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quinta-feira, 2 de julho de 2026

Análise: Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Foi há poucos meses que a editora Ala dos Livros nos trouxe o quarto volume da série Blacksad, intitulado O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido. Esta é, como não me canso de dizer, uma das minhas séries preferidas de sempre. Lado a lado com a brilhante Armazém Central.

Tratando-se de uma reedição, uma vez que este quarto volume já havia sido lançado pela editora ASA em 2010, convém dizer que há várias coisas que distinguem esta nova edição da primeira. Desde logo, os acabamentos. O livro apresenta capa dura baça, com lombada em tecido. Cada lombada desta reedição da Ala dos Livros contribui para a formação de uma imagem conjunta. O resultado é muito bonito e elegante. Para além desse requinte visual e de material, cada um dos livros inclui A História das Aguarelas, que é um extenso dossier sobre o processo criativo de Juanjo Guarnido, em que o autor nos revela, num discurso na primeira pessoa, as técnicas, as ideias e as opções que tomou em termos de cores. São 40 páginas - sim, leram bem - dedicadas a este assunto. O que faz com que seja justo dizer que cada um destes tomos que a Ala dos Livros tem editado é, na verdade, constituído por dois livros: o livro propriamente dito e o "livro sobre o livro" que, aliás, até foi editado de forma separada originalmente. Por este motivo, não me canso de dizer que esta é uma das melhores edições de banda desenhada em Portugal dos últimos anos. Um objeto obrigatório para fãs e colecionadores.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Focando-me na história deste O Inferno, O Silêncio, a narrativa leva-nos até à Nova Orleães dos anos 50, em pleno ambiente festivo do Mardi Gras. Desta vez, o nosso detetive John Blacksad é contratado por Fausto, um produtor de jazz gravemente doente, que lhe pede ajuda para encontrar Sebastian, um pianista talentoso desaparecido há vários meses. O caso parece simples à partida, mas rapidamente revela camadas mais profundas e inquietantes. 

Acompanhado pelo inseparável Weekly, Blacksad mergulha então num universo marcado pela música, pela droga, pelos excessos e por muitos segredos por desvendar. Na verdade, todas as personagens escondem mais do que aquilo que, à partida, aparentam ser. Mas isso é, já sabemos, algo comum às histórias de Blacksad.

Díaz Canales constrói novamente um belo enredo noir sólido, com a dose certa de complexidade para uma história de 58 páginas, cheio de tensão emocional e de momentos de grande humanidade, em que o mistério serve também para explorar temas como a solidão, a dependência e, especialmente, a procura de redenção.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Para mim, que acompanho Blacksad desde o primeiro volume, este álbum volta a demonstrar porque é que esta série ocupa um lugar tão especial na banda desenhada contemporânea. Há um nível de consistência impressionante na forma como Díaz Canales e Guarnido conseguem combinar histórias policiais envolventes com retratos humanos cheios de nuances. Especialmente tendo em conta que as personagens da história são antropomorfizadas. Ou seja, têm cara - e, por vezes, corpos - de animais, embora o universo criado não possa ser mais humano, com todos os defeitos e virtudes inerentes que nos caracterizam enquanto espécie.

Uma das coisas que mais aprecio neste quarto tomo da série é a sua coesão, pois tudo parece encaixar naturalmente: a cidade escolhida, o mardi gras, o universo do jazz, as drogas e o próprio tom melancólico da narrativa. 

E, claro, as personagens também são outro dos grandes trunfos do livro, pois mesmo aquelas que aparecem durante poucas páginas, acabam por deixar a sua marca. Como é habitual em Blacksad, ninguém é totalmente herói nem totalmente vilão. É claro que há vilões e personagens hediondas, mas mesmo as personagens boas apresentam sempre fragilidades, motivações contraditórias e zonas cinzentas que tornam cada figura mais credível e interessante.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
John Blacksad, por sua vez, continua a ser um protagonista fascinante precisamente porque não é infalível. E neste tomo em particular, até chega, por mais de uma vez, a quase perder a vida. A sua inteligência e persistência convivem com dúvidas, frustrações e um certo desencanto que o tornam profundamente humano, apesar da natureza antropomórfica do universo em que vive. E depois temos a personagem irresistível Weekly - que teve a honra de receber um spin off recentemente - e que aqui aparece especialmente divertido.

Díaz Canales demonstra mais uma vez o seu talento para escrever histórias policiais que respeitam os códigos clássicos do género noir, mas que conseguem ir além deles. A investigação mantém o leitor interessado, mas o verdadeiro impacto surge na forma como os temas emocionais são trabalhados ao longo da narrativa.

Visualmente, o livro continua a ser um autêntico mimo. O Inferno, O Silêncio é mais uma demonstração do talento extraordinário de Juanjo Guarnido! Cada página parece ter sido criada com um cuidado quase obsessivo, desde a composição das vinhetas até à expressão das personagens. É daquelas obras em que vale a pena parar frequentemente apenas para admirar a arte ilustrativa.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Aliás, acho que é justo dizer-se que as ilustrações do autor não se limitam a ilustrar o argumento. Ao invés, dão-lhe uma dimensão adicional, enriquecendo cada cena com uma quantidade impressionante de detalhe e expressividade. A Nova Orleães dos anos 50 ganha vida através de ruas apinhadas de gente, clubes de jazz envoltos em fumo, desfiles coloridos de carnaval e ambientes noturnos carregados de atmosfera. Cada vinheta transmite uma sensação de movimento e de autenticidade que faz com que o leitor se sinta verdadeiramente imerso naquele mundo. Como não adorar?

