quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Análise: Something is Killing The Children #1

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto

Foi ainda durante 2025, no final do ano, que a editora Devir se lançou numa das séries de banda desenhada de horror mais aclamadas dos últimos tempos: Something is Killing the Children, que conta com argumento de James Tynion IV, desenhos de Werther Dell'Edera e cores Miquel Muerto.

Relembro que, do argumentista James Tynion IV, já a editora nos tinha feito chegar, também no ano passado, A Bela Casa do Lago, dessa feita com ilustrações de Álvaro Martínez Bueno.

Neste primeiro volume de Something is Killing the Children, a história toma lugar numa pequena localidade americana marcada por um trauma coletivo: várias crianças desapareceram ou foram encontradas brutalmente assassinadas, e apenas uma delas, James, sobreviveu para contar a história que, expectavelmente, parece impossível àqueles que a ouvem. Isto porque, segundo James, os responsáveis por tais desaparecimentos são monstros que habitam a floresta próxima da localidade. Estes monstros são criaturas invisíveis aos olhos dos adultos, mas terrivelmente reais para as crianças. A comunidade, mergulhada no luto e na incredulidade, oscila entre o ceticismo perante as confissões do rapaz e o pânico de algo maior, e mais nefasto, que possa estar, efetivamente, a acontecer.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
É neste cenário que surge Erica Slaughter, uma figura enigmática, de comportamento frio e métodos pouco ortodoxos. Armada com uma espada e um profundo conhecimento do inimigo, com quem aparenta já ter lutado no passado, Erica acredita no testemunho de James. Mas, sendo adulta, acaba por contrariar a suposta incapacidade dos adultos para verem estas criaturas. Erica sabe que não só os monstros existem, como parecem alimentar-se do medo infantil para se fortalecerem.

Senti, logo desde o início, uma familiaridade entre Something Is Killing the Children e o imaginário da série televisiva de enorme sucesso, Stranger Things: a pequena cidade, a infância ferida e, especialmente, o sobrenatural escondido além da perceção adulta. Estes pontos em comum não se tratam propriamente de um problema, mas mais de um ponto de partida reconhecível, que até facilita a entrada do leitor neste universo de medo e perda, caso, claro está, seja apreciador de Stranger Things e outras franquias semelhantes.

Esta premissa de apenas as crianças - e alguns adultos - conseguirem ver os monstros parece-me muito interessante e com enorme potencial para desbravarmos esse mundo especial - embora potencialmente perigoso - do mundo imaginário das crianças.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
Poder-se-ia alimentar esta história com a ideia de que o horror é tanto físico quanto simbólico, utilizando os monstros como metáfora para traumas, medos e violências que os adultos se recusam a reconhecer, mas não se foi tão longe. Pelo menos por agora. Havia aqui pano para mangas, sim, todavia o desenvolvimento do enredo acaba por ser mais básico e linear daquilo que poderia ser. O que, sinceramente, me parece uma oportunidade perdida.

Entretanto, à medida que investiga os ataques na companhia de James, Erica confronta não só as criaturas da floresta, mas também a hostilidade da própria comunidade, que desconfia das suas intenções. Os combates entre Erica e os monstros sucedem-se em violentas cenas de ação.

O rápido ritmo narrativo é um dos aspetos mais evidentes do livro. As 136 páginas que compõem este primeiro volume leem-se com enorme rapidez, quase num só fôlego. Essa cadência veloz é eficaz na criação de tensão imediata e torna a leitura altamente cativante, mas cobra um preço: a ambiência de mistério, essencial a este tipo de narrativa sobrenatural, dissipa-se demasiado depressa.

À medida que os monstros surgem com clareza, o desconhecido perde força. E aquilo que inicialmente se insinua como terror difuso e psicológico da obra, transforma-se rapidamente numa ameaça concreta, visível e explicável. O suposto "medo" que emana da história deixa de se alimentar do mistério do invisível e passa a ser literal, o que empobrece ligeiramente a experiência sensorial e emocional do leitor. Pelo menos, aconteceu comigo.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
E surge aqui um "problema" - se é que lhe posso dar esse nome - e que me surpreende que ninguém o tenha referido aos autores: é que se dizemos o que é que está a matar as crianças logo no primeiro volume, destruímos rapidamente a sensação de mistério que o belo nome da série nos fez primeiramente sentir. A partir deste ponto, o título deixa de fazer pleno sentido e, a partir do segundo volume, talvez devêssemos chamar à obra "We Already Know What is Killing The Children" em vez de Something is Killing The Children. Piadolas à parte, é claro que, depois de finalizada a leitura deste primeiro volume da série, ainda é pouco o que sabemos sobre os monstros e a sua origem. Porém, parece-me óbvio que a história teria beneficiado mais se fosse revelada com uma dosagem menor de revelações logo no primeiro volume da série.

É que essa clareza precoce afeta o impacto da obra. O mistério, uma vez resolvido, deixa pouco espaço para especulação ou inquietação duradoura. O horror passa a funcionar mais como mecanismo de ação do que como campo de reflexão, aproximando a história de algo mais processual onde já sabemos o que é que as personagens têm de combater, restando apenas o como.

Ainda assim, Erica Slaughter é uma personagem extremamente carismática, que me agradou bastante. A sua postura fria, o visual marcante e a relação ambígua com as crianças conferem-lhe uma presença forte, capaz de sustentar a narrativa mesmo quando o argumento vacila. É nela que reside grande parte do interesse emocional e simbólico do livro.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
No plano visual, Werther Dell’Edera apresenta um trabalho sólido e eficaz. O seu traço, menos polido e mais indie, afasta-se do registo comercial clássico dos comics americanos e encaixa bem na atmosfera sombria da história. Há uma crueza gráfica que reforça o desconforto, sobretudo nas expressões faciais, em especial nos olhares assustados das personagens, e nos corpos fragmentados pelo medo.

O trabalho do autor distingue-se ainda pela forma como ilustra o horror. Os monstros, quando surgem, são tão feitos de sombra quanto de matéria, e os rostos das personagens - especialmente das crianças - carregam uma expressividade crua que comunica medo, trauma e incredulidade sem necessidade de grandes artifícios. É um desenho que não procura seduzir pelo espetáculo, mas antes inquietar pela atmosfera, servindo muito bem a narrativa.

Em termos de edição, a Devir optou por editar este livro em capa mole, com badanas, e um papel algo fino, mas bom, no miolo do livro. De resto, a impressão e a encadernação são de boa qualidade. Nota ainda para a inclusão de uma galeria de capas alternativas, todas elas muito bonitas e impactantes.

Em suma, Something Is Killing the Children é um primeiro volume competente, envolvente e visualmente apelativo, mas longe de ser revolucionário. Funciona bem enquanto entretenimento rápido, mas perde profundidade à medida que o mistério se vai dissolvendo cedo demais. É um bom começo para quem aprecia banda desenhada de horror, ainda que não inesquecível.


NOTA FINAL (1/10):
7.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



-/-

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir

Ficha técnica
Something is Killing the Children #1
Autores: James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto
Editora: Devir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Novembro de 2025

Sem comentários:

Enviar um comentário