Foi há poucas semanas que chegou às livrarias portuguesas o mais recente livro dedicado à série de fantasia Thorgal, uma saga originalmente criada por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski. Este livro está inserido em Thorgal Saga, uma série que procura convidar autores a darem o seu cunho pessoal à série, através de um álbum autocontido e, portanto, fora da história da série canónica. O primeiro álbum desta iniciativa que já conta com 6 volumes em França foi o muito belo Adeus Aaricia, de Robin Recht, já por cá editado também pel' A Seita.
Wendigo chega-nos pelas mãos de Fred Duval e Corentin Rouge e a ideia com que fiquei, no final da leitura, é que estamos perante uma aventura sólida que nos entretém, e que é visualmente muito apelativa, mas que acaba por ficar um pouco aquém das expectativas. Pelo menos, das minhas expectativas. Especialmente, se tivermos em conta o anterior Adeus Aaricia.
A história de Wendigo leva-nos até ao território americano e decorre durante a viagem de regresso de Thorgal e da sua família do país de Qa. Pelo caminho, a família vê-se envolvida num conflito entre dois povos indígenas, numa região selvagem onde a violência se intensifica após a invocação da figura mitológica de Wendigo. Com Aaricia grávida e gravemente ferida, Thorgal vê-se obrigado a agir, entrando novamente numa guerra que não é a sua, mas da qual não consegue fugir.
Até porque para salvar Aaricia, Thorgal terá que embarcar numa missão que faz recordar algumas das aventuras mais clássicas da série. A solução para a saúde da sua amada passa pela obtenção de uma flor rara que cresce no topo de uma gigantesca árvore-mundo. E para alcançar esse objetivo, Thorgal une forças com um dos indígenas da tribo e com uma guerreira viking quem, entretanto, aparece no seu caminho.
É uma abordagem bastante clássica das histórias da personagem, o que pode agradar aos leitores mais clássicos da série. A ação desenrola-se entre florestas densas e os impressionantes ramos da árvore-mundo, proporcionando vários momentos de tensão e de espetáculo visual.
No entanto, apesar da premissa interessante e do recurso a elementos do folclore ameríndio que são bem-vindos, a verdade é que a história acaba por seguir caminhos demasiado previsíveis. Quase tudo decorre da forma esperada, sem verdadeiras surpresas ou reviravoltas marcantes.
E esse acaba por ser, quanto a mim, a principal fragilidade do álbum. É que sendo uma obra integrada na linha de "livros de autor", esperava-se uma abordagem mais ousada, capaz de explorar aspetos menos conhecidos das personagens ou apresentar uma leitura diferente deste universo. Algo como Robin Recht fez - e bem - no já anteriormente mencionado Adeus Aaricia. Fred Duval opta, pelo contrário, por construir uma aventura muito convencional, que poderia facilmente integrar a série principal sem causar qualquer estranheza. Parece-me até que Fred Duval não entendeu bem a razão de ser desta "coleção de autor" preferindo fazer uma história que funciona mais como hommage, sem recriar algo de verdadeiramente novo.
Isto não significa que a leitura seja desinteressante, atenção. Pelo contrário, a narrativa mantém um ritmo eficaz e consegue prender a atenção ao longo das suas páginas. O "problema" não está na qualidade da execução, mas sim na falta de ambição em relação às possibilidades oferecidas por este formato mais livre e experimental.
Se o argumento deixa algumas reservas, o mesmo não pode ser dito do trabalho gráfico de Corentin Rouge. O desenhador confirma mais uma vez o enorme talento que tem demonstrado em trabalhos anteriores. As personagens são extremamente expressivas, transmitindo emoções de forma imediata e convincente. E também os momentos de ação constituem outro dos grandes destaques da obra. As cenas de combate, perseguição e sobrevivência apresentam uma excelente dinâmica visual. Rouge consegue criar movimento dentro de cada prancha, envolvendo o leitor nos acontecimentos e aumentando a intensidade das sequências mais espetaculares. E há várias delas. Sou um grande admirador do trabalho deste autor, reconheço!
Ainda assim, fiquei com a sensação de que o estilo gráfico de Corentin Rouge funciona melhor em universos mais contemporâneos. Obras como Sangoma - Os Condenados da Cidade do Cabo, Islander ou Rio parecem, quanto a mim, adequar-se de forma mais natural às características do seu traço, que é muito direto, energético e centrado na ação. Em contextos históricos ou de fantasia, como acontece em Thorgal, o resultado continua a ser bastante bom, mas talvez menos surpreendente. Não se trata de uma questão de qualidade de desenho, porque essa está presente em abundância ao longo de todo o álbum. Simplesmente, a vertente mais poética, contemplativa e mítica que se associa ao universo de Thorgal parece não beneficiar tanto deste estilo mais moderno, desnudo e cinematográfico de Rouge. Ainda assim, reitero que Corentin Rouge é um ilustrador fenomenal, do qual sou um totalmente fã.
Nota ainda, muito positiva, para a fantástica ilustração da capa que é impactante, elegante e imediatamente apelativa. É uma daquelas capas que, quer parecer-me, capta o olhar de qualquer transeunte de uma livraria, ao transmitir na perfeição o ambiente de aventura e mistério presente na obra.
A edição da editora A Seita é muito bem conseguida. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e com uma textura aveludada, suave ao toque, que tanto aprecio, e um excelente papel brilhante no miolo. A impressão, a encadernação e os acabamentos também têm uma qualidade que impressiona. Por fim, o caderno de extras também está fantástico, reunindo oito ilustrações verdadeiramente espetaculares e ainda um texto de cada um dos autores.
Em suma, Thorgal - Wendigo revela-se uma leitura competente, bem desenhada e agradável, que tem o potencial para aguardar aos fãs mais antigos da série, mesmo que, a meu ver, dificilmente possa figurar entre os livros mais memoráveis do universo de Thorgal, sobretudo por optar por uma fórmula demasiado segura quando poderia ter arriscado muito mais. É, acima de tudo, para isso que servem - ou deveriam servir - "os álbuns de autor"... para que se possa arriscar mais a todos os níveis.
NOTA FINAL (1/10):
8.5
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Thorgal - Wendigo
Autores: Fred Duval e Corentin Rouge
Editora: A Seita
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 325 mm
Lançamento: Maio de 2026
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