Falar de Peanuts é falar de um dos pilares fundamentais da história da banda desenhada em tiras e, por arrasto, da própria cultura popular do século XX. Criadas por Charles M. Schulz em 1950, estas histórias aparentemente simples, publicadas diariamente em jornais, tornaram-se rapidamente um espaço de reflexão sobre a condição humana, embalado por um humor seco, uma melancolia especial e uma lucidez rara.
Parece-me até que foi Schulz o primeiro autor a perceber que algo simples como uma tira podia ser espaço para uma profundidade emocional e filosófica, mesmo quando protagonizada por crianças e um cão. Depois apareceram muitas outras tiras humorísticas ao longo dos anos - das quais destaco, pela sua qualidade, Mafalda, de Quino, ou Calvin and Hobbes, de Bill Watterson - que até podem ter ido mais longe em termos de profundidade nos temas, mas não há como negar a relevância cultural de Snoopy, Charlie Brown e companhia.
Sim, de todas as personagens marcantes da série, o cão de Charlie Brown, Snoopy, sempre foi a mais popular. Talvez seja por isso que este livro não se chama "O Indispensável de Peanuts", mas "O Indispensável de Snoopy". E mesmo admitindo que talvez o nome mais ajustado fosse o primeiro, compreendo que, do ponto de vista comercial, "Snoopy" seja uma marca ainda mais forte e sonante do que "Peanuts".
Ao longo de décadas, Peanuts foi muito mais do que entretenimento ligeiro. Schulz construiu um universo coerente, recorrente e reconhecível, onde a repetição era uma ferramenta narrativa e não um defeito. Através de pequenas variações sobre os mesmos temas, o autor soube criar uma obra que cresceu com os seus leitores, acompanhando transformações sociais, culturais e até políticas, sem nunca perder a sua identidade.
Isto não esquecendo que, além do meio específico, Peanuts infiltrou-se profundamente na cultura pop. Snoopy, Charlie Brown e companhia tornaram-se ícones transversais, reconhecidos muito para lá das páginas dos jornais: animação, cinema, merchandising, música, moda, entre outros.
A juntar a isso, a série tem sabido manter-se atual mesmo depois do falecimento do seu criador, Charles M. Schulz, há mais de 25 anos. Talvez seja essa relação íntima entre simplicidade gráfica e complexidade emocional aquilo que melhor explica a longevidade e a atualidade de Peanuts. Schulz falava de crianças, mas escrevia claramente para adultos; fazia rir, mas quase sempre com um travo amargo. A sua obra é um espelho desconfortável, onde nos revemos sem a beleza que, por ventura, gostaríamos de encontrar, mas com uma honestidade desconcertante.
É neste contexto que surge O Indispensável do Snoopy, a edição portuguesa comemorativa dos 75 anos de Peanuts, lançada no passado mês de outubro pela editora Iguana (chancela do grupo Penguin).
Esta bela edição assume desde logo uma ambição clara: não apenas reunir tiras icónicas, mas celebrar uma obra maior. Trata-se de uma edição de luxo, com capa dura, bom papel e um cuidado gráfico que faz justiça à importância histórica e afetiva do material reunido.
Esta não é apenas uma antologia “best of”. É um objeto pensado, organizado e contextualizado, que procura dar ao leitor uma visão abrangente da evolução de Peanuts ao longo das décadas. As tiras estão organizadas cronologicamente, permitindo perceber como Schulz foi afinando o seu traço, o seu humor e a sua visão do mundo, sem nunca trair os fundamentos da série.
A personagem de Snoopy, naturalmente, ocupa aqui um lugar central. As suas múltiplas personas, como o ás da aviação da Primeira Guerra Mundial, o escritor fracassado de máquina de escrever ou o filósofo solitário no topo da casota, são apresentadas não apenas como gags recorrentes, mas como construções narrativas com peso simbólico. Esta contextualização transforma o livro num verdadeiro objeto de estudo, revelando camadas que muitas leituras rápidas tendem a ignorar.
O volume inclui ainda uma introdução geral à série e textos dedicados a cada uma das personagens principais: Charlie Brown, Linus, Lucy, Woodstock, Schroeder, Peppermint Patty, Sally, Marcie, entre outras.
Outro dos méritos desta edição é a inclusão de textos introdutórios para cada década, que enquadram histórica e artisticamente as tiras selecionadas. Estes textos ajudam o leitor a perceber como Peanuts dialoga com o seu tempo, refletindo mudanças sociais subtis, sem nunca se tornar panfletário ou datado. Há ainda algumas citações de Charles M. Schulz, que ajudam a compreender melhor as intenções do autor e a forma como via as suas próprias criações.
É certo que, ao contrário da edição de integral de Mafalda, de Quino, lançada em 2024 também pela Iguana, este livro não traz a obra completa de Peanuts. Mas isso, digo eu, talvez não fosse o mais adequado a fazer, dado que a série é muito grande e seriam necessários 26(!) livros com 300(!) páginas para que tivéssemos a coleção completa. Não me parece minimamente viável para o mercado português. Um best of bem feito, como é o caso, parece-me a melhor opção, tendo esta edição a capacidade de funcionar bem a vários níveis: como porta de entrada para novos leitores, como objeto nostálgico para quem cresceu com estas personagens e como um documento histórico, cultural e artístico.
Estamos, pois, perante uma bela e equilibrada edição, daquelas que justificam plenamente a sua existência física num tempo de consumo rápido e descartável. Um livro que toda a gente devia comprar ou oferecer, não apenas pelo carinho que Snoopy e os seus amigos continuam a merecer, mas porque Peanuts permanece, 75 anos depois, tão indispensável quanto sempre foi.
NOTA FINAL (1/10):
9.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
-/-
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário