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quinta-feira, 25 de junho de 2026

Análise: Slava #2 - Os Novos Russos

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont

A editora ASA lançou há poucas semanas o segundo volume do tríptico Slava, do autor Pierre-Henry Gomont. Intitulado Os Novos Russos, este novo álbum aumentou ainda mais o meu interesse nesta história, confirmando a sua qualidade e unindo algumas pontas soltas que tinha encontrado no primeiro volume, Depois da Queda. Na verdade, se o primeiro volume já deixava antever uma obra com ambição e identidade, este segundo tomo não só cumpre essas promessas como, em muitos aspectos, as ultrapassa com notável convicção.

Retomando a narrativa na Rússia dos anos 90, Pierre-Henry Gomont volta a mergulhar-nos nesse período caótico, onde o colapso da União Soviética abriu espaço a uma nova ordem marcada pela ausência de regras e por uma voracidade económica quase predatória, que havia de dar origem à famosa "ordem" dos oligarcas. O conceito de “novos russos”, isto é, aqueles que enriqueceram rapidamente à custa de expedientes duvidosos, torna-se aqui o eixo temático central, abordado com um tom que, apesar da dureza do contexto, conserva uma leveza surpreendente, e por vezes até bem‑humorada.

A história divide-se de forma mais clara do que no primeiro volume, entre os percursos de Slava e Lavrine, agora separados por circunstâncias particularmente duras. Lavrine surge numa situação de absoluta decadência: abandonado, mutilado e reduzido a uma existência quase espectral numa aldeia remota. A sua transformação é um dos pontos mais interessantes deste volume, não tanto pela redenção, mas pela forma como Gomont nos oferece uma personagem tão carismática e que acaba, quase sempre, por se mover apenas com base nos seus impulsos egoístas. Ou de sobrevivência. 

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Já Slava permanece ligado à mina - e à bela Nina - tentando negociar com os grandes poderosos algumas das máquinas mais valiosas presentes nessa mina. O seu relacionamento clandestino com Nina ganha protagonismo neste volume, criando uma tensão constante com Arkady, o noivo desta. Há aqui um jogo emocional e moral mais aprofundado, onde Slava oscila entre a paixão, a responsabilidade e a sua própria crise identitária, acentuada pela vontade de regressar à pintura como forma de encontrar equilíbrio.

Se no primeiro volume, a narrativa me pareceu por vezes indecisa, com momentos dispersos e alguma dificuldade em encontrar um rumo coeso, neste segundo tomo Gomont demonstra um controlo muito mais premente do enredo. As pontas soltas são aqui trabalhadas com maior cuidado, e aquilo que antes parecia quase aleatório ganha agora função e peso dentro da estrutura narrativa.

Para isso, também conta que a obra nos ofereça belas personagens: Slava continua a ser um protagonista sólido, com traços de idealismo que contrastam com o mundo que o rodeia, enquanto Nina mantém o seu carisma e complexidade, funcionando não apenas como interesse amoroso, mas também como catalisadora de decisões e conflitos. Ainda assim, é impossível não destacar Lavrine como a verdadeira estrela deste volume. Politicamente incorreto, manipulador, sem escrúpulos e totalmente focado no enriquecimento pessoal, é uma daquelas personagens que fascinam precisamente pelas suas falhas. Mesmo em ruína, Lavrine mantém um magnetismo difícil de ignorar, e o seu percurso neste volume dá-lhe uma profundidade inesperada. A obra chama-se "Slava" mas, quanto a mim, bem que podia chamar-se "Lavrine".

Outro aspecto que merece destaque é a forma como Gomont torna a leitura mais fluida neste volume. O ritmo está melhor calibrado e a articulação entre cenas é mais natural, contribuindo para uma experiência mais coesa e envolvente. Mesmo quando a história abranda, fá-lo com intenção, aprofundando personagens em vez de dispersar a atenção.

