sexta-feira, 10 de julho de 2026

Análise: Mãe e Peras

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa

A Oficina do Livro, uma chancela do Grupo LeYa, publicou no passado mês de abril - ainda bem a tempo do Dia da Mãe - o livro Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa.

Esta é uma obra de estreia para as duas autoras portuguesas. Diana Rodrigues é uma influencer, criadora da página de instagram mae_e_peras, que conta com mais de 500.000 seguidores. Nessa página, a autora partilha, com humor, um pouco da sua experiência de mãe e das agruras adjacentes a essa função que ocupa 24h por dia, 7 dias por semana.

Daí à adaptação desses momentos e desafios da maternidade para banda desenhada, foi um pequeno passo. 

Mãe e Peras é, por isso, uma obra que parte da experiência quotidiana da maternidade para construir um retrato simultaneamente divertido, leve e sincero, com o qual, não só as mães, mas também os pais, nos podemos identificar. 

A autora vai relatando-nos pequenas situações do dia a dia, transformando aquilo a que podíamos chamar de episódios aparentemente banais, como birras em locais públicos, noites mal dormidas, ou aquelas perguntas inesperadas e inconvenientes das crianças, em momentos humorísticos que colocam um sorriso nas nossas caras. Afinal de contas, todos nós já passámos por isso.

Muitas das piadas resultam da exageração de pequenos dramas quotidianos ou da forma como as expectativas de uma mãe colidem com a imprevisibilidade das crianças. É um humor leve, acessível e eficaz, que raramente procura mais do que arrancar um sorriso cúmplice. Não diria que seja um humor para nos fazer chorar a rir, mas antes para nos colocar um sorriso na face.

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
E, por detrás dos sorrisos com que ficamos enquanto lemos este livro, a mensagem subjacente que retemos é que, de facto, não é fácil ser-se mãe. É desgastante em termos de tempo, de energia, de paciência e até de recursos financeiros. Mas também não há aqui - felizmente! - uma tentativa de vitimização, mostrando que a maternidade é uma coisa má. Não, longe disso. Até porque, mesmo sendo difícil, também será certamente a melhor coisa do mundo para muitas mães. E mesmo nos momentos mais caóticos e difíceis, existem memórias e afetos que acabam por dar sentido a todos os desafios.

Um dos méritos da obra - que se apresenta mais como livro de tiras humorísticas, não havendo uma sequência muito grande entre ilustrações -  está precisamente na sua honestidade. Diana Rodrigues afasta-se das imagens idealizadas da maternidade que tantas vezes encontramos nas redes sociais e em determinados discursos. Em vez disso, opta por mostrar mães reais, com defeitos, dúvidas, cansaço e frustrações. Mães falíveis. Essa autenticidade torna a leitura particularmente próxima e permite que muita gente se possa rever nas situações apresentadas. As situações retratadas não são, portanto, extraordinárias, mas são, precisamente, aquelas que acontecem todos os dias em milhares de casas. E essa universalidade ajuda a explicar o potencial de identificação que este Mãe e Peras traz consigo.

Com efeito, este é um daqueles livros que poderá chegar a muitas pessoas que habitualmente não lêem banda desenhada. E isso é claramente positivo. 

Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa
O livro é ilustrado por Marina Costa, que nos oferece desenhos simples e expressivos, de notável eficiência, que casam muito bem com as situações retratadas. As expressões das personagens, bem como as suas reações, são exageradas, reforçando o cariz cómico da obra. Não são desenhos que primem por uma complexidade ilustrativa muito grande, mas também não seria isso que a obra necessitaria. As cores vivas e diversas também conferem um estilo moderno e, novamente, eficiente ao todo.

Sobre a presença de Marina Costa nesta obra, tenho que fazer uma referência. Incomodou-me bastante que o nome da autora nunca apareça na capa, na lombada, na contracapa ou no frontispício do livro. Temos que procurar na ficha técnica do livro a menção ao nome de Marina Costa para verificarmos que foi ela a autora das ilustrações, da capa e da paginação do livro. Ora, tratando-se de uma obra a quatro mãos, que sem a ilustradora não seria um livro de BD/tiras humorísticas, parece-me uma grande falta de noção editorial. Mesmo aceitando que este foi um "trabalho de encomenda", em que Marina Costa pode ter sido recrutada apenas para ilustrar as histórias já definidas, continuo a achar que a menção ao nome da autora na capa do livro, era mandatória. É importante que o nosso trabalho seja devidamente creditado e respeitado, diria. Portanto, deixo essa nota. 

De resto, o livro apresenta capa mole baça, com badanas e verniz localizado. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. A impressão e encadernação também são boas.

