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segunda-feira, 4 de maio de 2026

Um Olhar Sobre a Comic Con 2026



Passada uma semana desde a Comic Con 2026, que este ano aconteceu no Europarque, em Santa Maria da Feira - um espaço que considero bastante adequado às necessidades do evento e que, portanto, merece uma nota positiva - trago-vos hoje a minha análise a este evento sui generis para o universo da banda desenhada.

E por muito que estas palavras possam não agradar a muita gente, tenho que vos ser sincero e dizer que a Comic Con Portugal se apresenta como um grande espelho do nosso tempo: um tempo guiado pela superficialidade, pelo ruído constante e pela ilusão de que quantidade é sinónimo de qualidade. O evento vende‑se como celebração da cultura pop, sim, mas rapidamente se percebe que essa “cultura” é reduzida a um conjunto de estímulos rápidos, fotografáveis e esquecíveis. De facto, tudo é pensado para o impacto imediato, para a partilha nas redes sociais, para a validação instantânea e raramente para a reflexão, para o aprofundamento ou para o respeito pelas raízes do que ali deveria ser celebrado: a banda desenhada.

Nesse sentido, e num evento que ostenta o nome "Comic Con" - que poderia ser traduzida como "Convenção de Banda Desenhada" -  a BD deveria ser o eixo central, o coração pulsante de toda a programação. E isso não acontece. Estive lá no sábado, durante várias horas, e pude constatar que a banda desenhada parece mais um item numa checklist de obrigações na programação do evento. Posso até dizer-vos, sem indicar o nome do autor, pois não me cabe a mim fazê-lo, que um dos autores estrangeiros com quem falei me disse mesmo que estava desiludido, pois não apreciava muito este tipo de eventos e que considerava que não deveria chamar-se "Comic Con", mas sim "Cosplay Con". Não poderia estar mais de acordo.

Por falar em autores, é verdade - e não me canso de reconhecê‑lo - que a Comic Con Portugal tem apresentado, ano após ano, o melhor lineup de autores de banda desenhada em território nacional. E este ano não foi exceção. Nenhum outro evento consegue - pelo menos no tempo atual - ter um cartaz que se aproxime (sequer) deste que, mesmo com a lamentável ausência de Frank Miller, incluiu, relembro, nomes importantes como Jason Aaron, Scott Snyder, John Romita Jr., Miguelanxo Prado, Bastien Vivès, Alicia Jaraba, Victor Pinel ou Jérôme Lereculey. Neste ponto, há que reconhecer que o trabalho da Organização é muito bem conseguido. Todos estes autores fizeram sessões de autógrafos e tiveram apresentações que lhes foram dedicadas. Algumas dessas apresentações, no grande auditório, estiveram bem compostas, mas outras estiveram verdadeiramente vazias. E isso é lamentável quando vemos pessoas a fazer filas para receber um tote bag de uma marca qualquer que nada tem que ver com banda desenhada. 

E talvez a "culpa" disto não seja inteiramente da Organização, reconheço. Talvez seja reflexo de todos nós e da sociedade que criámos. Aliás, isto é transversal a muitas outras coisas: quantas pessoas não vão a festivais de música sem terem real interesse nas bandas que lá tocam? Às vezes nem as conhecem. Estão no seu direito, claro, mas isso, quando amplificado, causa uma sensação de vazio no que está a ser apresentado. E cabe às Organizações dos eventos - diria eu que, tal como John Lennon, sou um sonhador - ser a garantia de um bom e relevante cuidado na qualidade da programação. E está visto que esse eco dos tempos superficiais em que vivemos se alastrou até aos eventos da banda desenhada, em particular este, o que faz com que a presença destes autores de renome mundial, já por mim referidos, pareça quase um paradoxo dentro do próprio evento. Os autores estão lá, sim, mas não no epicentro do evento. São convidados de luxo, mas sem o espaço estrutural que permita verdadeira proximidade entre as suas obras e os leitores.

Para os amantes da banda desenhada, este evento tem apenas isto: um excelente cartaz de autores, apresentações sobre a obra dos mesmos e a possibilidade de um autógrafo. Mas, de resto, o espetáculo é dominado por marcas, franchises e ativações publicitárias. E tudo isto com um preço nada "levezinho".

É particularmente frustrante verificar a ausência de um espaço digno para editoras venderem banda desenhada de forma consistente e valorizada. Num país onde o mercado já é pequeno e frágil, a Comic Con poderia - e deveria - funcionar como uma oportunidade única de contacto direto entre autores, leitores e livros. E bem sei que não são as editoras portuguesas que não querem lá ir. São os preços avultados que a Organização lhes pede para aí venderem os seus livros. Isto leva a quê? Bem, leva a que, compreensivelmente, os editores não tenham presença no evento. Posso dizer-vos que procurei  na área comercial do evento, os livros de alguns dos autores que estavam presentes e não encontrei quase nenhum livro. Havia lá a Wook e a FNAC a venderem alguns livros, sim, mas era uma oferta parca e, por incrível que pareça, com mais livros de literatura fantástica do que de banda desenhada. Em vez de espaços de editoras a vender livros de banda desenhada, o que encontrei foram stands esmagados por merchandising genérico.

