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quarta-feira, 8 de julho de 2026

30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos)


Se é verdade que é comummente aceite que, em Portugal, vivemos na atualidade uma das melhores fases - em termos de variedade, quantidade e qualidade - na edição de banda desenhada, o mesmo não é dito relativamente ao lançamento de banda desenhada destinada às crianças e aos jovens.

Com efeito, é frequente que oiçamos gente do meio da BD a dizer que "não são lançadas obras para um público infanto-juvenil em Portugal". Poderia ser verdade há uns anos, mas de há uns tempos (largos) para cá, com especial incidência nos últimos três ou quatro anos, é cada vez mais frequente e robusta a aposta em banda desenhada para as crianças e jovens. E isto já sem falar de mangás ou das bandas desenhadas mais clássicas como Astérix ou Lucky Luke. Portanto, achar-se que é pouca a BD infanto-juvenil editada por cá, no tempo presente, revela apenas uma coisa: desconhecimento sobre o meio.

E a prova cabal do que acabo de dizer é que me foi bastante fácil chegar à listagem de 30(!) obras de BD infanto-juvenil, editadas nos últimos dois/três anos, que vos trago hoje. Tive até que deixar outras obras relevantes de fora. É claro que poderemos sempre objetar que ainda há espaço para que se publiquem mais obras para este público. Sim, claro que há. Mas isso também é válido para qualquer mercado. Até o franco-belga.

Assim, este artigo tem a função de vos fazer conhecer boas obras de banda desenhada que poderão comprar para oferecer aos vossos filhos, aos vossos netos, aos vossas afilhados, aos vossos sobrinhos. A qualquer criança que vos rodeie, portanto. Pois, se queremos que a 9ª Arte prospere, também importa formar leitores. E cabe-nos a nós, leitores e amantes de banda desenhada, fazê-lo. Não contemos com grandes iniciativas do Ministério da Educação ou da Cultura...

E mesmo que não estejam rodeados de crianças, posso até dizer-vos que há nesta listagem de 30 obras, vários livros que, sendo para crianças ou jovens, também são leituras ricas para adultos.

Portanto, sem mais demoras, eis a minha lista de 30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos):

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Análise: Strong - Arquivos da Kachisou

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou

Um dos lançamentos mais recentes das editoras A Seita e Comic Heart - e que, infelizmente, tem passado um pouco despercebido - dá pelo nome Strong - Arquivos da Kachisou. Esta é uma antologia de histórias em banda desenhada, com forte influência da imagética mais associada ao mangá, da autora portuguesa Kachisou. Acaba por ser uma reedição, uma vez que boa parte desta obra, cerca de metade, já havia sido editada com o título Weak. Editado pela editor Bubok, Weak marcou a estreia da autora portuguesa na edição de banda desenhada em formato físico. Essa edição continha quatro histórias curtas. Desta feita, o título Weak foi substituído pelo antónimo Strong e estamos perante uma edição muito melhor, que tem o dobro das histórias, uma revisão dos conteúdos, e ainda um belo conjunto de material extra.

Já aquando do seu lançamento original, em 2020, Weak fez-nos antever que Kachisou tinha um potencial imenso. E, para tal, muito contribuiu a capacidade impressionante da autora para o desenho.

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
E, de facto, o desenho de Kachisou neste Strong é tão bom que não está apenas ao estilo qualitativo dos mangakás do Japão, mas sim ao estilo qualitativo dos melhores mangakás do Japão. O estilo de traço da autora é clássico, extremamente expressivo, e remete-nos para os melhores animes que marcaram a infância de quem, como eu, cresceu nos anos 80 e 90. Sou verdadeiramente fã do desenho da autora. E ainda que a mesma nos tenha dado belos desenhos nos mais recentes livros A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos ou Quero Voar, é, quanto a mim, neste livro que o seu trabalho de ilustração mais impressiona. Aqui, a maturidade do seu traço e a consistência do seu estilo atingem um nível superior, consolidando Kachisou como uma das vozes mais relevantes da banda desenhada nacional.

A autora revela uma capacidade de desenho absolutamente notável, que não se limita a imitar o estilo das suas referências, mas antes se aproxima do melhor que esse universo tem para oferecer, conseguindo oferecer-nos uma certa componente nostálgica que nos convida a deter-nos em cada uma das páginas do livro. A fluidez das linhas, a composição dos enquadramentos e a construção das personagens revelam uma artista que domina plenamente a linguagem visual do mangá, por um lado, e a elegância e clareza narrativa de uma história em banda desenhada, por outro. 

