sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Análise: Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez

Se há capas que enganam, a capa deste Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, mais uma das obras inseridas na Coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir e do jornal Público, é uma delas. Trata-se de uma capa lindíssima, de belo desenho e - ainda mais - belas cores que muito me deixou com vontade de ler o livro. O próprio título da obra, fazendo referência ao autor e à sua obra maior, parecia prometer um mergulho na criação de O Principezinho. Contudo, depois de feita a leitura, posso dizer-vos que, não sendo um mau livro, este Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho está longe de ter respondido às minhas expectativas. O que é pena, tendo em conta que a propósito do 80º aniversário da publicação original de O Principezinho esta seja já a segunda banda desenhada editada em Portugal. A primeira foi O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, de Philippe Girard, pela ASA, que também ficou bastante aquém do esperado.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
O argumento de Pierre-Roland Saint-Dizier procura construir uma biografia de Antoine de Saint-Exupéry a partir dos anos em que o futuro escritor alimentava o sonho de se tornar piloto. Acompanhamos a sua entrada no mundo da aviação, as amizades que foi estabelecendo e alguns dos episódios mais marcantes de uma vida que viria a ser tão extraordinária quanto atribulada.

O problema é que o livro nunca parece decidir verdadeiramente qual é a história que quer contar. Será uma biografia de Saint-Exupéry? Será uma exploração da génese de O Principezinho? Será uma homenagem à aviação pioneira do início do século XX? Ao tentar ser tudo isso ao mesmo tempo, com especial ênfase nesta última, acaba por não se afirmar plenamente em nenhuma dessas dimensões.

A estrutura narrativa revela precisamente essa indecisão. Em vez de uma progressão sólida e cuidadosamente construída, encontramos uma sucessão de episódios mais ou menos autónomos que vão desfilando perante o leitor. Há acontecimentos, há encontros e há mudanças de cenário, mas raramente existe a sensação de uma linha dramática robusta que dê unidade ao conjunto.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Especialmente na primeira parte da obra aquilo que acompanhamos é um relato carregado de informações não relevantes assim e quase burocrático dos primórdios da vida de Saint-Exupéry enquanto aviador. Vemo-lo ingressar na empresa de correio aéreo Latécoère, que mais tarde viria a transformar-se, primeiro, na célebre Aéropostale e, depois, na Air France. Nesse contexto, o jovem piloto é enviado para Cap Juby, no coração do Saara, onde enfrenta os desafios inerentes às primeiras experiências da aviação comercial e postal. Embora estes episódios possuam interesse histórico, a forma como são apresentados acaba por se revelar excessivamente informativa e pouco envolvente. O livro preocupa-se em registar factos, datas e personagens, mas nem sempre consegue transformar esse material numa narrativa emocionante. Muitas vezes temos a sensação de estar perante uma enumeração de acontecimentos em vez de uma verdadeira história.

Essa tendência agrava-se à medida que novas figuras entram em cena. Surgem inúmeras personagens secundárias, algumas delas apresentadas de forma tão breve que mal deixam impressão. Fica a sensação de que muitas aparecem mais por uma questão de rigor factual ou enciclopédico do que por desempenharem uma função relevante na construção dramática da obra. O argumenista não apresenta, portanto, aquele poder de síntese e de capacidade para perceber o que é importante referir e o que é acessório.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Mas onde, quanto a mim, o livro mais falha, é na relação prometida pelo próprio título. Há muito Saint-Exupéry neste livro e pouco Principezinho. Não que faltem referências à obra maior do autor, mas estas parecem frequentemente introduzidas de forma artificial, como se o argumento se recordasse ocasionalmente da promessa feita ao leitor através da capa e título da obra e procurasse cumpri-la à pressa e à bruta.

Na verdade, fala-se muito, mas diz-se pouco. Há várias alusões que procuram estabelecer pontes entre a vida do escritor e a criação da sua personagem mais famosa, sim, mas essas ligações raramente são desenvolvidas com profundidade suficiente para produzirem uma reflexão verdadeiramente esclarecedora. Se, afinal de contas, “o essencial é invisível aos olhos” é pena que também acabe algo invisível nesta obra. Talvez, em detrimento de sabermos (todas?) as vicissitudes que Antoine Saint-Exupéry enfrentou para ser piloto de aviação, fosse preferível mergulharmos mais na forma como pensou e projetou O Principezinho. Digo eu.

A própria inclusão de um caderno final, denominado "A Origem do Principezinho" parece dar razão ao que acabo de escrever. Este conjunto de extras, que inclui texto e desenhos, faz uma bela ponte entre a BD, propriamente dita, e a obra de Saint-Exupéry, oferecendo-nos - e bem - aquilo que a banda desenhada não conseguiu oferecer. Acaba por ser um bom complemento ao livro, mas que, paradoxalmente, revela que a BD andou muito às voltas do que aquilo que realmente interessava.

Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público
Só mais no final da obra é que o argumentista se procura aproximar mais do universo de O Principezinho. Mas já vai tarde, diria, pois torna-se uma aproximação forçada e pouco convincente.

Em termos de desenho, Cédric Fernandez oferece-nos um trabalho competente, ainda que irregular. Existem vinhetas muito bem conseguidas, particularmente nas paisagens africanas e nas sequências ligadas à aviação, onde o sentido de escala e de movimento se faz sentir com eficácia. No entanto, essas qualidades coexistem com desenhos que mereciam maior aprumo visual. O autor parece, por vezes, esconder essa fragilidade através da utilização de vinhetas mais pequenas, que permitem um traço mais esboçado e menos detalhado, mas essa opção não deixa de ser facilmente notada pelo olho atento.

Quanto à edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação. Senti que algumas das páginas apresentam os desenhos ligeiramente desfocados. Não é algo que salte sempre à vista ou que ponha em causa a boa leitura da obra, mas é algo com que me deparei mais vezes do que o conveniente. O caderno de extras, com 18 páginas, já por mim mencionado, é um ótimo acrescento à edição. É daqueles extras que, além de dar mais algumas informações sobre a obra, ainda consegue o feito de melhorar a obra. Nota positiva para o facto deste livro reunir os três tomos em que a obra foi originalmente editada. Boa opção da Levoir. 

Concluindo, não quero ser demasiado negativo. Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho não é uma má leitura nem um livro destituído de interesse. Tem valor enquanto retrato biográfico e oferece alguns momentos visualmente apelativos. Ainda assim, permanece a sensação de oportunidade perdida. Ao querer abarcar demasiados acontecimentos, demasiadas personagens e demasiados objetivos em simultâneo, os autores acabaram por construir uma obra dispersa e episódica, que raramente encontra o foco necessário para se tornar verdadeiramente memorável. É um livro agradável, mas fica a impressão de que passou muito perto de ser algo bastante mais marcante. E isso é inglório.


NOTA FINAL (1/10):
7.9



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Saint-Exupéry e a Origem do Principezinho, de Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez - Levoir e Público

Ficha técnica
Saint-Exupéry e a origem do Principezinho
Autores: Pierre-Roland Saint-Dizier e Cédric Fernandez
Editora: Levoir
Páginas: 176, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Agosto de 2026

Sai hoje com o público o novo livro de Zerocalcare!



Para aqueles que, como eu, adoraram Kobane Calling - igualmente editado por cá pela Levoir - ou as séries da Netflix de Zerocalcare, esta é uma fantástica notícia!

Sai hoje, com o jornal Público, No Sleep Till Shengal, nova obra do autor italiano e penúltimo livro da Coleção de Novelas Gráficas lançada pela Levoir e pelo jornal Público.

Bem sabem que não gosto de opinar sobre livros que ainda não li... mas, no caso em questão, tenho quase a certeza de que vou gostar muito, já que sou um confesso admirador da obra de Zerocalcare.

Mais abaixo, deixo-vos com a nota de imprensa da editora e com algumas imagens promocionais.
No Sleep Till Shengal, de Zerocalcare

Na reta final da colecção Novela Gráfica, a Levoir e o Público editam a 9 de Outubro No Sleep till Shengal, do autor italiano Zerocalcare.

Zerocalcare é um cartoonista italiano cujas bandas desenhadas alcançaram um estatuto icónico na última década. O seu traço é excelente, mas foi com a sua escrita que conquistou a fama. As suas histórias são divertidas de ler e, ao mesmo tempo, profundas e vibrantes.

Após o sucesso internacional de Kobane Calling, traduzido para 15 línguas, incluindo a portuguesa, a Levoir editou-o em 2024, Zerocalcare regressa na Primavera de 2021 ao Médio Oriente.
Viaja para o norte do Iraque, até ao seio da comunidade ezidi, um povo que sobreviveu ao genocídio do ISIS em 2014 e que se encontra sob a proteção das milícias curdas, cuja autonomia está ameaçada pelas tensões internacionais. 

O objetivo é documentar as suas condições de vida e a sua luta. 

Esta é a crónica de um momento geopolítico específico, em que um punhado de pessoas se opõe ao poder esmagador daqueles que chamam de «terrorismo» qualquer tentativa de resistência, enquanto o sonho do confederalismo democrático corre o risco de desaparecer para sempre perante a indiferença do Ocidente.

No Sleep till Shengal revela-se mais dramático do que a sua anterior reportagem contada em Kobane Calling. Zerocalcare explica o porquê: É mais dramático por duas razões.
"As pessoas que encontrei em Shengal parecem oprimidas por um manto de dor e trauma que, pelo contrário, não tinha percebido com a mesma intensidade na Síria. Não porque lá não tivessem sofrido ofensivas do ISIS, massacres ou lutos familiares, mas em Shengal pareceu-me que havia algo de diferente, muito mais coletivo."