Guarnido continua também a impressionar pela forma como trabalha as personagens antropomórficas. Apesar de serem animais, nunca deixam de parecer profundamente humanas nas suas emoções, gestos e expressões. E é precisamente aqui que Juanjo Guarnido volta a lembrar-me porque é o meu ilustrador de banda desenhada preferido. O domínio da anatomia animal, a expressividade dos rostos, o trabalho de luz e sombra e a utilização da cor atingem um nível que poucos autores conseguem igualar. 

As cores, em aguarela, são ainda um espetáculo à parte, como se o prato já não estivesse cheio com a bela história noir, com as memoráveis personagens e com os belíssimos desenhos. Guarnido é verdadeiramente incrível!

No final, Blacksad - O Inferno, O Silêncio não é necessariamente o álbum mais explosivo da série, mas é um dos mais maduros e emocionalmente ricos. Com uma história bastante coesa, personagens marcantes e uma componente visual absolutamente deslumbrante, este tomo reafirma tudo aquilo que faz de Blacksad uma série tão especial para mim desde o primeiro número. E é mais uma prova de que Díaz Canales e Guarnido formam uma das duplas criativas mais extraordinárias da banda desenhada moderna.


NOTA FINAL (1/10):
9.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Março de 2026

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Blacksad está de volta!




A pouco e pouco, a Ala dos Livros vai-se aproximando da conclusão da sua edição de luxo da série Blacksad!

A editora acaba de lançar o quarto volume da série, intitulado O Inferno, O Silêncio, que é um dos meus preferidos! Se bem que, tenho que reconhecer, eu gosto muito de todos os álbuns e sou um grande fã desta série criada por Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido.

Com a publicação deste quarto volume, fica apenas a faltar a publicação do quinto, Amarillo. Recordo que a série ainda conta com o díptico Então, tudo cai (6+7) que embora a editora já tenha publicado em formato normal, talvez venha a ser inserido nesta edição de luxo, reunindo os volumes 6 e 7 num só volume e apresentando as características físicas dos restantes livros. Mas cada coisa a seu tempo.

Digo-vos ainda que esta edição de luxo, para além de ter lombada em tecido (com cada um dos volumes a contribuir para uma ilustração conjunta na lombada), ainda inclui a História das Aguarelas, onde Junanjo Guarnido nos leva numa viagem explicada, em género de making of, a todo o processo de criação da obra. É uma edição verdadeiramente espetacular, garanto-vos. 

Daqueles livros que uma boa estante de banda desenhada deve possuir.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Nova Orleães, década de 1950, onde as celebrações do Carnaval estão ao rubro. 

Graças a Weekly, um produtor de jazz chamado Faust conhece Blacksad. Faust pede a este último que assuma um caso: um dos seus músicos, o pianista Sebastian, desapareceu. Não há notícias dele há meses, pondo em risco a editora particular que só tem aquela estrela. Faust teme que Sebastian tenha, com demasiada frequência, caído no vício da droga. O seu pedido é ainda mais urgente, pois Faust sabe que tem cancro.

Blacksad aceita a missão e, aos poucos, descobre que Faust não lhe contou tudo. Percebe que está a ser manipulado, mas decide, mesmo assim, encontrar Sebastian para perceber os motivos do seu desaparecimento. Mas o que ainda não sabe é que está prestes a viver a sua investigação mais angustiante, em mais do que um sentido.

Blacksad é uma série de culto, cujo protagonista principal é um gato que se movimenta num universo antropomórfico e cuja acção decorre nos Estados Unidos, nos anos de 1950, num ambiente que evoca o romance negro e a literatura americana. Com os desenhos fulgurantes - e cores sublimes - assinados por Juanjo Guarnido, a força de Blacksad reside também na qualidade das suas histórias, que contam com o argumento de Juan Diaz Canales. Inicialmente publicado em 2005, este é o quarto volume desta série de culto, publicada em Portugal pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
Blacksad #4 - O Inferno, O Silêncio
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 104, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 29,90€

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Análise: Blacksad Stories - Weekly

Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros

Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros
Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano

Saibam, em primeiro lugar, que sempre que me ouvirem falar de Blacksad, terão de dar-me um desconto por ser algo de que eu gosto tanto. Já escrevi bastante sobre a série aqui no Vinheta 2020 e, para além de considerar esta a minha série favorita de banda desenhada, por ser uma obra tão bem desenvolvida em todos os seus vetores, tenho também, claro, uma razão mais pessoal para gostar tanto da série. Também já aqui falei disso. Se não fosse Blacksad, era provável que nem existisse Vinheta 2020. É, portanto, uma daquelas obras que muda uma vida. Pelo menos, mudou a minha.

