quinta-feira, 28 de maio de 2026

Análise: As Guerras de Lucas - Episódio II

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche

A editora Ala dos Livros publicou há algumas semanas o segundo livro de As Guerras de Lucas, da autoria de Laurent Hopman e Renaud Roche, série pensada para três volumes, que nos mergulha nas angústias e glórias alcançadas pelo cineasta George Lucas na feitura da sua mais célebre obra de sempre, Star Wars. E se o primeiro volume deixou muita gente muito bem impressionada, comigo incluído, como tive oportunidade de referir na análise que fiz ao primeiro volume, este novo livro continua o bom caminho já trilhado pelos dois autores franceses.

Naturalmente, e à semelhança do álbum anterior, As Guerras de Lucas - Episódio II volta a colocar-nos no olho do furacão criativo e produtivo que esteve por detrás da construção do universo Star Wars, com o enfoque a recair, desta feira, no segundo filme da saga, O Império Contra-Ataca, frequentemente apontado como o mais aclamado filme de toda a franquia. E, tal como já acontecia no primeiro volume, Hopman e Roche oferecem-nos não apenas um relato factual, mas uma verdadeira narrativa de tensão, quase épica, sobre tudo aquilo que poderia ter corrido mal - e tantas vezes correu, diga-se.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
Depois do estrondoso sucesso do primeiro A Guerra das Estrelas, seria legítimo pensar que George Lucas tivesse finalmente encontrado um terreno estável para trabalhar. Afinal, era agora uma figura respeitada em Hollywood, com recursos financeiros significativos e com uma legião global de fãs. No entanto, aquilo que Roche e Hopman fazem de forma particularmente eficaz é desmontar essa ideia de facilitação: o sucesso anterior não simplificou o caminho para o segundo filme da saga... complicou-o ainda mais.

E por vários motivos.

Durante a preparação de O Império Contra-Ataca, Lucas encontrava-se envolvido numa avalanche de responsabilidades simultâneas. Tentava transformar o seu rancho numa espécie de comunidade criativa, quase utópica, para realizadores; tinha ainda obrigações contratuais com o filme More American Graffiti; começava a desenvolver, em parceria com Steven Spielberg, aquilo que viria a tornar-se a saga Indiana Jones; e, paralelamente, geria a pressão pessoal da sua esposa, Marcia Lucas, que desejava uma vida mais equilibrada e a construção de uma família a dois. Este cruzamento de exigências profissionais e pessoais confere ao livro uma dimensão humana particularmente interessante. Muita coisa com que lidar, certamente.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
E, como se tudo isto não bastasse, a própria produção de O Império Contra-Ataca revela-se ainda mais caótica do que a do primeiro filme. Problemas com os atores, dificuldades técnicas nas filmagens, atrasos constantes e um orçamento que, assegurado diretamente pelo próprio George Lucas, parece crescer sem controlo, tornam-se ingredientes recorrentes desta narrativa. A sensação de inevitável desastre paira constantemente sobre o leitor, num crescendo de tensão que Roche e Hopman sabem explorar com grande eficácia, tal como já o haviam feito no livro anterior.

Voltamos, portanto, a não estar apenas perante uma história de cinema, mas perante o retrato de um homem à beira da exaustão criativa e emocional. George Lucas surge aqui quase como uma figura trágica, constantemente empurrada para o limite pelas suas próprias ambições e pelas circunstâncias exteriores a si mesmo. 

Tal como no primeiro volume, o estilo narrativo mantém-se eletrizante. A leitura faz-se quase sem respiração, com os acontecimentos a sucederem-se de forma intensa, em catadupa, sempre com a sensação de que o próximo obstáculo poderá ser o derradeiro. E este ritmo, já anteriormente elogiado por mim, continua a ser um dos maiores trunfos da obra.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
Além de que, claro, pelo caminho aprendemos inúmeras informações pertinentes e curiosas sobre a feitura do filme e sobre a própria indústria cinematográfica. O que faz com que, além de ser um livro direcionado para os fãs de A Guerra das Estrelas, este livro também se destina aos fãs de cinema, de modo geral. Laurent Hopman consegue, mais uma vez, produzir um equilíbrio notável entre rigor documental e fluidez narrativa. Sentimos que há uma pesquisa profunda por detrás de cada página, mas essa densidade nunca se torna pesada. Pelo contrário, a história é apresentada com uma dinâmica que nos prende do início ao fim, mesmo quando entramos em zonas mais técnicas ou burocráticas da indústria cinematográfica.