Também não há qualquer tipo de exposição de trabalhos o que, volto a dizer, daria mais força ao evento. E para aqueles que consideram que "as exposições não encaixam bem neste tipo de eventos", tenho que discordar. Aliás, lembro-me que numa das edições da Comic Con no Meo Arena, julgo que em 2022, havia uma exposição da Nickelodeon dedicada aos desenhos animados do canal televisivo. Ora, isto só comprova que, havendo interesse, haveria possibilidade de o fazer. Em vez disso, temos coisas efémeras, descartáveis e montadas para ser percorridas em segundos e fotografadas antes de se seguir para a próxima fila ou para o próximo palco ruidoso. 

Os cosplayers, omnipresentes, são o verdadeiro símbolo do evento. Parece ser esse o enfoque da Comic Con. E atenção que nunca me vão ouvir dizer mal do cosplay. Nada tenho contra esta prática e até a acho totalmente legítima e criativa. No entanto, acho que a mesma acaba por ser instrumentalizada pelo próprio evento, enquanto mera decoração ambulante. Mais uma vez, a aparência sobrepõe-se ao conteúdo, com a fantasia/máscara/roupa da personagem a importar mais do que a obra.


Não é minha intenção denegrir minimamente a Comic Con com esta minha análise. Moderei duas conversas com dois autores, que acredito terem sido muito interessantes, e só tenho a agradecer à Organização - e em especial à generosa Maria José Pereira - pelo convite. Se faço estes reparos, é porque me parece que a Comic Con, com a dimensão que tem, poderia ser muito mais e muito melhor para o universo da banda desenhada. Nem digo que deixe de ter aquilo que já tem... mas que dê mais (muita mais) importância à banda desenhada, à criação da mesma, e ao próprio livro de banda desenhada.

Caso contrário, ficará sempre a sensação amarga de uma oportunidade desperdiçada. A Comic Con Portugal podia ser o grande motor da banda desenhada no país, um ponto de encontro real entre autores, editoras e leitores. Em vez disso, prefere cavalgar a onda da superficialidade contemporânea, apostando no espetáculo fácil e no consumo imediato. Pode ser um grande evento, mas continua muito longe de ser um grande evento de banda desenhada e isso, num contexto cultural tão frágil como o nosso, é mais do que uma falha: é uma escolha.

terça-feira, 21 de abril de 2026

A Comic Con 2026 regressa neste fim de semana!



É já daqui a dois dias, na quinta-feira, 23 de abril, que arranca a Comic Con Portugal!

Naquele que é o maior evento dedicado à cultura POP em Portugal, a banda desenhada também tem o seu merecido destaque. E, este ano, o cartaz de celebridades internacionais da banda desenhada volta a ser impressionante, com a presença de grandes vultos da banda desenhada americana e europeia.

Nenhum outro evento consegue - pelo menos no tempo atual - ter um lineup que se aproxime, sequer deste, que incluirá, relembro, nomes como Jason Aaron (Southern Bastards, Os Malditos, Wolverine, Super-Homem), Scott Snyder (Batman, Wytches), John Romita Jr. (Homem-Aranha), Miguelanxo Prado (Traço de Giz, Presas Fáceis, Ardalén, O Pacto da Letargia) Bastien Vivès (Corto Maltese, O Gosto do Cloro, Polina, Uma Irmã), Alicia Jaraba (Longe), Victor Pinel (Peças e O Mergulho), Jérôme Lereculey (As 5 Terras).

Relativamente a presenças nacionais, os autores que marcarão presença são Daniel Henriques, Hugo Teixeira, André Lima Araújo e Rita Alfaiate.

O evento decorre de quinta-feira a domingo, no Europarque, em Santa Maria da Feira.

Estarei por lá, no sábado, para moderação de conversas com os autores Alicia Jaraba e Victor Pinel.

Mais abaixo, deixo-vos com o programa do evento dedicado à banda desenhada.

EDIT ao artigo original: Frank Miller, um dos maior nomes anunciados para esta edição da Comic Con, já anunciou o cancelamento da sua presença.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Estouro! Frank Miller, autor de Sin City e 300, vai estar em Portugal!


Já é conhecido o primeiro grande nome da Comic Con 2026!

Frank Miller, um dos autores mais relevantes dos comics americanos e, consequentemente, da banda desenhada mundial, vai estar presente na Comic Con 2026!

Autor de obras tão emblemáticas como Sin City, 300, Ronin ou de um trabalho impactante nas sagas de Batman ou Wolverine, entre outras, o autor norte-americano vai estar acompanhado no evento pelo português Daniel Henriques, que tem trabalhado com Miller em Ronin Rising.

A Comic Con consegue trazer sempre um rol de autores de banda desenhada muito emblemático e, nesse sentido, começa com o pé direito, anunciando um nome gigante da BD mundial.

Relembro que o evento acontece entre 23 a 26 de abril no Europarque, em Santa Maria da Feira.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da Comic Con.


FRANK MILLER, A LENDA VIVA DOS COMICS, ESTARÁ PRESENTE NA COMIC CON PORTUGAL 2026

O criador de "Sin City", "300" e "Batman: The Dark Knight Returns" junta-se ao talentoso português Daniel Henriques na maior convenção ibérica de cultura pop!

Portugal prepara-se para receber uma das maiores lendas vivas da banda desenhada mundial. Frank Miller, o visionário por trás de obras revolucionárias como "Sin City", "300" e "Batman: The Dark Knight Returns", será um dos convidados da próxima edição da Comic Con Portugal, no Europarque, marcando um momento histórico para a cultura pop nacional.

