Volta, Snoopy! marca o regresso de uma das mais célebres séries de tiras humorísticas às livrarias portuguesas: a série Peanuts que, para além de Snoopy, conta com um vasto conjunto de personagens famosas, como Charlie Brown, por exemplo, que marcaram várias gerações desde o seu lançamento. A obra volta agora pelas mãos da editora Iguana que, à semelhança daquilo que já fez com Mafalda, de Quino, volta a apostar num clássico. Há, pois, obras que merecem estar sempre disponíveis e Peanuts é uma delas.
Este livro reúne tiras que, originalmente publicadas em jornais entre os anos de 1962 e 1965, retratam as aventuras e desventuras de Snoopy, o carismático beagle, e do seu dono, Charlie Brown. À boa maneira do trabalho executado na plena de longevidade série Peanuts, o autor Charles Schulz utiliza o humor e a sensibilidade para abordar temas universais como a amizade, a solidão, o fracasso, a perseverança e muitos outros temas mundanos.
Podemos considerar que, entre histórias, há uma narrativa conjunta, embora as tiras que nos são dadas sejam independentes entre si, o que faz com que este seja um livro apetecível para abrir de forma aleatória e descobrir um gag que nos surpreende e nos deixa com um sorriso na face. Por outro lado, isso também gera uma certa desconexão entre histórias, fazendo com que, naturalmente, algumas piadas funcionem melhor do que outras ou que a envolvência entre o que é retratado numa história e o próprio leitor vá variando em impacto.
Cada breve história é constituída por quatro vinhetas que nos oferecem diálogos afiados e expressões marcantes, mantendo a leveza e o humor típicos da série. Além disso, há uma notável economia de palavras e desenhos, algo que reforça a genialidade do autor ao transmitir emoções profundas com traços simples.
Um dos aspectos mais cativantes deste livro é a personalidade multifacetada de Snoopy. Este simpático cão tem uma imagem de si mesmo como um aventureiro destemido, mas, ao mesmo tempo, não esconde a sua afeição pelo conforto do seu lar e dos seus amigos. "Cão que ladra, não morde". A dualidade entre independência e apego emocional é, pois, um dos pontos centrais do livro e ressoa com leitores de todas as idades, pois reflete dilemas humanos comuns.
Outro ponto de destaque é a forma como Schulz equilibra melancolia e humor. Apesar de o livro tratar de temas como solidão e rejeição, a abordagem nunca se torna excessivamente pesada. O autor consegue arrancar risos e, ao mesmo tempo, provocar reflexões subtis sobre o significado de pertença e amizade.
E embora Charlie Brown, Lucy, Linus, Schroeder e Woodstock também façam a sua aparição neste Volta, Snoopy!, o mesmo assume-se como especialmente dedicado à personagem de Snoopy. Coisa que, a meu ver, neste regresso da obra, faz todo o sentido, pois nenhuma personagem da série é mais popular do que Snoopy - nem mesmo Charlie Brown.
Reconheço que, como ponto menos positivo, há uma certa previsibilidade nas histórias. Razão pela qual a leitura conjunta do livro, de uma ponta à outra, se possa tornar repetitiva, concedo. Mesmo assim, o brilho de muitas histórias mantém-se intacto passados tantos anos, o que atesta a qualidade do material.
A edição da Iguana é em capa mole com badanas, com bom papel, impressão e encadernação. Nota positiva para o facto da editora portuguesa estar a aproveitar (e a capitalizar) uma lacuna no nosso mercado recente de banda desenhada que é - ou, melhor dizendo, era - a das tiras humorísticas. Tirando as constantes reimpressões de Calvin & Hobbes que a Gradiva vai fazendo, não estavam a sair muitas obras de tiras humorísticas em Portugal. E em pouco mais de um ano, a Iguana assegurou que quer Mafalda, quer Peanuts, voltam a estar presentes nas livrarias portuguesas.
Concluindo, Volta, Snoopy! é uma leitura encantadora com o potencial de, nos tempos correntes, conseguir chegar a leitores de todas as idades. Através do estilo simples e inteligente de Schulz, a obra capta bem a essência das personagens e a beleza das pequenas coisas da vida. É um convite aos novos leitores, por um lado, e, para os fãs antigos de Peanuts, é um livro que oferece uma experiência nostálgica e, ao mesmo tempo, atemporal, reafirmando o legado duradouro de Charles Schulz na literatura e na cultura popular.
NOTA FINAL (1/10):
7.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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