E quando soube, há uns meses, que haveria um novo livro "da série", ou melhor "do universo" de Blacksad, rejubilei! Penso que se há algo de que me posso queixar desta fabulosa série, iniciada em 2000, é que não sejam assim tantos os livros que saíram em 25 anos, o quarto de século que a franquia celebra este ano. No total, foram seis as aventuras de Blacksad, sendo que a última foi feita num díptico. Sete livros, então. Para um espaçamento temporal de 25 anos, não é muito. Dá uma média de uma história por cada quatro anos.

Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros
Ora, saber que Juan Díaz Canales, argumentista da série, decidiu, com a benção de Juanjo Guarnido, ilustrador, avançar para um spinoff de Blacksad, intitulado, convenientemente, Blacksad Stories, e que se centraria noutras personagens da série, deixou-me expectante. Estava desejoso de mergulhar na leitura deste livro que, naturalmente, tem edição para o mercado nacional pela Ala dos Livros e que se baseia na história de Weekly, o jovem repórter e divertido companheiro de John Blacksad.

E depois de feita a minha leitura deste livro, sabem o que fiz? Fui fazer qualquer coisa, mas voltei, passadas uma ou duas horas, para reler o livro. Fiz isso por dois motivos: porque foi um livro que tive o privilégio de apresentar no Amadora BD, em conjunto com o editor Ricardo Pereira, e por isso queria estar preparado para saber do que iria falar. Mas o segundo motivo que me levou a querer ler o livro de forma imediata foi outro: eu não sabia bem o que opinar sobre a obra quando cheguei ao fim da primeira leitura. Tinha gostado, certamente, mas sentia que talvez lhe faltasse algo. E não era apenas pela ausência(?) da personagem de John Blacksad que, para aqueles mais atentos, e que gostem de livros como Onde Está o Wally? até poderão encontrá-lo facilmente. Não. Faltava algo. Seria no ritmo? No tipo de história? Na personagem principal?

A segunda leitura levou-me a perceber que talvez a ausência maior nesta obra seja a de um narrador na primeira pessoa. E isso tira-lhe um bocado daquela negritude no tom (noir, pois está claro) que é determinante para aquilo que conhecemos na série. Percebo que talvez Canales não quisesse voltar a socorrer-se desta voz off tão marcante, sob pena de se colar em demasia aos livros da série principal, narrados por John Blacksad. Mas, quanto a mim, foi essa a coisa mais diferente nesta obra. E acabei por perceber que até não é algo negativo. É algo diferente, apenas.

Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros
Blacksad Stories - Weekly
é, portanto, daqueles livros que chegam sem fazer muito barulho, mas que acabam por nos conquistar. Na primeira leitura não me impactou tanto, na segunda fez-me ficar agradecido pela existência do livro.

A história acompanha Weekly, que aqui ainda é conhecido por Dustin e que ainda está longe de ser o repórter meio caótico e divertido que conhecemos dos álbuns de Blacksad. No início, ele é apenas um jovem a tentar sobreviver num minúsculo apartamento nova-iorquino, vivendo com a sua avó Chana que sempre o tenta empurrar para uma vida mais cristã e devota, tão longe quanto possível de tudo o que considera ser a devassidão dos novos valores da época. Mas Dustin, como tantas outras pessoas filhas de imigrantes nos Estados Unidos, procura apenas tornar realidade o "american dream" naquela a que chamam a terra das oportunidades. 

Enquanto Dustin tenta arranjar um trabalho mais estável, entra em cena uma narrativa aparentemente paralela que coloca em cena a Pastora Lubansky, uma personagem moralista e líder do Movimento Cruzada Moral, e Vitor Venables, dono da editora Proper Comics (adoro o nome!). Percebemos então que a história vai abordar a ideia da censura e do puritanismo. Uma parte da população condena os malefícios da banda desenhada, pois considera que os mesmos põem em causa os bons costumes, enquanto que a outra parte, especialmente a mais nova, só quer poder divertir-se e ter um escape do seu dia-a-dia através dos comics que começam a proliferar.

A partir daqui, Dustin é empurrado para um trabalho numa agência funerária, típico emprego que ninguém quer - o que é comum em matéria de imigrantes, já agora -, mas que supostamente o vai “endireitar”. Só que o jovem rapaz, claro, acaba por arranjar outro emprego às escondidas da sua avó Chana… e logo num sítio que a mesma consideraria infame: a Proper Comics, editora que se dedica a publicar banda desenhada de terror e policial.

Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros
É a partir deste ponto que a narrativa do livro vai mais fundo, levando-nos para os meandros do mundo editorial da banda desenhada, com todos os seus dramas e disputas ideológicas. E é impossível não pensar nos anos 50 e no famoso Comics Code Authority, o código de censura que praticamente sufocou, à época, todos os comics nos EUA. Canales usa este tema sem que o mesmo se torne pesado, o que é bem-vindo.