No campo visual, o trabalho de Renaud Roche permanece irrepreensível. O seu traço continua a ser simultaneamente simples e expressivo, com uma capacidade impressionante de captar a essência das personagens com poucos detalhes. A clareza da narrativa visual contribui de forma decisiva para o ritmo da leitura, tornando cada página um prolongamento natural do argumento. O desenho é quase sempre em escala de cinzentos, embora haja quase sempre um ou vários detalhes a cores, que tornam mais dinâmico e apelativo o conjunto gráfico.

As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros
Embora tenha gostado muito e recomende totalmente este livro, pois considero que até é daquelas obras que tem o potencial de conquistar pessoas que não têm por hábito ler banda desenhada, talvez este segundo volume não tenha o mesmo efeito de surpresa que o primeiro. E isso deve-se, em grande medida, ao facto de seguir uma estrutura e um estilo narrativo bastante semelhantes, claro. Existe um esforço evidente para evitar a sensação de “mais do mesmo”, mas a fórmula - sendo eficaz - já não impacta com a mesma frescura inicial. Isso não significa, contudo, que a obra perca valor. Pelo contrário, continua a ser um relato envolvente, tenso e profundamente humano sobre os bastidores de uma das mais importantes produções da história do cinema. Apenas se sente que o factor novidade já não joga tanto a seu favor.

A edição da Ala dos Livros é em tudo igual à do primeiro livro, apresentando capa dura baça, com detalhes a verniz; bom papel baço no interior e excelente encadernação e impressão.

Em suma, As Guerras de Lucas - Episódio II é uma continuação sólida e recomendável, sobretudo para quem apreciou o primeiro volume desta série. É um livro que reafirma a ideia de que as verdadeiras batalhas de Star Wars não aconteceram apenas no ecrã, mas sobretudo nos bastidores: nas decisões impossíveis, nas pressões esmagadoras e na perseverança quase obstinada de George Lucas. E, mais uma vez, isso basta para justificar plenamente esta bela leitura.


NOTA FINAL (1/10):
9.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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As Guerras de Lucas - Episódio II, de Laurent Hopman e Renaud Roche - Ala dos Livros

Ficha técnica
As Guerras de Lucas - Episódio II
Autores: Laurent Hopman e Renaud Roche
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 208, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 270 mm
Lançamento: Abril de 2026

As novidades da ASA para o segundo semestre de 2026!


A ASA já avançou quais as novidades de banda desenhada que prepara para o segundo semestre deste ano!

Entre as obras anunciadas, podemos encontrar a continuação de várias das séries que a editora tem em andamento, mas também algumas apostas menos óbvias - e, talvez por isso, estimulantes - para o que ainda falta deste ano editorial.

A editora, que tem vindo a consolidar o seu bom trabalho em belas apostas nos últimos anos, informa ainda que já tem o próximo ano alinhavado em relação a novas obras.

No entanto, optou por não revelar, ainda, que obras serão essas.

Deixo-vos, mais abaixo, com os livros que deverão chegar às livrarias nos próximos seis meses:

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Vem aí a adaptação de "Pátria", de Fernando Aramburu, para BD!



A ASA prepara-se para editar nos próximos dias a obra Pátria, de Toni Fejzula, que adapta para banda desenhada a obra original homónima de Fernando Aramburu.

Embora conheça a obra original por reputação, é um livro que nunca li e que poderia agora ler, numa adaptação de Toni Fejzula que, a julgar pelas páginas que já tive oportunidade de ler, promete ser marcante.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição francesa da obra.
Pátria - Romance Gráfico, de Toni Fejzula

No dia em que a ETA anuncia o abandono das armas, Bittori dirige-se ao cemitério para contar junto do túmulo do seu marido, o Txato, assassinado pelos terroristas, que decidiu voltar para a casa onde viveram.

 Poderá conviver com aqueles que a perseguiram antes e depois do atentado que transformou toda a sua vida e a da sua família? Poderá saber quem foi o encapuzado que num dia chuvoso matou o seu marido, quando voltava da sua empresa de transportes? 

