segunda-feira, 31 de março de 2025

Análise: Hoka Hey!

Hoka Hey!, de Neyef - ASA - LeYa


Hoka Hey!, de Neyef - ASA - LeYa
Hoka Hey!, de Neyef

Estão a ver aqueles filmes que arrancam com uma cena tão marcante e angustiante que pautam a força de todo esse filme? Há vários exemplos, mas enquanto vos escrevo vem-me à cabeça a cena inicial de Inglorious Basterds, de Quentin Tarantino. Essa cena inaugural é tão marcante que funcionaria como uma curta metragem impactante per se, mesmo que também sirva como um cartão de boas-vindas ao que nos espera no restante filme. Ora, Hoka Hey!, de Neyef, que a editora ASA acaba de publicar, arranca com uma dessas cenas fantásticas que, carregada de tensão, gera no leitor uma sensação de mau estar que não cessa de nos acompanhar ao longo da leitura deste espesso livro do género western

Confesso-vos que tinha muita curiosidade em ler este livro e já antes do mesmo por cá ter sido anunciado, eu já andava a namoriscar a versão estrangeira. Felizmente, a ASA assegurou a obra para o mercado nacional, o que revela mais uma boa escolha da editora portuguesa que, diga-se com justiça, nos últimos tempos se tem pautado por isso mesmo: por boas escolhas na seleção de obras estrangeiras a publicar.

Hoka Hey! é uma obra absolutamente fantástica, que encanta desde a primeira página e transporta o leitor para uma narrativa intensa e visualmente deslumbrante. Trata-se de uma banda desenhada que combina de forma magistral a força da sua história com uma estética impressionante, resultando numa experiência imersiva e emocionante com o forte potencial de, no final de 2025, marcar presença junto do conjunto de melhores BDs lançadas por cá.

A história bem que poderia ser a de um road movie, já que acompanhamos quatro personagens por uma longa caminhada pela América profunda do faroeste. O protagonista é Georges, um jovem rapaz que sendo um nativo Lakota, acaba por ser educado à "boa" maneira branca e católica. Na época era, aliás, uma prática comum já que, desde de 1985, havia um grande número de nativos americanos que eram internados em orfanatos para aí assimilarem os valores que lhe eram transmitidos pela cultura dominante e colonizadora. Como conclusão dessa prática, e não só, em 1900 já a população nativa da América do Norte tinha diminuído 93%. Não apenas por causa destes internamentos, mas também pelas novas doenças que os colonos trouxeram para o país, de extermínios subsidiados pelo Estado ou durante as deportações.

Hoka Hey!, de Neyef - ASA - LeYa
Ao longo dos anos de infância, as crianças costumam revelar-se "esponjas" que absorvem rapidamente os valores que lhes são ensinados. E também Georges, havia esquecido a sua cultura original. No entanto, essas raízes profundas, mesmo que esquecidas, podem ser rapidamente readquiridas. E os súbitos acontecimentos logo no começo do livro - a tal cena inicial épica que mencionei mais acima - arrancam, de um momento para o outro, Georges da "vida de branco" que o mesmo havia experienciado até então. Tudo porque se cruza com outro nativo, Little Knife, e mais dois outros membros do seu pequeno bando que acabam por levar Georges consigo. Esta é uma viagem a cavalo pelas paisagens lindas da América do Norte, mas é muito mais do que isso. É também uma viagem ao âmago de Georges e daqueles que o acompanham.

A trama de Hoka Hey! é cativante e bem construída, abordando temas profundos e universais com sensibilidade e inteligência. A narrativa desenrola-se de maneira muito natural, sem pressa, permitindo que os acontecimentos se desenvolvam organicamente e que os leitores criem uma conexão genuína com todas as personagens. Essa abordagem contribui para a imersão na história e reforça o seu impacto emocional. É bem provável que, finda a leitura, haja uma vontade do leitor em recomeçar a leitura do livro.

E para essa sensação também contribui o facto de os personagens serem outro dos muitos pontos altos da obra. Bem caracterizadas e com profundidade psicológica, as quatro personagens que fazem esta viagem transcendem os arquétipos comuns e tornam-se figuras credíveis e fascinantes. Neyef constrói personagens com nuances e camadas - mesmo as mais secundárias - tornando as suas motivações e os seus dilemas extremamente envolventes. Isso faz com que o leitor se importe verdadeiramente com os seus destinos e acompanhe a trama com grande interesse.

