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segunda-feira, 2 de março de 2026

Devir termina coleção Angoulême!




A Devir acaba de publicar o último volume da sua Coleção Angoulême, coleção essa que nos trouxe um belo conjunto de obras premiadas no Festival de Angoulême, o maior evento europeu dedicado à banda desenhada.

Embora algumas das obras contidas nesta coleção, como Silêncio ou A Trilogia Nikopol, por exemplo, já tivessem tido edição portuguesa em tempos, outras obras houve que tiveram o seu primeiro lançamento em Portugal através desta coleção.

Fica agora no ar a dúvida se a Devir vai dar seguimento ao lançamento deste tipo de obras de banda desenhada que são diferentes, na abordagem e no público a que se destinam, daquelas que podemos encontrar nos mangás ou comics americanos que a editora tem editado.



A obra que fecha esta coleção é Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet, uma biografia sobre a célebre artista francesa.

O livro já pode ser encontrado em livraria.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse foi uma artista de cabaret e pintora, famosa por frequentar os círculos boémios de Montparnasse no início do séc. XX, onde conheceu artistas como Chaim Soutine, Jean Cocteau, Amedeo Modigliani, Man Ray e Alexander Calder, entre muitos outros.

Uma das primeiras mulheres emancipadas em relação aos constrangimentos culturais e sexuais impostos pela sociedade da altura, tornou-se a musa de muitos artistas e companheira de Man Ray, que a imortalizou numa das suas obras mais icónicas.

Neste livro, José-Louis Bocquet e Catel Muller relatam, de forma inteligente e sensível, a história de uma artista carismática, que contribuiu de forma inegável para uma das épocas mais estimulantes e criativas do século.

Prémio Essencial Angoulême 2008



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Ficha técnica
Kiki de Montparnasse
Autores: Catel & Bocquet
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17x24 cm
PVP: 22,00€



terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Análise: O Gosto do Cloro

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès

A Coleção Angoulême da editora Devir aproxima-se do final, ficando apenas a faltar a publicação do livro Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet. Antes desse derradeiro lançamento, a editora já nos fez chegar, durante este primeiro mês do ano, o livro O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès, que, assumindo desde já que pode não agradar a todo o tipo de leitores, confesso ter adorado.

Afinal de contas, estamos perante um livro que se lê quase em apneia, de tão intenso e vazio que é ao mesmo tempo. Bastien Vivès, autor de outras obras já por cá publicadas por outras editoras, como Uma Irmã, Polina ou a mais recente e contemporânea abordagem à série clássica de Corto Maltese, constrói neste O Gosto do Cloro, uma narrativa curta e silenciosa, onde o essencial não está tanto no que acontece, mas naquilo que se sente. E nisso, o autor é um verdadeiro mago. A piscina onde decorre a quase totalidade desta história surge-nos, pois, como mais do que um cenário: é um estado de espírito. Um espaço fechado, azul, repetitivo, onde os corpos se movem e os pensamentos se libertam lentamente, como se cada braçada fosse também um ensaio de aproximação emocional.

Mas já me estou a adiantar. Recuemos um pouco.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
A história é bem simples. Acompanhamos o percurso de um rapaz, que pelo bem das suas costas, precisa nadar. Pelo menos, uma vez por semana. É essa a sua prescrição médica. É então que, na piscina onde decide fazer natação, o seu olhar assenta numa bela rapariga, antiga campeã de natação. Não sabemos muito mais sobre cada uma das personagens e é bem possível que não fiquemos a saber muito mais depois de finalizada a leitura. No entanto, várias emoções e um sentimento de reflexão estão à nossa espera enquanto mergulhamos, literalmente, nesta leitura.

Também não sabemos os nomes das personagens, e isso não é um acaso, pois tratam-se, claro, de figuras quase universais, arquétipos de um encontro que poderia ser de qualquer um de nós, num tempo indefinido, suspenso.

A relação dos dois começa de forma bastante lenta - e, portanto, credível - à medida em que as duas personagens, principalmente o rapaz, vão vencendo os seus medos e a sua timidez para estabelecer contacto um com o outro.

Vivès aposta numa relação que surge através de pequenos gestos, olhares trocados e correções técnicas de natação, que funcionam como pretextos para o toque e para a proximidade entre as personagens. Há uma intimidade que cresce de forma orgânica, sem grandes declarações ou viragens dramáticas. Tudo acontece num registo silencioso, quase sussurrado, como se o próprio livro tivesse medo de quebrar o silêncio húmido da piscina.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Este é, claramente, um livro que não agradará a todos. Passa-se pouca coisa, no sentido clássico da narrativa. Isso é verdade. E estamos perante um encontro entre duas personagens Apenas isso. A possibilidade do que pode vir, ou não, a ser. O virar da página de um encontro fortuito. Mas é precisamente aí que reside a maturidade da proposta: Vivès imprime significado nos silêncios, na observação pura, naquilo que fica por dizer. O vazio aparente é, afinal, um espaço cheio de tensão e expectativa.

