quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Análise: A Loja e A Demanda do G

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral)

Hoje trago-vos dois livros emblemáticos da produção nacional no que à banda desenhada humorística diz respeito: A Loja e A Demanda do G. No caso do primeiro livro, editado em 2019, temos o veterano Derradé enquanto autor completo, assumindo desenhos e argumento. No caso de A Demanda do G, originalmente editado em 2016, a obra conta com Geral e Derradé no argumento e Derradé nos desenhos. Ambos os livros foram publicados pela editora Polvo.

Estas são duas obras que, apesar de diferentes na sua estrutura narrativa e nos seus universos ficcionais, partilham alguns elementos que até nem são tão comuns assim na banda desenhada nacional: o humor, a ironia, a cultura popular e, diria até, uma certa recusa em respeitar convenções narrativas demasiado rígidas. Além disso, as duas obras revelam a capacidade de Derradé (e de Geral) para cruzar o quotidiano português com situações absurdas, inesperadas e frequentemente cómicas.

Em A Loja, acompanhamos Bernardo Duarte, um homem que abandona uma carreira estável na informática para concretizar o sonho de gerir uma loja especializada em banda desenhada. Trata-se de uma ficção com claros laivos autobiográficos. Não que Derradé tenha tido - tanto quanto sei - uma loja de banda desenhada, mas por também ele ser informático de profissão e um acérrimo amante e defensor da banda desenhada. A premissa é simples e bastante direta, com vários elementos cómicos e muitas, muitas referências que o público mais conhecedor da BD em Portugal certamente vai encontrar. Tudo num registo carregado de sarcasmo, que nos deixa bem dispostos ao longo da leitura. Mesmo assim, e tal como o autor haveria de fazer, uns anos mais tarde, no seu O Fogo Sagrado, a obra também tem um lado mais sério que nos deixa a refletir de um modo mais amplo sobre vocação, realização pessoal e os riscos associados à perseguição de um sonho. 

Uma das maiores virtudes de A Loja é precisamente a sua autenticidade. O leitor percebe rapidamente que as situações descritas têm origem em experiências vividas ou observadas de perto. Esta proximidade com a realidade confere credibilidade à obra e permite uma representação bastante fiel das dificuldades enfrentadas por pequenos empresários no setor cultural português, particularmente num nicho tão específico como o da banda desenhada. Se trabalhar em cultura já não é fácil... imaginem trabalhar em banda desenhada, um "nicho do nicho" da cultura.

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
Ao mesmo tempo, a obra evita cair no dramatismo excessivo. Derradé utiliza o humor como instrumento de análise social, mostrando que o fracasso, as dificuldades financeiras e as desilusões podem ser retratados de forma leve, mas sem perder profundidade. Acaba, pois, por ser um livro especialmente bem sucedido por conseguir ser, ao mesmo tempo, divertido e melancólico. E se há coisa que nos demonstra é que - quer queiramos, quer não - muitos dos nossos sonhos individuais acabam por se confrontar constantemente com as limitações da realidade em que vivemos. Há contas por pagar, filhos por criar, sonhos por deixar.

Tal como já referi acima, considero ainda que outro dos feitos da obra é a homenagem que presta à (sub)cultura da banda desenhada. O livro funciona quase como um retrato de uma comunidade específica de leitores, colecionadores e apaixonados pela nona arte. Nesse sentido, ultrapassa a história individual do protagonista para se tornar uma reflexão sobre a sobrevivência das pequenas livrarias especializadas e sobre a persistência de certas paixões culturais num mundo cada vez mais dominado pela lógica comercial. Gosto muito deste A Loja. Não consegue, quanto a mim, ser tão profundo como O Fogo Sagrado, o meu livro favorito do autor, mas anda lá perto. E, claro, mesmo sendo um livro mascarado de comédia pura e dura, traz também uma seriedade e uma reflexão que importa referir. 

Já A Demanda do G segue um caminho radicalmente diferente. A história tem início com o desaparecimento misterioso de G, vocalista dos fictícios The BadSummerBoys Band, desencadeando uma procura que rapidamente se transforma numa viagem delirante povoada por referências musicais, literárias e culturais. Pelo percurso surgem figuras tão improváveis como Federico García Lorca, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, Joe Strummer, entre muitos outros.

Aqui as reflexões mais sérias de A Loja ou O Fogo Sagrado dão lugar a uma narrativa que não tem medo de adoptar uma lógica assumidamente absurda. Em vez de procurar coerência realista, o livro aposta mais na acumulação de situações extravagantes e encontros improváveis. Esta opção aproxima a obra de uma corrente mais nonsense, com a viagem dos protagonistas a ser mais importante pelas situações inesperadas que as personagens encontram ao longo do caminho, do que pelo próprio destino final.

Um dos elementos mais interessantes de A Demanda do G é, portanto, a utilização da cultura popular como matéria-prima narrativa. Música punk, literatura, cinema e mitologias urbanas convivem num mesmo espaço ficcional.

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo
Mas onde a obra surpreende mais é na forma como está estruturada, em termos de planificação. Temos a história principal - chamemos-lhe assim - a ocupar, mais ou menos, 66% de cada página, e temos uma sub-narrativa a acontecer em simultâneo, em forma de tira, no fundo de cada página. Aqui, a narrativa aproxima-se mais de gags que reagem à ação principal da história. São os autores a comentarem a própria história, vá. Quase como se essa tira representasse um coro grego que reage à própria história, numa abordagem meta-narrativa. A ideia é super audaz e original, sendo vista poucas vezes na BD. Mas bons exemplos desta técnica podem ser encontrados, por exemplo, em Fat Freddy's Cat ou Krazy Kat. 