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Ficha técnica
No Sleep Till Shengal
Autor: Zerocalcare
Editora: Levoir
Páginas: 208, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 16,90€

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

A ASA acaba de publicar "Terra ou Lua"!



A ASA acaba de lançar uma das suas grandes apostas de BD para a segunda metade de 2026!

Falo de Terra ou Lua, de Jade Khoo, uma obra com quase 300 páginas, que no estrangeiro tem vindo a conquistar o consenso da crítica e leitores, tendo inclusive sido nomeada aos prémios BD FNAC – France Inter.

Este é o primeiro de dois tomos, sendo que a segunda parte da obra é esperada para o primeiro semestre de 2027.

O livro já se encontra à venda nas livrarias portuguesas.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Terra ou Lua, de Jade Khoo

Por mais que Otelo repita isso incessantemente, o ato que acabou de cometer é irreparável. 

Com apenas sete anos, ele, que só tinha olhos para os pássaros e as suas promessas de fuga, acabou de matar o pai. 

Por trás desta tragédia familiar, muitos segredos enterrados, uma infância violada e a sombra de um legado cujo alcance ele ainda desconhece.


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Ficha técnica
Terra ou Lua
Autora: Jade Khoo
Editora: ASA
Páginas: 296, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 29,1 x 22 mm
PVP: 36,90€

Análise: No Rasto de Blueberry

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
No Rasto de Blueberry, de vários autores

No Rasto de Blueberry, uma das mais recentes apostas da editora ASA, surge como uma celebração assumida dos 60 anos de Blueberry, uma das personagens mais emblemáticas da banda desenhada franco-belga. Criado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud, Mike Steve Blueberry marcou gerações de leitores e tornou-se uma referência incontornável do western em BD. Quando falamos em "banda desenhada de cowboys" é bem provável que Blueberry seja a primeira série a vir-nos à cabeça. Ou uma das primerias, vá. E este álbum coletivo procura assinalar essa longevidade através da reunião de numerosos autores consagrados, convidados a prestar a sua homenagem a uma série que continua a influenciar criadores e leitores em todo o mundo.

A principal virtude deste livro reside precisamente na sua natureza de homenagem. Em vez de tentar reinventar ou subverter o universo de Blueberry, os diferentes autores que participam nesta antologia optam por celebrar os elementos que fizeram da personagem um ícone: a aventura, o sentido épico, os cenários do Oeste americano e o carisma de um protagonista que sempre se distinguiu pela sua personalidade complexa e pouco convencional. Por vezes parecia pautado por uma forte código de valores, noutras situações o Tenente Blueberry parecia um verdadeiro "badass". E essa é uma dicotomia que sempre apreciei na série.

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
Neste No Rasto de Blueberry a diversidade de vozes criativas é impressionante. Autores como Enrico Marini, Dominique Bertail, Fred Duval, Matz, Corentin Rouge ou Olivier Taduc juntam-se a muitos outros nomes reconhecidos para nos oferecer histórias curtas e ilustrações que, logicamente, refletem diferentes sensibilidades artísticas. Mesmo assim, e apesar da variedade de abordagens, existe uma evidente preocupação de todos os autores envolvidos em respeitar o legado deixado por Jean-Michel Charlier e Jean Giraud.

As narrativas reunidas nesta antologia exploram caminhos distintos. Algumas procuram preencher pequenas lacunas da cronologia de Blueberry, enquanto outras desenvolvem novas situações inspiradas em períodos ou álbuns particularmente marcantes da série. Esta estratégia é bem-vinda, uma vez que permite revisitar momentos familiares para os leitores mais antigos e conhecedores da série, ao mesmo tempo que oferece perspetivas inéditas sobre o universo da personagem.

Como acontece frequentemente em projetos deste género, a qualidade das histórias revela algumas oscilações. Naturalmente, e quiçá consoante os gostos de cada um, há episódios mais inspirados e outros menos memoráveis, mesmo sendo verdade que se sente que os autores abordaram o desafio com respeito e genuína admiração pela obra original. E isso é especialmente verificável quando, no início de cada história, nos é dado um breve comentário de cada um dos autores participantes em que os mesmos nos revelam o quão importante foi Blueberry nas suas vidas.

No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa
Uma das fragilidades da obra - embora já fosse totalmente expectável - é que a limitação imposta pelo formato curto das histórias impede, naturalmente, um desenvolvimento mais aprofundado das tramas e das personagens. Muitas histórias terminam precisamente quando começamos a desejar uma exploração mais extensa das suas premissas. Mas, bem, isso é algo comum em antologias com histórias curtas.