Lá está, eu esperava uma história mais densa e mais puxada ao noir dramático típico de Blacksad. Pensei que iria encontrar conspirações e uma tensão constante… mas Canales escolhe outro caminho. É claro que há uma conspiração envolta à história, mas diria que a mesma é relegada a uma posição menos demarcada. E, se calhar, menos (bem) desenvolvida. O tom deste Blacksad Stories - Weekly é mais realista, mais terra-a-terra. Não é uma opção má... só não era aquilo que eu estava à espera. E às vezes isso é bom: o livro surpreende precisamente por ser mais simples, mais direto e mais humano do que aparenta.

Convém também referir que o percurso de Dustin é um verdadeiro projeto iniciático. Ele não se torna Weekly da noite para o dia. Vai tropeçando, aprendendo, metendo-se onde não deve e percebendo como funciona o mundo à sua volta... tanto o mundo da censura moral, como o mundo da criação artística. O livro oferece-nos uma viagem de crescimento que acaba por fazer sentido para quem já conhece Weekly, mas que, ainda assim, permite que o livro possa ser lido de forma independente, sem qualquer conhecimento prévio da série.

Também é ótimo ver o universo de Blacksad ganhar nova vida com este spinoff, pois o mundo imaginado por Canales e Guarnido merece mais histórias e mais perspetivas. Creio, pois, que haverá mais tomos de Blacksad Stories. Assim o espero, pois gostaria de encontrar mais histórias de Weekly no futuro e considero, por exemplo, que a bela e enigmática personagem de Alma Mayer merecia, também, um ou vários álbuns sobre a sua vida antes de conhecer John Blacksad. A ver vamos. Mas uma coisa é certa: Weekly, com a sua tagarelice e energia, é uma escolha perfeita para o início deste spinoff.

Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros
Se já muito escrevi sobre a história, ainda não mencionei algo que também me deixou expectante: há um novo ilustrador, que não Juanjo Guarnido, a trabalhar estas personagens. O seu nome é Giovanni Rigano, autor italiano até então desconhecido por mim. Convenhamos que suceder a Juanjo Guarnido é praticamente uma missão impossível. O homem é uma lenda e provavelmente um dos desenhadores mais impressionantes da BD contemporânea. Figura entre os meus preferidos em posição cimeira. Mas justiça tem que ser feita: Giovanni Rigano faz um trabalho honesto e muito competente. Não tenta replicar Guarnido ao detalhe, mas respeita imenso a estética original. As expressões das personagens continuam vivas, credíveis, cheias de personalidade, e com aquele toque Disneylike com que Juanjo nos brindou desde o primeiro tomo, Algures Entre As Sombras, há 25 anos. Este universo rico e urbano, com tom noir e um conjunto de personagens antropomorfizadas marcantes, continua bem conseguido por Rigano.

A colorização também funciona bem, com belas cores que embelezam os já belos desenhos, embora não tenha aquele brilho mágico das aguarelas de Guarnido. Mas, para um spinoff, o resultado é sólido e coerente. Nada destoa, nada quebra o ambiente, e há momentos visualmente muito agradáveis. Julgo que não é justo queixarmo-nos do desenho neste Blacksad Stories - Weekly. Está lá tudo e está bem feito. Nota ainda para a maravilhosa capa do livro. Daquelas que apetece imprimir em grande formato e colocar numa moldura.

Quanto à edição do livro, o mesmo apresenta capa dura brilhante e bom papel brilhante no seu interior. A encadernação e impressão são boas. Não há quaisquer extras, mas isso deve-se ao facto da edição portuguesa ter sido produzida em regime de co-edição com a editora Dargaud. e, portanto, ser em tudo igual à edição original.

Em suma, Blacksad Stories - Weekly é uma boa surpresa. Não vem para rivalizar com a série principal - nem tenta - mas complementa-a com charme. É uma leitura que pode parecer leve à primeira passagem, mas que ganha profundidade quando voltamos atrás e reparamos nos subtextos, nas críticas sociais e na forma como acompanha o crescimento interior de Dustin. É um livro que não grita, mas que fica connosco. E, acima de tudo, abre portas para que Weekly continue a ter espaço para brilhar. Ele merece. E o universo de Blacksad também.


NOTA FINAL (1/10):
8.7

Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Blacksad Stories - Weekly, de Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad Stories - Weekly
Autores: Juan Díaz Canales e Giovanni Rigano
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Novembro de 2025

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Vem aí nova BD do universo de Blacksad!


Eis uma notícia que, assim que soube, não pude conter a minha alegria e expetativa!

O universo de Blacksad - uma das minhas séries favoritas de banda desenhada, não me canso de dizer - prepara-se para ser expandido com uma nova obra!

Não, não se trata de um novo tomo de Blacksad, mas antes de um spinoff da série principal, que será baseado na personagem irresistível de Weekly, o fiel e astuto companheiro de John Blacksad. Este livro está inserido numa série intitulada Blacksad Stories, o que leva a crer - e a desejar! - que futuramente possam sair mais spinoffs da série principal. Quiçá baseados nesta ou noutras personagens de Blacksad.