E quando esta abordagem funciona bem, é hilariante. Foram várias as vezes em que gargalhei com os disparates contidos nestas tiras. Por outro lado, também tenho que ser justo e referir que à medida que a leitura vai avançando, esta iniciativa se torna um pouco repetitiva e que até acaba por retirar a nossa atenção da ação principal. É um pau de dois bicos, portanto - no pun intended.

Comparando ambas as obras, percebe-se que A Loja é mais intimista e realista, enquanto A Demanda do G aposta no delírio imaginativo. Ainda que ambas nos façam rir em diversos momentos. É um humor inteligente, frequentemente autorreferencial e recheado de referências culturais. Mesmo quando os contextos são muito distintos, a "voz" do autor mantém-se reconhecível, assente numa observação irónica do comportamento humano e numa simpatia evidente pelas figuras marginais, excêntricas ou sonhadoras.

Em termos de desenho, o autor apresenta o mesmo tipo de ilustrações a que já estamos habituados, com as personagens a serem delineadas com um traço caricatural a preto e branco que evidencia emoções e contribui para o humor presente nos textos e nas situações. Em A Demanda do G, na tal parte que já mencionei das tiras humorísticas, o estilo de desenho é ainda mais direto e "cartoonesco" do que nas outras ocasiões. Percebo a escolha, até porque permite separar melhor as duas narrativas, mas acho que em termos visuais não funciona tão bem, uma vez que deixa cada página mais cheia, causando uma certa sensação de claustrofobia gráfica.

Em termos de edição, cada um dos livros publicados pela Polvo apresenta capa mole, com badanas, e bom papel baço no interior. A impressão e a encadernação são boas. Nota para o acabamento brilhante, em tons dourados, da capa de A Demanda do G, que a torna um pouco mais distinta do que o habitual nos lançamentos da Polvo.

Em suma, A Loja e A Demanda do G demonstram não apenas a versatilidade criativa de Derradé, mas também a vitalidade de uma banda desenhada portuguesa capaz de oscilar entre a reflexão intimista e o humor mais delirante. Eis duas obras diferentes, mas de certo modo complementares, unidas por um olhar irónico sobre o mundo e por uma profunda paixão pela cultura popular. Indispensáveis para os amantes de BD humorística... e não só.


NOTA FINAL (1/10):
A Loja:  8.3
A Demanda do G: 7.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

Fichas técnicas
A Loja
Autor: Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Novembro de 2019

A Loja e A Demanda do G, de Derradé (e Geral) - Polvo

A Demanda do G
Autores: Geral e Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Agosto de 2016

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Aí estão os nomeados para os Prémios de Banda Desenhada da Amadora 2026!


O Município da Amadora divulgou ontem os nomeados para os Prémios de Banda Desenhada da Amadora da próxima edição do Amadora BD que se avizinha.

Entre as 24 obras que estão a concurso em 5 categorias, uma coisa permanece intacta: o regulamento dos prémios continua curto e pouco objetivo a vários níveis. E há (mais uma) polémica. 

Vejam, mais abaixo, a minha opinião sobre estas atribuições.

Mas, por agora, deixo-vos com a lista de nomeados, aproveitando para dar os parabéns a todos os autores e editores envolvidos nestas obras.


NOMEADOS PARA MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL

Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Edouard Cour, editado pela Ala dos Livros
Ulysse & Cyrano, de S. Servain e Xavier Dorisson, editado pela Asa/Leya
Blast - Tomo 1/2, de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros
A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita


NOMEADOS PARA PRÉMIO REVELAÇÃO
A Cada Sete Ondas, de Beatriz Brajal, editado pela Chilli com Carne
Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço, editado pel’A Seita
Manda msg quando chegares, de R.G.B, editado pela Iguana, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial
A Solidão do Ser, de Helena Sá, editado pel’A Seita
O Cão Invisível, de Wandson Lisboa, editado pela Iguana, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial


NOMEADOS PARA MELHOR FANZINE OU PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE
Palácio #5, de Francisco Sousa Lobo, edição de autor.
Alzine #3, de Filomena Fidalgo, Guido Barsi, Nicolas Viñolo, Fil, Hugo Teixeira, Joana Mariano, Luís Sousa, Vasco Lopes, Pedro N, Miguel Santos, Rodrigo Leme, André Vieira, Rita Torres, Marta Vicente, Marcelo Degrazia, João Gordinho, Samir Karimo, José Bandeira, Lança Guerreiro, Graziela Nascimento, Marco Fraga da Silva, Sérgio Santos, Manuel Monteiro, Sandro Leonardo, Keven Rocha, Amanda Bezerra, R Lourenço, Bruna Rodrigues, Mário André, João Gil, Sofia Santos, Sara Pires, Filipe Duarte, Sofia Bernardes, Beny-Draws, Phermad, Luciano Ferreira, José Mendes, Miguel Sánchez, Ana Mota, Rafael Sanzio, Henry Diaz, Hugo Maciel, editado pela Associação Tentáculo
Augusto Trigo: “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um Sonho”, de José Baptista, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, editado pela Câmara Municipal de Moura
FANZINE POESIA BD Nº14 – A AVÓ FLORINDA E O AVÔ QUE BEBIA CACHAÇA, de António Tavares e Paulo Diogo, Edição de Autor


NOMEADOS PARA MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata, editado pela Leya/Caminho
Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, editado pela Zigurate
O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins editado pela Polvo
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira, editado pela Kingpin Books


NOMEADOS PARA MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD
A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky, editado pela Arte de Autor
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita
Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
Shi - Livro 2, de Zidrou e Joseph Homs, editado pela Ala dos Livros


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Anunciados os nomeados e dados os parabéns a todos pelo trabalho desenvolvido, permitam-me então as minhas opiniões. Sem agenda secreta, sem favorecimentos, sem "tretas". Apenas e só a minha opinião.