Por outro lado, um dos aspetos mais positivos do álbum é a forma como preserva o espírito da série clássica. Quer do ponto de vista narrativo, quer na representação visual de Blueberry e do Oeste americano, existe uma preocupação constante em manter a identidade da criação original. 

É, contudo, na componente gráfica que No Rasto de Blueberry atinge alguns dos seus momentos mais marcantes. O livro tem muitos momentos de alto nível, com alguns autores a aplicarem-se verdadeiramente na forma como homenageiam o trabalho incrível de Jean Giraud. Entre os quais, destaco os de Enrico Marini, Dominique Bertail, Vincent Perriot e de Paul Gastine que é, a meu ver, o ilustrador que nos oferece, em termos de desenho, o melhor contributo do álbum. Nota ainda para a inclusão de ilustrações de vários autores de renome como Blutch, Milo Manara ou Ralph Meyer. A capa é da autoria de Mathieu Lauffray.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior, boa encadernação e boa impressão. No início, há ainda um texto de duas páginas sobre Blueberry e os seus autores.

Em suma, No Rasto de Blueberry cumpre plenamente o seu objetivo: homenagear um dos cowboys mais famosos da história da banda desenhada e assinalar com dignidade os 60 anos de existência de uma personagem verdadeiramente icónica, quer marcou gerações e cujo potencial aventureiro não se encontra ainda extinto.


NOTA FINAL (1/10):
8.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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No Rasto de Blueberry, de vários autores - ASA - LeYa

Ficha técnica
No Rasto de Blueberry
Autores: Vários
Editora: ASA
Páginas: 128, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Setembro de 2026

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Penguin prepara-se para editar BD multipremiada!




A editora Penguin prepara-se para editar, no próximo dia 19 de outubro, a obra Os Meus Fantasmas, da americana Tessa Hulls!

Esta é uma volumosa banda desenhada autobiográfica, com 400 páginas, que foi vencedora de variados prémios e muito bem recebida pela crítica, quando foi originalmente editada em 2024.

O livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Deixo-vos ainda com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.





Os Meus Fantasmas, de Tessa Hulls

Vencedor do Prémio Pulitzer, do prémio Eisner e do National Book Critics Awards

Comic do Ano: Time · The Guardian · NPR · Library Journal · Kirkus Reviews · New York Public Library · Indigo

Uma comovente e arrebatadora memória gráfica que atravessa três gerações de mulheres chinesas, explorando, com uma extraordinária sensibilidade, o amor, o luto, o exílio e a identidade.

Na sua aclamada estreia literária, Tessa Hulls acompanha o eco da história da China ao longo de três gerações de mulheres da sua família.

A avó de Tessa, Sun Yi, era jornalista em Xangai quando a vitória comunista de 1949 alterou para sempre o rumo da sua vida. Forçada a fugir para Hong Kong com a filha pequena, escreveu um livro de memórias sobre a perseguição de que foi alvo e a sua luta pela sobrevivência que se tornou um enorme sucesso editorial. Pouco tempo depois, sofreu um colapso mental do qual nunca recuperou.

Durante a sua infância, Tessa vê a mãe e a avó debaterem-se com o peso de traumas e doenças mentais. Determinada a escapar ao medo sufocante da mãe, Tessa parte para os lugares mais remotos do mundo. Mas, ao completar trinta anos, percebe que a sua vida errante se parece mais com uma fuga do que com a liberdade. Decide então regressar e enfrentar a história que moldou a sua família.
Fruto de uma investigação exaustiva e ilustrado com extraordinária sensibilidade, Os Meus Fantasmas é o regresso de Tessa Hulls às suas origens: uma viagem intensa e profundamente comovente ao coração de uma família, que expõe o medo e o trauma que assombram gerações, e o amor que as mantém unidas.

Os elogios da crítica:

«A memória gráfica de Tessa Hulls traça, com uma perspicácia emocional avassaladora, a linha entre a história da China sob o regime de Mao Tsé-Tung — um período de mortandade e agitação política quase inimagináveis — e os fantasmas do passado da sua família que ela acabou por desenterrar… O livro de Hulls é um retrato impressionante desta linhagem de trauma.
Ganha vida através dos seus desenhos assombrosamente vívidos, nos quais o passado é frequentemente uma presença surrealista e espectral que invade constantemente o presente.» 
San Francisco Chronicle

«Uma história multigeracional repleta de drama, intriga e desgosto… Um triunfo da narrativa em banda desenhada.»
Seattle Times

«Embora Os Meus Fantasmas pertença a uma longa tradição de não ficção gráfica que define subgéneros, incluindo Persépolis, a voz narrativa de Hulls é cativante de uma forma singular porque combina a sua excentricidade de cartoonista com o olhar de uma artista plástica para a composição das páginas, além de uma total disposição para mergulhar em temas densos sem procurar desfechos fáceis.»
Los Angeles Review of Books