Desta vez, o ilustrador não é Juanjo Guarnido, mas sim o italiano Giovanni Rigano. E ainda que eu não esteja muito familiarizado com o trabalho deste autor, e que adore a arte ilustrativa de Guarnido, devo dizer que fiquei muito bem impressionado com as pranchas que já pude ver sobre este livro e que partilho mais abaixo.

Com argumento de Juan Díaz Canales, estou confiante que teremos aqui um belo livro!

E a boa notícia é que a editora Ala dos Livros vai editar a obra por cá nas próximas semanas. Possivelmente durante o Amadora BD ou logo após este certame.

Mal posso esperar!







terça-feira, 29 de julho de 2025

TOP 10 - A Melhor BD lançada pela Ala dos Livros nos últimos 5 anos!


A propósito da comemoração dos 5 anos de existência do Vinheta 2020, trago-vos um especial que começa a partir de hoje e que procura celebrar e assinalar a melhor banda desenhada que cada uma das principais editoras portuguesas editou nos últimos 5 anos. Durante as próximas semanas tentarei, pois, oferecer-vos um artigo por editora.

Convém relembrar que este conceito de "melhor" é meramente pessoal e diz respeito aos livros que, quanto a mim, obviamente, são mais especiais ou me marcaram mais. Ou, naquela metáfora que já referi várias vezes, "se a minha estante de BD estivesse em chamas e eu só pudesse salvar 10 obras, seriam estas as que eu salvava".

Faço aqui uma pequena nota sobre o procedimento: considerei séries como um todo e obras one-shot. Tudo junto. Pode ser um bocado injusto para as obras autocontidas, reconheço, e até ponderei fazer um TOP exclusivamente para séries e outro para livros one-shot, mas depois achei que isso seria escolher demasiadas obras. Deixaria de ser um TOP 10 para ser um TOP 20. Até me facilitaria o processo, honestamente, mas acabaria por retirar destaque a este meu trabalho que procura ser de curadoria. Acabou por ser um exercício mais difícil, pois tive que deixar de fora obras que também adoro, mas acho que quem beneficia são os meus leitores que, deste modo, ficam com a BD que considero ser a crème de la crème de cada editora.

Em cinco anos de edição ininterrupta de banda desenhada, há naturalmente muitos títulos editados e, como devem calcular, a tarefa não foi fácil e vi-me forçado a excluir obras fantásticas, mas, lá está, há que fazer escolhas e estas são as minhas escolhas.

Hoje começo com uma editora cujo contributo para o lançamento de boa banda desenhada em Portugal é verdadeiramente inegável: a Ala dos Livros.

Esta editora tem um catálogo que considero de extrema qualidade. São (muito!) mais as obras que adoro da editora, do que aquelas de que não gosto. Não foi fácil, mas aqui está o meu TOP

Eis, mais abaixo, as minhas obras favoritas lançadas pela editora Ala dos Livros:

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Análise: Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Hoje trago-vos uma dose dupla de Blacksad, motivada pelo lançamento recente, por parte da editora Ala dos Livros, do terceiro álbum da série, intitulado Alma Vermelha. Como já antes disso, ainda em 2023, a editora tinha reeditado o segundo álbum da série, Arctic Nation, aproveito para vos falar dos dois tomos de uma só vez.

Como não me canso de dizer, Blacksad é muito provavelmente a minha série favorita de banda desenhada. A par de Armazém Central, uma outra série que adoro. Este tipo de afirmações é sempre muito perigosas, eu sei, mas, de facto, os anos vão passando, o número de séries por mim lidas vai aumentando e, mesmo assim, uma coisa é clara para mim: Blacksad é uma obra prima da banda desenhada mundial!

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Extraída da mente e engenho dos autores espanhóis Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, este noir com um carismático protagonista, uma divertida personagem sidekick, mulheres sensuais e tantas outras personagens marcantes, oferece-nos histórias que, mais do que entretenimento puro, nos marcam já depois de finda a leitura. Não é que sejam histórias que reinventam a roda - nem sequer o tentam fazer, diga-se -, mas são histórias bem arquitetadas, bem esculpidas e muito bem escritas. E isto, claro, junta-se ao brilhante, quiçá perfeito, trabalho de ilustração de Juanjo Guarnido, que nos oferece um mundo realista onde as personagens nos são apresentadas de forma antropomorfizada, ou seja, tendo faces de animais, embora mantendo corpos humanos. E tudo isto é colorido com um meticuloso e inspirado trabalho de aguarela. Enfim, se não é uma série perfeita, não sei que outra o poderá ser.

E se Arctic Nation sempre me deixou maravilhado perante tão marcante história, devo dizer que a releitura deste Alma Vermelha - que à data do seu lançamento, em 2005, até não me tinha deixado tão empolgado - é uma daquelas histórias que envelheceu muito bem. Mesmo sem ter, por ventura, a força de Arctic Nation, Alma Vermelha é uma bela história, carregada de referências e uma trama bem construída. Mas, enfim, goste-se mais de um ou doutro tomo, a verdade é que cada um destes volumes nos traz uma história sólida e profunda, combinada com um trabalho gráfico de excelência, que ajudam a fazer desta série uma das mais notáveis bandas desenhadas de sempre.