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
A expressividade que Kachisou coloca nas suas personagens é impressionante, com cada emoção das mesmas a ter uma intensidade quase cinematográfica.

Falando das histórias, em concreto, temos um conjunto de oito breves contos que varia bastante em termos de dimensão de histórias, com uma delas a passar as duas dezenas, mas outras, mais curtas, com apenas três ou quatro páginas. Há até uma história que só ocupa uma prancha. Em comum, todas elas têm uma abordagem delicada e suave, em estilo slice of life, colocando-nos em momentos concretos da vida das personagens com quem privamos. 

São relatos simples, muitas vezes contemplativos, que são centrados em emoções e pequenos momentos, mas que, precisamente por isso, conseguem ser marcantes. Não escondo que considero que muitas das histórias aqui presentes teriam potencial para serem mais desenvolvidas, tendo mais páginas, mas também acho que há uma leveza assumida que não diminui o impacto das histórias.. e que acaba por ser bem conseguida.

Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart
Os temas são vários: temos um jovem que procura ser um bom lutador de boxe; temos um robot que encontra numa rapariga uma amizade inesperada; uma idosa que procura, de algum modo, superar a própria morte; um rapaz que procura anular os seus próprios medos de infância, entre outros e variados assuntos. Há uma certa ternura transversal a todas as narrativas, que se articula de forma harmoniosa com o traço elegante da autora. As histórias exploram temas como a superação, a amizade, a perda ou o medo, sempre com bastante sensibilidade.

Quanto à edição, estamos perante um belíssimo trabalho das editoras A Seita e Comic Heart, pois este livro não só recupera material previamente publicado, e que já era difícil de encontrar à venda, como o eleva através de uma edição cuidada e substancialmente ampliada, que permite redescobrir o universo criativo de Kachisou com outro fôlego e ambição. De resto, o livro é melhor a todos os níveis do que a edição original da Bubok, tendo capa dura baça, bom papel baço no miolo e encadernação, impressão e acabamentos de boa qualidade. É, também, ligeiramente maior, em termos de formato, do que a edição de Weak. E, claro, inclui ainda um simpático caderno de material extra, com 12 páginas, onde nos são dadas lindíssimas ilustrações adicionais da autora.

No conjunto, Strong - Arquivos da Kachisou apresenta-se como o mangá português mais japonês de sempre. Esta afirmação não surge como exagero, mas como reconhecimento do grau de autenticidade com que a autora trabalha a linguagem deste subgénero. Por tudo isso, este livro não é apenas uma reedição... é uma consagração. E, acima de tudo, um testemunho claro de que o talento de Kachisou merece todo o reconhecimento que tem vindo a alcançar.


NOTA FINAL (1/10):
8.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Strong - Arquivos da Kachisou, de Kachisou - A Seita - Comic Heart

Ficha técnica
Strong - Arquivos da Kachisou
Autora: Kachisou
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas:, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cms
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Análise: Terrea

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Terrea, de Ricardo Cabral

Foi durante o último Amadora BD que as editoras A Seita e Comic Heart editaram Terrea, de Ricardo Cabral, um dos livros mais bonitos da banda desenhada nacional do ano 2025. Pelo menos, relativamente às ilustrações. Quanto à história, a conversa já será outra, mas já lá irei.

Contextualizando a obra Terrea, importa não esquecer que o projeto começou há 10 anos de forma bastante fragmentada e experimental, quando, em 2015, Ricardo Cabral auto-editou um pequeno livro composto por desenhos sequenciais que, inicialmente, nem sequer constituíam banda desenhada no seu sentido mais tradicional, mas exercícios de desenho automático com um ambiente muito próprio, advindo do universo da fantasia, que sugeriam uma narrativa. A partir daí, foram publicados ao longo dos anos vários capítulos deste universo de forma dispersa, com destaque para aquele contido na antologia TLS - The Lisbon Studio Series.

Agora, com esta recente bela edição d' A Seita e da Comic Heart, podemos mergulhar neste universo de Terrea como um todo. 

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
A história apresenta-se-nos algo complexa e difusa, onde fica claro que foi feita por camadas, ou acrescentos, à medida que ia tomando forma. Desenrola-se num universo fascinante e misterioso, onde a cidade de Terrea assume um papel central, quase mítico, como domínio da Deusa, uma figura mitológica. A narrativa constrói-se depois a partir da rivalidade entre Terrea e as enigmáticas Três Sombras, num conflito que molda o destino deste mundo fantástico, abrindo espaço para múltiplos acontecimentos simultâneos que envolvem exércitos, viajantes e dimensões paralelas.