Em suma, a estreia de Diana Rodrigues e Marina Costa na banda desenhada, com este Mãe e Peras é particularmente bem-vinda. Sem pretensões excessivas, as duas autoras conseguem criar uma obra que comunica diretamente com o seu público-alvo e que aproveita bem as ferramentas narrativas da 9.ª arte. Uma estreia promissora e uma aposta que me parece bem pensada por parte da Oficina do Livro.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Mãe e Peras, de Diana Rodrigues e Marina Costa - Oficina do Livro - LeYa

Ficha técnica
Mãe e Peras
Autoras: Diana Rodrigues e Marina Costa
Editora: Oficina do Livro
Páginas: 168, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 23,5 x 16,5 cm
Lançamento: Abril de 2026

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Análise: Joker

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket


Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo

Inserido no arranque da nova Coleção DC Pocket, da Devir, estava - além do fantástico Batman - Cavaleiro Branco, de Sean Murphy - este Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo. Tal como o livro de Sean Murphy que refiro, também este já havia sido previamente publicado em Portugal pela editora Levoir... duas vezes.

Originalmente publicado em 2008, este Joker propõe-nos uma visão sombria e realista do mais famoso inimigo de Batman. A história decorre fora da continuidade principal do universo DC e acompanha o regresso do Joker às ruas de Gotham após uma misteriosa libertação do Asilo Arkham. Em vez de apresentar o vilão como uma figura quase caricatural, a obra procura retratá-lo como um criminoso brutal e imprevisível. E credível. E aqui, o verdadeiro protagonista é mesmo Joker. Batman aparece, sim, mas tem um papel menor nesta narrativa.

Quem nos conta a história é Jonny Frost, um pequeno criminoso que se torna motorista e acompanhante de Joker. E acho que isso é um grande trunfo utilizado pelo argumentista Brian Azzarello. É que, ao olhar para os acontecimentos pelos olhos de alguém fascinado pelo poder e pelo carisma do vilão, o leitor é conduzido para o interior do submundo de Gotham, sendo colocado próximo do caos que Joker representa. E isto tudo dá um sentido de tensão latente que se vai experienciando ao longo de todo o livro. 

À medida que a narrativa avança, Joker tenta recuperar a influência que perdeu durante o tempo em que esteve internado, com a história a transformar-se numa guerra pelo controlo da cidade, culminando numa reflexão amarga sobre a natureza destrutiva do próprio Joker e sobre aqueles que se deixam seduzir pela sua personalidade. 

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Um dos aspetos menos conseguidos da obra, quanto a mim, sente-se na construção da narrativa em determinados momentos. É que, apesar de a história assentar numa premissa relativamente simples - o regresso de Joker ao topo da hierarquia criminosa de Gotham -, Azzarello introduz por vezes algumas dinâmicas entre as várias figuras do submundo que tornam o enredo desnecessariamente complexo. Certas alianças, conflitos e movimentações entre personagens secundárias acabam por não acrescentar grande coisa ao tema central, criando momentos em que a leitura perde alguma fluidez ou que aparente não saber para onde ir. Já tinha lido o livro há uns anos - e tinha gostado muito - mas agora que o voltei a ler, senti esta fraqueza da obra mais presente.

Não obstante, um dos grandes méritos deste Joker é a forma como Brian Azzarello desconstrói a "romantização" da personagem, respondendo diretamente à tendência de muitos fãs - eu incluído - para admirarem o Joker como um rebelde carismático. Aqui, Joker apresenta essa rebeldia, mas de um modo demasiado extremo, mostrando-se profundamente perturbado, cruel e incapaz de sentir empatia por quem quer que seja.

Azzarello também demonstra um excelente domínio do subgénero criminal. Gotham é apresentada menos como uma cidade de super-heróis e mais como um território controlado por gangues, corrupção e interesses criminosos. Lembra-me, com as devidas diferenças, a abordagem noir de Ed Brubkaer nos seus Criminal ou Reckless, que tanto admiro.

Recordo que este livro foi publicado pouco tempo depois da atuação brilhante do ator Heath Ledger, enquanto Joker, no filme Batman - O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Pode-se, por isso, sentir que houve uma certa tentativa de cavalgar essa onda e esse hype da personagem, mas também não deixa de ser verdade que se procura criar uma narrativa tensa e memorável, por si só.

Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket
Se a escrita é poderosa, a arte de Lee Bermejo eleva a obra para outro nível. O artista adota um estilo hiper-realista impressionante, cheio de detalhes e texturas. Cada rosto, cicatriz ou expressão transmite uma sensação de autenticidade que torna os acontecimentos ainda mais perturbadores. E a representação visual de Joker é particularmente memorável, com Bermejo a apresentá-lo como um homem marcado física e psicologicamente, com um sorriso que parece uma ferida permanente e retorcida. A figura apresenta-se-nos simultaneamente repulsiva e fascinante, captando na perfeição a essência contraditória da personagem. 