O Mestre que Redefiniu os Comics Modernos
Frank Miller não é apenas um autor de banda desenhada, é o arquiteto de uma revolução artística que transformou para sempre a narrativa gráfica mundial. Com "Batman: The Dark Knight Returns" (1986), Miller reinventou o Cavaleiro das Trevas, criando uma versão mais sombria e psicologicamente complexa que influenciou décadas de storytelling.
A sua obra-prima "Sin City" estabeleceu uma nova linguagem visual no noir gráfico, posteriormente adaptada ao cinema sob a sua própria direção. Já "300" imortalizou a Batalha das Termópilas numa épica visual que conquistou milhões de fãs globalmente e gerou um blockbuster de Hollywood que arrecadou mais de 450 milhões de dólares mundialmente.

Um Portfólio que Moldou Gerações
Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, Frank Miller revolucionou personagens icónicos como Daredevil, Batman e Wolverine, criando narrativas que transcenderam o meio dos comics para se tornarem fenómenos culturais globais. As suas técnicas inovadoras de storytelling, uso magistral do preto e branco, e abordagem cinematográfica influenciaram não apenas outros artistas de banda desenhada, mas também realizadores de cinema como Zack Snyder, Robert Rodriguez e Christopher Nolan.



Uma Oportunidade Única para os Fãs Portugueses
A presença de Frank Miller na Comic Con Portugal 2026 representa uma oportunidade única para milhares de fãs portugueses e ibéricos conhecerem pessoalmente o mestre que definiu o tom dos comics modernos. Durante o evento, Miller participará em painéis exclusivos, Artist Alley, sessões de autógrafos e momentos de interação direta com o público, oferecendo insights sobre o seu processo criativo e a evolução da indústria.
Juntamente com Miller, estará presente Daniel Henriques, arte-finalista português que conquistou reconhecimento internacional através do seu trabalho com algumas das maiores editoras mundiais, como a Marvel, a DC Comics, a Image e a Dark Horse.
Ao longo da sua carreira, Daniel Henriques tem colaborado em títulos de grande impacto, desde Spawn, Venom e The Incredible Hulk até clássicos do universo DC como Batman, Justice League ou Aquaman. O seu traço como arte-finalista distingue-se pela capacidade de dar profundidade, textura e ritmo narrativo às páginas, valorizando o trabalho dos desenhadores com quem colabora.

Reconhecido como um dos nomes portugueses em ascensão no mercado internacional, Daniel Henriques representa o talento nacional que se afirma além-fronteiras e que hoje encontra espaço entre os principais criadores da banda desenhada mundial. A sua presença na Comic Con Portugal 2026 reforça não só o caráter global do evento, mas também o orgulho em dar palco a artistas que levam a criatividade portuguesa ao mais alto nível.



quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Não haverá Comic Con em 2025!



Ao contrário daquilo que vinha a ser feito há uns anos, com edições anuais do evento, a Organização da Comic Con já fez saber que a próxima edição do certame decorrerá apenas em 2026 e não em 2025 como, imagino, muitos estariam à espera.

O local será o mesmo da última edição, a Exponor, em Leça da Palmeira, Matosinhos, a poucos minutos da cidade do Porto, e a data para realização do evento já é conhecida: de 26 a 29 de Março de 2026.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa que a Organização partilhou durante esta manhã.


COMIC CON PORTUGAL REVELA AS DATAS DA PRÓXIMA EDIÇÃO
 

2026 será o grande ano da próxima edição do evento, mas já em 2025 todos os fãs de Cultura  Pop terão novidades relacionadas à Comic Con Portugal com novos projetos que prometem conectar e unir gerações!

6 de novembro, 2024: A Comic Con Portugal lança oficialmente as datas da próxima edição do maior evento de Cultura Pop da Península Ibérica. Agendado para decorrer de 26 a 29 de março de 2026 na Exponor (Matosinhos), o evento promete proporcionar uma experiência incomparável para os fãs de todas as idades, transformando-se numa jornada inesquecível que une gerações e celebra a cultura geek como nunca.


Uma Viagem pela Cultura Pop

Mais do que uma simples viagem pela Cultura Pop, a Comic Con Portugal pretende estreitar laços entre pessoas, famílias e empresas, utilizando a cultura pop como veículo de conexão, também ao longo do ano de 2025, com diversas iniciativas que serão anunciadas em breve.

Desde crianças até adultos, fãs de sagas icónicas como Star Wars ou O Senhor dos Anéis serão convidados a participar numa aventura que percorre várias regiões do país, promovendo o envolvimento e a inspiração.

O clímax desta jornada épica será a Comic Con Portugal 2026, que se realizará de 26 a 29 de março na Exponor (Matosinhos), um evento que reúne fãs de todas as idades e regiões para celebrar a cultura pop em toda a sua magnitude. Durante quatro dias, a Exponor será transformada num ponto de encontro para geeks, com painéis emocionantes, exposições, concursos de cosplay e lançamentos exclusivos. O evento que será uma experiência imersiva e inesquecível para todos os participantes.

Os bilhetes para a Comic Con Portugal 2026 ficarão brevemente disponíveis. 



segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Um olhar sobre a Comic Con 2022

Um olhar sobre a Comic Con 2022

Um olhar sobre a Comic Con 2022
É só passados alguns dias do término da última edição da Comic Con que, à semelhança do que se passou no ano passado, teve lugar no Parque das Nações, no espaço Altice Arena, e que ocorreu entre 8 e 11 de Dezembro, que vos dou algumas notas sobre o evento.

Não farei considerações tão grandes como as que já fiz no ano passado - e que convido os leitores do Vinheta 2020 a (re)lerem - pois parece-me que, do ano passado para este ano, a estrutura do evento foi razoavelmente mantida da mesma forma. O "esqueleto" foi o mesmo, vá.