São três as coisas com alguma gravidade que, a meu ver, devem ser referidas:


1) A primeira delas é a questão da obra de autor nacional ou obra nacional. Não é tema novo, é tema recorrente. Já muito se escreveu sobre o assunto e até mesmo eu, que já fui Presidente do Júri noutras edições, o revelei publicamente, e sem medos, mesmo durante o exercício das minhas presidências dos Prémios: o regulamento, tal como está, é insuficiente e é lato. 

Vejamos: as obras Rare Flavours e Dormindo Entre Cadáveres, ainda que sejam frutos da criação portuguesa, são obras que foram concebidas por e para mercados internacionais. Rare Flavours para o mercado americano e Dormindo Entre Cadáveres para o mercado brasileiro. Fará sentido que sejam premiadas pelos prémios de um mercado que não as desenvolveu? Talvez não faça. Mesmo assim, e porque me considero uma pessoa bastante coerente tenho que dizer que não atribuo, minimamente, as "culpas" destas nomeações aos jurados. Neste ponto, os jurados estiveram bem e não mudo de opinião. Se o Regulamento não faz menção a que a obra tenha que ser feita pelo e para o mercado português e que só procura premiar uma obra que tenha sido publicada em Portugal e que tenha na sua autoria um português, então os jurados estiveram bem. Cumpriram as regras. É o regulamento que deve corrigir esta questão. Isto, claro está, se a Organização achar que deve ser corrigida. Este ano houve algumas melhorias no regulamento, concedo, mas ainda há algum trabalho a fazer. Já o digo há 6 anos, todos os anos, desde que o Vinheta 2020 foi criado.


2) Se no ponto anterior considero que os jurados estiveram bem, neste segundo ponto em concreto tenho que lhes estender a minha crítica. Este ano, temos a atribuição de duas nomeações que me parecem completa e incrivelmente sem sentido: Manda msg quando chegares, de R.G.B, e O Cão Invisível, de Wandson Lisboa. O que coloco em causa não é a qualidade maior ou menor das obras em questão, mas uma coisa ainda mais óbvia: não são obras de banda desenhada. São livros ilustrados. Não é uma questão opinativa... é um facto. Notem que até me considero bastante tolerante em relação aos cânones da banda desenhada. Vejo muita gente, mais purista, que apenas considera como BD os livros que têm uma determinada planificação, com um conjunto de vinhetas, pranchas e balões, mais clássicos. Eu não sou essa pessoa. Acho que devemos abrir-nos a novas abordagens. Agora, vamos lá ter bom senso! É que, convenhamos, ter um livro sem qualquer sequencialidade gráfica, e apenas com algumas ilustrações e um ou outro ocasional balão... não é estarmos diante de um livro de banda desenhada. Não se trata de embirração minha. É o que é. Ou será que os Prémios de Banda Desenhada da Amadora podem premiar, no futuro, obras de culinária, só porque têm alguns desenhos? Manuais escolares? Cadernos de Normas de Segurança das Companhias aéreas? Vamos lá ser mais sérios e rigorosos.


3) Por último, e igualmente polémico, há um livro nomeado que, a julgar pelo Regulamento, não reúne as condições para ser considerado nestes prémios. Esse livro é Soli Deo Gloria, editado recentemente pela Ala dos Livros. Ora, segundo as regras - não fui eu que as inventei - "as obras a concurso deverão ter data de lançamento entre 1 de agosto do ano transato e 31 de julho do ano referente aos prémios." Ora, isto quer dizer que, para este ano, apenas podem contar as obras publicadas em Portugal entre 1 de agosto de 2025 e 31 de julho de 2026. Acontece que Soli Deo Gloria tem como data de edição o mês de Agosto de 2026. Está na ficha técnica. É factual. Logo, esta obra não podia nem devia ter sido considerada para estes prémios. Mas ninguém lê o próprio regulamento, for god's sake? Soli Deo Gloria pode até ser nomeada para o prémio no próximo ano. E até sair vencedora... mas, se os regulamentos servem para qualquer coisa, não pode ser nomeada este ano.

NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESTE ARTIGO: já fui informado que, na ficha técnica do livro Soli Deo Gloria aparece a data de julho de 2026. (Embora em TODOS os websites que visitei a data de edição do livro apareça como agosto de 2026, o que também constitui um erro de alguém). De qualquer maneira, sou sempre o primeiro a assumir o meu erro. Se o livro tem, efetivamente, data de publicação como julho de 2026, apresento as minhas desculpas aos envolvidos e digo: já cá não está quem falou. Pelo menos, relativamente a este terceiro ponto em particular. Tudo o resto se mantém.


Permitam-me acabar este artigo de opinião com uma reflexão. Não devemos olhar para o regulamento de qualquer coisa como algo que nos possa favorecer, se o fintarmos e formos mais espertos que os outros. Ninguém é mais esperto do que os outros e não há maior atentado à esperteza que é achar isso mesmo: que somos mais espertos do que os outros. Portanto, é melhor jogarmos sempre com fair play.
Dou-vos um exemplo: sei que a CERCIOEIRAS submeteu o seu livro inVISÍVEIS, do qual sou coordenador e autor, a estes prémios. E provavelmente até poderia estar entre os nomeados para, pelo menos, Melhor Publicação Independente. Digo eu. Mas isso não aconteceu... e porquê? Porque Luís Louro, que também participa nesse livro em questão, fazia parte do júri, o que criava um conflito de interesses. Como tal, imagino (e espero) que o livro inVISÍVEIS tenha sido prontamente descartado. E há algum problema nisso? Claro que não! Se está nas regras, é para cumprir. Sabemos que em anos anteriores houve casos em que obras de membros das famílias dos jurados foram vencedoras. Os jurados nessa situação abstiveram-se de votar, é certo, mas isso acabou por, ainda assim, condicionar a atribuição dos prémios. Até porque, não esqueçamos, são apenas três os jurados, o que é manifestamente pouco.
Falo nisto, pois considero mesmo que a bem da legitimidade, da clareza e da justiça, é melhor jogarmos sempre com fair play. Vale mais uma derrota com fair play do que uma vitória sem fair play. Digo eu, que sou um romântico. E é também importante que não haja dois pesos e duas medidas. Ou bem que cumprimos sempre as regras, ou bem que nunca as cumprimos. No meu caso, acho preferível que se cumpram sempre as regras. Desculpem-me caros amigos da CERCIOEIRAS, mas ainda bem que o vosso (nosso) livro não foi nomeado. Chamem-me choninhas... mas sempre vou preferir estar do lado dos que cumprem as regras. Ou se ganha cumprindo as regras ou não vale a pena ganhar.