Não é uma leitura fácil, tenho que o dizer, pois por vezes a história parece um pouco over the top no modo como é abstrata, sentindo-se a falta de um fio condutor que possa unir melhor os pontos. Consequentemente, alguns leitores poderão sentir-se perdidos. Mesmo assim, e tendo em conta a forma como esta obra nasceu, também não posso dizer que a história não seja interessante o suficiente para que a possamos acompanhar com agrado, mesmo que por vezes tropecemos em alguns eventos que parecem algo aleatórios.

Mas o que mais importa destacar nesta história(s) imaginada(s) por Ricardo Cabral é o seu fantástico worldbuilding, onde o autor português se revela muito criativo, dando-nos um mundo credível e belo de admirar, com personagens impactantes. Talvez por isso, pela conceção destes mundos e atmosferas, considero que Terrea representa, até à data, o auge da criatividade de Ricardo Cabral. A obra transmite uma sensação de vastidão e complexidade que não é comum na BD portuguesa, e isso dá-lhe uma força própria, quase épica. 

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Mas é claro que aquilo que mais sobressai neste livro é mesmo a plena e maravilhosa capacidade de Ricardo Cabral para ilustrações que são lindíssimas e cheias de detalhes, convidando-nos a que nelas nos percamos durante longos momentos para melhor as absorver, bem como ao virtuosismo técnico do autor. Posso até dizer que a narrativa de Terrea me parece mesmo um mero pretexto para a exploração gráfica. É impressionante como Cabral consegue transformar cada vinheta num espaço de descoberta, onde os pormenores visuais carregam significados tão ou mais relevantes que o texto. Cheguei mesmo a achar se a obra não teria funcionado enquanto BD muda. Talvez fosse difícil compreendermos a história sem qualquer texto, reconheço, mas não deixa de ser menos verdade que, mesmo com texto, a história não se torna muito fácil de acompanhar. Por vezes senti mesmo que certas legendas ou balões estavam ali a mais, criando ruído na vinheta que eu queria absorver com tempo e calma.

A maior parte do livro é em preto e branco. Através desta abordagem podemos ver como o desenho do autor é meticuloso e sempre muito inspirado e singular. O uso de um preto e branco puro, sem escalas de cinzentos, atribui às ilustrações de Ricardo Cabral um cariz muito artístico, a fazer lembrar, com as devidas distâncias, alguns mestres da banda desenhada clássica europeia, como Moebius, Schuiten ou Rosinski.

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Cada elemento visual, por mais surreal que pareça, contribui para a construção do universo de Terrea, tornando-o verosímil dentro das suas próprias premissas. Os traços variam entre o delicado e o vigoroso, criando texturas que conferem profundidade e movimento a cada página. A composição visual é muitas vezes complexa, com sobreposições e camadas que exigem atenção detalhada, mas que recompensam o leitor com uma sensação de imersão total no mundo criado. Além disso, a criatividade gráfica de Cabral é evidente na forma como as vinhetas se organizam e se interconectam. Cada desenho parece simultaneamente autónomo e parte de uma grande tapeçaria visual, o que reforça o carácter de saga da obra. 

Mas, se o desenho a preto e branco é impressionante, o desenho a cores no único capítulo da história a cores - aquele que também apareceu em TLS - The Lisbon Studio Series - é, quanto a mim, ainda mais majestoso. É que, para além de ser um fantástico desenhador, Ricardo Cabral também é um exímio colorista e, quando presentes, as cores garridas e fortemente contrastantes, explodem com uma intensidade quase sobrenatural, contribuindo para o efeito de maravilhamento e reforçando o carácter fantástico da obra. 

A edição d' A Seita e Comic Heart está muito bonita, com o livro a apresentar capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior. O próprio grafismo do livro também é muito elegante e apelativo. Nota positiva para o facto de terem sido lançadas duas capas diferentes da mesma obra. A impressão e a encadernação são de boa qualidade e há espaço ainda, no final, para um dossier de extras com 10 páginas, que reúne um conjunto de esboços, estudos de capa, fotografias e um texto em que o autor nos conta, na primeira pessoa, a origem deste trabalho. Gostei especialmente que fosse o autor a falar da sua própria obra, pois considero que isto aumenta o seu envolvimento e, por conseguinte, o seu laço com os leitores.

