Foi de um modo algo surpreendente que tomei conhecimento que, em primeiro lugar, havia o Prémio Revelação Maia BD - iniciativa que, pela sua relevância e potencial, aplaudo - e que, em segundo lugar, a edição de 2026 tinha sido ganha pela autora Helena Sá, que se estreou no universo da banda desenhada com este A Solidão do Ser, que hoje vos trago.
Esta é uma obra pequena na extensão, com menos de 40 páginas de BD, mas surpreendentemente vasta pela quantidade de coisas em que nos deixa a pensar. Não existe aqui uma história complexa, nem grandes acontecimentos, nem sequer uma preocupação em construir uma progressão dramática convencional, mas o que encontramos é, por sua vez, uma reflexão ilustrada sobre a condição humana, sobre o modo como (co)existimos e sobre a forma como, tantas vezes, atravessamos os dias sem verdadeiramente os habitar.
Helena Sá apresenta-se aos leitores de uma forma algo silenciosa e tímida, mas ao mesmo tempo demonstrando segurança. Quer no texto, quer nas ilustrações. Há aqui uma delicadeza evidente, mas também uma convicção muito clara acerca daquilo que se pretende comunicar, sem que seja necessário à autora levantar a sua "voz para se fazer ouvir". Ao invés, a autora aparenta preferir sussurrar com os leitores. E é precisamente por isso que a sua mensagem acaba por permanecer connosco durante mais tempo.
A Solidão do Ser traz-nos alguns avisos, algumas chamadas de atenção. Numa vida em que somos corpos fechados dentro de ilhas que pouco ou nada interagem com os outros - com as outras "ilhas" - este é um livro que traz consigo um alerta sobre o significado do ser, do querer e do estar. Ao longo das páginas, Helena Sá convida-nos a observar os espaços que ocupamos, as rotinas que repetimos e os vazios que muitas vezes transportamos sem deles termos plena consciência. É uma obra que fala da vida contemporânea sem nunca precisar de nomear diretamente os seus males. E é natural que todos nós, sejamos um(a) jovem de 16 anos ou um(a) idoso(a) de 86 anos, consigamos encontrar no protagonista deste livro mais pontos de contacto do que aquilo que gostaríamos de admitir.
Existe aqui uma reflexão muito pertinente sobre a forma como vivemos os nossos dias. Sobre a velocidade com que atravessamos o quotidiano, sobre a tendência para habitar mais os pensamentos do que os lugares físicos e sobre a dificuldade crescente em estarmos verdadeiramente presentes e conectados. É um livro que nos recorda que a existência não se resume ao simples ato de passar pelo tempo.
Ao mesmo tempo, a autora parece sugerir que precisamos desesperadamente de cor nas nossas vidas cinzentas. E não apenas enquanto elemento visual - embora o mesmo seja elaborado de forma bem sucedida -, mas como metáfora para tudo aquilo que confere significado à vida: a emoção, a ligação aos outros, a criatividade, a capacidade de sonhar e de encontrar beleza nos pequenos momentos.
Uma das características que importa mencionar é a rara economia no texto que existe neste A Solidão do Ser, em que as frases surgem simples, diretas e despojadas de grandes artifícios. Contudo, por detrás dessa simplicidade existe uma notável inteligência emocional. São frases que parecem leves no momento da leitura, mas que regressam mais tarde à memória, obrigando-nos a revisitá-las.
É verdade que, por vezes, senti que o texto, mesmo sendo inspirado e, como diriam os ingleses spot on, me pareceu algo curto, ou que as ideias nele presentes poderiam ser mais (bem) desenvolvidas. Mas isso não belisca em nada a ideia e conceito presente na narrativa. Além disso, Helena Sá demonstra que não são necessárias muitas palavras para transmitir pensamentos profundos.
Aliás, para uma autora na fase inicial do seu percurso na banda desenhada, a maturidade revelada neste livro é assinalável. Existe uma consciência muito clara do impacto que cada palavra pode ter e uma capacidade invulgar para condensar emoções complexas em poucas linhas.
Visualmente, o livro é igualmente muito interessante. O traço da autora revela elegância, sensibilidade e personalidade própria. Existe uma fluidez muito agradável no desenho, acompanhada por uma simplicidade gráfica que nunca resvala para a pobreza visual. Pelo contrário, tudo parece cuidadosamente pensado para servir a mensagem da obra.
O jogo cromático entre os tons de cinzento, preto e branco e a presença pontual do amarelo constitui mais um dos elementos bem conseguidos do livro. Essa utilização seletiva da cor funciona quase como uma linguagem paralela à do texto, ajudando, tal como já referi, a reforçar emoções, ideias e o estado de espírito do protagonista. O amarelo surge como uma espécie de brecha luminosa no interior de um mundo frequentemente dominado pela monotonia e pela introspeção.
Também as soluções de planificação demonstram criatividade e confiança. Helena Sá não se limita a repetir a mesma estrutura de página ao longo do livro. Na verdade, até experimenta diferentes composições visuais e diferentes formas de organizar a informação gráfica. Como resultado, encontramos várias pranchas muito bem conseguidas e memoráveis.
Também em termos de edição, o trabalho conjunto das editoras A Seita e Turbina revela-se singular. O livro apresenta uma espessa capa dura (mesmo em sólido cartão) e a lombada está nua, revelando as próprias costuras entre os vários cadernos que compõem o livro. Não é uma opção muito frequente em banda desenhada editada em Portugal - assim, de cabeça, apenas me lembro da editora Levoir ter apostado nesta opção com o seu livro A Ilha - e, só por isso, revela-se uma escolha bem-vinda. Mesmo sem me considerar um "fanático das lombadas" confesso que me faz confusão que não haja qualquer informação na lombada. Não por uma questão de "ficar bem na estante", mas por uma questão de informação. Para aqueles que, como eu, têm muita banda desenhada, um livro sem texto na lombada pode ser menos relembrado se não se fizer notar pelo título na lombada. Mas, enfim, isto é uma opinião muito pessoal que não põe em causa minimamente o trabalho diferenciado e bem conseguido da edição deste A Solidão do Ser.
Além disto, no miolo, o livro apresenta bom papel baço, boa encadernação, boa impressão e um breve caderno de extras onde podemos ter acesso a estudos de personagem, estudos de página e uma breve biografia da autora.
Em suma, e depois de se ler A Solidão do Ser, torna-se fácil compreender o porquê de Helena Sá já ter recebido um prémio de banda desenhada com este livro. Eis uma obra que impressiona especialmente pela honestidade, pela sensibilidade e pela inteligência com que aborda temas universais. É um livro pequeno, discreto e profundamente humano. Daqueles que não procuram impressionar o leitor à força, mas que acabam por permanecer na memória precisamente pela serenidade com que nos convidam a olhar para nós próprios. Aliás, é bem possível que, pelo menos dentro da categoria de Prémio Revelação, sejam vários os prémios que a obra venha a arrecadar durante este e o próximo ano.
NOTA FINAL (1/10):
8.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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A Solidão do Ser
Autora: Helena Sá
Editoras: A Seita e Turbina
Páginas: 56, a preto e branco (com algumas cores)
Encadernação: Capa dura em cartão com lombada cozida
Formato: 171 x 240 mm
Lançamento: Maio de 2026
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