Coleção de Novelas Gráficas publica obra de autor português!



Já está nas bancas, desde a passada sexta-feira, a mais recente obra da Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público.

E desta vez, temos uma obra de autor português!

Trata-se de A Armação, de Daniel Silvestre, obra vencedora dos Prémios de Banda Desenhada da Amadora, em 2024, na categoria Melhor Publicação Independente!

É um belo trabalho que apreciei bastante aquando do seu lançamento original e que nesta edição até recebe várias páginas de extras e documentação.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
A Armação, de Daniel Silvestre

Já está em banca A Armação volume 10 da colecção novela gráfica da Levoir e do Público.

A premiada obra do ilustrador Daniel Silvestre é apresentada em versão completa. A Armação teve a sua primeira versão em 2023, no âmbito da 1.ª Residência Artística de Banda Desenhada Portugal-Bélgica, promovida pelo Instituto Camões em Bruxelas, em parceria com a Bedeteca de Beja, que a editou numa publicação sem distribuição comercial, premiada na categoria de Melhor Publicação Independente no 35.º Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em 2024.

Daniel Silvestre tem uma carreira de mais de 20 anos no campo da ilustração e um percurso académico na área do desenho e da ilustração.

Desde 2006 exerce actividade de ilustrador editorial. Foi ilustrador residente do Museu do Porto entre 2021 e 2023. É docente convidado de desenho na Escola de Design do IPCA (Barcelos) e na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto.

Para o público da banda desenhada não é um desconhecido. Daniel Silvestre foi um dos desenhadores da obra de Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, na colecção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que a Levoir tem vindo a publicar com o apoio da RTP.

A Armação recupera as memórias do avô do autor, José Silvestre, que, aos dez anos, percorria os caminhos entre Porto Novo e Torres Vedras transportando peixe num burro para ajudar os pais.
Mais concretamente uma viagem em particular em que José teve de levar sozinho sobre o dorso do burro um peixe com cento e cinquenta quilos ao longo de quinze quilómetros. Partindo deste caso particular, centrado nos medos e fantasias que a criança projecta sobre a presença daquele peixe colossal, Silvestre traça um retrato sensível e bem documentado da dura vida dos pescadores no Portugal dos anos 30 do século XX.

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Ficha técnica
A Armação
Autor: Daniel Silvestre
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
PVP: 16,90€

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Análise: Faithless #3

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet

Sabem aquela sensação de querer estar enganado? Aquela esperança teimosa de que um autor ainda consiga recuperar uma história que parece ter perdido o rumo? Foi exatamente esse sentimento que me acompanhou durante a leitura deste Faithless #3, editado por cá em Outubro de 2022 pela editora G. Floy Studio.

Este é o terceiro e último volume desta série criada por Brian Azzarello e Maria Llovet. Depois de um primeiro volume estimulante e imprevisível e de um segundo volume que me pareceu uma enorme desilusão, a questão impunha-se: conseguiria Azzarello salvar Faithless na reta final?

A resposta curta é: parcialmente. Mas a resposta longa é um pouco mais complicada.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Na análise ao primeiro volume escrevi que não fazia a menor ideia de para onde a história se dirigia, mas que isso não me incomodava. Pelo contrário. Havia algo de fascinante naquela mistura de erotismo, fantasia, terror psicológico e psicadelismo que envolvia Faith, Poppy e Louis. Tudo parecia possível a esta história. 

Mas foi com o segundo volume da série que me consegui aperceber do "problema" da obra, quando comecei a suspeitar de que o próprio autor não sabia bem para onde a história caminhava. E é uma coisa que, enquanto leitor com alguma experiência, costumo "farejar" ao longe. Quando um argumentista começa a chutar ideias para o ar... é mau sinal. E isso aconteceu no segundo volume da série: as ideias multiplicavam-se, mas raramente encontravam um propósito. A provocação, especialmente devido ao erotismo desregrado - que acaba até por ser a minha parte preferida de toda a série -, parecia ter tomado conta da narrativa.

Não diria que Brian Azzarello salve a honra da obra com este Volume Três, mas reconheço-lhe, pelo menos, o mérito de finalmente tentar construir uma conclusão. Pode não ser uma conclusão totalmente satisfatória, pode até deixar algumas questões em aberto, mas existe aqui pelo menos uma tentativa de dar sentido a vários elementos que vinham sendo introduzidos desde o primeiro livro.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
A história deste último volume encontra a personagem de Faith numa fase de queda livre. Depois da ascensão meteórica ao estatuto de artista provocadora e celebridade do mundo da arte, a protagonista desapareceu durante meses e regressa profundamente transformada. A fama que parecia alimentá-la converteu-se numa prisão. As dúvidas acumulam-se. Os acontecimentos sobrenaturais tornam-se mais intensos. E a relação com Louis aproxima-se cada vez mais de um confronto inevitável.

