As editoras A Seita e Arte de Autor acrescentaram, recentemente, mais uma obra do autor belga Zidrou ao seu catálogo conjunto: Amore, que tem David Merveille como ilustrador.
Não se trata de um álbum de uma só história, mas de uma antologia com nove histórias curtas que exploram o amor nas suas múltiplas dimensões. É um livro bonito, adulto e que tem a capacidade de nos fazer parar um pouco para pensar.
Todas as histórias se passam em Itália, bebendo muito do glamour deste país romântico, através de belos cenários, de pessoas sensuais, costumes clássicos e dias solarengos. Não esperem um conjunto de histórias doces, leves e superficiais. Na verdade, a maioria das histórias até é um pouco mais agridoce e, por vezes, até negativa ou triste, representando o amor tal como ele: um fogo grande que consome tudo à sua volta. O bom e o mau.
Naturalmente, e isto é comum a qualquer antologia de banda desenhada, há histórias mais marcantes do que outras. Mas há o ponto comum entre elas de apresentarem personagens fascinantes - por vezes quase "queirosianas" na abordagem, como em Santo Desiderio - que depressa sucumbem aos desejos do seu coração, pondo para trás das costas as recomendações de um outro órgão: o cérebro.
Cada história apresenta uma situação distinta, por vezes poética, por vezes irónica ou até agridoce, conseguindo revelar-nos diferentes facetas do afeto humano, desde o encantamento inicial até à solidão, ao desencontro ou à memória. A sensualidade também é algo que está presente em quase todas as histórias, o que aumenta o cariz mais maduro da obra, sem que, no entanto, esta seja graficamente explícita.
O texto de Zidrou é belíssimo, revelando-se rico, na quantidade certa e sempre muito inspirado. As próprias personagens, já por mim referidas, também são personagens impactantes. Senti-me muito remetido ao universo dos filmes italianos, que tanto aprecio, nomeadamente os de Giuseppe Tornatore, que já nos deu filmes tão bonitos como Cinema Paradiso, A Lenda de 1900, Malèna ou Báaria. Com efeito, até diria mesmo que a banda sonora perfeita para ler este livro é a música contida nas composições do mestre Ennio Morricone em Cinema Paradiso ou A Lenda de 1900.
Isto porque o charme deste livro é irresistível. Adorei-o, verdadeiramente.
É verdade que - e, mais uma vez, à boa semelhança do que costuma acontecer em antologias com histórias curtas - quase sempre ficamos a chorar por mais, achando que a história nos soube a pouco. Especialmente, tendo em conta as boas ideias de argumento de Zidrou, o seu bom texto e as suas boas personagens, isto pode chegar a ser frustrante, pois muitas vezes fica no ar a sensação que cada uma das histórias, de tão rica que é, teria potencial para ser maior em dimensão.
Mesmo assim, a verdade é que as histórias funcionam da forma em que nos são dadas. Mais do que um livro de curtas histórias, este Amore assemelha-se mais a um livro de poemas... em banda desenhada. O que faz dele algo único, extremamente bonito, e que todos deveriam conhecer. Além disso, o formato fragmentado da obra, em pequenas narrativas, reforça a ideia de que o amor não é uma experiência única ou linear, mas antes um conjunto de momentos e perspetivas.
Quanto às ilustrações, David Merveille oferece-nos um traço elegante, sóbrio e estilizado, menos comum em obras de Zidrou. Com as devidas distâncias, o estilo de desenho do autor - especialmente em termos da representação das personagens - até me remeteu para Paco Roca. Embora, menos "cartoonesco", claro.
Há um tom nostálgico e elegante, de cariz quiçá mais autoral e menos comercial, que intensifica o impacto das ilustrações de David Merveille, e que faz com que todas elas funcionem bastante bem. E mesmo reconhecendo que o autor até pode não ser o ilustrador que mais aprecio de todos aqueles - e são muitos - que já trabalharam com Zidrou, devo dizer que o seu trabalho neste livro me agradou bastante, ainda assim. É extremamente competente.
Em termos de edição, a obra editada pela Arte de Autor e pel' A Seita, tem capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão, a encadernação e os acabamentos também são bastante bons. Não há conteúdos extra, além de duas breves notas biográficas sobre os dois autores.
Em suma, Amore é um belíssimo livro, uma reflexão universal e acessível sobre o amor, carregada de breves e belas histórias, cheias de romantismo e charme, que muito me agradaram. Espero que seja um livro que conquiste uma boa quantidade de público, já que pode chegar até àqueles que não têm como hábito a leitura de banda desenhada.
NOTA FINAL (1/10):
9.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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