É verdade que o ritmo da narrativa também acaba por ser lento, mas tudo isso é bastante deliberado. Cada página parece flutuar, como os corpos na água. Essa lentidão, que poderia ser um defeito noutro contexto, funciona aqui como uma virtude, porque nos obriga a desacelerar, a ler com atenção, a habitar o tempo da narrativa em vez de o atravessar apressadamente. Este é mesmo um daqueles livros que serve como escape. Se o lermos à pressa - e essa possibilidade até fará com que o livro seja lido em 15 ou 20 minutos - estaremos a não dar à obra aquilo que ela nos pede: tempo. Os livros discretos, sensíveis e profundamente contemplativos normalmente carecem de tempo para serem bem degustados.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há também uma dimensão profundamente nostálgica nesta história que me agradou especialmente. O Gosto do Cloro remeteu-me para os tempos da adolescência, da juventude, em que o primeiro contacto - mesmo que breve - com alguém do sexo oposto parecia a abertura de um livro em branco. Quando em jovens, não sabíamos o que podia sair dali, desse primeiro contacto com alguém que desconhecíamos, e talvez por isso, a carga emocional fosse tão intensa. Vivès capta muito bem esse momento frágil de passagem da infância para o mundo adulto.

O final deixa tudo em aberto, o que acaba por fazer ressoar ainda mais a obra no leitor. Posso dizer-vos que tentar perceber como acaba esta história dá pano para mangas e promete conversas longas entre quem tiver lido a obra. Mas mais não digo. Terão mesmo que ler este belo livro e tirar as vossas conclusões.

Do ponto de vista gráfico, os desenhos são simples, minimalistas e bastante despidos. Há um certo charme nessa economia de meios, um requinte visual que contribui para o erotismo latente do conto. Os corpos, desenhados sem excessos, parecem mais vulneráveis, mais reais, e o grafismo ajuda a construir essa atmosfera de intimidade contida. As próprias posições dos corpos na água são muito bem delineadas por parte do autor. Fica a ideia que ou o autor passou muitos anos da sua vida em piscinas de natação, ou fez um estudo demorado e profundo para este álbum, já que a linguagem corporal das personagens está muito bela e verossímil.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir
Há momentos belíssimos, quase hipnóticos, que parecem levar-nos para o ambiente de uma piscina. Diria que, enquanto lemos este livro, quase conseguimos sentir o cheiro do cloro. Aliás, o livro poderia perfeitamente chamar-se "O Cheiro do Cloro" em vez de O Gosto do Cloro. Vivès coloca-nos dentro da piscina com uma eficácia rara: o eco das vozes, o reflexo da luz na água, a repetição dos azulejos... Enfim, tudo contribui para uma experiência sensorial que vai além da leitura convencional.

E mesmo na forma como utiliza as cores, com um sentido de estética gráfica muito própria, o autor nos oferece um belo trabalho. Nota ainda para a utilização de planos de câmara e perspetivas mais arriscadas e audazes, mas que acabam sempre por ser muito bem executados. Apreciei também a forma como as linhas desaparecem, dando lugar a borrões de cor, quando somos presenteados com uma vista a partir do interior da piscina. 

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A encadernação e a impressão também são boas. Ainda que o formato da obra não seja muito grande, diria que isso não belisca em nada a nossa imersão na leitura.

Em suma, O Gosto do Cloro é, acima de tudo, um livro de sensações. Não oferece respostas, não fecha a narrativa de forma confortável e não explica excessivamente as personagens. Prefere deixar-nos em suspenso, a pairar na calma das águas azuis, tal como os próprios protagonistas. Esta é uma obra que mantém uma poesia silenciosa que continua a ecoar, muito depois de sairmos da piscina e de nos secarmos. É um livro denso, delicado e imperfeito. Um livro que se lê rápido, mas que permanece na memória. Como um encontro breve que nunca mais é esquecido. 