Por mais que chegue às escondidas, a presença de Bittori irá alterar a falsa tranquilidade da terra, sobretudo da sua vizinha Miren, amiga íntima noutros tempos, e mãe de Joxe Mari, um terrorista preso e suspeito dos piores receios de Bittori.

O que aconteceu entre essas duas mulheres? O que é que envenenou a vida dos seus filhos e dos seus maridos tão unidos no passado? 

Com as suas angústias disfarçadas e as suas convicções inquebrantáveis, com as suas feridas e as suas valentias, a história incandescente das suas vidas antes e depois do estouro que foi a morte do Txato, fala-nos da impossibilidade de esquecer e da necessidade de perdão numa comunidade desfeita pelo fanatismo político. 

Toni Fejzula adapta num impressionante romance gráfico, com um estilo narrativo visual e artístico sem comparação possível, um dos romances mais importantes do panorama literário atual.

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Ficha técnica
Pátria - Romance Gráfico
Autor: Toni Fejzula
Adaptado a partir da obra original de Fernando Aramburu
Editora: ASA
Páginas: 304, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 27, 5 x 20,6 cm
PVP: 40,90€

Análise: A Fuga


A Fuga, de Paulo Caetano e Jorge Mateus

A dupla nacional de autores formada por Paulo Caetano e Jorge Mateus, lançou recentemente este A Fuga, o seu segundo álbum de banda desenhada, depois de, há menos de dois anos, nos ter dado O Segredo dos Mártires, que já havia deixado boas indicações.

Tal como dessa vez, a dupla volta a mergulhar-nos na história de Portugal. Mas, desta feita, esse mergulho é menos profundo, já que estamos perante eventos verídicos ocorridos há menos tempo. Se O Segredo dos Mártires se passava em época dos descobrimentos portugueses, A Fuga passa-se durante o tempo do Estado Novo, na década de 1950. 

E, como bem sabemos, ou devíamos saber, este foi um dos períodos mais conturbados da História portuguesa, sendo uma época marcada por forte repressão infligida à custa da mão firme de uma ditadura de má memória.

A história acompanha António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, que se vê no centro de um episódio extraordinário, que combina culpa e resistência ao mesmo tempo. António Tereso é descoberto pela PIDE e acaba preso e torturado pela mesma. Durante uma sessão de tortura não consegue conter o seu silêncio, e vê-se forçado a denunciar alguns dos seus companheiros. A partir daí, o protagonista vive um autêntico conflito interior e exterior, já que terá que recuperar a honra perante a família, perante os companheiros, perante o Partido e perante si próprio.

Ora, numa tentativa de recuperar a sua dignidade, António Tereso monta um plano quase impossível: organizar uma fuga da prisão de Caxias. Para tal, vive uma vida dupla em que conquista, por um lado, a confiança dos guardas da prisão e tenta, por outro lado, arquitetar, em total segredo, a famigerada e desejada evasão da prisão.

Este elemento eleva a narrativa a um patamar quase cinematográfico, onde cada passo é cuidadosamente preparado e carregado de tensão. É precisamente aqui que a obra se aproxima de um verdadeiro “policial”, com ritmo, suspense e uma construção meticulosa dos acontecimentos.

Como se uma fuga da prisão não fosse já algo digno do cinema, a experiência torna-se ainda mais incrível quando a fuga é feita a abordo de um automóvel Chrysler Imperial que Hitler tinha oferecido a Salazar. Pois, na verdade a fuga aconteceu mesmo e foi a bordo de um carro. Apenas não há qualquer prova de que Hitler tenha efetivamente oferecido este carro a Salazar. É um mito. E não há mal nenhum nisso, pois até aumenta, diria, a força narrativa da obra. 

O que me leva a afirmar, justamente, que um dos grandes méritos deste A Fuga reside no equilíbrio entre ficção e História. A obra não se limita a usar o contexto histórico como pano de fundo; antes integra acontecimentos e figuras reais, criando um cocktail muito interessante que oscila entre o rigor documental e a emoção narrativa. Este cruzamento torna a leitura não só envolvente, mas também enriquecedora do ponto de vista cultural e histórico.

Comparativamente com O Segredo dos Mártires, trabalho anterior da dupla, esta obra consegue superar em boa medida o seu predecessor. Há aqui uma maior maturidade narrativa e uma confiança evidente na condução do enredo. A história é mais ambiciosa, mais dinâmica e, sobretudo, mais focada na ação e no impacto emocional.