E o equilíbrio entre o humor e a crítica social é outro dos grandes méritos da obra. Gomont consegue abordar temas pesados, como a corrupção, o oportunismo e a desagregação social, com um tom que nunca resvala para o moralismo, optando antes por uma ironia subtil que torna tudo mais acessível e, paradoxalmente, mais incisivo. Não é bem daqueles livros que nos faz rir à gargalhada, mas certamente coloca um sorriso mordaz nas nossas faces.

Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Em termos visuais, as ilustrações presentes neste segundo volume vão ao encontro do bom trabalho que o autor já nos havia dado no primeiro tomo da série. O traço continua dinâmico, expressivo e cheio de movimento, lembrando, com as devidas distâncias, o estilo de Christophe Blain. As figuras parecem constantemente em fluxo, deformando-se ligeiramente para acentuar emoções e criar uma sensação de urgência que casa perfeitamente com o cenário retratado. E as próprias máquinas e ambiente fabril da mina dos trabalhadores, bem como os cenários gélidos russos, são especialmente bem reproduzidos. Gosto muito do desenho do autor e, já agora, acho a ilustração da capa profundamente linda.

E também a cor continua a desempenhar um papel fundamental. As paletas carregadas e algo sujas reforçam a atmosfera de decadência, ao mesmo tempo que sublinham os contrastes emocionais e narrativos. São cores que, mais do que serem meramente ilustrativas, conseguem ser parte integrante da narrativa visual, ajudando a construir o ambiente e a psicologia das personagens. tudo muito bem feito.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no miolo, e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos.

Em conclusão, Slava #2 – Os Novos Russos revela-se não apenas uma continuação competente, mas um claro passo em frente relativamente ao primeiro volume. Mais focado, mais maduro e com personagens ainda mais bem trabalhadas, este segundo tomo consolida a série como uma fantástica e inspirada abordagem à Rússia pós-soviética, com todos os seus podres. Fica, assim, a expectativa bem elevada para o desfecho desta singular trilogia! Bela aposta da ASA!


NOTA FINAL (1/10):
9.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Ficha técnica
Slava #2 - Os Novos Russos
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Maio de 2026

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Vem aí o segundo volume de "Slava"!



A ASA prepara-se para editar, a partir do próximo dia 2 de Junho, o segundo volume do tríptico Slava, de Pierre-Henry Gomont.

Sobre o primeiro volume, que me deixou boas impressões, já aqui falei, relembro.

Ainda que o livro só nos chegue já nos primeiros dias de Junho, já pode ser encontrado em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais da edição original francesa.


Slava #2 - Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont

Anos 90, no coração da Rússia. 

Desde a sua violenta discussão com Slava, Lavrine não deu sinal de vida. 

Se este último não é encontrado, é porque foi abandonado por Troubetskoï numa aldeia isolada, amputado de dois dedos e sem um tostão. Atolado na sua solidão, Lavrine é uma sombra do que era. Embora consiga, para sobreviver, enganar as almas caridosas que lhe oferecem ajuda, o seu coração já não está nisso. Perdeu o apetite pelo lucro e pela fraude que sempre lhe serviram de razão de viver... 

Será que encontrará, nestes erros e nas águas turvas da dúvida, o fôlego que lhe falta para finalmente se revelar a si mesmo?
Quanto a Slava, ele mantém com mais zelo e assiduidade a sua paixão clandestina por Nina do que a conclusão das transações que iniciou com Troubetskoï para salvar a mina. É que ele precisa redobrar a sua engenhosidade para evitar que Arkady, o noivo da sua impetuosa amante, descubra o romance deles...


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Ficha técnica
Slava #2 - Os Novos Russos
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 29,7 x 24,4 cm
PVP: 20,90€

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Análise: Slava #1 - Depois da Queda

Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont

O ano 2025 tem sido dos melhores anos da editora ASA no que à publicação de banda desenhada de qualidade superior diz respeito. São vários os bons exemplos que podemos encontrar no catálogo recente da editora portuguesa. Este Slava, da autoria de Pierre-Henry Gomont, é apenas mais um desses bons exemplos.

