Foi há poucas semanas que a editora Ala dos Livros lançou o quinto volume da série Blacksad, assegurando deste modo que tem toda a série disponível no seu catálogo. Trata-se de uma edição super especial dos primeiros cinco tomos que reúne a A História das Aguarelas em que nela nos é dado um rigoroso conteúdo extra em que o ilustrador Juanjo Guarnido nos explica as opções tomadas em relação às cores utilizadas em cada álbum. Além disso, a lombada em tecido agrupada dos cinco volumes forma o logótipo "Blacksad". É uma edição espetacular!
Para que não se percam, relembro que estes primeiros cinco tomos da série já haviam sido lançados em Portugal há vários anos pela ASA e pela Arcádia. Os quatro primeiros pela ASA e o quinto pela Arcádia. Entretanto, a série recebeu mais uma história dividida em dois volumes, Então, tudo cai, que a Ala dos Livros também tem no seu catálogo. Há a possibilidade - mas ainda sem confirmação - desse díptico vir a ser incluído nesta coleção, reunindo os dois tomos num só volume com lombada a condizer e a inclusão da História das Aguarelas. Mas, claro, isso ainda é algo em estudo, não havendo para já nenhuma confirmação da Ala dos Livros.
Centrando-me neste quinto tomo, Amarillo, que tive a oportunidade de reler há uns dias, devo dizer que este é, quanto a mim, o menos impressionante de todos os álbuns da série. No entanto, essa perceção resulta menos das fragilidades da obra e mais da extraordinária qualidade daquilo que a precede e sucede.
Aqueles que me leem já o devem saber - pelo menos, faço referência a isso muitas vezes que Blacksad - juntamente com Armazém Central, por motivos diferentes - é a minha série favorita de banda desenhada. Esta é uma daquelas raras séries que, para mim, parece ter tudo. Adoro as histórias, adoro o ambiente noir, adoro o carisma das personagens e adoro, acima de tudo, a arte absolutamente extraordinária de Juanjo Guarnido. Talvez por adorar tanto a série é que considero que Amarillo acabe por ficar uns furos abaixo dos restantes álbuns.
Quero deixar uma coisa clara desde o início: considero Amarillo um belo álbum. O problema, se é que lhe podemos chamar "problema", é que pertence a uma série que me habituou à excelência absoluta. E quando comparo este quinto volume com os anteriores, sinto que é o menos forte da coleção. Mas, lá está, essa observação diz mais sobre o nível extraordinário de Blacksad do que sobre qualquer falha grave deste livro.
Desta vez, Canales leva-nos por um caminho diferente. Em vez de uma investigação policial clássica, temos uma espécie de viagem pelas estradas americanas, numa narrativa mais próxima de um road movie. A mudança de registo é interessante e permite explorar novos cenários e novas personagens, mas ao mesmo tempo senti falta daquela intensidade narrativa e daquele suspense que marcaram profundamente os restantes álbuns.
Ao longo da leitura nunca perdi o interesse, é certo, mas também nunca senti aquele fascínio quase hipnótico que experimentei em álbuns como Arctic-Nation ou Algures Entre as Sombras. A história de Amarillo flui bem, é envolvente e está cheia de bons momentos, mas nem sempre atinge os mesmos picos emocionais e dramáticos a que a série me habituou.
Ainda assim, há algo neste livro que é muito do meu agrado: a forma como Canales retrata a América dos anos 50. As estradas intermináveis, os motéis esquecidos, os pequenos negócios à beira da estrada e os sonhos de liberdade criam uma atmosfera irresistível. Mesmo quando a narrativa parece menos ambiciosa, o mundo de Blacksad continua a ser um lugar onde adoro passar o meu tempo.
As personagens secundárias, especialmente Chad Lowell, voltam a ser um dos grandes trunfos da obra. Uma das coisas que mais admiro nesta série é a capacidade de apresentar figuras que surgem durante poucas páginas e, mesmo assim, conseguem deixar marca.
Quanto ao protagonista, John Blacksad, continua simplesmente incrível. O seu humor, a sua inteligência, o seu sentido moral e o seu charme fazem dele uma personagem realmente impactante.
Já visualmente, Amarillo continua a estar muito acima da esmagadora maioria da banda desenhada que podemos ler. No entanto, confesso que mesmo neste ponto senti que Guarnido talvez não tenha sido tão meticuloso como costuma ser. E isso nota-se claramente no desenho mais em esboço de personagens em segundo plano ou em alguns cenários. É claro que, em contraponto, há imensos desenhos que são lindos de morrer e que nos deixam verdadeiramente deslumbrados.
As aguarelas, por seu turno, continuam a ser de uma beleza impressionante. Guarnido mantém uma capacidade quase mágica para trabalhar a luz, as cores e as atmosferas. As paisagens quentes e poeirentas do sudoeste americano estão cheias de vida e ajudam a criar uma identidade visual muito própria para este volume.
Também continuo completamente rendido ao design das personagens antropomórficas. Cada animal parece escolhido ao detalhe para refletir a personalidade de quem representa. É um dos (muitos) aspetos geniais da série e algo que nunca deixa de me impressionar, mesmo ao fim de tantas leituras.
Em termos de edição, já pouco posso dizer, além de dar nota de que é uma das minhas edições preferidas de banda desenhada. A lombada em tecido, a inclusão de a História das Aguarelas, o cuidado editorial, os acabamentos de qualidade... tudo está feito na perfeição.
Em conclusão, reitero que Blacksad - Amarillo é o volume menos forte da saga, tanto a nível narrativo como, em certa medida, a nível artístico. Mas essa avaliação só faz sentido quando comparada com os restantes livros da coleção, que considero verdadeiras obras-primas. A fasquia está tão absurdamente alta que um álbum "simplesmente muito bom" acaba por parecer uma pequena desilusão. E talvez isso seja o maior elogio que se pode fazer a Canales e Guarnido com o seu Blacksad: mesmo quando os autores não atingem o seu melhor, continuam a criar banda desenhada de altíssimo nível.
NOTA FINAL (1/10):
8.9
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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