O terceiro livro de origem polaca que a editora A Seita lançou em pouco tempo foi este Lunáticos, de Adam Fyda e Marek Ospalski. Esta obra surge como mais um fruto da recente iniciativa da editora portuguesa de editar por cá algumas bandas desenhadas polacas, ao mesmo tempo que também tem lançado algumas obras nacionais na Polónia. Trata-se de um intercâmbio cultural que me parece bastante bem-vindo.
E comparando este Lunáticos com os anteriormente publicados Heksa - A Bruxa, de Katarzyna Witerscheim, e Três Irmãs, de Anna Poszepczyńska - se é que este tipo de comparações é justa -, parece-me que é legítimo verificar que esta será a obra mais interessante e mais bem equilibrada das três. Ainda que todas elas mereçam atenção.
Lunáticos é inspirado na obra clássica No Orbe de Prata, um trabalho de ficção científica publicado pelo polaco Jerzy Żuławski, em 1903. Considera-se até mesmo uma das obras fundadoras da ficção científica polaca.
Pelo que pude investigar, esta adaptação da obra para banda desenhada é bastante livre, procurando ser um trabalho de abordagem e teor mais contemporâneos, mesmo que, a obra original, com mais de 100 anos, ainda se mantenha atual nos tempos em que vivemos.
A ação decorre no ano de 1913, quando cinco exploradores partem da Terra rumo à Lua, iniciando a primeira expedição lunar e acreditando que poderão encontrar uma atmosfera habitável no lado oculto da lua. O chamado The Dark Side of The Moon, vá, o mesmo nome de um dos álbuns mais respeitados da música que nos foi dado pelos britânicos Pink Floyd. Mas cedo se perde a comunicação com a tripulação, fazendo com que ninguém na Terra saiba se os astronautas estão vivos ou não. E nós, leitores, acompanhamos aquilo que acontece com eles.
Confesso-vos que, não sendo o maior fã de histórias que se passam no espaço, devo dizer que fiquei bastante agradado e, até, em alguns casos, surpreendido com este livro. Um dos aspetos mais interessantes de Lunáticos reside precisamente na forma como evita transformar-se numa narrativa convencional de sobrevivência. Daquelas que já todos vimos, vezes sem conta. Embora existam momentos de tensão e adversidade com que a tripulação terá que lidar, claro, diria que a verdadeira preocupação dos autores parece estar na evolução das personagens, das suas ideias e das suas crenças. Há, pois, toda uma dimensão filosófica que me surpreendeu pela positiva. A necessidade humana de encontrar significado mesmo nos ambientes mais hostis continua a ser algo do qual, aparentemente, não conseguimos fugir enquanto espécie. E isso torna o exercício narrativo da obra em algo interessante.
Narrativamente, Lunáticos desenvolve-se, muitas vezes, de forma contemplativa. Há sequências que privilegiam a observação, a introspeção e a construção atmosférica em detrimento da ação. Esta opção exige alguma disponibilidade por parte do leitor, é certo, mas acaba por contribuir para que o livro seja mais maduro na sua abordagem. Não estamos, pois, perante uma obra que procure oferecer entretenimento rápido, mas antes ser uma experiência que convide à reflexão.
Além disso, parece haver também uma certa sensação de "terror cósmico". Porque embora Lunáticos não seja propriamente uma obra de terror, per se, existe uma constante sensação de desconforto. A vastidão do espaço, a fragilidade humana e a estranheza do ambiente lunar contribuem para uma atmosfera de inquietação que atravessa todo o livro.
Em termos visuais, o livro também consegue ser bastante bom. Se a bela capa já me tinha deixado interessado no livro, devo dizer que quer os desenhos das personagens, quer, principalmente, os desenhos do espaço sideral e de paisagens da lua, me encheram as medidas. Este é um daqueles livros em que é bonito olhar demoradamente para várias ilustrações. Ilustrações essas que nos transportam para ambientes grandiosos com um forte sentido de estranheza e isolamento. A Lua surge representada como um espaço simultaneamente belo e inquietante, reforçando constantemente a sensação de afastamento em relação ao mundo conhecido.
A composição das pranchas demonstra igualmente uma grande maturidade. Adam Fyda sabe quando deve privilegiar grandes panorâmicas e quando deve aproximar-se das personagens. O próprio grafismo da obra nos separadores entre capítulos é bastante apelativo. E também o trabalho de cores é muito belo. Considerei apenas que, em vários momentos, gostaria que o livro fosse maior em formato, pois certas vinhetas ficam demasiadamente pequenas, perpassando para o leitor uma certa sensação de claustrofobia.
De resto, a edição d' A Seita é em capa dura, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior. O trabalho de impressão e encadernação também está bem feito.
Em suma, a capacidade para articular imaginação científica, reflexão filosófica e excelência gráfica transforma este Lunáticos numa obra particularmente interessante para leitores que procuram algo mais do que uma simples aventura espacial. Esta é uma banda desenhada que honra o legado de uma obra de ficção científica com mais de 100 anos e que demonstra que muitos dos grandes temas da ficção científica continuam tão relevantes hoje como há mais de cem anos. Gostei!
NOTA FINAL (1/10):
8.3
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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