O elemento mais interessante deste volume é precisamente a forma como Azzarello procura transformar os excessos dos livros anteriores em algo que se aproxima de um tema. Pela primeira vez, Faithless parece querer falar seriamente sobre criação artística. Sobre o que significa criar. Sobre a exploração da imagem do artista. Sobre a forma como o mercado consome, recicla e destrói personalidades criativas. 

Infelizmente, continuam presentes muitos dos problemas que prejudicaram o segundo tomo. Há momentos em que o argumento parece avançar aos saltos, como se páginas inteiras de desenvolvimento tivessem desaparecido. Algumas revelações surgem de forma abrupta e continuam a existir passagens em que os autores parecem mais interessados em criar imagens potencialmente chocantes do que em contar uma história coerente.

Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio
Quanto aos desenhos, o trabalho da espanhola Maria Llovet é muito interessante e original. A autora continua a oferecer-nos páginas belas, perturbadoras, sensuais e hipnóticas. A utilização das cores mantém-se extraordinária, alternando vermelhos agressivos, rosas vibrantes e tonalidades sombrias. Existem sequências inteiras que poderiam perder os diálogos e continuariam a funcionar apenas pela força da componente visual.

Considero que o traço de Maria Llovet continua a encaixar perfeitamente nesta história, portanto. Há personalidade, ousadia e identidade visual em praticamente todas as páginas. Dito por outras palavras, mesmo quando não acreditamos totalmente naquilo que Azzarello nos está a contar, acreditamos sempre nas imagens de Llovet.

Quanto à edição da G. Floy Studio, esta mantém a boa qualidade dos volumes anteriores. A capa é dura, a impressão e a encadernação são boas, também. No miolo, o papel é brilhante e de boa qualidade.  No final do livro, há um belo conjunto de ilustrações que engrandecem a edição.

No final da leitura desta série, fiquei com uma sensação curiosa. Faithless não se revelou a obra marcante que imaginei depois de terminar o primeiro volume. Também não acabou por ser o desastre absoluto que temi após o segundo. Ficou algures no meio. Como uma experiência ambiciosa, irregular e frequentemente contraditória. No fim, Faithless assume-se como uma viagem estranha, excessiva, provocadora e visualmente impactante. 


NOTA FINAL (/10):
6.4



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Faithless #3, de Brian Azzarello e Maria Llovet - G. Floy Studio

Ficha técnica
Faithless #3
Autores: Brian Azzarello e Maria Llovet
Editora: G. Floy Studio
Páginas: 160, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Outubro de 2022

Análise: Peregrinação (Volumes 1 e 2)

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge

Uma das poucas obras da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que teve direito a ser um álbum duplo, foi este Peregrinação que adapta para banda desenhada a célebre obra de Fernão Mendes Pinto. Tendo em conta que a obra original tem mais de 600 páginas, compostas por descrições detalhadas sobre as extraordinárias viagens, naufrágios, cativeiros, combates e encontros de Fernão Mendes Pinto pelo Oriente no século XVI, parece-me que a opção por dois volumes, foi mais que acertada.

A adaptação para banda desenhada é-nos dada por João Miguel Lameiras, no argumento, e Miguel Jorge, nos desenhos. Ambos os autores já tinham adaptado outro clássico da literatura portuguesa para BD: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A edição da obra volta a surgir através da parceria entre a Levoir e a RTP.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
E mesmo sendo esta adaptação em dois volumes, parece-me que João Miguel Lameiras tinha aqui uma hercúlea tarefa de resumir tantas páginas para cerca de 100 páginas de banda desenhada. Tendo em conta a variedade de episódios narrados e a própria natureza híbrida do texto original, esta adaptação era, portanto, um desafio considerável. Mas pode-se dizer que o trabalho de Lameiras se revela bastante sólido e meritório, sendo capaz de preservar a essência da obra sem a reduzir a uma simples sucessão de acontecimentos.

Coisa que, convenhamos, acontece várias vezes em várias adaptações de clássicos para banda desenhada. Muitas vezes, bem o sabemos, este tipo de obras transforma-se numa espécie de resumo ilustrado, útil do ponto de vista pedagógico, mas incapaz de transmitir a complexidade e o espírito do material de origem. Não diria que a complexidade da obra original esteja presente nestes dois livros, mas não deixa de ser verdade que se sente um genuíno esforço para preservar o carácter errante da viagem de Fernão Mendes Pinto e a sucessão de aventuras, perigos, encontros culturais e momentos de descoberta que definem a obra original. É óbvio que é uma obra de maior propensão didática - como também o é a maioria dos álbuns desta coleção, recorde-se - mas, mesmo assim, apreciei este esforço dos autores.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Particularmente interessante é a forma como a narrativa consegue preservar a sensação de maravilhamento que caracterizou o relato de Fernão Mendes Pinto. O contacto com povos, costumes, religiões e paisagens desconhecidas continua a desempenhar um papel central, permitindo-nos acompanhar a viagem não apenas como uma sucessão de deslocações geográficas, mas também como uma permanente descoberta do mundo. 

No plano visual, porém, os resultados revelam-se mais irregulares. Miguel Jorge demonstra, em vários momentos, possuir uma capacidade assinalável para construir vinhetas interessantes e visualmente apelativas. Existem ilustrações cuja composição impressiona pela capacidade de transmitir a escala das viagens e dos ambientes orientais. Nesses momentos, diria que a obra alcança um nível gráfico bastante elevado.

