quinta-feira, 5 de março de 2026

Análise: Um Livro Esquecido Num Banco

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa
Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig

Originalmente editado em 2014, chegou-nos no mês passado, pelas mãos da editora ASAUm Livro Esquecido Num Banco, obra que marca a estreia da edição do trabalho dos autores Jim e Mig em Portugal.

Não sabendo muito bem o que havia de esperar deste livro - embora tivesse lido e ouvido boas referências - posso dizer-vos que foi uma boa surpresa e que funciona, acima de tudo, como uma obra que nos remete para uma daquelas comédias românticas de sábado à tarde, leves e que se veem bem, mas sem serem obras-primas.

Um Livro Esquecido Num Banco é isso mesmo: um livro que entretém e que até deixa algum espaço para refletirmos sobre as vidas que levamos no tempo presente. Será que, com o corre-corre do dia-a-dia nos esquecemos de como ser românticos? Mesmo a própria banda desenhada enquanto meio - com alguma pena minha, pois considero-me, orgulhosamente, um romântico - parece não se focar tanto no romantismo e nas relações amorosas. oferecendo-nos outros temas. Portanto, devo dizer que gosto da abordagem e também gosto que a ASA esteja a dar "palco" a este tipo de obras. Até porque, assim me quer parecer, são obras que podem trazer novos leitores (e leitoras) para a leitura de banda desenhada.

Mas além de ser uma história romântica, este livro também tem a valência de ser uma homenagem aos livros. Por tudo aquilo que eles nos dão, por todas as possibilidades infinitas que um livro por ler nos traz e até por poder funcionar como objeto de partilha de algo entre dois seres.

E é mesmo por aí que a história arranca.

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa
Acompanhamos Camélia, uma jovem e bonita mulher, que encontra um livro num banco do jardim. Alguém o deve ali ter esquecido. Por um impulso natural de alguém que gosta de livros, Camélia dá por si a folhear o livro. Até que encontra aí uma mensagem que a convida a levá-lo para casa.

Já em casa, Camélia descobre que o livro parece ter mensagens codificadas, pois tem algumas palavras sublinhadas que, juntas, formam uma frase. Quem será esta pessoa que aparenta querer comunicar com outra através de um livro?

Ora, todo este secretismo e este enigma agitam a vida de Camélia, que até se encontra presa numa relação amorosa cansada, em que o seu namorado parece mais interessado em estar conectado através do seu novo telemóvel, do que em si. A jovem mulher encontra, então, na misteriosa pessoa que escreveu estas mensagens naquele livro um ponto em comum, pois também ela sonha com uma vida igualmente intensa, semelhante aos romances que lê. Passa então a escrever, também ela, mensagens no livro, deixando-o em espaços públicos na expectativa que o desconhecido(a) aceda a ele. 

O livro surge, pois, como um meio de comunicação entre Camélia e o misterioso - ou misteriosa - interlocutor(a). Mas embora Camélia deixe o livro no espaço público e se esconda procurando detectar quem é a pessoa que lhe escreve mensagens, há sempre algum evento que a distrai na hora H, fazendo com que ela não consiga perceber quem é a enigmática pessoa. E isso permite uma dinâmica interessante no enredo, alimentando a história sem a tornar cansativa. Ao invés, torna-a mais apelativa, aumentando a curiosidade do leitor.

No fundo, o que esta obra tenta fazer é explorar e valorizar a conexão humana através da literatura num mundo dominado pela conexão digital. Seja através de telemóveis, tablets, computadores ou e-books. Há aqui uma valorização do objeto físico, do papel dos livros, bem como da aventura de um encontro fortuito, às cegas, em contraste com os algoritmos contemporâneos de aplicações de encontros onde, antes de cada encontro físico, as pessoas já se conhecem virtualmente.

Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa
E para isso, o autor Jim baseia-se na prática conhecida por bookcrossing, que consiste em disponibilizar um livro à primeira pessoa curiosa num local público, para que esse livro possa ter uma segunda vida.

O argumento de Jim tem, pois, uma premissa original e cativante e o desenvolvimento do enredo e da investigação de Camélia deixa-nos agarrados à história. Parece-me que, no fim, a resolução do enigma e da história poderia ter sido melhor ou mais inspirada mesmo que, ainda assim, não seja má de todo.

Os desenhos de Mig encaixam bastante bem na história arquitetada por Jim. As ilustrações são modernas, simples, mas com uma boa dose de pormenores. A expressividade da protagonista é bastante boa, embora me tenha parecido que certas personagens apresentam uma expressividade algo rígida e menos verossímil. Em particular, a personagem de Étienne que parece um autêntico "boneco de cera". Todavia, penso que é justo dizer que, mesmo sem maravilhar, são desenhos que cumprem bem a sua função. Nota positiva, ainda, para as cores da obra que dão vida e uma boa dinâmica aos desenhos de Mig, sendo asseguradas por Delphine, com quem Jim já colaborou noutras obras.

A edição da ASA é integral, reunindo num só volume os dois tomos em que a obra foi originalmente editada. O que foi uma boa ideia, claro. O livro tem capa dura baça, bom papel brilhante, boa encadernação e impressão. É incluída uma nota introdutória de Jim e duas páginas, entre o primeiro e o segundo tomos, com esboços de Mig. 

O formato escolhido pela ASA é um pouco menor do que aquele da edição original francesa da obra, da Bamboo Édition. Nem sempre faço reparos a esta situação, pois muitas vezes não considero que a edição num formato mais pequeno desvirtue assim tanto a obra original - embora, claro, prefira sempre que a edição portuguesa seja tão fiel à edição original quanto possível. Neste caso concreto, esta redução no formato impacta um pouco a boa fruição da obra pois, como Mig utiliza várias vinhetas por página - por vezes até nos aparecem 4 tiras por página - isso faz com que as ilustrações e respetivas legendas e balões tenham uma dimensão menor do que o indicado. O que não é a situação ideal. Fica a nota.

Em suma, Um Livro Esquecido Num Banco oferece-nos uma boa leitura, leve e divertida, com um toque de comédia romântica não tão comum em banda desenhada - pelo menos naquela que, habitualmente, se lança em Portugal - e que, por isso mesmo, é mais que bem-vinda. Além disso, é um livro que presta homenagem aos próprios livros e lembra-nos que há mais vida para lá dos écrans dos telemóveis e computadores. Ora, a esse propósito, e sabendo que acabaram de ler este texto através de um écran digital, convido-vos a desligarem-no e a irem procurar um livro para vós mesmos. Se possível, de banda desenhada. E se for este Um Livro Esquecido Num Banco, ficam bem servidos.


NOTA FINAL (1/10):
8.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Um Livro Esquecido Num Banco, de Jim e Mig - ASA - LeYa

Ficha técnica
Um Livro Esquecido Num Banco
Autores: Jim e Mig
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 275 x 205 mm
Lançamento: Fevereiro de 2026



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