Parece-me que esta localização ainda é o melhor sítio para que este evento decorra convenientemente, embora não seja um espaço perfeito. Mas nenhum o seria, lá está.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Em termos de transporte, é difícil pensar num local em Portugal que esteja mais bem servido do que o Parque das Nações. Há comboio, metro, autocarros e bons acessos para quem vai de carro. Até há ciclovias para que alguns lisboetas possam ir de bicicleta. O estacionamento também não é um problema, embora seja difícil estacionar sem pagar preços avultados.

Este espaço também permite que a Comic Con seja um evento híbrido (que ocorre em espaço fechado e aberto, ao mesmo tempo), o que leva a que as atrações acabem por não ficar concentradas num só espaço - o que tem coisas boas e coisas más, naturalmente. Consequentemente, torna-se um pouco difícil circular pelo evento sem que acabemos perdidos, muito embora me pareça que, nesta última edição, tenha havido um esforço da organização em melhorar a sinalética do evento. Os acessos para deficientes - se existirem - parecem-me mal sinalizados e algo que tem mesmo que ser melhorado.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
De resto, continuamos a ter o mega-auditório, um espaço de "ativações de marca", a área comercial, outros auditórios mais pequenos, a zona do gaming, a zona dos autógrafos dos autores de BD, a zona infantil e a Artist's Alley que, infelizmente, está longe de tudo e todos, carecendo de uma mudança de espaço urgente já para a próxima edição do evento. Desculpem mas ali, naquele sítio, não pode continuar. A título de curiosidade, posso dizer que encontrei neste Artists' Alley o autor Luís Louro, a autora Patrícia Costa e um espaço que vendia bd em segunda mão.


Um olhar sobre a Comic Con 2022
Por falar em vendas, este ano a área comercial mudou de sítio, passando da sala Tejo para uma tenda própria. Embora a tenda me tenha parecido algo pequena para tantos expositores, gostei que a mesma tivesse ligação direta para o pavilhão. Em caso de chuva - o que acabou por acontecer - isto possibilitava que os visitantes não tivessem que andar à chuva entre o espaço comercial e a Altice Arena. 

Mas, se isto foi bom, acho que também incrementou uma das principais mudanças face ao ano passado. É que, embora o evento tenha tentado ser híbrido na questão de ter coisas a acontecer dentro e fora do pavilhão, a verdade é que fora do mesmo pouco ou nada acontecia. O espaço exterior estava, assim, bem mais vazio do que no ano passado. Vazio de gente e vazio de atrações, entenda-se. Havia alguns espaços de restauração e uma tenda da FNAC que achei mesmo triste e isolada. Não acredito que os responsáveis de Marketing da FNAC estejam satisfeitos com a Comic Con este ano. E, se voltarem a participar no evento no próximo ano, estou certo que a Organização terá que tratar a empresa melhor.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Houve, como dizia, uma reajuste do espaço, colocando o espaço de merchandising numa tenda e trazendo o espaço de gaming para o local onde no ano passado estava o espaço comercial.

Não vou opinar muito mais sobre aquilo que não é BD na Comic Con. Vejo muitas críticas ao evento. Umas parecem-me legítimas. Outras, nem tanto.

No seu todo, e digo isto como crítica construtiva, o evento parece-me excessivamente caro para a oferta que tem. E quando falo em "oferta" falo naquilo que o evento tem para dar, efetivamente. Parece muito mas não é assim tanto. Só consigo lembrar-me de um evento mais superficial e "para a fotografia" do que a Comic Con: a Web Summit

Um olhar sobre a Comic Con 2022
E sei do que falo porque já participei por várias vezes em ambos os eventos. A Comic Con é, por isso, um bom exemplo de uma "mão cheia de nada". Parece que está carregada de milhentas coisas para fazer, de milhentas atividades, de um sem número de entretenimento... mas quando se olha com frieza para o todo que é este evento, fica claro uma de duas coisas: ou nós, sociedade, estamos a tornar-nos cada vez mais superficiais, apreciando coisas mais frívolas e que servem, apenas, para uma boa fotografia do instagram, ou então, são os próprios criadores de conteúdo e Organização que não se esforçam devidamente. Acho que era possível que a Organização fizesse mais e melhor em todas as áreas. Não vai ao fundo em nenhuma delas.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Não interpretem estas minhas palavras como arrogantes ou como de uma pessoa que se considera mais do que os outros ou de uma elite de qualquer coisa. Não. Nada disso. Acho que faz todo o sentido que haja um evento de cultura pop, tendo em conta a relevância que a mesma tem. Simplesmente, olhando para a Comic Con, fico com a ideia de que praticamente tudo é feito muito à superfície, sem aprofundar, sem ir mais longe.

No entanto, tenho algumas coisas boas para dizer sobre a Comic Con. Nomeadamente sobre a banda desenhada que será aquilo que mais interessa aos leitores do Vinheta 2020.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Em primeiro lugar, há que dizer que tivemos, mais uma vez, uma boa seleção de autores. Tivemos nomes relevantes como Miguelanxo Prado, Paco Roca, Joseph Homs, Mike Deodato Jr., Jean Bastide e Philippe Fenech (criadores de Ideiafix), Cary Nord, Wes Craig, Gene Ha, António Gonçalves e Joana Rosa. Uma oferta de autores bastante alargada e boa, diria, embora me pareça que também poderia ter sido dado mais destaque a mais autores nacionais.