Se a história é boa e madura, os desenhos de Neyef são um espetáculo à parte. O traço do artista é gracioso e moderno, demonstrando uma clara influência de diferentes tradições da banda desenhada, desde a escola franco-belga até ao mangá ou aos comics americanos. Se olharmos com atenção, todas essas influências estão bem presentes neste livro. E, claro, essa fusão de estilos confere à obra uma identidade visual única e dinâmica, que se reflete tanto nas personagens quanto nos cenários, sempre expressivos e cheios de vida.

Além da qualidade do traço, as cores utilizadas em Hoka Hey! são simplesmente deslumbrantes! Neyef faz um uso magistral da paleta cromática, alternando tons vibrantes e sóbrios para criar atmosferas impactantes e carregar ainda mais emoção em cada cena. Vê-se que o autor se faz valer de algumas opções digitais, mas fá-lo sempre com o cuidado de não deixar a obra estilizada de mais. O jogo de luz e sombra e a variação de tons ajudam a construir um ambiente visualmente arrebatador, contribuindo para o tom cinematográfico da história.

E essa sensação de cinema não está presente apenas na estética, mas também no ritmo narrativo. A história possui um excelente pace, equilibrando momentos de ação intensa e bastante violência gráfica com passagens mais introspectivas e emocionais. A fluidez com que as vinhetas se sucedem e a forma como Neyef usa a planificação para guiar o olhar do leitor, fazem com que a leitura seja envolvente e dinâmica, como se estivéssemos a assistir a um filme.

Hoka Hey!, de Neyef - ASA - LeYa
A ambientação da história também merece destaque. Cada cenário contribui para a construção da atmosfera e para a imersão na trama, transportando o leitor para dentro da ação. E a maneira como Neyef representa os espaços e a geografia da narrativa demonstra um cuidado minucioso com os detalhes, criando um mundo palpável e rico em texturas. 

Falando em detalhes, não posso - mesmo que em contraciclo - deixar de referir a presença de algumas falhas de continuidade nos desenhos de Neyef que me deixarem perplexo, tendo em conta a qualidade de tudo o resto. Falho de alguns erros de raccord que me parecem de principiante como, por exemplo, numa só página vermos a personagem a sacar da arma com a mão esquerda, a disparar com essa mesma mão, mas depois a arrumá-la com a mão direita no seu coldre que passou como por magia para o lado direito(!). Infelizmente, este tipo de erros não acontece uma só vez. Acontece em vários casos. Por vezes, até sou benevolente com este tipo de coisas, mas tendo em conta a qualidade de topo desta obra, não posso deixar de referi-los. Até porque me parece incrível que ninguém o tenha feito junto do autor ou em textos críticos já depois da obra publicada.

Mas pondo de parte esta questão mais negativa e voltando à imensa quantidade de coisas bem feitas neste Hoka Hey!, outro ponto que contribui para a excelência da obra é a forma como Neyef trabalha o simbolismo e a carga emocional nas suas ilustrações. Pequenos gestos, expressões e enquadramentos são utilizados com maestria para transmitir sentimentos e significados sem a necessidade de palavras, reforçando a potência visual da narrativa e tornando-a ainda mais impactante.

Quanto à edição da ASA, a editora presenteia-nos com um bom trabalho. A capa do livro é dura e baça, com bom papel baço no interior e com um bom trabalho ao nível da encadernação e da impressão. Confesso que teria apreciado que houvesse um caderno de extras, com esboços ou informações adicionais sobre a obra, mas isso também não é causa para achar que não estamos perante um bom trabalho de edição. 

Em suma, Hoka Hey! é absolutamente obrigatório (até mesmo para quem não tem o hábito de ler western) e um daqueles livros que deixam uma marca duradoura em quem os lê. Com desenhos belíssimos, cores vibrantes, uma história cinematográfica e personagens memoráveis, Neyef entrega uma obra-prima da banda desenhada contemporânea, que merece ser apreciada e revisitada inúmeras vezes.


NOTA FINAL (1/10):
9.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Hoka Hey!, de Neyef - ASA - LeYa

Ficha técnica
Hoka Hey!
Autor: Neyef
Editora: ASA
Páginas: 224, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 319 x 240 mm
Lançamento: Março de 2025

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