Em conclusão, Terrea é uma obra que impressiona pelo virtuosismo gráfico que nos deixa sem palavras. Ricardo Cabral constrói um mundo fascinante, profundo e aberto à interpretação, onde a história, embora vaga em alguns momentos, serve como veículo para um espetáculo visual e simbólico extraordinário onde fica clara a relevância do autor para a banda desenhada nacional.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



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Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Terrea
Autor: Ricardo Cabral
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 164, a preto e branco (com um capítulo a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm 
Lançamento: Setembro de 2025

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Análise: Macho-Alfa #4

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

O quarto e último volume da série portuguesa Macho-Alfa chegou-nos no final do ano passado como um murro final, a vários níveis, que se revelou como um derradeiro golpe, seco e sem aviso prévio, para todos os que acompanhávamos esta série desde o seu começo, da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

E foi um duro golpe a dois níveis. Em primeiro lugar, por este livro ter o significado simbólico de ser o último trabalho de Filipe Duarte Pina que, lamentavelmente, faleceu a meio de 2025. Além disso, por marcar o fecho de uma saga de banda desenhada nacional que sempre jogou no limite entre a desconstrução do mito do super-herói e a sua celebração mais crua, mais física, mais humana. 

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este quarto volume não procura teorizar muito as ideias que foram levantadas nesta série - e foram muitas -, mas sim encarar de frente o abismo que sempre esteve à espera de David, o protagonista, um super-humano num mundo que nunca soube o que fazer com ele. Se em muitas das histórias de super-heróis nos é dada a ideia que ser-se super-herói deve ser espetacular... em Macho-Alfa fica bem presente que talvez ter super-poderes seja mais uma cruz do que uma benção.

Ao longo da série, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina construíram uma narrativa que piscava o olho à cultura dos comics americanos, mas sem nunca abdicar de uma identidade muito própria, profundamente portuguesa no seu desencanto, na sua ironia e no seu pessimismo social. 

David já não é, neste quarto volume, o anti-herói em crise existencial nem o peão de um sistema que o usa e descarta. É, acima de tudo, um sobrevivente. Confrontado com a verdade sobre o seu passado e com a revelação da sua némesis, tudo o resto se torna irrelevante: não há terapia, não há reforma, não há apaziguamento possível. Há apenas a luta. E essa escolha narrativa confere ao álbum uma urgência brutal, quase sufocante, com cada uma das páginas a ganhar peso acrescido, levando a que cada decisão narrativa pareça carregar uma vontade clara de ir até às últimas consequências. 

Narrativamente, este último volume centra-se quase exclusivamente no combate entre David e o seu rival. Cerca de metade do álbum - aproximadamente 30(!) páginas - se destina ao combate entre ambos, o que é uma opção ousada e pouco comum, sobretudo no contexto da banda desenhada portuguesa, e remete-nos imediatamente, lá está, para as grandes batalhas épicas dos comics de super-heróis. Uma escolha que, pessoalmente, apreciei muito pela sua audácia e confiança, pois se há série nacional que termina em apoteose, esta é uma delas.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este combate não é apenas longo... é denso, agressivo, físico e emocionalmente carregado. A violência atinge aqui um patamar que, sinceramente, não me recordo de encontrar noutras obras nacionais. Esta violência - que alguns até poderão achar exagerada, mas não eu - é consequência lógica de tudo o que foi sendo construído ao longo da série e, claro, por serem personagens - quer o herói, quer o vilão - de um poder indescritível. Não poderia ser de outra forma, acredito. 

Este conforto está particularmente bem conseguido, por parte do ilustrador Osvaldo Medina. A coreografia do combate é clara, o ritmo é eficaz e as decisões visuais demonstram um controlo narrativo impressionante. Há uma sensação constante de perigo real, de que tudo pode acabar a qualquer momento, e isso mantém o leitor preso até à última página.

Nem tudo, contudo, é isento de críticas. Olhando para a série como um todo, é impossível não notar que, a determinada altura - especialmente no segundo volume - a história pareceu afastar-se um pouco do seu potencial inicial mais relevante. Algumas ideias surgiram de forma algo aleatória, deixando pontas soltas em termos de enredo que nunca chegam a ser totalmente resolvidas. Entretanto, o terceiro volume melhorou a narrativa, já depois de um primeiro álbum que prometia muito.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E não é que este Macho-Alfa #4 resolva todas as pontas soltas que a série trouxe. Sinceramente, até parece não haver esse objetivo por parte dos autores. Ainda assim, este livro consegue, de forma notável, recentrar o foco e fechar a saga com uma clareza e uma força que compensam essas fragilidades anteriores. O final é brutal, violento, imprevisível e chocante, e não tenta agradar a todos. É um final coerente com o universo que foi criado desde o início.