Em termos de cores, a paleta é dominada por tons escuros, acastanhados e esverdeados, criando uma atmosfera decadente e sufocante. Além disso, a própria cidade de Gotham surge-nos como uma cidade suja e doente, refletindo o estado moral das personagens que a habitam.

A edição da Devir é em capa mole, com badanas, e num formato reduzido. No miolo, o papel é de boa qualidade. O livro apresenta o preço incrível de 10€, pelo que me parece uma bela forma de chegar a outros públicos, assegurando uma qualidade física bastante aceitável. No final, há ainda 4 páginas com estudos preliminares e ilustrações não utilizadas por Bermejo.

Em suma, Joker é uma das mais marcantes interpretações modernas do vilão mais vil de sempre. Brian Azzarello constrói um thriller criminal intenso e perturbador, enquanto Lee Bermejo oferece algumas das ilustrações mais impressionantes alguma vez associadas a esta personagem. O resultado é uma obra adulta, violenta e provocadora, que não procura tornar Joker em alguém mais simpático, mas sim mostrar, sem filtros, porque é que este continua a ser um dos vilões mais assustadores da banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
8.8

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Joker, de Brian Azzarello e Lee Bermejo - Devir - DC Pocket

Ficha técnica
Joker
Autores: Brian Azzarello e Lee Bermejo
Editora: Devir
Páginas: 132, a cores
Encadernação: Capa mole, com badanas
Formato: 14,8 x 21 cm
Lançamento: Maio de 2026


Há uma nova editora portuguesa de BD!



De vez em quando, somos confrontados com boas notícias. E esta é uma delas.

Acaba de ser formada a Péssima Editora, que vai procurar oferecer-nos banda desenhada nacional de cariz mais independente. Coisa que é sempre muito bem-vinda, diria.

E até já tem obra de estreia! Trata-se de Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia, do autor Xavier Almeida, que é uma antologia de BD, dividida em oito episódios, que até já teve apresentação no passado Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja.

Devo dizer-vos que fiquei especialmente curioso para conhecer esta obra.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse do livro e com algumas imagens promocionais.

Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia, de Xavier Almeida

8 existências de marginalidade variável esquivam-se de uma narração alheia e persistente. Será o texto que comenta o desenho, ou será o desenho que comenta o texto? 

Expandindo o conceito do primeiro capítulo, "o respigador" (originalmente autopublicado em 2024), Xavier Almeida leva o seu estilo expressionista mais longe que nunca, oscilando livremente entre realismo e semi-realismo ao serviço das histórias, das personagens e dos espaços que elas habitam. 

Aqui não há vaidade de estilo nem fantasmas franco-belgas: apenas o ofício do autor praticado com persistência, pouquíssima renúncia e muita, muita, parcimónia.

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Ficha técnica
Cheap Nature - Episódios de Renúncia e Parcimónia
Autor: Xavier Almeida
Editora: Péssima Editora
Páginas: 260, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: A5
PVP: 12,00€

quarta-feira, 8 de julho de 2026

30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos)


Se é verdade que é comummente aceite que, em Portugal, vivemos na atualidade uma das melhores fases - em termos de variedade, quantidade e qualidade - na edição de banda desenhada, o mesmo não é dito relativamente ao lançamento de banda desenhada destinada às crianças e aos jovens.

Com efeito, é frequente que oiçamos gente do meio da BD a dizer que "não são lançadas obras para um público infanto-juvenil em Portugal". Poderia ser verdade há uns anos, mas de há uns tempos (largos) para cá, com especial incidência nos últimos três ou quatro anos, é cada vez mais frequente e robusta a aposta em banda desenhada para as crianças e jovens. E isto já sem falar de mangás ou das bandas desenhadas mais clássicas como Astérix ou Lucky Luke. Portanto, achar-se que é pouca a BD infanto-juvenil editada por cá, no tempo presente, revela apenas uma coisa: desconhecimento sobre o meio.

E a prova cabal do que acabo de dizer é que me foi bastante fácil chegar à listagem de 30(!) obras de BD infanto-juvenil, editadas nos últimos dois/três anos, que vos trago hoje. Tive até que deixar outras obras relevantes de fora. É claro que poderemos sempre objetar que ainda há espaço para que se publiquem mais obras para este público. Sim, claro que há. Mas isso também é válido para qualquer mercado. Até o franco-belga.

Assim, este artigo tem a função de vos fazer conhecer boas obras de banda desenhada que poderão comprar para oferecer aos vossos filhos, aos vossos netos, aos vossas afilhados, aos vossos sobrinhos. A qualquer criança que vos rodeie, portanto. Pois, se queremos que a 9ª Arte prospere, também importa formar leitores. E cabe-nos a nós, leitores e amantes de banda desenhada, fazê-lo. Não contemos com grandes iniciativas do Ministério da Educação ou da Cultura...

