Se há livros que tiveram um bom sentido de oportunidade face à altura em que foram lançados, este Magriços, de Vasco Parracho, é um bom exemplo disso.
Editado pela Prime Books por alturas da maior competição do Mundial de Futebol de 2026, que decorre no México, Estados Unidos e Canadá, este livro aproveita essa febre futebolística vivida de quatro em quatro anos para nos lembrar do maior feito da Seleção Portuguesa de Futebol em campeonatos do Mundo.
Falo, claro está, do Mundial de 1966, ocorrido em Inglaterra, no qual Portugal conseguiu a honrosa 3ª classificação. É o melhor resultado de sempre obtido pela equipa lusa.
Vasco Parracho, que já nos havia presenteado com uma banda desenhada sobre futebol - Peyroteo, que nos conta a história de um dos melhores futebolistas da história do Sporting Clube de Portugal - dá-nos agora esta obra que, além de entreter, também consegue ser bastante educativa.
Tem a bela particularidade de contar com a colaboração de António Simões, um dos magriços - nome pelo qual esta seleção em particular ficou conhecida -, o que oferece prestígio e relevância à obra, já que a história até é contada na primeira pessoa, como se fosse o próprio António Simões a descrever-nos tudo o que aconteceu em 66. Bem, e embora o argumento seja de Vasco Parracho, fica bastante explícito que António Simões participou ativamente neste livro, mais não seja através de entrevistas e conversas que, certamente, teve com Vasco Parracho.
É também por isso um trabalho que além de recuperar um dos momentos mais marcantes da história do desporto português, vai um pouco além disso, sendo igualmente um retrato humano e histórico de uma geração que elevou o nome de Portugal num período particularmente complexo da nossa história.
E isso foi uma das coisas de que mais gostei em Magriços. Essa componente humana que aproxima o leitor dos próprios jogadores. Talvez tivesse sido mais fácil depositar um conjunto de factos e estatísticas na obra, centrando a mesma apenas nos jogos de futebol, mas devido a esta presença de António Simões enquanto voz narrativa de toda a experiência, o resultado é muito mais bem-vindo.
Assim, a história é ávida em colocar-nos no ambiente político e social da época, em que Portugal (ainda) vivia sob a ditadura do Estado Novo e encontrava-se envolvido na Guerra Colonial, circunstâncias que, naturalmente, influenciavam profundamente a vida dos portugueses. O futebol e a seleção nacional eram (e continuam a ser?) um escape para a população não sucumbir tão facilmente ao peso da sua existência, marcada por uma vida de privação e liberdades canceladas. Era um país triste, fechado e atrasado... e o futebol tinha esse condão de conseguir dar algum ânimo ao povo. Mesmo que fosse momentâneo.
O percurso da seleção portuguesa é-nos apresentado de forma empolgante, desde os momentos iniciais até às fases decisivas da competição. E mais do que atletas especiais, os “Magriços” são retratados como homens com sonhos, receios e responsabilidades. Eusébio, Mário Coluna, José Augusto, Jaime Graça, José Torres, António Simões e todos os outros valentes jogadores que fizeram parte deste conjunto especial, recebem aqui um tratamento bastante humanizante, ao mesmo tempo que nos vão sendo dados outros aspetos interessantes dos bastidores. Apreciei também a introdução das capas dos jornais desportivos que davam conta dos feitos dos jogadores portugueses, em especial do eterno Eusébio, o Pantera Negra, que conseguiu o feito enorme de marcar 9 golos em apenas 6 jogos.
A figura de Eusébio, inevitavelmente, ocupa um lugar de destaque. Considerado um dos melhores futebolistas de todos os tempos, surge como símbolo da excelência e da determinação da equipa portuguesa. No entanto, Vasco Parracho evita centrar toda a narrativa apenas no Pantera Negra, destacando igualmente o contributo coletivo dos restantes jogadores. E isso parece-me que foi algo acertado.
Outra coisa que merece destaque é a forma criativa e inspirada como são introduzidos algumas referências, à margem dos eventos ocorridos, a outras figuras grandes do futebol nacional, como aquelas que, por exemplo, nos surgem com a aparição do pequeno Manuel Fernandes - que havia de se tornar num dos melhores de sempre do Sporting - ou do ainda bebé Paulo Futre - esse jogador mágico que passou pelos três grandes do futebol português e pelo Atlético de Madrid.