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Arctic Nation
 remete-nos para a luta pela igualdade racial vivida na América entre os anos 50 e 60, onde os brancos dominavam todos os quadrantes da sociedade. Arctic Nation mergulha em temas complexos como o racismo e a segregação, utilizando a fábula animal para refletir questões humanas muito reais. A história gira em torno do conflito entre diferentes grupos sociais, representados por animais de espécies distintas, e a investigação de Blacksad acaba por revelar camadas de tensão social, preconceito e violência.

O argumento de Díaz Canales é inteligente e bem estruturado, evitando simplificações ou moralismos fáceis, e conseguindo analogias fáceis, mas bem conseguidas. A trama envolve mistério, ação e drama social, tudo com uma construção cuidadosa das personagens e dos seus conflitos internos. Este equilíbrio torna a história envolvente e relevante, conferindo-lhe uma dimensão que ultrapassa o mero entretenimento. Uma das grandes qualidades da série é a forma como os animais escolhidos para cada personagem refletem as suas características psicológicas e sociais. Em Arctic Nation, essa escolha torna-se ainda mais significativa, já que a espécie das personagens brancas - com a utilização de animais do próprio Ártico - está diretamente ligada às tensões raciais e ao preconceito que marcam a narrativa, conferindo uma profundidade simbólica que enriquece a leitura. Nos dias que vivemos atualmente, onde posições políticas extremadas sobre aqueles que são diferentes parecem ganhar novo ímpeto, Arctic Nation volta a manter-se relevante e inspirador.

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Por sua vez, Alma Vermelha, o terceiro volume da série, apresenta uma história mais centrada em temas de violência e corrupção, ainda que nunca perca o toque noir que caracteriza a série. 

Neste caso, vemos John Blacksad a trabalhar como guarda-costas de um abastado jogador em Las Vegas. Mas os tempos pós Segunda Guerra Mundial são outros e as maiores potências mundiais começam a apostar na corrida ao armamento nuclear, com o comunismo a tornar-se uma ameaça cada vez mais evidente para os Estados Unidos. Durante uma conferência sobre energia nuclear, John Blacksad encontra-se inesperadamente com um velho amigo, Otto Lieber, que, entretanto, se tornou um cientista de alto gabarito. A partir daqui, Blacksad vê-se envolvido numa intriga política internacional numa trama que explora a complexidade das personagens e do mundo onde vivem, mantendo o suspense e sendo, curiosamente, um bom complemento àqueles que já tiverem lido o mais recente díptico da série, também editado pela Ala dos Livros, Então, Tudo Cai.

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Em ambos os volumes, o desenho de Guarnido é simplesmente soberbo. A expressividade das personagens, desde os olhares até aos pequenos gestos, é impressionante e dá vida a cada cena de um modo único. A qualidade do traço, os detalhes dos cenários e a direção de arte demonstram uma maturidade gráfica rara, que evidencia a influência da animação e a experiência do autor, ex-colaborador dos estúdios Disney. 

Outro destaque vai para a paleta de cores e para a técnica de aguarela que Guarnido utiliza, criando ambientes imersivos e atmosferas que variam do sombrio ao tenso, passando por momentos de calma e reflexão. As cores não só complementam o traço, como também ajudam a transmitir as emoções e o clima de cada cena, funcionando quase como uma personagem adicional na narrativa. Também em termos visuais, Blacksad é uma autêntica obra-prima!

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Em termos de edição, esta também é uma das melhores edições de banda desenhada que temos no mercado nacional. Além da utilização de materiais nobres na feitura física do livro, como a lombada em tecido (que com os livros agrupados forma o logótipo da coleção); a capa dura baça com detalhes a verniz; e o excelente papel e encadernação utilizados; esta coleção conta ainda com A História de Aguarelas, onde, em cada um dos livros, Guarnido mergulha profundamente na forma como essa obra foi feita, oferecendo-nos esboços e estudos de cor, que são acompanhados pelos seus comentários, o que faz deste extra - que na verdade até foi originalmente lançado como livro independente, tal não é a sua relevância - um autêntico "making of" da série. 

Em suma, Blacksad mantém-se como uma das melhores séries de banda desenhada de sempre. Em termos pessoais, não tenho problemas em afirmar que é a uma das minhas séries favoritas de banda desenhada. Díaz Canales e Guarnido assinam um trabalho verdadeiramente sublime com Blacksad, e estes dois volumes também são disso exemplo. O argumento inteligente, a boa construção da trama e a escolha acertada dos animais para as personagens, aliadas a um desenho de topo, ultra expressivo, que remete ao melhor da animação Disney, e um trabalho de cores em aguarelas que são verdadeiras obras de arte, fazem desta série uma leitura obrigatória para qualquer amante de banda desenhada. É difícil apontar falhas num trabalho tão bem nivelado e envolvente - uma obra que merece todo o reconhecimento e admiração!


NOTA FINAL (1/10):
Blacksad #2 - Arctic-Nation - 10.0
Blacksad #3 - Alma Vermelha - 9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Fichas técnicas
Blacksad #2 - Arctic-Nation
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura com lombada em tecido
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Setembro de 2023

Blacksad #2 e #3 - Arctic Nation e Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Blacksad #3 - Alma Vermelha
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Abril de 2025

quarta-feira, 7 de maio de 2025

Ala dos Livros lança 3º volume de Blacksad!