NOTA FINAL (1/10):
9.2



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès - Devir

Ficha técnica
O Gosto do Cloro 
Autor: Bastien Vivès 
Editora: Devir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Janeiro de 2026


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Análise: Anaïs Nin - No Mar das Mentiras

Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir

Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir
Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff

Vou entrar já a pés juntos: este Anaïs Nin - No Mar das Mentiras é uma das melhores bandas desenhadas por cá lançadas em 2025 e, pelo menos até à data - visto que ainda falta serem publicados O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès, e Kiki de Montparnasse, de Catel e Bocquet - a melhor obra, em termos gerais, presente na Coleção Angoulême, que a Devir tem vindo a lançar. E não o digo de ânimo leve, esquecendo que a dita coleção conta com obras de mestres incontornáveis da banda desenhada como Bilal, Muñoz, Sampayo, Pellejero, André Juillard ou Comès. É óbvio que para esta minha afirmação também contam duas coisas: por um lado, eu tinha pouco ou nenhum conhecimento da obra de Léonie Bischoff - e penitencio-me por isso! -, e, por outro lado, as restantes obras da coleção, sendo todas boas, já se apresentam algo mais datadas do que este Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, originalmente editado em 2020 e vencedor do Prémio do Público de Angoulême em 2021.

Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir
Mas, voltemos ao início: este livro mergulha na vida íntima e intelectual de Anaïs Nin, uma das escritoras mais provocadoras e complexas do século XX. Situada nos subúrbios de Paris na década de 1930, a narrativa acompanha a história da escritora num momento de profunda crise pessoal e artística. Casada com Hugo, outrora artista mas que entretanto se transformou num profícuo banqueiro, Anaïs Nin sente-se emocional e sexualmente insatisfeita, o que a fará procurar uma existência mais intensa e verdadeira. O livro retrata também o seu envolvimento romântico com o escritor Henry Miller, o seu despertar sexual e artístico, e a sua constante luta entre o papel social que lhe é imposto e o desejo de ser livre. Uma liberdade que, não esqueçamos, inclui corpo, mente e criação.

Léonie Bischoff constrói uma biografia assente na realidade, mas com uma trama ficcional, que não pretende ser exaustiva, mas emocionalmente verídica. Bischoff explora o interior de Nin através dos seus diários e correspondência, recriando uma narrativa onde o real e o imaginado se confundem. O próprio subtítulo da obra, O Mar das Mentiras, revela-se uma metáfora poderosa e certeira para uma vida em que se entrelaçam as ilusões que Anaïs constrói sobre si própria e os segredos que esconde dos outros, em especial do seu marido. É nesse "mar" que se dá o verdadeiro conflito da personagem: entre o dever e o desejo, entre o silêncio social e o grito íntimo.

Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir
A leitura é, por isso, uma imersão na mente de uma mulher que queria mais da vida: mais emoção, mais prazer, mais verdade. Anaïs Nin é apresentada como uma figura contraditória. É hedonista, mas vulnerável. É egoísta, mas profundamente humana. E, claro, o seu comportamento pode suscitar repulsa ou fascínio no leitor, mas nunca indiferença. E é precisamente essa ambiguidade que Léonie Bischoff capta com maestria: o retrato de uma mulher à frente do seu tempo, que ousou transformar a fantasia em realidade, mesmo que isso implicasse enfrentar o julgamento moral e o sofrimento dos que a rodeavam.

E já que falamos de ambiguidade, a própria capa do livro é, por si só, uma síntese visual da dualidade de Anaïs Nin. A figura da mulher à superfície, elegante e controlada, protegendo o seu diário de olhares alheios, contrasta com a sua versão submersa, liberta e primitiva, abrindo o diário como quem abre o inconsciente. Que capa fantástica! 

Este jogo entre o que é mostrado e o que é ocultado percorre toda a obra. Por um lado, Anaïs Nin era uma mulher que se procurava com a sua posição social, por outro lado, era uma mulher demasiadamente deslumbrada pelas profundezas das suas paixões. Talvez por isso, o seu marido soubesse da existência de um diário, mais leve e aceitável, mas não desconfiasse que a sua mulher tivesse um segundo diário onde expunha a verdadeira essência dos seus desejos. O adultério, o incesto, a bissexualidade... tudo isso fez parte da experiência desta mulher.

Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir
Esta obra figura entre as bandas desenhadas mais sensuais que pude ler. E quando falo em sensualidade, não me refiro a pornografia, pois escasseiam, até, as ilustrações mais explícitas neste livro. Refiro-me, isso sim, à sensualidade tão a nu de uma mulher, pois bem sabemos que a figura feminina tem sido voltada ao silêncio e ao decoro ao longo da história. Assim, mergulhar nesta obra é mergulhar na mente de uma mulher que procurava mais da vida: mais emoção, mais sentimento, mais luxúria, mais vida.