«Pormenorizado, vulnerável e pungente.»
Booklist

«Do início ao fim, este livro é uma revelação… Uma obra que brilha com discernimento, perspicácia e uma recusa em contentarse com respostas simples.»
Kirkus Reviews

«A estreia desta memória gráfica épica e elegantemente desenhada de Tessa Hulls debate-se com os longos tentáculos do trauma, acompanhando três gerações da sua família desde a China de Mao até Hong Kong nos anos sessenta e, eventualmente, até à atualidade no norte da Califórnia… O resultado é uma obra reveladora, tão multifacetada como a história que explora.»
Publishers Weekly

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Ficha técnica
Os Meus Fantasmas
Autora: Tessa Hulls
Editora: Penguin
Páginas: 400, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 203 x 249 mm
PVP: 28,85€

Análise: A Armação

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
A Armação, de Daniel Silvestre

O 10º lançamento da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público trouxe-nos a edição de uma obra de autoria portuguesa, facto que é de louvar e que já não acontecia, se a memória não me atraiçoa, desde a primeira coleção em que se editou Beterraba: A Vida numa Colher, de Miguel Rocha.  

O livro em questão é este A Armação, de Daniel Silvestre, uma obra que eu já conhecia bastante bem, ainda do tempo em que a mesma foi premiada na categoria de Melhor Publicação Independente nos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, em 2024. Originalmente, a obra havia sido publicada pelo Centro de Língua Portuguesa Camões IP – Bruxelas e pela Bedeteca de Beja, no âmbito da primeira Residência Artística de Banda Desenhada em Bruxelas, em 2023.

Este é um belo livro, carregado de poesia, com um ambiente muito próprio que, em boa altura, a Levoir decidiu editar por cá, assegurando, desta forma, que o livro pode chegar a um público maior do que aquele que, naturalmente, conseguiu impactar na sua primeira edição independente.

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
Partindo das memórias do seu avô, José Silvestre, o autor constrói uma narrativa profundamente humana e enraizada num Portugal que já desapareceu. A história centra-se numa viagem ocorrida nos anos 30 do século XX. José, então com apenas dez anos, é encarregado de transportar sozinho um enorme peixe de 150 Kgs entre Porto Novo e Torres Vedras, recorrendo apenas à ajuda de um burro, que transporta o enorme peixe às costas. 

O grande mérito do livro está precisamente na forma como transforma um acontecimento aparentemente banal numa experiência carregada de significado. A viagem física do jovem José acaba por se transformar, também, numa viagem emocional, onde os receios, as fantasias e a imaginação de uma criança desempenham um papel central na narrativa. Este peixe colossal que o jovem José transporta assume, portanto,  uma dimensão quase mítica, como se fosse uma criatura saída de um conto popular ou de uma lenda transmitida entre gerações. O real e o imaginado cruzam-se constantemente de forma muito natural, o que me remeteu para um dos meus filmes preferidos, Big Fish, de Tim Burton. 

Ao mesmo tempo, este A Armação funciona como um retrato atento da vida dos pescadores portugueses durante a primeira metade do século XX. Sem nunca cair num tom excessivamente documental, Daniel Silvestre consegue transmitir a dureza das condições de vida, a precariedade económica e o esforço físico exigido por um quotidiano que hoje parece distante, mas que moldou (e ainda molda?) gerações inteiras de pescadores.

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
É uma história que avança sem pressas, permitindo que o leitor absorva o ambiente, as paisagens e os estados de espírito das personagens. Essa abordagem mais contemplativa encaixa particularmente bem na temática da obra. Afinal, A Armação fala de um tempo em que as distâncias eram percorridas a pé, em que o trabalho começava cedo e em que cada tarefa exigia uma dedicação difícil de imaginar nos dias de hoje, em que nos preocupamos em ter uma vida mais despreocupada - se é que esta minha última afirmação faz algum sentido.

Por outro lado, A Armação uma obra bastante curta, já que conta apenas com 20 páginas de banda desenhada. E, talvez por isso, nos deixe com a sensação de "saber a pouco". Parece que estamos perante uma história e um universo que mereciam mais páginas. Mesmo assim, é um trabalho que consegue cumprir bem os seus pressupostos narrativos e, acima de tudo, revela uma coisa muito clara: Daniel Silvestre tem um potencial enorme para, assim que lançar uma obra de grande fôlego, marcar profundamente a banda desenhada portuguesa. Se com esta obra curta já o consegue fazer - em parte - imagine-se numa obra de grande fôlego!

A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir
Visualmente, o livro é igualmente muito bem conseguido. O traço de Daniel Silvestre revela-se elegante, expressivo e extremamente seguro de si mesmo. Nota-se que estamos perante um ilustrador experiente, com uma grande capacidade para representar tanto figuras humanas como espaços naturais e ambientes rurais.

