referi, falar do Festival de Beja é falar de um dos eventos mais consistentes e queridos do panorama da BD nacional - um ponto de encontro que, ano após ano, continua a afirmar-se não pela quantidade, mas pela qualidade humana e artística.

Mais uma vez, saí com aquela sensação difícil de explicar, mas fácil de reconhecer: a de ter participado em algo genuíno. Beja não é um festival de multidões nem de grandes máquinas promocionais. É, acima de tudo, um espaço de partilha. Um espaço onde o essencial permanece intacto.




Uma palavra de reconhecimento impõe-se por isso, e mais uma vez, a Paulo Monteiro. Embora o festival resulte do esforço de uma equipa alargada, é impossível não associar a sua identidade à visão e dedicação de Paulo. O seu trabalho contínuo, ao longo de anos, moldou este evento com um cuidado raro e uma entrega que se sente em cada detalhe. Há ali uma dimensão pessoal que transforma o festival em algo mais do que uma simples programação cultural.




Este ambiente é particularmente importante para os autores, sejam eles emergentes ou já estabelecidos. Em Beja, ninguém está inacessível e todos fazem parte da mesma comunidade. É essa horizontalidade que cria um sentimento de pertença tão raro em eventos culturais desta dimensão. 

No que toca às exposições e à programação, manteve-se o cuidado e a diversidade que caracterizam o festival. Houve propostas para diferentes gostos e sensibilidades, com uma curadoria atenta tanto ao panorama nacional como a vozes internacionais. 




O auditório voltou a ser um dos centros vitais do festival. Como é habitual, as sessões estiveram bem compostas, muitas vezes com sala cheia, o que demonstra uma audiência atenta e interessada. 

Nota positiva para o facto das apresentações terem passado, na sua maioria, de 15 para 20 minutos. Pode não parecer uma grande diferença, mas é algo que contribui para aprofundar as conversas.




Em suma, o que permanece de Beja são os momentos informais: os almoços demorados, as conversas inesperadas, os reencontros e as primeiras amizades. É nesses instantes que o Festival de Beja revela a sua verdadeira essência. Mais do que um evento, é um ponto de encontro - um lugar onde a banda desenhada serve de pretexto para algo maior. E mesmo com pequenas oscilações, naturais ao longo dos anos, o Festival de Beja continua a ser um espaço absolutamente singular no panorama português.



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