Outra das coisas que, em termos de banda desenhada, melhorou face à edição do ano passado, foi que a zona de autógrafos foi retirada da barulhenta e confusa sala Tejo, onde estava no ano passado, e foi deslocada para um espaço mais recôndito. Bem, por um lado, retirou-se destaque à BD para o público mais generalista. Mas, por outro lado, permitiu-se que os autógrafos pudessem decorrer numa zona mais serena, onde dava para falar melhor com os autores. Portanto, acho que foi uma alteração para melhor. E, ainda por cima, este espaço dos autógrafos aproximou-se fisicamente do auditório onde decorriam as apresentações de banda desenhada, o que foi mais um ponto a favor.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Portanto, falando de banda desenhada, o que é que a Comic Con 2022 fez bem? Teve um bom cartaz de artistas presentes e boas apresentações. Ou seja, para os adeptos de autógrafos e para os adeptos das apresentações e entrevistas com os autores, a Comic Con cumpriu e bem.

No entanto, acho que deveria ter sido feito mais. E para não parecer que me estou a focar apenas numa opinião pessoal neste ponto, até me vou servir dos resultados obtidos nos BD Censos 2022, em que ficou claro que os autógrafos são a coisa que a maioria dos visitantes de um evento de BD menos valoriza. E aquilo que é mais procurado é a possibilidade de comprar banda desenhada, especialmente se for a um bom preço, e, claro as exposições de/sobre banda desenhada.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Ora, e é exatamente  aqui que a Comic Con falha. Não há qualquer exposição e não há muitos sítios para comprar banda desenhada. Sim, havia alguma BD na isolada tenda da FNAC, num stand da Leya, num stand da Wook e num stand da Panini Comics. Mas era uma oferta muito fraquinha e completamente dispersa. Acho que não seria complexo arranjar um espaço mais bem pensado para se vender a principal BD editada em Portugal.

E já quanto à área da exposição, onde já no ano passado eu tinha referido que era necessário criar um espaço de exposição no evento, lembro-me que foram várias as pessoas que me disseram que "num evento como a Comic Con não seria viável ter um espaço deste tipo". Bem, qual não foi o meu espanto quando, este ano, o espaço da Nickelodeon me deu razão e força à minha ideia. 

Um olhar sobre a Comic Con 2022
Este ano, a Nickelodeon criou um espaço de exposição com divertidas reinterpretações de obras clássicas da pintura com as personagens do Sponge Bob. Que tem isto a ver com o espaço de exposição da banda desenhada? Bem, permite perceber que, se dúvidas ainda houvesse, se a Organização quiser, dá para criar algo semelhante para a banda desenhada. Nem precisa de ser um espaço enorme. Quatro paredes, postes separadores de segurança entre o público e as obras et voilà, temos a Comic Con a fazer aquilo que a maioria do público mais quer num evento sobre BD. Não sou eu que o digo apenas, portanto.

Assim sendo, a minha sugestão para a área da banda desenhada no próximo ano.

Um olhar sobre a Comic Con 2022
A repetir:
1) manter um bom cartaz de autores, com boas sessões de apresentação e debate;

2) manter a zona de autógrafos no mesmo espaço (mas não permitir que os leitores apresentem mais do que 2 livros para autografar, o que infelizmente, não foi feito nesta edição)

A introduzir:
1) área de exposição de BD (se possível, junto à zona de autógrafos, onde este ano estava um espaço infantil que, esse sim, pode ser deslocado para outra localização). Isto não é nada de muito difícil para fazer. Se o Sponge Bob consegue, também devem conseguir as obras dos autores que cá vêm;

Um olhar sobre a Comic Con 2022

2) garantir que há mais banda desenhada a ser vendida no evento. Há muitas formas de fazer isto: não praticar preços tão elevados para lojas de BD; ter uma loja própria do evento que vende BD (como é feito no Festival de Beja); juntar num só sítio as lojas que vendem BD, etc. A forma de fazer isto caberá à Organização. Mas é bem possível fazê-lo.


Nota final: tive também o prazer enorme de ser o moderador da apresentação de Paco Roca. Era uma conversa que já estava planeada para ocorrer na edição passada mas que lamentavelmente, e devido a motivos de doença, Paco Roca teve que cancelar em 2021, não marcando presença nessa edição. 

Mas, felizmente, em 2022 isso foi reposto e posso dizer-vos que foi uma conversa memorável. Eu sou suspeito neste ponto pois fui eu que conduzi a entrevista. Mas o que foi especial não foi o que eu perguntei mas as respostas profundas e genuínas com que Paco Roca me brindou a mim e a todos os presentes nesta conversa. Como tal, só posso agradecer à Organização por este privilégio. Foi das conversas mais interessantes que já tive com um autor.

Um olhar sobre a Comic Con 2022


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Já se conhecem os primeiros autores de bd que estarão presentes na Comic Con 2022!


Ainda estamos a mais de 6 meses da próxima Comic Con mas a Organização já anunciou 3 dos autores de banda desenhada que estarão presentes no evento!

Este que se auto-intitula como o maior festival de cultura pop de Portugal estará de regresso, de 8 a 11 de Dezembro, com a sua localização a ser novamente o Parque das Nações, em Lisboa. Este ano, o seu mote é, qual David Bowie, "We can be Heroes". Nem que seja "por um só dia", acrescento eu.

Para já, foram anunciados 3 autores que cobrem os universos dos comics americanos, da banda desenhada europeia e, claro, da banda desenhada nacional. São eles: Mike Deodato Jr., Paco Roca e António Jorge Gonçalves.