Além disso, um dos aspetos mais interessantes do desenho é a sua versatilidade. Daniel Silvestre consegue introduzir alterações significativas na composição das páginas, nos enquadramentos e até no grau de realismo de determinadas sequências, sem que a obra perca a sua identidade visual. Existe sempre uma coerência gráfica - por ventura, suportada pela paleta de cores, em tons de azul - que mantém a leitura fluida e harmoniosa. A atmosfera visual consegue ser melancólica, poética e evocativa. Sou, portanto, um claro admirador do trabalho de ilustração do autor, já que também em Os Lusíadas, também editado pela Levoir, fiquei rendido aos desenhos de Daniel Silvestre.

Em termos de edição, o livro está muito bem conseguido. Além da capa dura baça, bom papel baço e boa encadernação e impressão, já habituais nesta coleção da Levoir, a edição da obra prima especialmente pelo grande conjunto de extras que traz consigo. Há um extenso texto do autor, quase em tons de ensaio, que explica muito bem o processo de criação da obra, os seus intentos e as suas dificuldades. Há ainda um conjunto de desenhos, esboços e estudos gráficos que são muito belos e que tornam este longo texto do autor em algo mais airoso do ponto de vista visual. São mais de 30 páginas a falar sobre o processo criativo do autor, o que faz com que a experiência de leitura vá bastante além da própria obra.

No final, A Armação afirma-se como uma obra sensível, inteligente e visualmente muito bonita. Sem recorrer a artifícios ou espetacularidades, Daniel Silvestre consegue construir uma homenagem emocionante à memória familiar e, simultaneamente, um retrato de um Portugal desaparecido. É um livro que confirma o enorme talento - e ainda maior potencial, diria - do autor português. A não perder!


NOTA FINAL (1/10):
8.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Armação, de Daniel Silvestre - Levoir

Ficha técnica
A Armação
Autor: Daniel Silvestre
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Setembro de 2026

Amadora BD 2026 - Eis o Programa Completo!


A pouco mais de uma semana de arranque daquele que é o maior evento de banda desenhada do país, o Amadora BD, já são conhecidas as exposições, os autores, o programa de apresentações, os workshops e até os horários dos autógrafos.

O lineup do Amadora BD é, por regra, forte em nomes internacionais, mas tenho que dizer que nesta edição de 2026, o cartaz me parece especialmente bom, incluindo nomes internacionais tão aclamados como Josep Homs, Guy Delisle, Craig Thompson, Ryan North, Marcello Quintanilha, Bruno Brindisi, Zanzim ou Alexis Nesme. Além destes, poderemos contar ainda com a presença dos autores internacionais Jolan Thomas, Li Chin-Lin, Iban Coello, Mansoureh Kamari, Thomas Gilbert, Henrique Magalhães, Pere Ortín, Ramon Esono Ebale, Marcin Bałczewski, Mateusz Skutnik, Wojciech Stefaniec, Mana Neyestini, Shaghayegh Moazzami, Sidney Gusman, Jefferson Costa, e Andrea Artusi. O que faz um total de 24(!) autores estrangeiros! Não sei se é record no Amadora BD, mas é bem possível que o seja.

Além dos autores estrangeiros, teremos a presença de tantos outros autores nacionais que ou apresentarão as suas novas obras ou estarão a assinar as já existentes.

São boas e belas razões para marcar presença no próximo Amadora BD que decorre dos dias 15 a 25 de Outubro. Este ano, o belo cartaz do evento tem ilustração de Luís Louro.

Mais abaixo, deixo-vos com todas as informações sobre as exposições que estarão patentes, o programa de apresentações e conversas, os horários dos autógrafos e o programa de workshops.

Vemo-nos por lá.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Série "Congo" está de regresso para o seu terceiro volume!



A espera foi longa, mas a notícia é ótima: a série Congo, dos irmãos portugueses Duarte e Henrique Gandum, está de volta para o seu terceiro volume, intitulado Reino de Sangue!

Depois de um segundo volume que superou largamente o primeiro, depois do spinoff Amélia - Uma História do Congo e de uma reedição do primeiro volume - algo bastante raro de se ver por cá, mas que demonstrou bem o compromisso dos autores perante a sua obra e o seu público - Congo está de volta!

É esperado que o livro seja lançado no próximo Amadora BD, no dia 25 de Outubro. Mesmo assim, já é possível comprar o livro - e com desconto! - através do site oficial da editora Mudnag. Chamo a atenção para o facto de o livro estar disponível em duas capas diferentes, o que também é mais um mimo para os leitores da série.
Estou muito curioso para ler esta nova aventura de Congo.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Congo #3 - Reino de Sangue, de Duarte e Henrique Gandum

Congo, 1880. 

Meses após os acontecimentos que levaram ao desaparecimento de Afonso Ferreira, os portugueses sobreviventes refugiam-se numa aldeia congolesa. À sua volta, as operações lideradas pelo coronel belga Jacques De Vries e pelo major britânico Edward Jackson expandem-se, fortalecidas à custa de um povo submetido ao terror e à escravidão.