Ainda assim, nem tudo é perfeito. Sensivelmente a meio da obra, o enredo sofre algumas quebras de ritmo. Existem pequenas vinhetas que parecem dispensáveis e que quebram a tensão acumulada até então. Para além disso, alguns saltos temporais surgem de forma algo abrupta, podendo causar alguma desorientação na leitura. A sensação que fica é que a história poderia ter beneficiado de uma gestão mais equilibrada do tempo, do espaço e da ação.

No entanto, estas fragilidades não comprometem de forma significativa a qualidade global da obra, que está bastante elevada. A força da narrativa principal compensa amplamente esses momentos menos conseguidos e o plano de fuga, em particular, é imaginado por Paulo Caetano com grande mestria.

O estilo de desenho de Jorge Mateus mantém-se em consonância com aquilo que o autor já nos tinha providenciado em O Segredo dos Mártires - portanto, quem já gostou dessa obra, continuará a gostar bastante desta - mas talvez aqui a dinâmica nos desenhos funcione ainda melhor por se tratar de uma história de ação. O desenho é bastante moderno e estilizado, simples nas formas utilizadas, mas complexo nos enquadramentos e dinâmica.

A maneira como as cores são aplicadas, de forma plana e minimalista, também ajuda a que o livro ganhe um aspeto muito interessante e original em termos gráficos, ao mesmo tempo que permite um uso inteligente da luz e sombra nos desenhos. 

Além disso, o contraste entre os momentos mais intimistas e as sequências de maior intensidade é trabalhado com grande sensibilidade visual. Há uma clara preocupação em alinhar o estilo gráfico com o tom narrativo, o que evidencia a forte colaboração entre argumento e ilustração.

A edição da Iguana é em capa mole baça, com detalhes a verniz e badanas. No interior, o livro apresenta bom papel baço, boa impressão e boa encadernação. Como material adicional, encontramos as fotografias de prisão das várias individualidades que protagonizam a história, bem como breves notas biográficas das mesmas. Há ainda cópias de documentos e as fotografias que a PIDE utilizou para reconstituir a fuga dos presidiários. Em termos de legendagem, o trabalho poderia estar mais bem feito, tenho que referir.

Em suma, A Fuga é uma obra muito bem conseguida, em que Paulo Caetano e Jorge Mateus superam a sua obra conjunta anterior, oferecendo-nos um relato envolvente sobre uma das mais célebres fugas de uma prisão portuguesa, por alturas do Estado Novo. É um livro com relevância histórica e que sabe, ao mesmo tempo, presentear-nos com uma história emocionante que custa a acreditar que aconteceu mesmo. Mas a verdade é que (quase) tudo o que aqui nos é contado... aconteceu realmente.


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
A Fuga
Autores: Paulo Caetano e Jorge Mateus
Editora: Iguana
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Abril de 2026

Nuvem de Letras edita nova BD infanto-juvenil!



Trata-se do livro Entre Elas, obra de estreia da autora belga Pauline Spira, que fala sobre a amizade e as descobertas de duas adolescentes.

O livro deverá estar à venda a partir do próximo dia 8 de junho, mas já se encontra, por agora, em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Entre Elas, de Pauline Spira

A história acompanha Júlia e Mariana, melhores amigas desde sempre, que passam duas semanas num castelo, em Inglaterra, para um estágio de inglês.

Enquanto Júlia enfrenta o luto pela perda da sua avó e dificuldades de integração, Mariana procura enturmar-se com um grupo de meninas mais velhas, o que acaba por pôr à prova os limites da amizade entre elas. Entre bons momentos, desentendimentos e descobertas, as duas amigas aprendem que crescer também significa lidar com mudanças, escolhas e sentimentos inesperados.

Este livro foi selecionado para o Prix Ligue de l’Enseignement no Festival BD Boum de 2025, destacando-se no cenário da banda desenhada juvenil.


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Ficha técnica
Entre Elas
Autora: Pauline Spira
Editora: Nuvem de Letras (Grupo Penguin)
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 170 x 233 mm
PVP: 14,95€

Caderno de Memórias Coloniais recebe nova versão em BD!