Há depois várias evocações a Os Lusíadas, de Luís de Camões, que me parecem um pouco excessivas. Percebo a razão da escolha, que apela aos grandes feitos da nação portuguesa, mas tendo em conta que acontece mais do que uma vez, parece-me algo forçada e que, pior que isso, retira mais do que acrescenta, já que causa uma quebra na imersão da história. Admito também que, em vários momentos ao longo da narrativa, me pareceu que os balões dos diálogos e as legendas da narração apresentavam uma quantidade maior de texto do que o recomendável.
Outra coisa menos positiva - e quase incompreensível - é a dupla menção ao jogo de Portugal com a Coreia do Norte. Compreendo que esse jogo foi o mais épico de toda esta campanha, já que a equipa portuguesa chegou a estar a perder por 0-3 e acabou por virar o jogo para o resultado incrível de 5-3, com 4 golos de Eusébio, mas penso que, em termos de sequência e narrativa, não faz muito sentido que se regresse a esse jogo já depois do mesmo ter sido bem referenciado. Acredito que teria sido preferível oferecer mais páginas a este jogo no primeiro momento da narrativa em que o mesmo é retratado, sem que se voltasse à mesma partida. Assim, como está, fica redundante e prescindível, parece-me. E acho até que o livro acabaria melhor se acabasse na página 38, na vinheta central, do que na página 50. Claro que não é isto que estraga o livro, mas é algo que é difícil não mencionar.
Em termos de desenho, Vasco Parracho oferece-nos um trabalho onde fica para mim claro que se dedicou apaixonadamente, tal não é a ligação pessoal do autor ao mundo do futebol. Vê-se que Vasco Parracho deu muito de si a esta obra, o que a engrandece. Em termos visuais, considero o autor bastante original - goste-se mais ou menos - na forma como desenha e como aplica as suas cores. E é claro que houve um esforço de Vasco Parracho em combinar rigor documental com expressividade artística, recriando ambientes, estádios e personagens de forma convincente. Esta atenção ao detalhe contribui para uma experiência de leitura simultaneamente educativa e envolvente.
É verdade que há alguma inconsistência, já que tão depressa somos contemplados com uma ilustração que nos deixa admirados - como a reprodução aérea da cidade de Londres ou do célebre remate, no ar, de Eusébio, por exemplo - como depois encontramos outros desenhos onde o traço parece mais rápido e grotesco. Ainda que o ambiente das partidas de futebol consiga transportar-nos para os jogos, também é verdade que, em certos momentos, encontramos alguma rigidez na reprodução dos movimentos dos jogadores. Em termos de cores, que aqui se apresentam garridas e com bastante contraste, o álbum também apresenta bons momentos.
Quanto à edição, este livro da Prime Books apresenta capa dura brilhante, bom papel brilhante no miolo e um bom trabalho a nível da impressão e encadernação. O livro conta ainda com um prefácio de Pedro Proença, o atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Gosto de tomar nota que, de alguma forma, a Federação Portuguesa de Futebol se envolveu com a feitura deste livro. É um bom sinal. No final, há ainda um dossier de duas páginas onde é feita uma contextualização da obra e onde nos são dadas as fichas desportivas de cada um dos atletas portugueses que fez parte desta equipa de futebol. Bons extras que aumentam o valor didático e documental da obra.
Em suma, e mesmo esclarecendo que não queria estar a fazer comparações entre a atual seleção portuguesa de futebol e a seleção de 1966, não posso deixar de dizer que é curioso como este Magriços, de Vasco Parracho, deixa bem claro tudo aquilo que já todos sabíamos... ou devíamos saber: entre ser-se um "herói do futebol" e ser-se uma "vedeta do futebol", há uma galáxia de distância. E, regra geral, dificilmente são as vedetas que fazem história. Quem a faz são aqueles que, contra todas as probabilidades, se superam e deixam o seu nome timbrado nos manuais de história. Os heróis, portanto. E Eusébio, Coluna, Torres, José Augusto, António Simões e todos os restantes magriços, esses sim, foram heróis. E é essa ideia que este livro, que deveria ter sido lido pelos atuais jogadores portugueses enquanto se esticavam nas espreguiçadeiras de Palm Beach Gardens, na Florida, nos passa. Talvez tivesse contribuído para algo melhor nas suas prestações e mindset.
NOTA FINAL (1/10):
7.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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