Durante a construção de uma linha férrea, foi libertado um vasto ecossistema de criaturas primitivas, que agora se espalham pela floresta africana desconhecida.

A Mudnag Edições apresenta o seu mais recente livro intitulado "CONGO: Reino de Sangue", o terceiro volume da saga de BD Congo de Duarte e Henrique Gandum. O novo volume será publicado em duas edições distintas, a edição com badanas, e a edição limitada "Capa Clássica" cujo design tem um registo semelhante às primeiras edições da saga. A história dá continuidade aos acontecimentos do segundo volume "CONGO: No Caminho das Trevas", lançado em 2019, e ao spin-off "Amélia - Uma História do Congo", lançado em 2021.


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Ficha técnica
Congo #3 - Reino de Sangue
Autores: Duarte e Henrique Gandum
Editora: Mudnag Edições
Páginas: 76, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 210 x 297 mm
PVP: 17,00€

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Análise: O Acidente de Caça

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
O Acidente de Caça, de David L. Carlson e Landis Blair

Num dos anos mais fortes de sempre da Ala dos Livros, em termos de lançamentos de banda desenhada, a editora portuguesa voltou a marcar mais pontos, oferecendo-nos este O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia, dos autores americanos David L. Carlson e Landis Blair, que se assume como (mais) um dos melhores livros de BD editados por cá em 2026.

Estamos perante uma daquelas obras que desafiam qualquer tentativa de classificação simples, pois trata-se de um trabalho monumental, tanto pela sua dimensão física como pela densidade dos temas que aborda. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Antes de mais, importa explicar um pouco a sua estrutura narrativa deste O Acidente de Caça, já que estamos perante uma história construída através de várias camadas e subnarrativas que se entrelaçam gradualmente. No centro da narrativa encontra-se Charlie Rizzo, um jovem de Chicago que, nos anos 50, vive uma adolescência marcada por pequenos delitos com a justiça e por uma relação difícil com o seu pai, Matt Rizzo. Até aos 10 anos, Charlie vive com a sua mãe, afastado do seu pai, mas assim que a sua mãe morre, Charlie passa a ir viver com o seu pai. 

Este é cego e a causa dessa cegueira é devida a um acidente de caça que o deixou invisual após um tiro mal disparado numa tentativa de caça a um veado. Mas o passado do pai é muito mais complexo do que aquilo que Charlie alguma vez possa imaginar. E quando o jovem se vê próximo de rumar à prisão por tentativa de assalto, Matt expõe a verdade da sua vida ao seu filho, explicando-lhe qual a real causa da sua cegueira e mostrando-lhe que também ele já esteve preso.

A história desenvolve-se depois através da revelação dessa vida oculta de Matt Rizzo, cuja experiência pessoal se transforma numa longa reflexão sobre identidade, culpa, redenção e transformação. Sem revelar os principais mistérios da narrativa, já que este é um livro em que o enredo nos oferece várias surpresas, posso dizer-vos que a obra alterna entre diferentes períodos históricos e diferentes histórias dentro da história principal, apresentando um retrato fascinante da forma como determinados acontecimentos moldam sucessivas gerações. É uma obra que exige atenção constante do leitor, mas que recompensa amplamente esse investimento, diria.

Uma das grandes qualidades do livro reside na construção destas duas personagens centrais. Charlie é impulsivo, inquieto e procura constantemente o seu lugar no mundo. Já o seu pai Matt, por seu lado, revela-se uma figura muito mais complexa do que inicialmente parece. E embora cego, parece ver muito além da maioria dos outros homens. E à medida que a narrativa avança, ambos enfrentam as consequências dos erros cometidos na juventude, descobrindo, cada um à sua maneira, que o crescimento pessoal raramente é um processo linear. 

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Acima de tudo, mas sem se limitar a isso, O Acidente de Caça é a história de uma relação entre pai e filho. Embora baseada em factos da vida real, a obra transcende rapidamente a mera autobiografia para se tornar uma reflexão universal sobre os laços familiares. E não só, pois o argumento é extraordinariamente rico e abrangente. Questões como a cegueira e tudo o que ela acarreta, a vida na prisão, o amor perdido, a filosofia existencial e a própria literatura estão presentes dentro desta densa narrativa. O resultado é, pois, uma obra que consegue discutir temas muito diferentes sem perder coerência. Pelo contrário, todas estas dimensões acabam por se complementar, contribuindo para uma reflexão profunda sobre aquilo que nos torna humanos e sobre a capacidade que temos de reconstruir a nossa vida depois dos erros cometidos.

