Antes de mergulhar na análise deste O Deus Selvagem, de Vehlmann e Roger, editado por estes dias pela Ala dos Livros, permitam-me um breve desabafo: mas que começo de ano espetacular em termos de edição de banda desenhada de qualidade superior que estamos a ter! Ainda nem terminámos o segundo mês do ano 2026 e já são tantas as obras de referência, de enorme qualidade, editadas por cá: Shi, Rever Comanche, Blast, Duas Raparigas Nuas, Ulysse e Cyrano... Às quais se junta agora este magnífico O Deus Selvagem. Se em vez de estarmos no final de fevereiro estivéssemos no final de dezembro de 2026, não poderíamos dizer que tivesse sido um mau ano, nem nada que se pareça, olhando para estas obras.
Se é verdade que todas as obras mencionadas são editadas por apenas duas editoras - a Ala dos Livros e a ASA - que estão a ter um arranque de ano editorial espetacular, também não é menos verdade que são esperadas ainda outras belíssimas obras durante este ano por parte de outras editoras portuguesas.
Bem, feito o desabafo - mais do que positivo - permitam-me, então, falar-vos deste O Deus Selvagem que é uma daquelas obras que nos arranca do sofá - ou do sítio onde a estivermos a ler - e nos atira para longe do ruído do quotidiano. Esta é uma dessas raras obras que nos desloca no tempo e no espaço para, paradoxalmente, nos aproximar daquilo que somos. É uma BD profundamente poética que nos obriga a abrandar o passo e a olhar para a condição humana - e animal - com um desconforto quase primitivo.
Em termos de história, começamos por acompanhar um jovem macaco órfão que tenta encontrar o seu lugar num mundo brutal e implacável: o mundo selvagem. Em busca de provar o seu valor junto dos outros macacos, o jovem símio é primordial na morte de um grande e poderoso crocodilo, que ameaçava a sua espécie.
Mas depressa este episódio de glória dá lugar a um massacre do seu grupo de macacos e ele acaba capturado pelos humanos que passam a treiná-lo com o intuito de torná-lo um “Deus-Selvagem”, isto é, uma espécie de guerreiro sagrado, totalmente moldado para o combate e para a violência. É claro que toda essa vida em cativeiro, enquanto escravo de guerra, transforma o macaco, não só física, como emocionalmente. E daí resulta uma dor que se converte numa obsessão por vingança contra todos aqueles que atentarem contra a sua vida e liberdade: os humanos.
Mas esta não é uma história focada no macaco. Também o é, mas não só. Na verdade, até são consignadas mais páginas aos humanos do que aos animais ditos "selvagens".
A violência - seja entre animais, entre homens, entre o Homem e o animal ou da própria natureza contra todos - é o elemento central da história. Não surge como ornamento dramático, mas como força estruturante da obra. Cada gesto e cada decisão parecem carregados dessa tensão permanente que lembra que a vida é frágil e que o poder é sempre transitório. A história combina, pois, cenas de violência com uma poesia intensa e detalhada, explorando o elo entre o reino animal e a humanidade e questionando quem é, afinal, o verdadeiro protagonista: o homem ou o animal selvagem.
Estamos num tempo desconhecido, num lugar quase mítico, onde os homens se dividem em clãs e disputam território, domínio e sobrevivência - não o fizeram sempre, desde o início dos tempos, pergunto eu? A história sugere que pouco mudou desde então. Mas há também cataclismos naturais que desafiam a própria existência humana, forças maiores que tornam ridículas as pequenas guerras tribais dos homens. Ainda assim, mesmo perante o abismo, o homem insiste na violência, sobretudo na forma da vingança. E, como diz o ditado, "a vingança é um prato que se serve frio".
A estrutura da obra, dividida em quatro capítulos, cada um narrado sob o ponto de vista de uma personagem diferente, reforça essa sensação de mundo fragmentado. Ao início, a mudança de voz pode parecer abrupt e até desconcertante, mas, pouco a pouco, essa estranheza transforma-se numa ferramenta narrativa eficaz. E o que também é interessante é que ao acompanharmos o discurso na primeira pessoa de cada interveniente, somos convidados a mergulhar na sua própria visão do mundo.
O estilo de escrita de Vehlmann é declaradamente poético, por vezes até excessivamente lato, diria. Não há concessões à facilidade. O leitor anda perdido nas primeiras páginas, meio aos trambolhões. Mas, como tantas vezes acontece, "primeiro estranha-se, depois entranha-se". A obra exige entrega, exige paciência e posso dizer-vos que recompensa quem aceita esse pacto.