Em termos de edição, o trabalho d' A Seita e da Comic Heart, mantém-se em consonância com os volumes anteriores, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, boa impressão e boa encadernação. Além disso, foi feita uma homenagem, mais do que merecida, a Filipe Duarte Pina, que inclui a fotografia do autor, um nota introdutória dos editores e homenagens sentidas e emotivas de Filipe Andrade, Filipe Homem Fonseca, Nuno Lourenço Rodrigues, Osvaldo Medina, André Oliveira, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Simões. Nélson Dona, Nuno Saraiva, Paulo Monteiro, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral e Pedro Moura. Há ainda um esboço da personagem de David que, a julgar pelo traço, acredito ser da autoria de Filipe Duarte Pina. Acabou por ficar uma edição bonita e especial por todos estes motivos.

Em suma, Macho-Alfa termina como começou: incómodo, provocador e profundamente humano. Um adeus em alta e que deixa marcas. Este livro é também especial por razões que extravasam a própria ficção. Marca o fim da carreira em banda desenhada de Filipe Duarte Pina, falecido no ano passado, e saber que o autor concluiu este álbum enquanto lidava com uma doença terminal acrescenta uma camada emocional difícil de ignorar. Há aqui uma perseverança e uma coragem que arrepiam, que comovem e que impõem respeito. Ler Macho-Alfa #4 é, também por isso, e de forma dupla, um ato inevitável de despedida.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #4
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Análise: Sete Mulheres, Sete Musas

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro

Com um lançamento algo discreto que certamente passou fora do radar de muitos leitores, A Seita e a Comic Heart editaram em junho a antologia Sete Mulheres, Sete Musas - Lírica de Camões que consiste num projeto coletivo que reúne vários autores portugueses de banda desenhada em torno de um mesmo propósito: revisitar a obra e o imaginário de Luís de Camões a partir de uma perspetiva visual contemporânea. 

Trata-se, pois, de uma iniciativa que procura aproximar a poesia camoniana de novos públicos, nomeadamente leitores mais jovens, e que, só por isso, é mais que bem-vinda, diria. Até porque se ainda há dúvidas sobre esta questão, este é mais um livro que mostra bem como a banda desenhada pode servir como meio de tradução e recriação literária, tornando acessível - ou, pelo menos, mais acessível - um universo poético tantas vezes considerado denso e distante como o de Camões.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Assim sendo, a importância deste projeto reside nessa capacidade de renovar o olhar sobre Luís de Camões, e da tentativa de retirar o poeta do pedestal escolar, colocando-o de novo no espaço da experimentação artística. Para tal, foram convidados sete ilustradores para desenhar uma história sobre cada uma das mulheres que marcaram presença na obra de Camões. As suas musas, portanto. Esses ilustradores são Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro que ilustraram as histórias a partir do argumento de Pedro Moura, autor experiente neste tipo de obras.

Como seria esperado, um dos aspetos mais cativantes do livro é a sua diversidade estética. Cada autor oferece uma leitura singular das musas de Camões, propondo interpretações visuais que vão do figurativo ao abstrato, do lírico ao experimental. Essa variedade torna a leitura uma experiência rica, por vezes desconcertante, mas sempre estimulante. A heterogeneidade dos estilos revela, lá está, o potencial da BD enquanto espaço de liberdade criativa e de diálogo com outras artes.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Entre as histórias que melhor equilibram clareza e densidade poética, destacam-se, quanto a mim, as de Daniela Viçoso e Miguel Rocha. Ambos os autores conseguem transpor para a linguagem da banda desenhada a musicalidade e a intensidade emocional dos versos de Camões, mas sem tornar o texto pesado ou excessivamente hermético. Coisa que acontece, infelizmente, noutras histórias do livro. A abordagem de Daniela Viçoso, mais narrativa e de forte influência mangá, permite que o leitor acompanhe a história com facilidade, enquanto Miguel Rocha aposta numa síntese expressiva de texto e imagem que traduz bem o sentimento amoroso e a melancolia do poeta. Os desenhos de Jorge Marinho, de quem já aqui foi analisado Os Contos de Miguel Torga : Um Roubo | Natal, também são muito impactantes, remetendo-nos para o grande mestre Sergio Toppi. Susa Monteiro, fiel ao seu estilo muito peculiar, também nos brinda com belos desenhos.

Nem todas as histórias conseguem, porém, atingir o equilíbrio necessário. Há autores que optam por caminhos mais abstratos e conceptuais, onde a dimensão visual se sobrepõe à narrativa. Estas histórias, embora visualmente interessantes, podem tornar-se difíceis de acompanhar e exigem do leitor um esforço interpretativo maior. Ainda assim, não deixam de ter valor (obviamente!), pois oferecem um exercício estético desafiante que convida à contemplação e à análise formal.

Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro
Essa pluralidade de leituras e de intenções é, afinal, um dos pontos fortes da obra. Sete Mulheres, Sete Musas não procura impor uma leitura única de Camões, mas abrir um campo de possibilidades. Em cada história, o poeta é reinventado, questionado, reinterpretado. A multiplicidade das vozes autorais reflete a própria complexidade da figura camoniana, mostrando-se simultaneamente erudita e popular, clássica e moderna, universal e profundamente portuguesa.

Do ponto de vista editorial, o livro revela um tom algo académico, tanto pela seriedade do tema como pelo esforço de auto-contextualização através dos (longos) textos introdutórios de Cátia Verguete e Alexandra Lourenço Dias. No final, há ainda um interessante texto de Janek Scholz sobre a "historicidade na banda desenhada em língua portuguesa". De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas, e um bom papel brilhante no seu miolo.

Em suma, Sete Mulheres, Sete Musas tenta levar Camões a novos públicos através de imagens e narrativas visuais que, embora desiguais na sua eficácia, revelam uma grande ambição estética e um profundo respeito pela poesia do autor. Vale a pena ser lido. E ainda que possa não conquistar o grande público, este é um livro necessário no panorama cultural português. Mostra que a banda desenhada é um meio maduro, capaz de dialogar com os grandes nomes da literatura e de oferecer novas formas de leitura e interpretação. A presença de um elenco notável de autores nacionais reforça essa ideia, celebrando a vitalidade da BD portuguesa e a sua capacidade de reinvenção.


NOTA FINAL (1/10):
7.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Sete Mulheres, Sete Musas, de Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Rita Mota e Susa Monteiro

Ficha técnica
Sete Mulheres, Sete Musas
Autores: Amanda Baeza, Daniela Viçoso, Miguel Rocha, Jorge Marinho, José Smith Vargas, Pedro Moura, Rita Mota e Susa Monteiro
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 168 x 244 mm
Lançamento: Junho de 2025

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Comic Heart nos últimos 5 anos!


Hoje apresento-vos aquela que foi a melhor banda desenhada editada pela Comic Heart nos últimos 5 anos. Bem sei que esta é uma chancela que, atualmente, pertence à cooperativa editorial A Seita, da qual já aqui fiz um TOP 10, mas tendo em conta o facto de a Comic Heart se especializar em banda desenhada de autores nacionais, faz sentido que se assinale quais as 10 melhores obras de banda desenhada que esta chancela lançou nos últimos 5 anos.

Até porque a Comic Heart tem no seu catálogo alguns dos nomes maiores da banda desenhada nacional, o que revela bem a importância que foi conquistando ao longo da sua história recente.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Deixo-vos então, mais abaixo, com as 10 melhores bandas desenhadas editadas pela Comic Heart nos últimos 5 anos:

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Análise: A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou

Uma das mais recentes bandas desenhadas editadas pela editora A Seita - e, desta feita, através da chancela Comic Heart - foi este A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos que hoje vos trago, que junta pela primeira vez a dupla nacional formada por André F. Morgado, no argumento, e Kachisou, no desenho. Autores dos quais, de resto, tenho as melhores impressões com base nas suas obras, das quais posso citar, por exemplo, O Infeliz Pacto de George Walden (Morgado) Quero Voar (Kachisou) ou as recentes adaptações de obras clássicas da literatura portuguesa da coleção da Levoir, que André Morgado tem feito com vários ilustradores brasileiros.

Olhando para as obras criadas até então, este A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos apresenta-se como uma alternativa deveras diferente face àquilo que os autores nos deram até agora. Este é um livro cuja catalogação afigura-se-me difícil. Dizer que é um livro para um público mais novo está correto, sim, embora seja uma afirmação redutora, pois este é um livro munido de um humor maduro, carregado de referências, que, por isso, também pode (e deve) ser lido por um público mais adulto.

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos apresenta-se como uma fábula moderna, com simpáticos animais - exceptuando os amargurados ratos - e reveste-se de um humor que varia entre o inteligente e o absurdo. 

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
A história centra-se num sapo entediado com o pântano e com a sua rotina, que, num impulso de inconformismo, procura uma nova aventura. O que se segue, no entanto, não é o épico tradicional que o protagonista poderia imaginar, mas sim uma espiral de acontecimentos caóticos onde os animais passam a conseguir adquirir as características que nunca tiveram, como a capacidade para falar, para voar, para cantar, para saltar... enfim, para viver tal como os humanos. E tudo isso é conseguido através de amuletos mágicos comercializados pelo Sapo. Entretanto, a comunidade dos ratos decide ficar com enormes corpos musculados e procura a sua vingança por, historicamente, ser um classe animal tão desprezada e mal tratada por todos. No meio disto tudo, ainda entram na trama as caralhotas (pães) de Almeirim. Bem, só por aqui já dá para ver como este desejo do Sapo em alterar a sua vida nos leva a situações divertidas e inusitadas.