Entre todas as mensagens presentes no livro, há ainda uma que, a meu ver, se destaca de forma particularmente clara: a ideia de que a arte (e a cultura) deve estar ao serviço da humanidade. Através das experiências das personagens, a obra demonstra-nos como os livros, as ideias e as diferentes formas de expressão artística podem transformar pessoas, ampliar horizontes e oferecer caminhos de redenção. E diria mesmo que poucas obras conseguem transmitir de forma tão convincente o poder transformador da cultura.

Nesse sentido, O Acidente de Caça é também uma apaixonada homenagem à literatura. A obra estabelece uma ligação muito forte com A Divina Comédia, de Dante Alighieri, e em particular com O Inferno de Dante. As referências à viagem dantesca são constantes e assumem um papel fundamental na interpretação dos acontecimentos. Existe um interessante paralelismo entre as descidas simbólicas de Dante e os percursos vividos pelas personagens desta novela gráfica, criando momentos de grande impacto emocional e intelectual, reconheço.

O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros
Ainda assim, esta é também a área onde encontro a principal fragilidade da obra. Apesar de David L. Carlson conseguir, no final, unir praticamente todos os pontos da narrativa com enorme competência, e até alguma grandiosidade, houve momentos em que senti que a presença de Dante se tornava algo excessiva. Em determinadas passagens, a ligação temática parece um pouco forçada, como se a narrativa procurasse constantemente reforçar um paralelismo que já estava suficientemente estabelecido, criando alguma redundância. Acredito que, neste ponto em concreto, "menos teria sido mais", pois preservar-se-ia uma maior sensação de espontaneidade e genuinidade na história.

Mas mesmo com essa reserva é impossível não admirar a ambição deste projeto de banda desenhada. O conjunto de temas abordados é verdadeiramente impressionante. Poucas bandas desenhadas conseguem integrar tantos assuntos diferentes (literatura, arte, braille, educação, filosofia, you name it...) sem perder o foco narrativo. Mais importante ainda, consegue fazê-lo de forma orgânica, com cada novo tema a acrescentar profundidade à história principal. Pode parecer, por vezes, que a história se perde um pouco, mas logo o argumentista David L. Carlson segura as rédeas narrativas com primor.

Admito que não é uma leitura rápida nem particularmente fácil. Existem momentos em que a quantidade de informação e de referências culturais pode parecer esmagadora. Contudo, é precisamente dessa exigência que nasce a força da obra. E à medida que a narrativa avança, torna-se evidente que cada detalhe foi colocado com um propósito específico. Quando finalmente chegamos ao final, percebemos que estamos perante um daqueles raros livros que nos enriquecem enquanto leitores e enquanto pessoas.

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Se já muito escrevi sobre o trabalho do argumentista, pouco ou nada referi sobre os desenhos de Landis Blair que, ainda por cima, merecem especial atenção. O seu desenho, a preto e branco, assente num uso intenso de hachuras, cria uma atmosfera sombria, opressiva e simultaneamente fascinante. É um estilo muito próprio, imediatamente reconhecível, que dificilmente deixa alguém indiferente. Compreendo perfeitamente que não agrade a todos os leitores. Ainda recentemente, um amigo apaixonado por banda desenhada, e também ele autor, me confessou que não apreciava particularmente esta abordagem visual, por ser, nas suas palavras "demasiado densa". No meu caso, sucede exatamente o contrário: considero que a identidade gráfica da obra é uma das suas maiores virtudes.

Há momentos visualmente extraordinários ao longo do livro, incluindo várias ilustrações de página dupla que atingem uma escala quase épica. A técnica de Blair é original, meticulosa e profundamente marcante. Apenas tenho uma pequena reserva relativamente à representação de algumas expressões faciais que, por vezes, parecem demasiado simples quando comparadas com o impressionante nível de detalhe presente nos cenários e ambientes.

A edição do livro é também ela grandiosa, com a edição a ser em capa dura baça, com detalhes a verniz. No miolo, o papel utilizado é baço e de qualidade máxima. Encadernação, impressão e acabamentos também estão muito bem feitos. A edição é complementada por uma elegante fita marcadora e, no final, há ainda um posfácio e alguns documentos reais sobre Matt Rizzo.

Em suma, O Acidente de Caça afirma-se como uma das melhores leituras do ano, sendo uma obra grandiosa não apenas pela sua dimensão física, mas sobretudo pela quantidade de ideias, emoções e reflexões que deixa no leitor. É um livro que exige entrega, atenção e disponibilidade intelectual, mas que retribui esse esforço de forma generosa. Daqueles livros raros que nos marcam, que nos acompanham muito depois da última página e que, de certa forma, nos mudam. Para melhor.


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia - David L. Carlson e Landis Blair - Ala dos Livros

Ficha técnica
O Acidente de Caça - Uma História Real de Crime e Poesia
Autores: David L. Carlson e Landis Blair
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 464, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 209 x 237 mm
Lançamento: Agosto de 2026