E mesmo que não estejam rodeados de crianças, posso até dizer-vos que há nesta listagem de 30 obras, vários livros que, sendo para crianças ou jovens, também são leituras ricas para adultos.

Portanto, sem mais demoras, eis a minha lista de 30 Bandas desenhadas para crianças e jovens (e adultos):

terça-feira, 7 de julho de 2026

G. Floy Studio lança novo livro dedicado a Venom!



À semelhança do que aconteceu no ano passado, a G. Floy Studio regressa ao lançamento de banda desenhada, com o seu primeiro livro do ano a chegar até nós apenas no segundo semestre.

Falo de Venom - Preto, Branco & Sangue. Este volume continua a série Preto, Branco & Sangue, que consiste em antologias dedicadas a uma personagem Marvel. A característica especial em termos visuais dos álbuns constantes nesta coleção, é que as histórias são-nos dadas a preto e branco, com a cor vermelha a ter, depois, destaque. São vários os autores - uns mais veteranos, outros mais emergentes - que participam.

Desta vez, as histórias são dedicadas a Venom, um dos vilões - ou anti-heróis - do universo Homem-Aranha.

O livro deverá chegar às bancas a partir de amanhã e às livrarias na semana seguinte, a partir do dia 15 de julho.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Venom – Preto, Branco & Sangue, de vários autores

A sobrevivência exige sacrifícios — e cada gota de sangue tem uma história para contar.

Venom: Preto, Branco & Sangue é uma arrepiante colecção de contos intensos a preto e branco com toques de vermelho, nos quais o simbionte é desencadeado na sua forma mais primal e intransigente.

Cada capítulo permite ao leitor embrenhar-se no elo volátil entre hospedeiro e parasita, revelando Venom não só como um anti-herói dividido, mas também como uma imparável força da natureza.

Leitura obrigatória para fãs de narrativas sombrias e arte impactante, pela mão de lendas dos comics como J.M. DeMatteis, Al Ewing, Erik Larsen e Chris Bachalo.

Este álbum reúne as histórias publicadas originalmente em Venom: Black, White & Blood #1–4.



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Ficha técnica
Venom - Preto, Branco & Sangue
Autores: Vários
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
PVP: 23,00€

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Chega hoje às bancas novo livro de Chabouté!



Sai hoje com o jornal Público, o novo livro da Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir que dá pelo nome de Partir, Ficando e é da autoria de Christophe Chabouté, de quem sou um grande admirador!

Este é um livro poético e com uma história lindíssima, que nos deixa a refletir, e que aconselho a toda a gente!

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da obra e com algumas imagens promocionais sobre a mesma.


Partir, Ficando, de Chabouté

O mais recente trabalho de Christophe Chabouté, Partir, ficando chega aos leitores portugueses através da colecção novela gráfica que a Levoir e o Público editam a 3 de Julho.

Chabouté tem várias obras editadas pela Levoir, nomeadamente: Acender uma Fogueira, Moby DicK (2 volumes) e Táxi Amarelo.

Christophe Chabouté é o vencedor da 13.ª edição do Prémio Landerneau BD do Espace Culturel E. Leclerc pela sua novela gráfica Partir, ficando.

Nascido na Alsácia em 1967, vive atualmente na ilha de Oléron. Publicou as suas primeiras ilustrações em 1993, Récits, um álbum coletivo sobre Arthur Rimbaud. A sua cor preferida é o preto e branco. Deixa ao leitor a liberdade de acrescentar a sua própria cor. O preto e branco é simplesmente o seu modo de expressão. Na sua cabeça, está escrito que as histórias que conta são a preto e branco para se libertar de constrangimentos estéticos e narrativos. Só utiliza a cor se esta acrescentar significado à história, o que acontece em Partir, ficando.
O Alasca, a última fronteira... Esta região selvagem e hostil, o sonho de todo o viajante aventureiro... Sonhei em partir para o fim do mundo, percorrer os seus vastos espaços. Mas fui obrigado a ficar. Então parti sem partir... Apanhei peixes-trombeta, patos-listrados e lebres-de-gola. Segui os rastros e as pegadas da fauna local. Consegui capturar um animal desconhecido.

Com esta bela história, Chabouté mostra-nos uma forma de nos reapropriarmos da realidade, do mundo que nos rodeia, desligando-nos da rotina. A sua personagem pára, deixa o tempo passar à sua volta e começa a observar: olha para tudo, para as pessoas, as formas, as cores… e também escuta. Como alguém que descobre o mundo pela primeira vez, demora-se e maravilha-se com cada detalhe que o rodeia, mesmo os mais pequenos e insignificantes — à primeira vista.
“Grande contador de histórias, Chabouté oferece-nos com este álbum pranchas mágicas. Uma obra-prima em preto e branco com toques de cor.” La Croix

Títulos da colecção já publicados: A Aranha de Mashaad; Dostoiévski: O sol negro e Dez Mil Elefantes.