A Editorial Caminho prepara-se para editar, durante o próximo mês de junho, a nova adaptação para banda desenhada da obra Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo.

A adaptação para BD é da autoria de Júlia Barata, embora a autora Isabela Figueiredo também tenha trabalhado nesta nova versão da sua obra.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com a única imagem (da contracapa) que, por agora, se conhece.

Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata

«O NEGRO ESTAVA ABAIXO DE TUDO. NÃO TINHA DIREITOS. TERIA OS DA CARIDADE, SE A MERECESSE. SE FOSSE HUMILDE, SE SORRISSE, FALASSE BAIXO, COM A COLUNA VERTEBRAL LIGEIRAMENTE INCLINADA PARA A FRENTE E AS MÃOS FECHADAS UMA NA OUTRA, COMO SE REZASSE. » 

Dez anos após a sua publicação pela Editorial Caminho, em 2015, Caderno de Memórias Coloniais regressa ao centro do debate, com uma nova versão ilustrada, fiel à sua vocação de expor cruamente o colonialismo português em Moçambique. 

Nesta novela gráfica, ilustrada por Júlia Barata, Isabela Figueiredo revisita o seu texto, aprofundando a reflexão sobre a sua infância e relação com o pai, enquanto reabre uma ferida da nossa história ainda em processo de cicatrização. 

Num tempo em que factos e vivências individuais são frequentemente questionados ou silenciados ao serviço de determinadas narrativas, esta obra interpela de forma direta a maneira como abordamos temas tão essenciais quanto o colonialismo, o racismo e a memória histórica.

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Ficha técnica
Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica
Autoras: Isabela Figueiredo e Júlia Barata
Editora: Editorial Caminho (LeYa)
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 23,5 x 15,6
PVP: 21,90€

terça-feira, 26 de maio de 2026

Arte de Autor finaliza primeiro ciclo de "Elric"!



E fá-lo em tão pouco tempo!

Em cerca de dois meses, a Arte de Autor conseguiu editar 4(!) álbuns de banda desenhada desta série Elric, finalizando a publicação do primeiro ciclo da mesma.

Os primeiros dois tomos, que já aqui foram analisados, foram editados de uma só vez. Há cerca de duas semanas, saiu o terceiro volume e agora, ainda antes do mês de maio se findar, é editado o quarto volume da série, intitulado A Cidade que Sonha.

Os autores responsáveis por este quarto volume são Julien Blondel, Jean-Luc Cano e Julien Telo.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Elric #4 - A Cidade que Sonha, de Julien Blondel, Jean-Luc Cano e Julien Telo

Ninguém escapa ao seu destino.

Perturbado pelas últimas palavras do Imperador Saxif de Aan, Elric parte em busca das ruínas de R'lin K'ren A'a, a cidade original dos Melnibonéanos, onde espera encontrar provas de que seus ancestrais eram puros antes de serem corrompidos pelo Caos. 

Lá, Arioch confirma as premonições do imperador caído, e suas revelações obrigam Elric a abraçar o seu destino, como profetizado por Straasha, Senhor dos Oceanos: Melniboné deve ser destruído por suas próprias mãos. A Ilha dos Dragões guarda em si a fonte de um mal que precisa ser aniquilado.
Mas no coração de Imrryr, sua capital, Elric também precisa encontrar Cymoril, sua amada, que não o perdoou por fugir... 

O primeiro ciclo da fabulosa saga de Elric, com o icónico personagem da literatura fantástica, chega ao fim com o quarto volume desta adaptação, aclamada por leitores e críticos.

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Ficha técnica
Elric #4 - A Cidade que Sonha
Autores: Julien Blondel, Jean-Luc Cano e Julien Telo
Editora: Arte de Autor
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 232 x 310
PVP: 19,50€

Análise: Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade

Este era um dos livros que eu mais queria ler, confesso-vos. Depois do espetacular As Muitas Mortes de Laila Starr, em que ficou claro como a obra tinha uma muito criativa premissa narrativa e um fantástico texto a acompanhá-la, de Ram V, bem como uma bela ilustração por parte do português Filipe Andrade, estava desejoso de ler este Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, que a editora Kingpin Books acaba de publicar.

Tinha lido muitas coisas positivas sobre esta obra, sabia que era algo completamente diferente de As Muitas Mortes de Laila Starr e que tinha como temas centrais a gastronomia indiana e alguns elementos fantasiosos. Mas pouco mais eu sabia sobre a obra.

