Se há série que tem passado um pouco pelos pingos da chuva em Portugal, no que à constatação da sua qualidade diz respeito, Airborne 44 é um belo exemplo.
Esta série que em França já vai no seu 11º volume e cujos primeiros seis tomos foram originalmente editados por cá numa parceria entre a ASA e o jornal Público, tem revelado ser uma das séries de banda desenhada sobre a Segunda Guerra Mundial que mais prazer me tem dado acompanhar. Isto porque Philippe Jarbinet encontrou uma fórmula muito eficaz para a mesma: abordar o conflito com um impressionante rigor histórico, sim, mas sem nunca cair na armadilha de transformar a narrativa numa simples e enfadonha lição de História. Pelo contrário, cada ciclo procura apresentar-nos novas perspetivas sobre a guerra, explorando diferentes protagonistas e pontos de vista. E isso faz toda a diferença.
Assim, e embora os acontecimentos históricos sirvam de alicerce, Jarbinet nunca se limita a reproduzir factos e operações militares. Existe sempre uma forte componente ficcional que nos aproxima das vidas das personagens, dos seus medos, das suas esperanças, dos seus amores e das suas contradições. A guerra surge, por isso, não apenas como um confronto entre exércitos ou nações, mas como uma experiência profundamente humana. E, logicamente, isto aproxima o leitor da obra e das suas personagens.
Estes Black Boys e Wild Men, que hoje vos trago, correspondentes, respetivamente, aos tomos 9 e 10 da série e ao seu quinto ciclo narrativo, mantêm essa abordagem de forma fiel. Desta vez, o autor coloca no centro da narrativa dois soldados americanos cujas diferenças parecem, à partida, impossíveis de reconciliar: Virgil é negro, Jay é branco... e não apenas branco: é também o típico redneck racista, moldado por preconceitos profundamente enraizados.
Jarbinet constrói a relação entre ambos so soldados americanos de forma gradual e credível. O facto de combaterem do mesmo lado não significa automaticamente que se compreendam ou respeitem. Pelo contrário, as primeiras interações são marcadas pelo conflito, pela desconfiança e pelas tensões raciais que atravessavam a sociedade norte-americana da época. Bem... e da época atual.
Mas as contingências da guerra e a luta pela sobrevivência obrigam Virgil e Jay a dependerem um do outro para que consigam subsistir. Convém não esquecermos que quando a guerra reduz tudo ao essencial, muitas das certezas e preconceitos que temos começam a ser postos em causa. Embora não se trate, claro, de uma transformação instantânea ou, sequer, de uma reconciliação simplista entre as duas partes.
Naturalmente, há alguns momentos em que é fácil antecipar a direção da narrativa. Desde cedo percebemos que a convivência forçada acabará por aproximar as duas personagens. Nesse sentido, a história não é propriamente surpreendente, admito. Contudo, o facto de alguns desenvolvimentos serem expectáveis não diminui a eficácia da sua execução.
E o interesse parece estar menos no destino final das personagens e mais na forma como esse destino é alcançado. "O que interessa não é o destino, mas a caminhada". Jarbinet consegue criar diálogos convincentes e situações suficientemente tensas para manter o envolvimento do leitor ao longo dos dois tomos.
Além disso, estes dois álbuns abordam uma temática particularmente relevante: a discriminação racial no seio das próprias forças aliadas. Muitas obras sobre a Segunda Guerra Mundial tendem a apresentar os exércitos aliados de forma homogénea e quase idealizada. Mas aqui, o autor recorda-nos que a luta contra o nazismo coexistia com profundas injustiças sociais e raciais mesmo dentro dos Estados Unidos. O que nos obriga a fazer, automaticamente, uma ponte com os mais recentes movimentos segregacionistas nos próprios Estados Unidos do tempo presente. É, pois, interessante ler estes dois livros à luz do tempo presente.
Em termos de desenho, Jarbinet continua a demonstrar ser um dos melhores autores europeus quando o tema é a Segunda Guerra Mundial. Os cenários são minuciosos, os veículos militares surgem representados com grande atenção ao detalhe e os ambientes conseguem transmitir uma sensação constante de realismo. Também os momentos de ação ou de calmaria, com espaço para conhecermos o lado mais humano das personagens, aparecem bem representados.
Quer em termos de desenho realista, quer em termos de tratamento cromático, parece existir uma forte inspiração clássica, com tonalidades suaves e algo envelhecidas, o que confere às páginas um aspeto quase "vintage". Essa opção estética pode não agradar a toda a gente e a parecer algo datada, mas, por outro lado, pode ser exatamente aquilo que muitos leitores procuram.
Em termos de edição, os livros apresentam capa dura brilhante, bom papel brilhante e boa encadernação e impressão. No final de cada um dos tomos, há um texto em forma de posfácio em que o autor nos revela importantes e curiosas informações acerca da feitura dos livros e, até, daquilo em que se inspirou. Valem bem a pena por tudo o que acrescentam, a jusante, à nossa leitura.
O que também teria valido a pena era se estes ciclos passassem a ser editados em volumes duplos. Bem sei que tendo a série começado a ser editada por cá em tomos separados, talvez já não fizesse sentido editar os tomos seguintes em álbuns duplos. Mas, enfim, acho que faz mais sentido ter cinco volumes duplos com histórias autocontidas neles, do que ter 10 volumes separados com cinco histórias autocontidas neles.
Em suma, Black Boys e Wild Men talvez constituam o melhor ciclo de Airborne 44, uma série que considero obrigatória para todos aqueles que gostam de banda desenhada histórica ou de cariz bélico. O prato de rigor histórico, personagens humanas, reflexões sobre temas complexos e belos desenhos de Jarbinet é-nos dado numa dose muito lisonjeira. E, por tudo isso, é uma obra que se recomenda!
NOTA FINAL (1/10):
9.2
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
Airborne 44 - Black Boys - Vol. 9
Autor: Philippe Jarbinet
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2024
Autor: Philippe Jarbinet
Editora: ASA
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Abril de 2025
.jpg)
_1.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)