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Ficha técnica
Partir, Ficando
Autor: Christophe Chabouté
Editora: Levoir
Páginas: 152, a preto e branco, com algumas vinhetas a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 16,90€

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Análise: Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Foi há poucos meses que a editora Ala dos Livros nos trouxe o quarto volume da série Blacksad, intitulado O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido. Esta é, como não me canso de dizer, uma das minhas séries preferidas de sempre. Lado a lado com a brilhante Armazém Central.

Tratando-se de uma reedição, uma vez que este quarto volume já havia sido lançado pela editora ASA em 2010, convém dizer que há várias coisas que distinguem esta nova edição da primeira. Desde logo, os acabamentos. O livro apresenta capa dura baça, com lombada em tecido. Cada lombada desta reedição da Ala dos Livros contribui para a formação de uma imagem conjunta. O resultado é muito bonito e elegante. Para além desse requinte visual e de material, cada um dos livros inclui A História das Aguarelas, que é um extenso dossier sobre o processo criativo de Juanjo Guarnido, em que o autor nos revela, num discurso na primeira pessoa, as técnicas, as ideias e as opções que tomou em termos de cores. São 40 páginas - sim, leram bem - dedicadas a este assunto. O que faz com que seja justo dizer que cada um destes tomos que a Ala dos Livros tem editado é, na verdade, constituído por dois livros: o livro propriamente dito e o "livro sobre o livro" que, aliás, até foi editado de forma separada originalmente. Por este motivo, não me canso de dizer que esta é uma das melhores edições de banda desenhada em Portugal dos últimos anos. Um objeto obrigatório para fãs e colecionadores.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Focando-me na história deste O Inferno, O Silêncio, a narrativa leva-nos até à Nova Orleães dos anos 50, em pleno ambiente festivo do Mardi Gras. Desta vez, o nosso detetive John Blacksad é contratado por Fausto, um produtor de jazz gravemente doente, que lhe pede ajuda para encontrar Sebastian, um pianista talentoso desaparecido há vários meses. O caso parece simples à partida, mas rapidamente revela camadas mais profundas e inquietantes. 

Acompanhado pelo inseparável Weekly, Blacksad mergulha então num universo marcado pela música, pela droga, pelos excessos e por muitos segredos por desvendar. Na verdade, todas as personagens escondem mais do que aquilo que, à partida, aparentam ser. Mas isso é, já sabemos, algo comum às histórias de Blacksad.

Díaz Canales constrói novamente um belo enredo noir sólido, com a dose certa de complexidade para uma história de 58 páginas, cheio de tensão emocional e de momentos de grande humanidade, em que o mistério serve também para explorar temas como a solidão, a dependência e, especialmente, a procura de redenção.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Para mim, que acompanho Blacksad desde o primeiro volume, este álbum volta a demonstrar porque é que esta série ocupa um lugar tão especial na banda desenhada contemporânea. Há um nível de consistência impressionante na forma como Díaz Canales e Guarnido conseguem combinar histórias policiais envolventes com retratos humanos cheios de nuances. Especialmente tendo em conta que as personagens da história são antropomorfizadas. Ou seja, têm cara - e, por vezes, corpos - de animais, embora o universo criado não possa ser mais humano, com todos os defeitos e virtudes inerentes que nos caracterizam enquanto espécie.

Uma das coisas que mais aprecio neste quarto tomo da série é a sua coesão, pois tudo parece encaixar naturalmente: a cidade escolhida, o mardi gras, o universo do jazz, as drogas e o próprio tom melancólico da narrativa. 

E, claro, as personagens também são outro dos grandes trunfos do livro, pois mesmo aquelas que aparecem durante poucas páginas, acabam por deixar a sua marca. Como é habitual em Blacksad, ninguém é totalmente herói nem totalmente vilão. É claro que há vilões e personagens hediondas, mas mesmo as personagens boas apresentam sempre fragilidades, motivações contraditórias e zonas cinzentas que tornam cada figura mais credível e interessante.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
John Blacksad, por sua vez, continua a ser um protagonista fascinante precisamente porque não é infalível. E neste tomo em particular, até chega, por mais de uma vez, a quase perder a vida. A sua inteligência e persistência convivem com dúvidas, frustrações e um certo desencanto que o tornam profundamente humano, apesar da natureza antropomórfica do universo em que vive. E depois temos a personagem irresistível Weekly - que teve a honra de receber um spin off recentemente - e que aqui aparece especialmente divertido.

