O livro mais recentemente publicado pela editora Arte de Autor dá pelo nome de As Raparigas de Salem e é da autoria do francês Thomas Gilbert.
A obra conta-nos a história das Bruxas de Salem ou, mais bem dito, da Caça às Bruxas de Salem. Há uma grande diferença entre uma e outra coisa. Baseado em acontecimentos verídicos, é um tema bastante recorrente, que tem aparecido em vários meios ao longo dos anos. Lembro-me do livro de Arthur Miller, mas também da sua adaptação para cinema no filme de 1996, protagonizado por Daniel Day-Lewis, ou até de um videojogo para PlayStation que joguei recentemente, intitulado Murdered: Soul Suspect. Mas nunca tinha lido nenhuma banda desenhada sobre o tema - ou, se li, já não me lembro.
E em boa hora foi editado por cá este As Raparigas de Salem, pois esta é mais uma daquelas histórias infames da humanidade que devemos fazer todos os esforços para que não seja esquecida.
Foi no final do século XVII, na aldeia de Salem, em Massachusetts, que se viveu um dos episódios mais notórios de histeria coletiva da história americana: um conjunto de raparigas foram perseguidas e julgadas por, aparentemente, serem bruxas. Enfim.
Esta proposta de Thomas Gilbert revisita os acontecimentos dos julgamentos a envolver estas raparigas, a partir do ponto de vista de Abigail Williams, uma das jovens que estiveram no centro das acusações. Em vez de uma narrativa puramente factual, o autor aposta numa abordagem mais sensível e interpretativa, ainda que procure reconstruir o ambiente social, religioso e emocional destes eventos tão bem quanto possível.
Salem era uma comunidade rígida, marcada por normas severas, repressão e tensões latentes. O clima de medo e superstição, aliado a conflitos familiares e sociais, contribui para a criação de um cenário onde comportamentos incomuns, ou menos aceitáveis para a moral vigente, rapidamente são associados ao sobrenatural. E quando a jovem recebe um presente de um rapaz, levantam-se as censuras dos locais. O Reverendo Parris é quem zela pelos bons costumes, pelo puritanismo e, quando percebe que a sua fonte de rendimento está a decrescer - ou quando é flagrado a abusar sexualmente de uma jovem - põe mãos à obra, de modo a proteger o seu estatuto e posição, arranjando um bode expiatório nestas raparigas. A partir desse momento, o Reverendo tudo fará para arrastar estas jovens até à forca.
Julgar jovens sem razão alguma, só para proteger o status quo é uma coisa de que todos nós, sociedade, nos deveríamos envergonhar.
Mas mais do que explicar os acontecimentos de forma definitiva, a obra procura lançar perguntas sobre responsabilidade, culpa e manipulação, pois a verdae é que este episódio de Salem permanece até hoje como um exemplo marcante dos perigos do fanatismo, do medo coletivo e da fragilidade da justiça em contextos de forte pressão social e religiosa.
E ainda que o tema de Salem seja sobejamente conhecido, até chega a ser curioso que o livro, a princípio, quer pela sua capa, quer pelas primeiras páginas, nos possa induzir a considerar que estamos perante uma história leve ou até de cariz mais juvenil. Desenganem-se os incautos que acharem isso. As Raparigas de Salem rapidamente se revela uma obra bem negra, pesada e macabra. Se calhar, até diria mesmo que, dentro de todas as obras da editora Arte de Autor, esta até esteja entre aquelas que são mais opressivas e inquietantes. Isto porque Gilbert mergulha sem concessões no lado mais sombrio da experiência humana, expondo a violência, o medo e a degradação moral de forma crua e perturbadora.
Nesse cenário, a figura do Reverendo Parris destaca-se de forma particularmente marcante. Trata-se de uma personagem construída com enorme força, que encarna o mal de modo direto, quase abrupto, e com uma presença carregada de caráter. Hediondo e profundamente maléfico, Parris surge como um motor de opressão e manipulação, uma figura que domina a narrativa pela sua intensidade e pela forma como personifica os excessos e perversões do poder religioso e social. Pode estar representado de forma caricatural ou exagerada, reconheço, mas é mesmo isso que era necessário para esta história, parece-me.
Em termos de desenho, o trabalho de Thomas Gilbert também me deixou sensações muito positivas. E logo a partir da capa, que impressiona, com a sua ilustração verdadeiramente linda e com um grafismo espetacular que capta facilmente a nossa atenção. Estou sempre a dizer que as embalagens também vendem produtos e que, no caso dos livros, "a capa é a embalagem do bem". Portanto, as capas os livros devem ser tão apelativas quanto possível. É o caso.
No interior, o desenho de Gilbert assume um registo frequentemente rude e grotesco, com traços duros, expressões distorcidas e uma fisicalidade quase incómoda. Os desenhos do autor lembraram-me, por vezes, uma mistura feliz entre o traço de Joann Sfar com o de Eduardo Risso.
Há uma liberdade no traço que permite às formas serem mais grotescas e livres. Ainda assim, a paleta cromática suaviza e eleva essas imagens, atribuindo-lhes uma certa beleza e um charme muito particular. Assim, sente-se que o contraste entre a aspereza do traço e a riqueza das cores cria uma tensão visual bastante eficaz. Pode até não ser o estilo de desenho de que mais gosto, reconheço, mas tenho que conceder igualmente que a proposta visual de Thomas Gilbert funciona de forma coerente e eficaz.
Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com textura aveludada e detalhes a verniz. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade. O trabalho ao nível da encadernação, da impressão e dos acabamentos também está muito bem feito.
Em conclusão, Thomas Gilbert cria neste As Raparigas de Salem uma obra intensa e perturbadora, que retrata de forma convincente uma comunidade consumida pelo puritanismo e arrastada por um medo coletivo que degenera em violência absurda, com a obra a ir além da reconstituição histórica e oferecendo uma reflexão dura sobre a manipulação das massas e da fragilidade humana. O resultado é uma leitura marcante, densa e pesada, que funciona como um alerta: recordar estes acontecimentos é essencial para que nunca se voltem a repetir.
NOTA FINAL (1/10):
8.6
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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As Raparigas de Salem - Como Condenámos as Nossas Crianças
Autor: Thomas Gilbert
Editora: Arte de Autor
Páginas: 198, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cms
Lançamento: Maio de 2026
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