Abaixo, deixo as informações partilhadas pela Organização acerca de cada um destes autores.


Paco Roca
Paco Roca, é considerado um dos maiores ilustradores, cartoonistas e guionistas espanhol. As suas obras são largamente premiadas, entre elas “A Casa”, “O Inverno do Desenhador”, “O Tesouro do Cisne Negro”, “Os Trilhos do Acaso”, “Andanças” e “Confissões de um Homem em Pijama”. “Rugas” foi adaptado ao cinema em 2012, e o filme foi galardoado com 2 prémios Goya.


Mike Deodato Jr.
Fã de banda desenhada americana, o artista Mike Deodato Jr. é um dos talentos mais requisitados e esteve presente em títulos da DC Comics como “Mulher Maravilha” e da Marvel com “Vingadores”, “Elektra”, “Incrível Hulk”, “Spider-man” e “Thor”. Atualmente trabalha com a Marvel em “Witches”, “New Avengers”, “Amazing Spider-Man”, “Thunderbolts”, “Infinity Wars” e no seu mais recente trabalho “Berserker Unbound”.



António Jorge Gonçalves
Banda Desenhada, Cartoon Editorial, Teatro e desenho digital ao vivo, estas são algumas das facetas de António Jorge Gonçalves! Com histórias publicadas em Portugal, Austrália, Coreia do Sul, Espanha, França e Itália, desenha todas as semanas para o "O Inimigro Público" (jornal Público) e "Como Fazer Coisas Com Palavras" (Ricardo Araújo Pereira). Recentemente lançou o livro “Estás tão Crescida”.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Um olhar sobre a Comic Con 2021

Um olhar sobre a Comic Con 2021

Um olhar sobre a Comic Con 2021
Depois de um ano de hiato, causado pela pandemia de covid-19, a Comic Con voltou a acontecer durante o passado fim-de-semana, entre 9 e 12 de Dezembro. O que é sempre algo louvável!

A grande novidade desta edição dizia respeito à alteração do espaço onde o evento decorria. Depois da Exponor e do passeio marítimo de Algés, desta vez o espaço foi a Altice Arena, no Parque das Nações, em Lisboa, bem como toda a área circundante ao local, que ia até ao Pavilhão de Portugal. O evento foi, por isso, híbrido na forma, com iniciativas a acontecer dentro e fora do Pavilhão Atlântico. Devo dizer que, de um modo geral, este parece-me ser o melhor local que, até agora, este evento teve.

Um olhar sobre a Comic Con 2021
É fácil de lá chegar, por transporte próprio ou público, há estacionamento com relativa facilidade (embora seja bastante caro) e o espaço físico oferece valências que nas edições anteriores do evento não eram possíveis. Nomeadamente, o impressionante auditório principal, que ocupa metade da Altice Arena. De um modo geral, a Organização soube tirar proveito do espaço, há que dizer. Na outra metade do pavilhão temos as várias marcas, quase todas associadas a canais de televisão, onde são feitas aquilo a que hoje em dia, pomposamente, se chamam “as ativações de marca.” São, no fundo, stands de canais televisivos onde se promovem séries e programas de televisão tentando, de alguma forma, criar algum tipo de experiência com o público. Circulando até à Sala Tejo, encontramos a área comercial, onde é vendido todo o tipo de merchandising relacionado com pop culture. Nesse mesmo espaço, está também a área para autógrafos de autores de bd. No andar de cima, há uma zona para as crianças brincarem e um pequeno auditório destinado às apresentações de autores de literatura e de banda desenhada. Acedendo à rua, pela Sala Tejo, encontrávamos o acesso para um auditório intermédio em dimensão e a restante área outdoor, onde estava uma pequena tenda dedicada ao cosplay e outra, bastante maior, dedicada ao gaming. Entre essas duas tendas havia um espaço de restauração, com vários pontos de venda de street food e, mais adiante, estavam mais alguns locais de “ativações de marca”, com a presença de um stand (muito bem conseguido) dedicado à série Walking Dead e outro espaço, com enormes artefactos insufláveis, dedicado ao Disney Plus. Na entrada do Pavilhão Atlântico havia a zona Artist’s Alley, onde ilustradores expunham o seu trabalho. 

Um olhar sobre a Comic Con 2021
Na sexta-feira estavam poucas pessoas. No sábado o espaço encheu-se bem mais. Ainda assim, achei que estava bom para se circular sem grandes problemas e com filas não tão grandes como vi, noutras edições, no Passeio Marítimo de Algés. Em tempos de covid, é assinalável o esforço glorioso que a organização há-de ter feito para ter um evento a decorrer sem (grandes) problemas.

Portanto, olhando para o todo que foi a Comic Con, acho que a Organização está de parabéns pelo trabalho feito. E a mudança para o Parque das Nações parece-me boa.

Mas depois há a questão da banda desenhada…

Um olhar sobre a Comic Con 2021
Em primeiro lugar, o nome do evento não corresponde ao que aí se trata. Isto não é uma convenção ou uma conferência dedicada a comics. Ponto final, parágrafo. Talvez o nome mais justo para o evento pudesse ser Pop Culture Con. Aí, talvez os fãs de banda desenhada, e de comics em particular, não se sentissem tão defraudados com o nome do evento. Mas também compreendo que o nome há-de ter tido uma razão óbvia. Por ventura, quando este evento foi lançado, pela primeira vez, nos Estados Unidos, havia um maior enfoque nos comics.