Contudo, essa qualidade não é mantida de forma consistente ao longo dos dois volumes. Existem sequências em que o desenho parece menos cuidado ou menos expressivo, gerando uma sensação de desigualdade que acompanha toda a leitura. Essa irregularidade acaba por impedir que a componente gráfica atinja o nível qualitativo que, estou certo, poderia atingir.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
As cenas de ação constituem provavelmente o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Apesar da frequência de batalhas e confrontos ao longo da história, nem sempre as personagens transmitem o dinamismo esperado. Em diversas ocasiões, as figuras apresentam poses excessivamente rígidas, fazendo com que as cenas de ação fiquem alto estáticas, o que reduz, obviamente, parte da tensão dramática que esses momentos exigiriam.

Também o trabalho cromático de Inês Lima suscitou-me impressões contraditórias. Há passagens em que a cor contribui de forma muito eficaz para criar atmosferas distintas. Porém, noutras ocasiões, a aplicação da cor parece mais superficial - talvez demasiadamente digital? - sem acrescentar profundidade suficiente às imagens. Tal como acontece com o desenho, a sensação predominante é a de uma qualidade variável, alternando entre momentos bastante conseguidos e outros algo medianos.

Um aspeto particularmente agradável da leitura é a inclusão de diversas referências visuais e pequenos easter eggs dispersos pela narrativa. Só para nomear alguns, posso dizer que apreciei especialmente a referência ao célebre quadro de Théodore Gericault, A Jangada da Medusa, ou o aparecimento de uma personagem com os mesmos traços faciais de um dos mais famosos autores portugueses de banda desenhada. Quem será?

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
A edição dos livros é, à boa maneira dos restantes livros da mesma coleção, em capa dura baça, com bom papel brilhante no miolo, boa encadernação e boa impressão. Em cada um dos livros encontramos, no final, um dossiê de extras, elaborado por Paulo Silva Pereira, com informações adicionais sobre Fernão Mendes Pinto, a obra Peregrinação e o contexto histórico de ambos. 

Uma nota negativa para uma questão que, não sendo enorme, merece, quanto a mim, referência. Quando colocadas lado a lado, as lombadas dos livros - que têm exatamente o mesmo texto, exceptuando a menção ao facto de serem o "Peregrinação I" ou o "Peregrinação II" - apresentam o texto de forma bastante diferente. É a mesma font, sim, mas o texto aparece com um espaçamento e dimensão demasiadamente diferente. Sei que é uma coisa pequena, que não é isso que tira valor à obra, mas considero que é nestes (não tão) pequenos que está a diferença entre uma edição rigorosa e menos rigorosa.

No balanço final, Peregrinação afirma-se como uma adaptação competente e relevante de um dos maiores clássicos da literatura portuguesa. Não é uma obra isenta de falhas, sobretudo devido à sua natureza graficamente intermitente, mas consegue cumprir aquilo que era a sua missão fundamental: oferecer uma transposição acessível, respeitosa e suficientemente abrangente do texto de Fernão Mendes Pinto. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


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Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Peregrinação - Primeira Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2024

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação - Segunda Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

"A Sombra das Luzes" chega ao fim!



A editora Ala dos Livros acaba de publicar o terceiro e último volume da mini-série A Sombra das Luzes, de Alain Ayroles e Richard Guérineau.

Este último volume da série denomina-se O Demónio dos Grandes Lagos.

Já aqui falei dos primeiro e segundo tomos da série.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos, de Alain Ayroles e Richard Guérineau

O primeiro ciclo das aventuras epistolares do malvado Chevalier de Saint-Sauveur chega ao fim. 

No coração da América do século XVIII, Ayroles e Guérineau conduzem-nos por uma história de romance, intriga e grandes aventuras. Nas florestas americanas, a guerra aproxima-se. O Chevalier de Saint-Sauveur não se importa. A sua única preocupação é o sucesso da sua aposta: a inocente Aimée d'Archambaud deve casar-se com um iroquęs! 

Para alcançar esse objetivo, o infame libertino está preparado para recorrer aos planos mais ardilosos. Golpes de machado e réplicas mordazes ecoarão no silêncio da floresta! 

A série “A Sombra das Luzes”, está integralmente publicada em 3 volumes pela Ala dos Livros.

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Ficha técnica
A Sombra das Luzes - Tomo 3 – O Demónio dos Grandes Lagos
Autores: Alain Ayroles e Richard Guérineau
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 255 x 340 mm
PVP: 25,00€

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Análise: Os 7 Crimes de Roma

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet

A propósito deste Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet, que hoje vos trago, começo por opinar sobre uma coisa em específico - e é uma opinião muito pessoal como, aliás, são todas as opiniões dadas neste espaço: sou bem mais compreensivo com as editoras e/ou autores nacionais que não conseguem fazer uma obra de qualidade superior do que com as editoras que importam banda desenhada estrangeira de qualidade duvidosa. Se é para dar oportunidade a uma obra, digamos, "fraquinha"... ao menos que apostemos numa "BD fraquinha" de origem portuguesa. Pelo menos, sempre é uma forma de dar a oportunidade a um autor português para que este possa crescer. Já no que diz respeito à importação de banda desenhada... creio que o papel das editoras portuguesas deve ser o de trazer a melhor obra possível. Bem sei que nem todos temos os mesmos gostos, ou que a aposta pode ser de cariz mais comercial do que qualitativo... mas caramba, há tantas bandas desenhadas boas no estrangeiro (tantas, tantas, tantas!), que me faz confusão como se pode apostar numa obra como este Os 7 Crimes de Roma, que parece mais uma masterclass de como não fazer banda desenhada. Da capa aos desenhos, passando pelo desenvolvimento da narrativa, esta é uma obra que não merecia espaço nas livrarias portuguesas. Peço desculpa pela sinceridade, Gradiva.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
E até devo admitir que a premissa da obra, à partida, até tinha tudo para resultar. Colocar Leonardo da Vinci no papel de investigador, envolvido numa série de assassinatos ocorridos na Roma renascentista, parece uma ideia suficientemente apelativa para captar a atenção de qualquer amante de história, mistério ou banda desenhada. Pelo menos, captou a minha atenção. Mas, infelizmente, aquilo que começa por parecer uma proposta promissora rapidamente se transforma numa leitura frustrante.

