sexta-feira, 26 de junho de 2026

Análise: Dez Mil Elefantes

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé

Dez Mil Elefantes é a terceira obra da mais recente Coleção de Novelas Gráficas publicada pela Levoir e pelo jornal Público.

Da autoria do espanhol Pere Ortín e do guineense Nzé Esono Ebalé, a obra parte de um episódio histórico concreto para construir uma narrativa que oscila entre o estilo documental e o estilo poético. 

A narrativa acompanha a expedição liderada pelo cineasta espanhol Manuel Hernández‑Sanjuán à então Guiné Espanhola, entre 1944 e 1946, em pleno regime franquista. A missão era, aparentemente, registar a vida colonial, mas rapidamente se percebe que esse olhar estava condicionado por interesses propagandísticos, procurando mostrar uma realidade filtrada e ideologicamente moldada. Coisas típicas dos estados colonialistas, como sabemos.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
E é através da voz de Ngono Mbá, um dos carregadores guineenses que integrou esta expedição, que a história nos é contada na primeira pessoa. Esta escolha narrativa é logo interessante à partida, pois desloca o ponto de vista habitual - que, normalmente, é centrado no colonizador - para quem viveu a experiência do outro lado da lente. Ngono observa, comenta e interpreta aquilo que vê, oferecendo-nos um testemunho simultaneamente curioso, ingénuo e profundamente revelador.

A narrativa documenta, pois, essa viagem insólita, cruzando o olhar europeu, carregado de paixão pelo exotismo e de uma sempre crescente ambição, com a realidade concreta, mais simples, do território africano e das suas populações. O próprio sonho de Hernández‑Sanjuán - o de ver dez mil elefantes juntos - surge como uma metáfora dessa busca romantizada e, ao mesmo tempo, irrealista, espelhando o desencontro entre o imaginário colonial e o mundo real que o colonizador tentava captar.

Dez Mil Elefantes é uma proposta diferenciada e audaz por parte da Levoir que, com esta obra, nos oferece algo diferente daquilo a que estamos habituados a encontrar por cá, em termos de banda desenhada. Como tal, é possível que muita gente não goste, mas também é possível que muitos adorem este livro. Haverá quem não se identifique com a sua abordagem experimental, mas também quem a considere absolutamente fascinante. E isso é, em suma, a grande valência desta Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público: a de nos fazer conhecer novas obras e estilos, levando-nos para lá da nossa zona de conforto e convidando-nos a explorar linguagens, temas e sensibilidades diferentes, contribuindo, deste modo, para um panorama editorial mais diverso e enriquecedor. Goste-se mais ou menos.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Um dos aspetos mais interessantes da obra reside na forma como nos mostra, ainda que muitas vezes nas entrelinhas, que o colonialismo é, por natureza, uma construção artificial. Um sistema imposto, que ignora deliberadamente as culturas locais e que procura reescrever a realidade em função dos interesses de quem domina. Essa dimensão está sempre presente na obra, mesmo sendo verdade que nunca é explicitamente verbalizada pelo narrador.

O olhar de Ngono é simultaneamente curioso e crítico, revelando tanto o fascínio pelo desconhecido como a estranheza perante os comportamentos dos colonizadores. A sua vontade de aprender a ler e a escrever funciona, aliás, como símbolo de uma tentativa de apropriação e compreensão de um mundo que lhe é imposto.

Como ponto menos positivo, há vários momentos em que a história parece fragmentar-se em pequenos episódios algo soltos, criando uma certa desconexão entre os mesmos. A opção por uma narração contínua em monólogo, sem recurso a diálogos convencionais, reforça a ideia de testemunho, mas também torna a leitura mais monocórdica e, por vezes, ligeiramente cansativa. Acredito que a experiência poderia ter sido melhorada, se existissem momentos de diálogo entre as personagens.

Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público
Mesmo assim, a inclusão de cartas e outros elementos gráficos ao longo da narrativa contribui para quebrar esta linearidade e introduzir variações no ritmo da leitura, reconheço. 

Em termos visuais, Dez Mil Elefantes é uma obra extremamente rica e surpreendente. Nzé Esono Ebalé apresenta um trabalho profundamente autoral, combinando diferentes técnicas, que vão desde o desenho com esferográfica até colagens e inserções fotográficas. Tudo isto confere ao livro uma identidade estética muito própria, com cada página a parecer oferecer-nos algo novo, desafiando constantemente o nosso olhar.

A escolha da caneta esferográfica, associada à infância e à escassez de recursos do autor, não é apenas um gesto técnico, mas também simbólico. O resultado são imagens carregadas de textura e expressividade, com uma sensibilidade africana evidente. Este livro não precisava de ser sobre África para que sentíssemos, de algum modo, esse espírito africano só por olharmos para as ilustrações. 

A forma como as cores são utilizadas também se revela particularmente original e a planificação é muitas vezes ousada, com soluções visuais que enriquecem a experiência e sublinham o tom híbrido entre documento e interpretação artística.

À boa maneira daquilo que podemos esperar dos livros desta Coleção de Novelas Gráficas, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A impressão e encadernação também são boas. No final, encontramos um epílogo escrito por Pere Ortín, que nos dá mais informações acerca do seu processo de trabalho nesta obra. 

Em suma, Dez Mil Elefantes é uma obra exigente, mas recompensadora. Não é uma leitura imediata nem confortável, mas precisamente por isso se torna relevante e marcante. Ao mesmo tempo que revisita um passado colonial pouco explorado, fá-lo com uma linguagem inovadora e uma perspectiva crítica subtil. Uma boa e original proposta da Levoir.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé - Levoir - Público

Ficha técnica
Dez Mil Elefantes
Autores: Pere Ortín e Nzé Esono Embalé
Editora: Levoir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Junho de 2026

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