Slava é uma mini-série com três volumes, lançados no seu mercado nativo entre 2022 e 2024, que nos transporta para a Rússia da década de 1990, num período turbulento logo após o colapso da URSS. Foi uma época em que a utopia comunista, antes dominante, tinha-se então tornado mais num conceito teórico, alimentado por um canto débil propagandista, do que em algo que pudesse ter um real reflexo palpável na sociedade de então.

Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
E é com esta moldura histórico-política, que Pierre-Henry Gomont - de quem a G. Floy Studio já por cá havia editado o muito bom Afirma Pereira - nos apresenta personagens envoltas por um cenário de decadência e desilusão. O país encontra-se à deriva, tal como muitos dos seus cidadãos que não passam de sobreviventes de um império desfeito.

A história acompanha Slava, um jovem carismático, artista plástico por vocação, que tenta encontrar o seu lugar neste novo mundo que ainda não sabe como ressurgir. Ao seu lado está Dimitri Lavrine, um velho amigo com ambições duvidosas, traficante sem escrúpulos e oportunista nato. Juntos, envolvem-se numa atividade obscura: resgatar e vender velharias soviéticas a colecionadores ocidentais que veem na antiga URSS um exótico souvenir de um regime derrotado.

O contraste entre Slava e Dimitri é uma das forças do livro. Slava ainda acredita em algum tipo de idealismo perdido, enquanto Dimitri abraça o cinismo da nova ordem. Essa tensão entre passado e presente, utopia e capitalismo, nostalgia e sobrevivência, está no cerne da narrativa. E é precisamente essa dualidade que dá espessura ao enredo. Além destas duas personagens, junta-se ao enredo a personagem de Nina, uma bela mulher por quem Slava não consegue esconder uma forte atração. É, aliás, Nina quem salva Slava e Lavrine de uma morte certa, quando um dos seus negócios não corre da maneira desejada. E são esses negócios - ou a ideia de uma boa negociata - que fará com que a trama se vá adensando.

Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Tenho que dizer que, por vezes, o enredo me pareceu um pouco reticente, sem saber bem para onde ir, onde nos são dados alguns eventos avulsos, aparentemente pouco relevantes para a construção da narrativa principal ou das personagens. Ao contrário de certos livros que me fazem mergulhar neles até que termine a sua leitura, este Slava fez o oposto: por vezes vi-me forçado a fazer algumas pausas. Não pelo facto de o tema ser demasiadamente complexo ou desinteressante, mas porque a narrativa é algo caótica, com um ritmo um pouco ao sabor da corrente, que ora prende o leitor, ora o distrai.

Já o desenho de Gomont é um espetáculo à parte. Com um traço nervoso e rápido, mas incrivelmente elegante, remete, com as devidas distâncias, para o estilo de Christophe Blain, sobretudo na expressividade gestual e nas composições ligeiramente deformadas, que servem para acentuar o tom emocional das cenas. É um traço - nunca estático, sempre em movimento - que vibra com a energia das personagens e dos lugares.

Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Além disso, as cores representam aqui um papel fundamental, para que os desenhos da obra, incluindo os das suas belas capas, seja tão apelativo. É sobretudo o uso da cor que torna esta obra visualmente marcante. As tonalidades carregadas, os vermelhos ferrugem, os azuis baços e os amarelos secos conferem à narrativa uma densidade simbólica muito eficaz. As cores ajudam a situar-nos na decadência, na poeira dos tempos e no clima severo da gélida paisagem russa. Não são, por isso, cores meramente decorativas, acabando por ter uma função narrativa e reforçando emoções, atmosferas e contrastes ideológicos.