É praticamente impossível que o início desta aventura não nos remeta para O Vento nos Salgueiros, de Kenneth Grahame, e brilhantemente adaptado para banda desenhada por Michel Plessix, quando o sapo dessa história também sente um chamamento interior para ter uma aventura que o transporte da sua vida rotineira no pântano. Mas, claro, o Sapo deste Caos e Coaxos é ainda mais propenso à criação de caos à sua volta. E coaxos!

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
A estrutura da história é interessante. O início arranca um pouco aos tropeções, mas essa sensação é rapidamente contrariada quando a trama ganha corpo e se estabelece um fio condutor entre os diversos episódios e as personagens excêntricas que vão surgindo. André F. Morgado demonstra um bom domínio da narrativa ao conseguir amarrar todos os elementos aparentemente aleatórios num final que fecha o ciclo da história com coerência e até com uma subtil moral. 

É nesse equilíbrio entre o nonsense e a estrutura clássica da fábula que reside uma das maiores forças da obra, porque embora o absurdo impere, nunca se sente que o autor perdeu o controlo da narrativa. Ao contrário, percebe-se uma intenção clara de brincar com as convenções do género e de subverter expectativas, algo que contribui para manter o interesse do leitor ao longo da obra. Ao longo da leitura somos constantemente surpreendidos, seja com personagens inusitadas, seja com referências pop inesperadas ou com momentos de quebra da quarta parede.

Nesse ponto, o humor do livro merece um destaque especial. À primeira vista, pode parecer algo infantil ou “silly”, como se se limitasse ao jogo de palavras ou ao absurdo pelo absurdo. No entanto, uma leitura mais atenta revela um humor multifacetado, com várias camadas de referências culturais, literárias e musicais, jogos linguísticos e até críticas subtis ao nosso quotidiano. Essa combinação torna o livro acessível a leitores mais jovens, mas também muito satisfatório para leitores mais maduros que consigam captar as referências. André Morgado tem aqui o mérito de escrever com despretensão sem cair na banalidade. Também é de salientar o trabalho de diálogo e caracterização das personagens. A escrita é eficaz e ritmada, com bons tempos cómicos e um domínio interessante do absurdo como ferramenta narrativa, sem que este se torne cansativo.

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
Todavia, se posso criticar algo, diria que a opção de incluir notas explicativas para duas ou três referências, como as de Tyler Durden ou de Chad Channing, por exemplo, me parece desajustada porque, lá está, se a intenção é criar um humor referencial, então parte da graça está precisamente na capacidade do leitor de reconhecer (ou não) as tais referências. Explicá-las tira-lhes impacto e, em certos casos, mata a própria piada, além de criar uma inconsistência, pois algumas referências são explicadas e outras não, o que leva à sensação de que se subestima a inteligência do leitor. Mas, enfim, é apenas uma nota pequena que, naturalmente, não belisca em nada a qualidade da obra.

Falando em qualidade, o trabalho de ilustração de Kachisou é outro ponto alto da publicação. O traço "cartoonesco", simplista, leve e expressivo, combina perfeitamente com o tom da narrativa. A paleta bicromática em tons esverdeados confere identidade visual à obra, sem a sobrecarregar. 

A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart
As ilustrações complementam e, em vários momentos, amplificam o humor e o ritmo da narrativa. O Sapo tem expressões que, por si só, são inequívocas em transmitir as suas emoções e pensamentos. Admito que não comecei por adorar os desenhos da autora nas primeiras páginas, mas não é menos verdade que acabei o livro a achar que Kachisou tinha aqui feito (mais) um belo trabalho. E que é diferente de tudo o que a autora já nos deu nas suas outras obras de banda desenhada. Prova superada, portanto.

Refiro ainda que a pertinência deste livro no panorama editorial português também é digna de nota. O humor tem escassa representação na banda desenhada nacional, especialmente com esta combinação de humor absurdo, fábula e sátira, o que faz com que esta A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos seja ainda mais bem-vinda. A aposta das editoras A Seita e Comic Heart revela, neste sentido, uma visão interessante e arriscada, num mercado que nem sempre valoriza este tipo de propostas.