Estava à espera, portanto, de algo que fosse bom, sim, mas devo confessar-vos que as minhas expectativas foram redondamente superadas! Confesso-vos: fiquei maravilhado com esta obra.

Eis uma banda desenhada única, bela, poética, madura e inesquecível, que nos faz parar um pouco da azáfama dos nossos dias em excesso de velocidade para que possamos refletir - realmente - sobre o sentido da vida e como melhor vivê-la. Ou apreciá-la.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
Rare Flavours
acompanha a viagem improvável de dois protagonistas: por um lado, temos um demónio antigo, curioso e contemplativo, que deseja tornar-se numa espécie de novo Anthony Bourdain; por outro lado, temos um jovem cineasta humano que decide - um pouco a contragosto - documentar a jornada gastronómica do demónio. Juntos, encetam uma viagem em que percorrem diferentes regiões da Índia em busca de experiências culinárias únicas, experimentando pratos preparados por pessoas comuns, tais como cozinheiros de rua ou cozinheiros domésticos. Mas todos eles são autênticos guardiões de tradições locais, da comida tradicional e da forma como a mesma é confeccionada desde sempre.

Mas não pensem que esta é uma viagem meramente gastronómica e quase turística, porque não o é. Ao invés, é muito mais uma exploração do que significa viver, lembrar e deixar um rasto no mundo.

À medida que as personagens avançam pelo seu périplo, cada refeição transforma-se numa porta para histórias mais profundas, enquanto vamos percebendo que este Demónio encerra em si verdades ocultas que tardam a ser reveladas. E tudo isto enquanto são perseguidos por dois homens que querem matar o Demónio.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
Enquanto o protagonista desta história parece mais interessado em compreender aquilo que torna os humanos tão ligados ao efémero, o cineasta procura capturar algo que, por natureza, não pode ser totalmente preservado. A história desenvolve-se assim como uma meditação poética sobre o tempo, a mortalidade e a beleza dos pequenos gestos, das pequenas coisas da vida, onde a comida serve de elo entre o corpo, a cultura e a alma.
 
O próprio título da obra não poderia ser mais acertado, já que este é um livro que mais do que se ler... degusta-se. Saboreia-se. Até vou mais longe e confirmo que estamos perante um banquete sensorial, uma peregrinação pela memória, pelo sabor e pelo invisível que habita entre os dois.

E a escrita de Ram V, meus caros, parece melhor e mais inspirada do que nunca! Solta, leve, densa, ritmada, com frases passíveis de serem citadas a cada duas páginas. A história é menos sobre aquilo que é visto e mais sobre aquilo que é sentido: o peso da história, a permanência dos gestos, a eternidade que se esconde no quotidiano.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
E, claro, o tema da comida, e da gastronomia indiana em concreto, não nos é dado apenas como alimento, mas como memória física. Seja essa memória pessoal ou coletiva. Seja o sabor que marcou a existência de todo um povo e que foi sendo recapturado cada vez que alguém cozinhava cada prato como deve ser, cumprindo todas as pequenas regras e caprichos gastronómicos; seja o sabor de uma comida caseira, cozinhada de determinada forma, que parece permanecer mais no nosso coração do que nas nossas papilas gustativas. Já vos aconteceu? Certamente que sim.

Cada prato descrito torna‑se uma cápsula de tempo, um fragmento de existência preservado na especiaria certa, no método antigo, no calor humano de quem cozinha. Ram V constrói uma espécie de filosofia do paladar: comer é recordar, é honrar, é atravessar gerações.

E há algo de muito melancólico nesta abordagem. A cada nova refeição, sentimos a urgência da preservação, como se as receitas que nos são dadas - e as histórias que as acompanham em paralelo - estivessem prestes a desaparecer. E talvez estejam. Rare Flavours é, nesse sentido, uma ode ao que resiste… mas também ao que inevitavelmente se perde.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
O que torna esta obra ainda mais fascinante é, quanto a mim, a forma como Ram V mistura o sobrenatural com o profundamente humano. O demónio acaba por não ser uma figura de horror, mas de curiosidade, pois quer apenas compreender aquilo que torna a vida humana tão extraordinariamente significativa. 