Um olhar sobre a Comic Con 2021
E, com efeito, se pensarmos bem, isto acontece em muitos outros eventos. Que dizer, por exemplo, do Rock in Rio, que não se passa no Rio de Janeiro - mas em Lisboa - e que de música rock, quando temos a bamboleante Ivete Sangalo aos saltos no palco, não tem nada? Se calhar dever-se-ia chamar Pop in Lisboa, não? Mas claro, o branding da coisa não seria tão forte. Também a Comic Con dever-se-ia chamar Pop Culture Con. Mas é o que temos. E também não será pelo nome de um evento que devemos sentirmo-nos defraudados.

Começando até pelo melhor, há que dizer que o cartaz de presenças de autores do universo da banda desenhada era muito interessante. Provavelmente, de forma global, até é capaz de ter sido o melhor line-up de sempre: Matthieu Bonhomme (O Homem que Matou Lucky Luke), Miguelanxo Prado (Traço de Giz), Peter Van Dongen (Blake e Mortimer), Paco Roca (Rugas, A Casa), Ralph Meyer (Undertaker), Michele Benevento (Tex), Mike Grell (Green Arrow), Álvaro Martínez Bueno (DC Comics), Juan Cavia (Balada para Sophie) e os portugueses Filipe Melo e Paulo Monteiro.

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Infelizmente, alguns destes nomes acabaram por não comparecer no evento. Foi o caso de Matthieu Bonhomme e de Paco Roca. Dois nomes muito queridos dos leitores portugueses, diga-se. No meu caso, lamentei especialmente o cancelamento de Paco Roca, visto que era eu que iria conduzir o painel dedicado à sua obra. Contudo, vivemos em tempos complexos devido à covid-19, e aos constrangimentos consequentes, e são coisas que acontecem. E, claro, não podemos “apontar armas” à organização nesta questão. Por muito que as coisas estivessem combinadas, a última palavra é sempre dos autores. O Paco Roca, por exemplo, encontrava-se doente e não pôde comparecer. É chato, mas acontece.

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No entanto, há algumas coisas que podemos apontar à organização. E a principal delas é que, a meu ver, a Organização encara a banda desenhada como algo suplementar. Quase de bónus. Do género: “’bora lá arranjar um cantinho para esta malta da banda desenhada (público e profissionais) achar que a bd também está representada na Comic Con”. Não me entendam como injusto ou ingrato nesta questão. Já o disse acima, e assinalo novamente, que em matéria de cartaz, e especialmente para os amantes de banda desenhada de origem franco-belga, como é o meu caso, a Organização fez um excelente trabalho este ano. Todavia, onde me parece que a Comic Con deveria fazer alterações é em todo o resto relacionado com a banda desenhada, que não diz respeito ao cartaz de convidados. Do que falo, concretamente?

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Ora bem, em primeiro lugar, julgo que a banda desenhada merece um espaço só para si. Nesta edição do evento, e tal como também já disse mais acima, os dois únicos espaços dedicados à banda desenhada, eram as mesas destinadas aos autógrafos e o auditório onde decorriam os painéis com os autores. Nota para a honrosa presença do Clube Tex Portugal, que tinha um stand no evento. Mas, tirando isso, a Organização não providenciou um espaço dedicado à bd. Havia, isso sim, a introdução da bd noutros espaços. Portanto, vamos lá ser sinceros e deixarmo-nos de rodeios: com aquilo que a Organização desenvolve em termos de bd no evento, a verdadeira razão para um amante de banda desenhada ir à Comic Con é para tentar sacar uns autógrafos dos autores de que gosta e, na melhor das hipóteses, para assistir a uma apresentação. É manifestamente pouco. Faz-me pensar na possibilidade de existência de um evento chamado Vegans Con, onde o espaço comercial são charcutarias e talhos e onde os pratos disponíveis para degustação são chanfana e baby ribs. Vá lá, organização, um pouco mais de esforço, por favor.

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Tal como o cosplay ou o gaming têm tendas dedicadas a essas áreas, parece-me que seria justo que a banda desenhada tivesse um espaço dedicado à 9ª arte. Até poderia ser a tenda mais miserável do evento. Nós não nos importamos com isso. Convinha é que essa tenda tivesse, para além do espaço dos autógrafos e do pequeno auditório, um espaço comercial que representasse – verdadeiramente - o setor da banda desenhada. Como é possível imaginar-se, sequer, um evento que diz dedicar-se à banda desenhada e onde não se pode comprar banda desenhada? Os três únicos espaços onde consegui ver alguma – mas pouca - banda desenhada à venda foram os da Casa da BD, da FNAC e da E Pop Culture Store. Muito pouco. Migalhas. Onde estão a Kingpin Books? A Dr. Kartoon? E os espaços das próprias editoras? Onde estavam os livros de editoras importantes da banda desenhada como a Arte de Autor, a Ala dos Livros, a ASA, a Seita, a Gradiva, a Escorpião Azul, a Polvo e todas as outras? É simples a resposta: não estavam. Tirando um ou outro livro dos autores que estiveram presentes no evento.

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Mas, para além do espaço comercial, nesta suposta tenda dedicada à banda desenhada, há também outra coisa que deveria estar presente: um espaço de exposição de obras de banda desenhada. Para termos uma ideia concreta desta minha sugestão, até podemos olhar para aquilo que foi feito com o stand de promoção à série Walking Dead. Num pequeno espaço, a rondar os 54 ou os 72 metros quadrados, fez-se uma coisa muito bem feita. Um "mini-museu", com artefactos dos walkers que já se passearam pela série. Simples, não dispendioso e um dos melhores espaços de todo o evento. Não se poderia fazer algo assim para um espaço de exposição dedicado à banda desenhada, com algumas pranchas dos autores que estão presentes no evento?