De resto, a edição do livro é em capa dura baça, com bom papel baço e um bom trabalho quanto à impressão e encadernação. No final, como extra, há um conjunto de ilustrações sobre a obra, feitas por artistas convidados.

Em suma, A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos traz consigo algo de lúdico e libertador, convidando à gargalhada, ao espanto e, ao mesmo tempo, à reflexão sobre o que pedimos à vida e sobre as consequências dos nossos desejos. É um livro que vale pela diversão, mas que recompensa também a atenção e a releitura do leitor. 


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Aventura do Sapo - Caos e Coaxos, de André F. Morgado e Kachisou - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
A Aventura do Sapo: Caos e Coaxos
Autores: André F. Morgado e Kachisou
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 174 páginas, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 16 cm
Lançamento: Maio de 2025

sexta-feira, 7 de março de 2025

Análise: Macho-Alfa #3

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

Depois de um primeiro volume que trouxe uma visão bastante original sobre aquilo que poderia ser um super-herói à boa maneira portuguesa - e de um segundo volume que, infelizmente, tropeçou um pouco nas ideias acrescentadas ao enredo - Macho-Alfa está de volta para aquele que é o seu terceiro e penúltimo volume desta série da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

Felizmente, é neste terceiro volume que a história se torna mais densa, com o argumento a mergulhar de uma forma muito mais assertiva e profunda na personagem de David, o protagonista. Depois de, no livro anterior, terem sido adicionados alguns ingredientes à trama que, quanto a mim, mais pareceram fillers do que reais adições ao enredo, agora temos um David a mergulhar num drama pessoal mais sério, que levanta pertinentes questões, não só para a personagem, como também para o leitor, que vê em David um espelho de alguns medos e inseguranças universais que todos temos. A profundidade psicológica do protagonista é, pois, explorada de forma mais intensa, permitindo aos leitores uma ligação mais forte com a sua jornada pessoal.​

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
O tom humorístico mais leve dos livros anteriores, dá então lugar a uma atmosfera mais séria, onde são revelados alguns segredos do passado de David, levando-nos a compreender algumas das  motivações e conflitos internos da personagem. Além disso, é neste livro que ficamos a conhecer o psiquiatra de David que é uma personagem deveras interessante e intrigante com quem o protagonista enceta bons diálogos. Pode até ser esta personagem que dá o conteúdo necessário a toda a série para que esta seja mais eloquente dado que, até ao momento, se apresentava, a meu ver, algo insípida - a ver vamos, quando pudermos ler o quarto e último volume da série, agendado para o final do ano.

Os desenhos de Osvaldo Medina continuam a ser um dos pontos fortes da série. Com um estilo de desenho que remete para os comics americanos, o traço rápido e confiante do autor oferece uma característica expressividade às personagens, captando eficazmente as suas emoções e a intensidade das cenas de ação que, diga-se, neste terceiro volume quase não existem. As cores continuam a não ser especialmente do meu agrado - basta olhar para a arte final a preto e branco, nos extras do livro para desejar que a história fosse a preto e branco - mas reconheço que neste livro contribuem bem para a atmosfera mais sombria deste volume, especialmente nos longos e impactantes diálogos de David com o seu terapeuta.

Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Não são desenhos que tenham a beleza de um Fojo, de um Kong The King ou de um A Fórmula da Felicidade, onde o autor se apresentou em belíssima forma, mas este Macho-Alfa #3 não deixa de nos apresentar um belo conjunto de desenhos, com a eficiência visual própria a que o autor nos tem habituado.

A edição d' A Seita e da Comic Heart mantém-se boa e fiel ao trabalho feito nos dois livros anteriores. O livro apresenta capa dura baça, com um belo papel brilhante no miolo e uma boa impressão e encadernação. No final do livro, volta a haver um dossier de extras com seis páginas onde podemos encontrar esboços de Osvaldo Medina, uma preview de duas páginas do próximo e último volume da série e a demonstração do processo de construção de uma página, desde o esboço cru até às cores finais e legendagem. O livro conta ainda com um prefácio de Nuno Markl.

Em suma, Macho-Alfa #3 é uma adição sólida à série, aprofundando a narrativa e as personagens de maneira significativa. Com um enredo mais sombrio e complexo, este volume destaca-se como, possivelmente, o ponto mais alto da saga até agora, deixando boas notas e uma expectativa mais elevada para uma conclusão que está para breve.


NOTA FINAL (1/10):
7.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020




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Macho-Alfa #3, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #3
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editora: A Seita e Comic Heart
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 20 x 28 cms
Lançamento: Outubro de 2024