Díaz Canales demonstra mais uma vez o seu talento para escrever histórias policiais que respeitam os códigos clássicos do género noir, mas que conseguem ir além deles. A investigação mantém o leitor interessado, mas o verdadeiro impacto surge na forma como os temas emocionais são trabalhados ao longo da narrativa.

Visualmente, o livro continua a ser um autêntico mimo. O Inferno, O Silêncio é mais uma demonstração do talento extraordinário de Juanjo Guarnido! Cada página parece ter sido criada com um cuidado quase obsessivo, desde a composição das vinhetas até à expressão das personagens. É daquelas obras em que vale a pena parar frequentemente apenas para admirar a arte ilustrativa.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Aliás, acho que é justo dizer-se que as ilustrações do autor não se limitam a ilustrar o argumento. Ao invés, dão-lhe uma dimensão adicional, enriquecendo cada cena com uma quantidade impressionante de detalhe e expressividade. A Nova Orleães dos anos 50 ganha vida através de ruas apinhadas de gente, clubes de jazz envoltos em fumo, desfiles coloridos de carnaval e ambientes noturnos carregados de atmosfera. Cada vinheta transmite uma sensação de movimento e de autenticidade que faz com que o leitor se sinta verdadeiramente imerso naquele mundo. Como não adorar?

Guarnido continua também a impressionar pela forma como trabalha as personagens antropomórficas. Apesar de serem animais, nunca deixam de parecer profundamente humanas nas suas emoções, gestos e expressões. E é precisamente aqui que Juanjo Guarnido volta a lembrar-me porque é o meu ilustrador de banda desenhada preferido. O domínio da anatomia animal, a expressividade dos rostos, o trabalho de luz e sombra e a utilização da cor atingem um nível que poucos autores conseguem igualar. 

As cores, em aguarela, são ainda um espetáculo à parte, como se o prato já não estivesse cheio com a bela história noir, com as memoráveis personagens e com os belíssimos desenhos. Guarnido é verdadeiramente incrível!

No final, Blacksad - O Inferno, O Silêncio não é necessariamente o álbum mais explosivo da série, mas é um dos mais maduros e emocionalmente ricos. Com uma história bastante coesa, personagens marcantes e uma componente visual absolutamente deslumbrante, este tomo reafirma tudo aquilo que faz de Blacksad uma série tão especial para mim desde o primeiro número. E é mais uma prova de que Díaz Canales e Guarnido formam uma das duplas criativas mais extraordinárias da banda desenhada moderna.


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Vinheta 2020 tem nova imagem feita por autor nacional!



Assim tem sido desde que comecei este projeto: muda o semestre e muda a imagem do blog Vinheta 2020!

Então, para início deste segundo semestre de 2026, que começa hoje, a nova imagem deste espaço foi gentilmente feita pelo Pedro N., um dos autores do muito - e justamente - aplaudido Tales From Nevermore.

Para a imagem do blog, Pedro N. desenhou de modo verdadeiramente espetacular a incontornável personagem de Sandman, criada por Neil Gaiman.

O autor junta-se assim ao belo conjunto de autores que já ilustraram a imagem do Vinheta 2020: João Mascarenhas, Xico Santos, Diogo Carvalho, Paulo J. Mendes, Jorge Coelho, Henrique Gandum, Daniel Maia, Joana Afonso, Ricardo Santo, Luís Louro, Osvaldo Medina e Telmo Estrelado.

Obrigado, Pedro N.!

Análise: Três Irmãs

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska

Uma das novidades mais curiosas - pela originalidade do projeto, diria - foi a recente aposta da editora A Seita numa nova coleção que procura editar obras de autores polacos e que goza de uma parceira entre a editora portuguesa e a editora polaca Timof Comics e o Festival Internacional de Comics de Łódź. A coleção chama-se Bursztyn/Âmbar e já inclui três obras editadas por cá: Heksa: A Bruxa, de Kasia Witterscheim e Xulm; Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski; e este Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska.

Sem qualquer referência sobre a obra ou sobre a autora, foi com curiosidade que parti para esta leitura que nos conta a história de três irmãs que se veem obrigadas a viver sozinhas depois da morte precoce dos seus pais. Uma delas, Olza, é maior de idade, Lena tem 17 anos e a mais nova das irmãs, Dominika, sofre da "Doença de Werdurski", uma doença degenerativa que faz com que a pequena Domi não possa falar, nem andar, tendo que passar a totalidade dos seus dias na cama e a requerer de cuidados continuados. As duas irmãs mais velhas tentam conciliar o trabalho com os cuidados prestados a Domi. A vida não se lhes afigura fácil, mas num dia recebem a notícia que beneficiarão de uma herança de uma tia afastada. Isto permite às irmãs contemplarem a hipótese de colocarem Dominika num centro de reabilitação.

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
Mas esta hipótese não será fácil de alcançar por diversos motivos que não vos revelo, para não vos estragar o prazer da leitura.