Já está disponível o mais recente volume da série Blacksad, intitulado Alma Vermelha, da dupla espanhola formada por Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido.

Este lançamento faz parte da reedição definitiva da série, numa luxuosa coleção, cujas lombadas em tecido formam o logótipo da franquia, que a editora Ala dos Livros tem vindo a reeditar. Para além da nobreza dos materiais, cada livro da série vem provido de um caderno de extras que inclui A História das Aguarelas, onde temos esboços e estudos de cor acompanhados pelos comentários de Juanjo Guarnido. Um autêntico luxo!

E, claro, além da espetacularidade da edição, tenho a dizer-vos que este - e qualquer outro volume de Blacksad - são absolutamente obrigatórios!

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

Blacksad # 3 - Alma Vermelha, de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Com as finanças em baixo e com a moral nas lonas, Blacksad encontra-se em Las Vegas onde trabalha como guarda-costas de um jogador abastado. 

Mas os tempos estão a mudar: as maiores potências mundiais apostam na corrida ao armamento nuclear e o comunismo torna-se uma ameaça cada vez mais evidente para os Estados Unidos. 

Durante uma conferência sobre energia nuclear, Blacksad encontra-se inesperadamente com um velho amigo, Otto Lieber, que, entretanto, se tornara um cientista de alto gabarito.

Otto parece ter uma vida emocionante, apesar da excentricidade de seu "benfeitor", Gotfield. 
Após esse encontro, durante o qual conhece a bela e perturbadora Alma Mayer, Blacksad vê-se envolvido numa intriga política internacional e a sua vida sofrerá uma reviravolta.

Blacksad é uma série de culto, cujo protagonista principal é um gato que se movimenta num universo antropomórfico e cuja acção decorre nos Estados Unidos, nos anos de 1950, num ambiente que evoca o romance negro e a literatura americana. 

Com os desenhos fulgurantes - e cores sublimes - assinados por Juanjo Guarnido, a força de Blacksad reside também na qualidade das suas histórias, que contam com o argumento de Juan Diaz Canales.

Inicialmente publicado em 2005, Alma Vermelha é o terceiro volume desta série de culto, publicada em Portugal pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
Blacksad #3 - Alma Vermelha
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
PVP: 29,90€

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Análise: Blacksad 7 - Então, Tudo Cai (Segunda Parte)

Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros


Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Blacksad 7 - Então, Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido

Passaram-se dois anos entre o lançamento da primeira parte deste díptico e a sua conclusão, que chegou às livrarias pelas mãos da Ala dos Livros apenas há umas semanas. Esta é a primeira vez em que a série Blacksad conta com uma história maior em dimensão, que precisa de ser dividida em dois volumes. Como tal, a expectativa de todos os fãs da franquia era muita. E sendo verdade que o primeiro tomo, que já aqui analisei, assegurou a boa qualidade da narrativa e argumento, havia algumas pontas soltas que faltava fechar com aprumo neste segundo volume. E, felizmente, isso acontece e esta segunda parte de Então, Tudo Cai é, sem sombra de dúvidas, um dos livros do ano!

Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Sobre Guarnido e sobre o seu trabalho nas ilustrações, não sei o que mais possa dizer. De todas as séries de banda desenhada que já li – e, sim, já li muitas – não há nenhuma que, na minha opinião, supere Blacksad em termos de beleza ilustrativa. Bem sei que esta é uma questão meramente subjetiva e, por isso, vale o que vale. Mas é com sinceridade que afirmo que toda este ambiente de “Disney para adultos”, com um toque demarcadamente noir, me conquistou desde o primeiro momento em que pousei os meus olhos na primeiríssima vinheta da série. E isso foi há mais de 20 anos! De lá para cá, foi com gosto e prazer que fui vendo que Juanjo Guarnido foi moldando e aperfeiçoando ainda mais aquilo que aos meus olhos já era perfeito.

O resultado desta segunda parte de Então, Tudo Cai é um livro miraculosa e magistralmente ilustrado. Cada pequena ou grande vinheta, cada personagem, cada expressão, cada cenário… tudo é feito com classe por parte de Guarnido. Com profundidade visual, com inúmeros detalhes deliciosos e conseguindo extrair da fisionomia de um animal, um conjunto de emoções verdadeiramente humanas - e humanizantes.

E mais! Ainda nem falei das cores! Com uma lindíssima paleta de cores que encaixa que nem uma luva no tom da história, a obra atinge patamares estratosféricos em termos visuais! E quanto ao uso das aguarelas, vou pôr as coisas desta forma: não me lembro de nenhum autor de banda desenhada que supere a técnica de Guarnido em termos de utilização de aguarela. Visualmente, quer este último livro, quer toda a série, é um verdadeiro festim para os olhos.

Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Tudo é feito, portanto, com um virtuosismo técnico e, ao mesmo tempo, inspiração emocional, que faz com que Blacksad seja uma obra perfeita em termos ilustrativos. Portanto, partindo desse ponto, tudo aquilo que pode ou não funcionar são os argumentos para os vários tomos. Ou seja, o trabalho de Guarnido é uma tal garantia de qualidade, que a “pressão” ao nível da maior ou menor qualidade da obra recai forçosamente nos ombros de Juan Díaz Canales.

Mas, mais uma vez, Canales está à altura da tarefa e assina aqui mais uma bela história. Talvez não seja a minha favorita e talvez houvesse forma de capitalizar um bocadinho melhor alguns elementos e/ou personagens da história, mas, ainda assim, esta é uma história muitíssimo competente, bem amarrada a si mesma, que nos prende à trama e aos eventos que impactam as várias personagens deste Então, Tudo Cai.

A história que já havia sido avançada no primeiro volume deste díptico, coloca Blacksad e o seu fiel amigo Weekly perante uma cidade de Nova Iorque em mutação, onde os interesses económicos de certos grupos parecem querer suplantar-se aos interesses mais gerais e mundanos da população. Solomon, uma autêntica ave de rapina, é um empresário construtor, bastante focado e vocacionado para as grandes obras públicas e a fama e adoração que as mesmas parecem granjear àqueles que as encabeçam. E é por isso que Solomon quer, a todo o custo, construir uma enorme ponte mesmo que, para tal, tenha que pisar os líderes do sindicato dos trabalhadores do metro. Quando se quer construir uma ponte para os carros, talvez não seja tão bom assim que se invista muito no metro, certo?

Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
E é quando Blacksad começa a investigar o passado de Solomon, que se apercebe de como o implacável construtor teve que silenciar muita gente, deixando um rasto de sangue à sua passagem. Entretanto, Iris Allen, a diretora do teatro que vai alimentando essa necessidade de cultura da classe trabalhadora da cidade - e que tinha chamado para a auxiliar uma velha e marcante conhecida de John Blacksad - é assassinada. Por sua vez, Weekly, cai numa armadilha e acaba a ser acusado deste mesmo assassinato. Blacksad terá, pois, que fazer os possíveis e os impossíveis não só para comprovar a inocência do seu amigo, como para desvendar este caso de corrupção.

Canales continua a apresentar uma bela escrita onde cada comentário que o protagonista nos dá, em voz off, fica na memória e faz-nos refletir. Os diálogos e as novas personagens também se apresentam bem trabalhados embora, como já disse, algumas personagens pudessem ter sido exploradas com mais ênfase, parece-me. Ainda assim, as grandes questões que ficaram sem resposta no primeiro volume, são aqui muito bem trabalhadas por Canales, unindo bem os pontos da trama. Há espaço para belas reviravoltas e posso desde já assegurar-vos que o final da história é de uma audácia autoral verdadeiramente fantástica. Tudo acaba por ser muitíssimo bem feito nesta história que envolve as ramificações do poder político, a corrupção, a máfia a construção civil e os diversos lobbies. Canales tem o mérito de conseguir dar-nos uma história densa – por sinal, a mais densa da série – mas sem que a mesma se torne enfadonha.

Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros
Um detalhe delicioso é o facto de a junção das capas dos dois volumes, quando colocadas lado a lado, formarem uma só ilustração. Como se, com efeito, cada um dos livros precisasse do outro para almejar voos e relevância maiores. E assim é.

A história prova bem que nada é para sempre. Tudo acaba por cair. É uma questão de tempo. Até as artes, como o teatro, ou a modernização, como a arquitetura, estão condenadas a cair. A serem substituídas. Por falar nisso, o que (também) é incrível em Blacksad é que esta seja, afinal de contas, uma série que tem como personagens todo o tipo de animais, mas que, ainda assim, seja munida por um humanismo que é raro encontrar em banda desenhada.

Quanto à edição da Ala dos Livros, o livro apresenta a expetável capa dura brilhante, bom papel, boa encadernação e boa impressão. Sendo uma edição a que não se pode apontar nenhuma falha, não está, porém, ao mesmo nível qualitativo da reedição dos primeiros álbuns da série que a editora tem vindo a fazer. Mas também não se esperava que isso acontecesse, diga-se. Esta é, afinal de contas, uma edição “normal”, enquanto que essa é uma edição verdadeiramente “especial”. Nota ainda, positiva, para o facto de o lançamento português ter sido feito em simultâneo com o lançamento original da obra.

Em suma, a espera valeu a pena! Este segundo volume de Então, Tudo Cai volta a trazer-nos uma história de alto nível, sob qualquer prisma de análise, onde tudo parece confluir de forma perfeita. É dessa forma que, normalmente, os clássicos são feitos. E Blacksad é um clássico. Não é por este livro ter algumas semanas de vida apenas, que não será bom, importante e obrigatório daqui a 50 ou 100 anos. Não percam mais tempo e vão comprá-lo!


NOTA FINAL (1/10):
10.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Blacksad 7 - Então Tudo Cai (Segunda Parte), de Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blacksad 7 - Então tudo cai (Segunda parte)
Autores: Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 54, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Outubro de 2023