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Não pensem que estou a ser megalómano ou a chutar ideias para o ar que não podem ser realizadas por uma questão de espaço ou de orçamento. Não me digam que é uma coisa assim tão impossível ter-se uma tenda/ uma sala/ um espaço dedicado à banda desenhada, que serve para tudo o que tem a ver com banda desenhada aí decorrer: os autógrafos, as apresentações, o espaço comercial e o espaço de exposição.

Poderão dizer-me: “Ah, mas o público que vai por causa da banda desenhada é marginal e não vale a aposta na banda desenhada, por parte da Organização”. A essas pessoas eu respondo: “as pessoas que vão ao evento por causa da banda desenhada são poucas porque não há uma aposta na bd por parte da organização”. E andamos aqui às voltas. A apontar o dedo uns aos outros.

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Note-se ainda que o público consumidor de banda desenhada tem, em média, muito maior poder de compra do que a grande maioria do público que se desloca à Comic Con e que compra um crachá ou, na loucura, um funko. E quer isto dizer que a Organização, não se esforçando para agarrar esse público da bd, está ela própria a perder uma bela oportunidade comercial.

Sei também que os preços praticados pela Organização para a venda de espaço no evento foram muito elevados e completamente incomportáveis para o mercado de bd em Portugal. Mais uma vez, a Organização poderá dizer: “Vêem, não vale a pena chatearmo-nos muito com a banda desenhada porque as lojas ou editoras nem sequer cá vêm vender as suas coisas”. Ao que eu responderia, novamente: “se não há uma aposta da Organização na BD e, ainda por cima, os preços pelo aluguer do espaço são enormes, é claro que as lojas e editoras não vão cometer a loucura de ir à Comic Con”. Uma coisa gera a outra. E tem que partir, SEMPRE, da Organização a aposta na banda desenhada. O resto vem por arrasto.

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Outra coisa ainda que destaco: o das apresentações. Estive na apresentação de Peter Van Dogen e creio que toda a assistência tinha 6(!) pessoas. E 4 dessas pessoas correspondiam a uma família de um casal com dois filhos adolescentes que estiveram sempre a entrar e a sair do auditório. Ou seja, na verdade, eram 4 pessoas a assistir a uma apresentação. Um autor consagrado faz uma viagem para fazer uns desenhos e falar para 4 pessoas... A sério? Infelizmente isto não é algo que apenas aconteça na Comic Con. É triste chamarmos artistas internacionais aos nossos eventos para falarmos das suas obras e, depois, ninguém estar nestas apresentações. Acho que temos que fazer algo para mudar isto.

Uma das causas para que o auditório estivesse sempre vazio era que estavam a decorrer, ao mesmo tempo, sessões de autógrafos. Ou seja, os fãs de bd ou estavam nas filas para os autógrafos ou estavam no auditório. Não se pode estar em dois sítios, ao mesmo tempo. A não ser que o auditório estivesse perto dos autógrafos como, aliás, já propus na tal tenda dedicada à banda desenhada. Dessa forma, talvez fosse possível estar-se numa fila de autógrafos e a assistir ou a ouvir, ao mesmo tempo, as apresentações.

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Em conversa com o meu amigo Carlos Cunha, do JuveBêdê, ele disse-me algo que faz todo o sentido e que subscrevo. As sessões de autógrafos deveriam acontecer depois de cada apresentação e deveria ser dada uma senha prioritária de autógrafo às pessoas que estavam nas apresentações. Na minha opinião, não faz sentido que a razão para estarmos com um autor seja apenas e só a de sacar um autógrafo. Acho que lhes damos – aos autores – a imagem errada da nossa admiração. Não quero com isto fazer juízos de valor, pois cada um sabe o que quer e ao que dá primazia, mas acho que se queremos o autógrafo de um artista de quem gostamos, não é pedir muito a nós mesmos que, em troca, assistamos à apresentação desses autores. Ou será? E este sistema do: “vieste à apresentação, toma lá uma senha prioritária de autógrafo” é muito mais justo para toda a gente, parece-me.

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Uma última nota sobre os prémios de bd da Comic Con que, lamentavelmente, deixaram de ser feitos este ano. Era uma iniciativa com um prémio monetário e que, por esse motivo, era bastante relevante para os autores vencedores. É com pena que vejo o cancelamento destes prémios embora eu não esteja bem por dentro sobre as razões que levaram a que isto acontecesse. E, portanto, não direi mais além disto: é pena que isto deixe de existir.

Em suma, se é bom que a Comic Con exista e que seja um evento de larga dimensão? Sem dúvida que sim! Se é bom que a banda desenhada consiga, de alguma forma, estar representada neste evento? Sim, é algo bom. Se uma verdadeira aposta da Organização na banda desenhada – que dá nome ao evento, convém sempre relembrar – pode - e deve! - acontecer para que haja mais autores, lojas e, acima de tudo, público de banda desenhada? Obviamente que sim! É um no-brainer, como dizem os ingleses. Para que nós, público de banda desenhada, não nos sintamos como um vegetariano que vai a um evento chamado Vegan Con, onde se fala mais de carne do que de vegetais. Pelo menos, é essa a minha "new hope".

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