Desde o início, a autora mergulha-nos num ambiente de instabilidade e perda, criando uma narrativa que oscila entre a dureza da realidade e a resiliência das personagens, principalmente de Lena. Ao mesmo tempo, mostra-nos como a divergência entre as irmãs mais velhas acaba por afetar as suas vidas, quer a nível amoroso, quer a nível profissional, quer a nível de relacionamento familiar ou quer a nível de projeções futuras. É, aliás, natural que uma situação tão delicada como uma doença degenerativa deste nível faça surgir tensões inevitáveis que se revelam perante a adversidade.

Uma das características mais marcantes do livro é a forma como Poszepczyńska constrói as personagens. Cada irmã possui uma identidade própria, com traços psicológicos bem definidos, o que permite ao leitor compreender as suas escolhas e conflitos internos. Essa individualização reforça a credibilidade da narrativa.

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
Todavia, como ponto menos positivo, senti em vários momentos que certos eventos na história são ali colocados um pouco "à força" - como, por exemplo, a questão da herança - fazendo com que os mesmos sejam meras muletas narrativas, com o propósito único de levar a história para onde a autora pretende. Mas, lá está, são algo forçadas, o que retira alguma credibilidade ao todo. Aliás, a primeira parte da história até me estava a deixar um pouco consternado com a mesma, devo admitir. Felizmente, porém, creio que, algures a meio do livro, a autora agarra melhor o enredo, centrando-se naquilo que importa e acabando por nos dar um livro bom.

Quanto aos desenhos, Anna Poszepczyńska apresenta-nos um estilo de traço bastante moderno e agradável. Por vezes, o desenho pode parecer demasiadamente pouco aprumado, uma vez que é especialmente assente no esquisso - sendo até frequente que várias personagens não apresentem narizes, bocas ou olhos em planos mais afastados - o que até poderia sugerir que estamos mais próximos de um storyboard do que de uma arte final, tal não é a velocidade e simplicidade do traço. Os cenários também se apresentam algo vazios e portadores de poucos detalhes. Contudo, com a colocação das suaves e agradáveis cores nos desenhos, a experiência acaba, ainda assim, por funcionar. 

Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita
E há que dizer que, em termos de expressividade, Anna Poszepczyńska é exímia na concepção das suas personagens. E isso seria algo obrigatório para que nós, leitores, pudéssemos criar empatia e proximidade com as vivências destas três irmãs. O que acontece facilmente. Cada olhar, cada sorriso, cada expressão de desespero ou esperança é aqui representada de um modo muito convincente.

Este é um daqueles livros que poderia verdadeiramente ter sido "espetacular". Mas pelos motivos que aponto acima, nomeadamente o facto da história poder ter sido mais bem arquitetada ou pela existência de desenhos que poderiam ser mais aprimorados, não o é. É uma daquelas obras que acaba por ser inglória, pois sente-se que havia potencial para criar algo mais grandioso. Embora, claro, seja uma boa leitura que vos recomendo a fazer. E concedo que, especialmente mais para o final, a obra revela-se interessante e valiosa, deixando-nos com uma boa experiência. Gostei particularmente como a autora resolveu e concluiu a história, de modo realista e, ao mesmo tempo, impactante.

A edição é em capa mole baça, com badanas, e bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também estão bem feitas. No final, há três páginas com esboços e estudos de personagens.

Em suma, Três Irmãs é uma obra tocante e sensível sobre os sacrifícios e as escolhas que fazemos - ou que nos vemos forçados a fazer - para apoiar aqueles que nos são próximos, mesmo que isso, muitas vezes, nos afaste da caminhada que havíamos pensado para nós mesmos. É um livro agradável, que merece ser lido, mesmo que, com um pouco mais de trabalho da autora, pudesse ter ficado ainda melhor.


NOTA FINAL (1/10):
7.8



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Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - A Seita

Ficha técnica
Três Irmãs
Autora: Anna Poszepczyńska
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Março de 2026



Análise: A Aranha de Mashhad


A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani

Foi com este A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido, de Mana Neyestani, que a editora Levoir iniciou a sua mais recente Coleção de Novelas Gráficas. Uma boa escolha, parece-me, tendo em conta que já é um autor conhecido dos portugueses - tendo a mesma editora lançado anteriormente as belas obras Uma Metamorfose Iraniana e Os Pássaros de Papel. Mana Neyestani é mais um dos autores que se juntam ao coro de vozes que procuram dar destaque às práticas político-sociais presentes no Irão. 

