Foi no mês passado que a editora G. Floy Studio lançou o seu primeiro(!) e único livro neste ano de 2026, o que é clara prova da cada vez maior inatividade da editora em Portugal. Isso deixa-me especialmente triste, pois a editora tem um conjunto extremamente relevante de belas obras que foi lançando por cá, tornando-se uma referência editorial. Como tal, a sua inatividade não pode ser uma boa notícia para os amantes de BD. Faço, por isso, votos para que esta seja apenas uma fase da editora e que a mesma possa regressar em grande. A ver vamos...
A obra em questão é o novo volume da série Preto, Branco & Sangue que desta vez é dedicado à personagem de Venom. Esta é, aliás, uma série que, aquando do seu aparecimento, parecia trazer uma lufada de ar fresco ao universo dos super-heróis. A ideia era simples, mas eficaz: reunir vários autores em histórias curtas, restritas a uma paleta cromática assente no preto, branco e vermelho, e permitindo abordagens mais livres, experimentais e visualmente marcantes. Numa fase inicial, especialmente com os dois primeiros livros dedicados a Wolverine e a Carnificina, esta fórmula revelou-se, quanto a mim, bastante apelativa. Contudo, à medida que os volumes se vão multiplicando - e já são oito, no total - começa também a tornar-se evidente que a novidade e a frescura do conceito já não detém o mesmo impacto. Parece uma premissa bastante "reciclada".
Neste volume dedicado a Venom, encontramos um conjunto de histórias independentes protagonizadas pelo simbionte mais popular da Marvel. Tal como acontece nos restantes títulos da coleção, o livro aposta numa estrutura antológica, reunindo diferentes equipas criativas que exploram facetas distintas da personagem em 12 histórias curtas. O resultado é inevitavelmente desigual - como é habitual em antologias - mas também suficientemente diversificado entre si.
Um dos principais méritos do livro reside precisamente nessa liberdade criativa, pois permite que, aqui e ali, possamos ser surpreendidos. Quer em termos narrativos, quer em termos visuais. Ao não estarem condicionados pela continuidade regular das séries mensais, os autores podem experimentar conceitos mais invulgares, explorarando cenários alternativos ou simplesmente contando pequenas histórias autocontidas sem grandes consequências para o universo Marvel. Essa liberdade narrativa acaba por favorecer algumas das melhores histórias do volume, como Doce Será a Flor, de Ryan North, Creees Lee e Andres Mossa; Relação Tóxica, de Carl Pott e Damian Couceiro; ou Luzinha, de Chris Bachalo e Jaime Mendoza. O conjunto de autores que participam nesta antologia volta a ser constituído por alguns autores menos conhecidos e outros de maior renome, como, por exemplo, J.M. DeMatteis, Al Ewing ou Erik Larsen.
Ainda assim, também é verdade que essa estrutura mais livres gera inevitavelmente oscilações de qualidade. É verdade que algumas histórias revelam ideias interessantes e conseguem explorar eficazmente o lado monstruoso, violento e até trágico de Venom, mas outras, pelo contrário, parecem exercícios relativamente superficiais, baseados mais numa premissa visual forte do que numa verdadeira substância narrativa.
Sim, porque em termos visuais, este volta a ser um livro muito bem executado, tal como os outros da série. Vê-se que cada ilustrador se aplicou bastante na feitura da sua história. Talvez por esse motivo, já por mim mencionado, do formato curto lhes permitir arriscar em soluções que dificilmente encontrariam espaço numa série regular de longa duração.
Mesmo assim, a fragilidade deste livro, tal como dos mais recentes desta série, é que nem mesmo a excelência gráfica consegue esconder totalmente a sensação de repetição que começa a afetar esta linha editorial. E aquilo que inicialmente parecia um laboratório criativo cheio de potencial tem-se transformado, em certa medida, numa fórmula reconhecível e até algo previsível.
Quanto à edição da G. Floy Studio, a mesma mantém-se irrepreensível. O livro apresenta capa dura baça, bom papel brilhante no interior, boa encadernação e boa impressão. No final, há ainda um conjunto de 14 capas alternativas, todas elas muito impressionantes do ponto de vista do desenho e do conceito gráfico.
Em suma, Venom - Preto, Branco e Sangue permanece uma leitura competente e globalmente satisfatória. Tem algumas histórias interessantes, alguns momentos visuais impressionantes e demonstrações cativantes da versatilidade da personagem. Contudo, este livro também reforça a ideia de que esta coleção começa a evidenciar um certo desgaste conceptual. Continua a ser uma boa plataforma para experimentações narrativas e gráficas, sim, mas o efeito de novidade dissipou-se há alguns volumes atrás.
NOTA FINAL (1/10):
7.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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