Outra coisa que também apreciei bastante, é a forma como o autor brinca com a narrativa, deixando-nos um pouco à deriva mais no início da obra, até que, lá mais para o meio, nos puxe para dentro do seu "barco" e nos leve a navegar ao sabor do seu texto.

Confesso que a introdução das receitas ao longo do livro me chateou um bocado, pois tinha sempre o condão de me distrair da bela narração e diálogos verosímeis de Ram V. E fê-lo de todas as vezes em que isso aconteceu. Percebo a ideia, claro, mas parece-me que faz menos pela história do que aquilo que, eventualmente, os autores poderão ter achado que faria. Mesmo assim, é um detalhe apenas. Não é isso que corrói esta experiência fantástica de leitura. 

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books
E se o texto de Ram V é poético e evocativo, deixem-me dizer-vos ainda que as ilustrações do "nosso" Filipe Andrade são quase translúcidas, na medida em que nos oferecem páginas que mais do que ilustrar a história, parecem dissolver as fronteiras entre o que é contado por palavras e o que é ilustrado por desenhos. O que faz com que toda a experiência, mais uma vez, seja poética, com os corpos a alongarem-se e os rostos das personagens a desvanecerem-se. Como se tudo fosse um sonho. Em vez de desenhar cenas, o autor parece desenhar sensações. 

E há uma fluidez impressionante no traço de Filipe Andrade, que aqui se mostra ainda mais livre e, diria, confiante, do que em As Muitas Mortes de Laila Starr. Parece que cada página está em movimento contínuo. Para isso, também importa não esquecer que a cor desempenha um papel fundamental: as cores são bastante quentes, vibrantes, quase táteis, com os tons a evocar o calor das cozinhas, o fervor das ruas e a quentura das paisagens indianas. 

A edição da obra, por parte da Kingpin Books - e bem da forma a que o seu editor, Mário Freitas, nos tem habituado - é muito cuidada. A capa é dura e baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel é brilhante e de boa gramagem. A impressão, encadernação e acabamentos também são de primeira linha. No final, temos ainda uma galeria de extras, que inclui as seis capas da obra quando foi lançada em números, estudos de capa e de personagem, e ainda belos posfácios de ambos os autores.

Em suma, Rare Flavours deixa-nos com uma rara sensação de termos saboreado um prato inesquecível. Daqueles que não conseguimos descrever totalmente, mas cujo aftertaste (desculpem o anglicismo) é belo e permanece por longos momentos. E num mundo apressado, onde tudo é consumo imediato, Ram V e Filipe Andrade oferecem-nos uma experiência que exige presença. Que nos pede para parar, para sentir e para lembrar que talvez ainda devamos acreditar na beleza, na memória e no poder transformador de uma boa história… servida à temperatura certa e com o tempero ideal, claro.


NOTA FINAL (1/10):
10.0




Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, de Ram V e Filipe Andrade - Kingpin Books

Ficha técnica
Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh
Autores: Ram V e Filipe Andrade
Editora: Kingpin Books
Tradução, legendagem, design e edição: Mário Freitas
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 19,5 x 28 cm
PVP: 29,95€

BDs sobre Fernando Pessoa receberam uma apresentação própria



A Casa Fernando Pessoa organizou, na passada quinta-feira, um evento em que procurou apresentar as várias bandas desenhadas que cobrem a vida ou obra de Fernando Pessoa.

É um evento que merece especial nota por se focar em banda desenhada, sem que seja promovido por uma editora ou evento de banda desenhada, o que é demonstrativo que, paulatinamente, a banda desenhada está cada vez mais presente na sociedade, alcançando outros interessados e promotores.

Para isso talvez contribua também o cada vez maior número de bandas desenhadas que ou são sobre a vida de Fernando Pessoa, ou adaptam algumas das suas obras para BD.

O evento teve apresentação de Ricardo Belo de Morais, um conceituado especialista sobre o incontornável poeta português. 

Deixo também a informação de que a Casa Fernando Pessoa tem agora patentes, em escaparate, os principais livros pessoanos em BD, para a leitura em sala de todos os interessados.

A biblioteca da Casa Fernando Pessoa está aberta ao público de terça a sexta-feira, entre as 10h00 e as 18h00, com entrada livre. 

Mais abaixo, deixo algumas fotos do evento e dos livros que foram apresentados.