A narrativa arranca com a descoberta de um cadáver decapitado e com a presença de uma misteriosa inscrição deixada pelo assassino. O contexto histórico é interessante: Roma, em pleno Renascimento, com o Vaticano como pano de fundo e Leonardo da Vinci a circular pelos corredores do poder. São ingredientes que, bem trabalhados, poderiam ter dado origem a um thriller histórico bastante cativante.

No entanto, à medida que a história avança, torna-se cada vez mais evidente que os autores não conseguem explorar convenientemente o potencial da ideia inicial. O mistério perde força rapidamente e a investigação acaba por se tornar pouco envolvente. E em vez de sentirmos curiosidade em descobrir quem está por detrás dos crimes, somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que parecem acontecer porque o argumento assim o exige, e não porque surjam de forma orgânica. Confesso que estive quase a desistir da leitura, mas fiz um esforço e consegui acabãr de ler o livro.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Um dos vários problemas da obra reside na construção narrativa. Existem demasiadas situações que parecem forçadas, artificiais e pouco naturais. Muitas cenas parecem montadas apenas para fazer avançar a história para a página seguinte, sem grande preocupação com a coerência ou credibilidade dos acontecimentos. Os diálogos também não ajudam. Em diversos momentos soam artificiais, arrastados expositivos e pouco convincentes. Falta naturalidade às conversas e falta subtileza à forma como os autores gerem a comunicação entre as personagens.

O próprio Leonardo da Vinci, que deveria ser uma das grandes forças da obra, acaba por surgir como uma personagem de pálido carisma. Em nenhum momento senti que estivesse perante uma recriação memorável de uma das figuras mais extraordinárias da História. E também Guido, o jovem estudante de medicina que acompanha Leonardo, não me conseguiu conquistar. 

Por fim, a investigação criminal, que deveria constituir o motor da obra, sofre igualmente de vários problemas. A sensação é a de que os autores querem conduzir rapidamente a narrativa para determinado ponto sem se preocuparem em construir um percurso credível até lá. A leitura torna-se progressivamente mecânica e previsível.

Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet - Gradiva
Infelizmente, a componente gráfica também não consegue "salvar" a obra. Embora exista aqui e ali uma ilustração mais bem conseguida ou um enquadramento mais interessante, o resultado global está muito longe de impressionar. Os desenhos apresentam frequentemente um aspeto algo amador, tanto ao nível das figuras humanas como na representação dos cenários, onde há um excesso de ruído visual. As personagens surgem muitas vezes rígidas, com expressões pouco convincentes e uma linguagem corporal pouco natural. 

A própria capa está bastante mal concebida a vários níveis. Seja no grafismo, em que as letras são colocadas em cima do texto sem qualquer rigor ou preocupação estética - bem-vindos aos livros editados nos anos 70 - seja na ilustração, particularmente no desenho da mão de Leonardo da Vinci com dedos demasiadamente longos, sem que haja uma tentativa de transformar o desenho em algo caricatural. Posso dizer-vos que não tirei o dia para estar a deitar abaixo a obra... simplesmente são coisas difíceis de não referir.

A edição é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. As margens a branco do livro parecem-me demasiado curtas, mas tendo em conta o amadorismo da obra, já nem sei se a "culpa" disso é da editora portuguesa ou do trabalho original.

No final, Os 7 Crimes de Roma surge como um daqueles livros em que o conceito é muito mais interessante do que a execução. Não é uma obra que faça justiça ao fascínio de Leonardo da Vinci nem ao enorme potencial do thriller histórico que havia aqui. Pelo contrário, é uma leitura esquecível que deixa a sensação de uma oportunidade claramente desperdiçada. Um livro a evitar.


NOTA FINAL (1/10):
2.0


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Ficha técnica
Os 7 Crimes de Roma
Autores: Guillaume Prévost e Robert Paquet
Editora: Gradiva
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 31 cm
Lançamento: Julho de 2024


Análise: Ed Gein

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell

Se procuram uma das bandas desenhadas mais chocantes, impressionantes, maquiavélicas e sombrias que podem ler, este Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell, pode bem ser o livro de que precisam!

Para quem não sabe - e acredito que já sejam poucos, depois da recente série da Netflix, Monstros -, Ed Gein foi um dos mais famosos e infames assassinos que habitou o planeta. Nascido em 1906, Ed Gein assassinou, na década de 1950, mulheres e profanou sepulturas, tornando-se uma das figuras mais assustadoras da história criminal. O seu legado retorcido foi tanto que até acabou por inspirar várias histórias e filmes de culto como Psycho, Massacre no Texas ou O Silêncio dos Inocentes. Lembram-se do homem da motosserra que nos perseguia na antiga Passagem do Terror,na extinta Feira Popular de Lisboa? Pois bem, também essa personagem, de Massacre no Texas, era inspirada em Ed Gein.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

À primeira vista, Ed Gein era visto pelos seus vizinhos como um homem tímido, solitário e relativamente inofensivo. No entanto, por detrás dessa aparência serena escondia-se uma personalidade profundamente perturbada, marcada por uma infância dominada por uma mãe extremamente autoritária e religiosa, cuja influência, mesmo após a sua morte, continuou a moldar o comportamento do filho. O isolamento social, a obsessão pela figura materna e diversos problemas psicológicos contribuíram para a formação de uma mente doentia que, infelizmente, acabou por se tornar célebre.