Ainda assim, e quanto a mim, nem tudo funciona na perfeição. A ideia da narração a quatro vozes é bem-vinda e original, mas a execução levantou-me algumas reservas. É que o tom melancólico e poético é tão semelhante entre as diferentes personagens que, por momentos, as "vozes" se confundem entre elas. E talvez(?) não fosse esse o objetivo do argumentista. Faltam nuances mais vincadas, ritmos próprios e pequenas características singulares que poderiam tornar cada narrador verdadeiramente distinto e, consequentemente, mais verossímil. Dessa forma, talvez a história pudesse ganhar em fluidez.
Mas se o argumento é denso e exigente, o desenho de Roger Ibáñez é um espetáculo por si só. A sua abordagem é moderna, arrojada, e revela uma personalidade artística esmagadora. Há aqui qualquer coisa de definidor e de (potencialmente) influente para uma nova geração de autores que procurem romper com o convencional. É um traço que não pede licença: afirma-se de uma só vez. Posso dizer-vos que saber que a Ala dos Livros iria editar esta obra - e ainda por cima a preto e branco (já lá irei) - deixou-me muito feliz. E faço até votos para que a editora portuguesa, agora que detém Roger Ibáñez no seu catálogo, venha a apostar na série Jazz Maynard, a obra mais emblemática do autor espanhol. Sonhar não custa.
É impressionante a aparente facilidade com que Roger transforma uma mancha de cor preta - uma sombra, portanto - em movimento. Um simples traço do autor parecer mudar tudo numa ilustração, sugerindo o que não está explicitamente desenhado, e criando uma tensão e dinâmica constantes junto do leitor. O uso do espaço negativo é magistral. Roger compreende que, muitas vezes, é o vazio que fala mais alto. As manchas negras e os brancos intensos dialogam numa dança constante entre luz e treva, vida e morte. O leitor é chamado a completar o que é apenas insinuado, a participar ativamente na construção da imagem. A imersão é total - mas exige disponibilidade da nossa parte.
Observar as ilustrações a preto e branco deste O Deus Selvagem é, pois, semelhante a estarmos perante uma autêntica masterclass de desenho sequencial, onde cada vinheta respira intenção e controlo.
Talvez por isso, a opção da edição portuguesa em preto e branco se revele tão acertada, pois os desenhos do autor não precisam do enfeite das cores para se tornarem grandiosos. Pelo contrário, a ausência cromática potencia a crueza e a elegância do traço, sublinhando a brutalidade do mundo retratado. Diria até que, quando editada a cores, a arte de Roger perde parte da sua força primordial. Vi por essa internet fora algumas críticas à opção da editora portuguesa de editar esta obra na sua versão a preto e branco quando, supostamente, "a edição a cores seria a edição normal da obra". Ora, tratando-se de uma opção que eleva a obra, que traz o que de melhor a mesma tem, terá sempre a minha compreensão, respeito e consentimento. E só espero que aqueles que criticam agora a editora portuguesa, não sejam os mesmos que a criticaram quando esta editou A Morte Viva na sua versão a cores quando, supostamente, "a versão a preto e branco era a melhor". Tenhamos opiniões diferentes à vontade, mas sejamos, pelo menos, coerentes.
Para além disso, deixem-me ainda dizer-vos que a edição do livro é em grande formato, com capa dura baça, detalhes a verniz e uma bela lombada em tecido. No miolo, o papel brilhante é excelente e a encadernação e impressão também o são. No final, há um dossier de extras a cores, com 16 páginas, que inclui esboços de personagens, pranchas a lápis-finais, storyboards e estudos de capa. É verdadeiramente impressionante olhar para as pranchas apenas a lápis.
No fim de contas, O Deus Selvagem é mais uma excelente banda desenhada que, felizmente, contribui para a qualidade absurdamente boa das obras que nos têm chegado, até agora, em 2026, deixando-nos com uma pergunta incómoda, mas certeira: quem é o verdadeiro herói desta história? O homem ou o animal? Talvez nenhum. Talvez ambos. Talvez a própria natureza, indiferente e soberana. Esta é uma obra que nos arranca do conforto habitual e nos obriga a refletir, lá bem longe, acerca daquilo que nos define. E só por isso - e, claro, pelo deslumbramento visual que oferece - já merece ser lida, relida e (demoradamente) contemplada.
NOTA FINAL (1/10):
9.4
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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