Apesar da qualidade geral da obra, mantenho alguma reserva em relação ao entusiasmo generalizado que tenho visto à sua volta. Sem dúvida, Slava #1 - Depois da Queda é bom e tem grande potencial, mas não creio que, por agora, se justifique qualquer histeria. Esta é apenas a primeira entrada de uma série de três volumes e, como tal, joga ainda com muitas cartas escondidas. Introduz personagens interessantes, sim, mas nem todas são bem desenvolvidas neste primeiro tomo. Surgem-nos várias pontas soltas que, bem tratadas, poderão fazer-nos estar diante de uma belíssima série. Mas, mal tratadas, poderão enfraquecer a obra.

Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa
Há, inclusive, certas cenas que parecem "fillers", isto é, momentos inseridos mais para dar cor ou densidade ao mundo do que para fazer a narrativa avançar de forma significativa. Isso não é necessariamente um problema, mas cria um ligeiro desequilíbrio estrutural, especialmente quando se nota que há muitos elementos deixados em suspenso.

Ainda assim, os temas lançados são promissores: o peso do passado, a crise identitária de uma geração que cresceu sob o comunismo e acordou num capitalismo selvagem, e a procura de algum sentido num mundo em ruínas. Slava é um protagonista suficientemente forte para conduzir estas questões, que podem ser muito bem exploradas nos próximos volumes.

A ambientação que nos é dada por Gomont, em que as cidades são cinzentas e plenas de ruínas monumentais e paisagens amplas, mas desoladas, reforça o sentimento constante de uma sociedade suspensa entre dois tempos. A Rússia retratada por Gomont surge-nos, pois, como um quase estado de espírito coletivo de luto, de adaptação forçada, de esperanças partidas. Nesse sentido, a obra é - ou poderá vir a ser, aguardemos pelo fim da mesma - mais do que uma simples narrativa pós-soviética, uma autêntica meditação sobre o fim de ciclos.

A edição da ASA é bem conseguida. O livro apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior - que casa perfeitamente com o tipo de desenho de Pierre-Henry Gomont - e boa encadernação e impressão. No início do livro, há um texto introdutório, muito interessante, do próprio autor.

Em suma, este primeiro volume do tríptico Slava é uma obra bastante apelativa em termos visuais, com uma história que começa bem, mas que ainda caminha sobre terreno instável. Pode tornar-se uma série memorável, caso os volumes seguintes desenvolvam o que aqui foi apenas sugerido. Por enquanto, é uma leitura forte e envolvente, com um pé no passado, outro no futuro e muitos dilemas no presente. Estou atento, e espero que Gomont cumpra os bons indícios que este primeiro volume acalenta.


NOTA FINAL (1/10):
8.6


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Slava #1 - Depois da Queda, de Pierre-Henry Gomont - ASA - LeYa

Ficha técnica
Slava #1 - Depois da Queda
Autor: Pierre-Henry Gomont
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 297 x 244 mm
Lançamento: Maio de 2025

sexta-feira, 2 de maio de 2025

ASA prepara-se para lançar a BD "Slava", de Pierre-Henry Gomont!


Entre a próxima fornada de banda desenhada que a ASA prepara para este mês de Maio, está a nova aposta no tríptico Slava, da autoria de Pierre-Henry Gomont, de quem por cá já a editora G. Floy Studio editou o excelente Afirma Pereira há uns anos.

Esta é uma banda desenhada que tem conquistado muito apreço junto do público e crítica, tendo sido iniciada no ano de 2022.

A história retrata a transição caótica da Rússia pós-soviética através da jornada de Slava, um ex-artista dividido entre ideais comunistas e a nova realidade capitalista. A obra mistura humor, crítica social e melancolia numa reflexão sobre identidade e sobrevivência.

Estou bastante curioso em ler este livro que deverá ser editado em Portugal nos mesmos moldes em que foi originalmente editado, ou seja, um tomo de cada vez. O primeiro deles terá o título de Depois da Queda.