E por um motivo em particular. É que, para além de assassinar mulheres, Ed Gein também profanava sepulturas para recolher restos mortais, que depois utilizava de formas macabras dentro da sua casa, construindo peças de decoração com ossos e pele dos cadáveres. E embora tenha sido condenado por apenas dois homicídios, a natureza particularmente grotesca dos seus crimes fez deste homem uma referência incontornável do imaginário do horror moderno. Mesmo hoje em dia, Ed Gein continua a ser estudado como um dos casos mais perturbadores e incompreensíveis de sempre.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Este Ed Gein, da autoria de Harold Schechter e Eric Powell, procura traçar um retrato das origens deste assassino necrófilo e revela-se como uma obra impressionante e perturbadora. É lógico que esta é uma leitura para aqueles de estômago forte, mas, ainda assim, não me parece que este livro procure sensacionalismo gratuito. É chocante, sim, mas como não nos chocarmos quando falamos de Ed Gein e das atrocidades que cometeu? O livro procura apresentar um retrato detalhado de Ed Gein, explorando os acontecimentos que moldaram a sua personalidade e ajudaram a criar uma figura assim. O resultado é uma leitura tão envolvente quanto inquietante.

A narrativa destaca-se pela forma como consegue equilibrar rigor biográfico e ritmo dramático. Harold Schechter constrói um relato sólido e bem documentado, permitindo ao leitor acompanhar a evolução de Gein desde a infância até aos crimes que chocaram a América e o mundo. O livro não procura justificar os seus atos, até porque são injustificáveis, logicamente, mas tenta compreender as circunstâncias que contribuíram para a formação de uma mente profundamente perturbada.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
E um dos aspetos que, quanto a mim, é mais interessante nesta obra é a tentativa de olhar para além do monstro. Gein surge-nos como uma figura simultaneamente patética, assustadora e incompreensível. O leitor é constantemente confrontado com a pergunta de como alguém aparentemente banal se transformou num dos maiores monstros e assassinos que alguma vez pisaram o planeta. Essa reflexão acompanha toda a leitura e torna-a particularmente marcante.

O livro não evita os aspetos mais chocantes da história de Ed Gein. Pelo contrário, apresenta-os de forma direta e muitas vezes brutal. Existem momentos verdadeiramente difíceis de ler ou observar, não apenas pela violência descrita, mas sobretudo pelas implicações psicológicas dos atos cometidos. O horror que sentimos resulta da eficácia da narrativa e da honestidade com que os factos são apresentados. O livro consegue transmitir repulsa sem perder a seriedade nem cair na exploração gratuita da violência, portanto.

Também é digno de nota o modo como a obra evidencia a influência da mãe de Ed Gein - tão psicopata como o filho, diga-se - e o ambiente extremamente repressivo em que cresceu. Sem apresentar explicações simplistas, os autores mostram como determinados fatores familiares e psicológicos podem ter contribuído para o desenvolvimento de comportamentos profundamente desviantes de Ed Gein.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
O trabalho artístico de Eric Powell - com o qual eu já estava bastante familiarizado devido à sua série Goon - é simplesmente extraordinário. As suas ilustrações, executadas em tons de cinzento, criam uma atmosfera sombria e opressiva que combina na perfeição com o tema abordado. 

Cada página transmite desconforto, tristeza e inquietação, reforçando o impacto emocional da narrativa sem recorrer a excessos visuais. Também os contrastes entre luz e sombra ajudam a criar uma sensação permanente de decadência e isolamento, refletindo tanto o ambiente rural onde os acontecimentos decorrem, como o estado mental do protagonista. 

Além isso, a caracterização das personagens também merece destaque. Mesmo as personagens secundárias possuem profundidade suficiente para parecerem pessoas reais, com medos, limitações e emoções credíveis. Isso torna os acontecimentos ainda mais perturbadores, porque o horror não surge num universo fictício distante, mas num contexto humano reconhecível.

Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside
Em termos de edição, este livro da editora brasileira Darkside - que adquiri na loja Casa da BD, em Lisboa - apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, bom papel baço e um bom trabalho ao nível da impressão, encadernação e acabamentos. No final, há ainda um conjunto de apêndices bem-vindos que nos falam sobre os factos concretos relatados e ainda nos oferecem entrevistas a George Arndt e Irene Hill Baileu, que estudaram Ed Gein ao pormenor, bem como algumas fotografias do assassino. Parece-me que as ilustrações de Eric Powell mereciam um formato um pouco maior em dimensão para melhor respirarem, mas, fora isso, estamos perante uma bela edição.

Enquanto banda desenhada, Ed Gein é um exemplo notável do potencial do meio para abordar temas complexos e difíceis. Trata-se de uma obra que demonstra bem como a BD pode ser tão poderosa e impactante quanto qualquer romance ou filme. Na verdade, até considero que esta BD ultrapassa em qualidade a série da Netflix.

Em suma, Ed Gein é uma leitura fantástica e uma das bandas desenhadas mais pesadas que já li. É uma experiência exigente, por vezes quase sufocante, mas que recompensa quem procura uma leitura madura, intensa e intelectualmente estimulante. Poucas obras conseguem provocar simultaneamente fascínio, horror e reflexão de forma tão eficaz. A combinação entre a escrita rigorosa de Harold Schechter e a arte magnífica de Eric Powell resulta numa obra memorável, capaz de nos confrontar com algumas das facetas mais sombrias da condição humana. Não é um livro para todos os leitores, mas para quem tiver estômago para mergulhar numa escuridão tão profunda. Quem é que aceita o desafio?


NOTA FINAL (1/10):
9.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell - Darkside

Ficha técnica
Ed Gein
Autores: Harold Schechter e Eric Powell
Editora: Darkside
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 26 x 17 cm
Lançamento: Maio de 2022