Depois de, em Uma Metamorfose Iraniana, o autor nos ter dado um sentido e marcante relato biográfico onde ficámos a conhecer a história real que levou ao seu encarceramento de apenas e só porque publicou um cartoon que não caiu nas boas graças de outrem; e de, em Os Pássaros de Papel, o autor ter abordado a situação que se vive nas montanhas do Curdistão iraniano, na fronteira com o Iraque, em que são efetuadas perigosas expedições de transporte por pessoas extremadamente pobres que se veem forçadas, para obter algum dinheiro, a transportar às costas, em "mochilas" verdadeiramente gigantes, muitos materiais contrabandeados; este A Aranha de Mashhad fala-nos da história real de Saïd Hanaï, um homem aparentemente normal e sem quaisquer antecedentes criminais que, certo dia, decidiu eliminar prostitutas em nome da religião, na cidade santa xiita de Mashhad, no nordeste do Irão. Foram 16 as prostitutas assassinadas.

A inspiração do autor surgiu após assistir ao documentário And Along Came a Spider, do jornalista iraniano-canadense Maziar Bahari, que abordava este caso ocorrido entre os anos de 2000 e 2001.

Se o caso é interessante, a abordagem de Mana Neyestani é ainda mais interessante. Em vez de nos contar a história exata do que aconteceu, o autor opta por nos apresentar uma narrativa em formato de entrevista, em que Roya Karimi Majd conduz uma entrevista ao agora presidiário, e condenado à pena de morte, Saïd Hanaï. Trata-se de uma entrevista que procura dar a versão dos factos do assassino, de modo a levar-nos a perceber quais foram, realmente, as suas motivações para, no espaço de pouco mais de um ano, tirar a vida a 16 mulheres.

É-nos dada também a visão dos mesmos factos por parte da mulher e filho de Saïd Hanaï e do juiz Masouri que conduziu o caso judicial. É reproduzida, ainda, o dia na vida de Leila, uma das vítimas, que culminou com o contacto e confronto com Saïd Hanaï. 

O que mais impressiona é que este assassino seja um homem completamente sereno, que não se procura esquivar ou esconder daquilo que fez, mas, ao invés, não tem pruridos em confirmar os seus assassinatos e passar a ideia que os fez por um motivo maior: o de Alá não tolerar a prostituição. No fundo, era como se este homem considerasse que estava a fazer o trabalho certo, a função divina de eliminar as pessoas que, por serem prostitutas, não merecerem viver neste mundo.

Mais incrível ainda - especialmente aos olhos de um ocidental - é que a mulher e filho de Saïd Hanaï considerem que aquilo que este homem fez, não só é tolerável como até digno de louvores. E embora Saïd tenha sido preso e condenado, os locais passaram mesmo a olhar para ele como um exemplo a seguir e alguém que procurava fazer do mundo um lugar melhor. E mais limpo. Mesmo que, para isso, matasse quase duas dezenas de mulheres. É isto que um estado que faz brainwashing com os seus cidadãos, através de uma religião austera e castradora, faz à mentalidade e cultura vigentes. É triste de ler, mas é importante que livros como este A Aranha de Mashhad continuem a chamar a atenção do mundo para o atraso cultural que o Irão (ainda) vive.

O final, de cariz poético e político, é verdadeiramente espetacular. Funciona como um cartoon certo para concluir uma história tão impactante e triste como aquela que nos é dada neste livro. Talvez a causa do Irão seja mesmo uma causa perdida... pelo menos durante as próximas décadas, pois é difícil perceber como é que se altera um quadro de valores tão profundamente enraizado na população do país.

O estilo de desenho de Mana Neyestani mantém-se fiel àquilo que já conhecemos. Apresenta uma linha expressiva, a preto e branco, que recorre a hachuras e que é simultaneamente simples e carregada de tensão emocional. As personagens aparecem muitas vezes com feições exageradas ou ligeiramente distorcidas, criando um efeito que sublinha a opressão das situações retratadas. Funciona muito bem, na minha opinião.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. O livro abre com uma introdução do próprio Mana Neyestani e fecha com um epílogo onde se dão breves notas adicionais sobre o assassino Saïd Hanaï, a jornalista Roya Karimi Majd e o próprio Maziar Bahari, autor do documentário original e que aqui também aparece como personagem, sendo a pessoa responsável por filmar a entrevista a Saïd Hanaï.

Em suma, A Aranha de Mashhad é mais um belo livro de Mana Neyestani que consegue fazer-nos parar para refletir sobre as atrocidades que, dia após dia, continuam a ser feitas no Irão, ao mesmo tempo que vai um pouco mais longe e nos mostra que mudar a mentalidade profundamente doutrinada presente no Irão, em que os direitos humanos são menos importantes do que as escrituras religiosas sobre uma personagem fictícia como Alá, é algo virtualmente impossível. Pelo menos, para já.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



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Ficha técnica
A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão Desconhecido
Autor: Mana Neyestani
Editora: Levoir
Páginas: 164, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240m
Lançamento: Maio de 2026