E se parte de nós pode repudiar certos comportamentos egoístas e amorais de Anais Nin, outra parte enaltece o seu comportamento hedonista e, completamente - até para o tempo atual em que vivemos - avant-garde.

Léonie Bischoff capta a figura de Anaïs Nin na perfeição, com um dos seus grandes méritos a assentar na forma como Bischoff traduz a sensualidade da escrita de Anaïs Nin para o campo visual. A sensualidade aqui não reside na nudez ou no erotismo explícito, como já referido, mas na delicadeza do olhar e na vibração emocional de cada gesto. 

Mais do que uma biografia, Anaïs Nin - No Mar das Mentiras é uma celebração da liberdade feminina: de pensar, de sentir, de desejar. Léonie Bischoff aborda a libertação do corpo e da mente com uma suavidade que nunca se confunde com condescendência. A autora compreende que a sensualidade é, antes de tudo, uma linguagem emocional e intelectual. Ao dar voz e corpo a essa linguagem, Bischoff reabilita Anaïs Nin como uma mulher que viveu intensamente a sua própria verdade.

Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir
É, pois natural que, no final do livro, fiquemos divididos entre a admiração e o desconforto, tal como a própria Anaïs Nin deixava os que a conheciam. A sua busca por prazer e autenticidade é, ao mesmo tempo, um gesto de coragem e de vulnerabilidade e nós, leitores, somos convidados a mergulhar nesse oceano de contradições humanas, onde a beleza nasce do conflito entre o que é dito e o que é sentido.

Visualmente, o livro é um deslumbramento. O traço de Bischoff, delicado e multicolorido, é simultaneamente etéreo e denso. O uso do lápis confere uma textura íntima, quase táctil, às páginas, como se estivéssemos a folhear o próprio diário de Anaïs Nin. Cada vinheta é composta com uma sensibilidade que ecoa o estado de alma da protagonista: linhas curvas e suaves nos momentos de prazer e introspeção; traços mais fortes e cores mais intensas nas cenas de conflito e desejo.

O desenho é verdadeiramente sublime, requintado e delicado, com cada uma das ilustrações de Léonie Bischoff a estar carregada de pormenores e nuances que clamam por uma leitura mais demorada. 

Há também um diálogo subtil entre o texto e a imagem que enriquece a leitura. Muitas vezes, o que é mostrado contradiz ou complementa o que é dito, criando uma narrativa dupla, onde a ambiguidade se torna parte do prazer de leitura. O uso simbólico das cores, com tons suaves em oposição a cores mais densas e quentes, serve como expressão dos desejos reprimidos e da libertação progressiva de Nin. Essa escolha plástica amplifica o tom poético e onírico da obra.

A edição da obra é em capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A encadernçaõ e a impressão são de boa qualidade. O formato estandardizado desta coleção da Devir é, como já comentei nos textos referentes a outras obras desta coleção, relativamente pequeno (17 x 24 cms), mas, no caso deste Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, não me parece que isso impacte negativamente a experiência de leitura.

Em suma, esta é uma obra esplêndida, poética, onírica e verdadeiramente sensual. Se por vezes se pode dizer que ficamos automaticamente fãs de um(a) autor(a) só por causa de um livro, eu posso dizer que, à conta deste fabuloso Anaïs Nin - No Mara das Mentiras, fiquei fã de Léonie Bischoff e faço sinceros votos para que sejam publicadas em Portugal mais obras desta brilhante autora suíça.


NOTA FINAL (1/10):
9.7


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Anaïs Nin - No Mar das Mentiras, de Léonie Bischoff - Devir

Ficha técnica
Anais Nin - No Mara das Mentiras
Autora: Léonie Bischoff
Editora: Devir
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Outubro de 2025

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Análise: O Caderno Azul | Depois da Chuva

O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir


O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir
O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard

Um dos livros da nova Coleção Angoulême, editada pela Devir, que, até agora, mais prazer me deu ler, foi este O Caderno Azul, de André Juillard! Embora conhecesse a obra de nome e reputação, este era um dos livros desta coleção que eu nunca tinha lido. Talvez por isso, esta obra tenha constituído uma surpresa muito agradável.

Publicada originalmente em 1994, esta história ambientada na cidade de Paris, é um jogo narrativo sofisticado que explora o amor, o voyeurismo e a percepção. Esta edição inclui uma outra história, intitulada Depois da Chuva, que, sendo independente de O Caderno Azul, tem alguns pontos em comum, nomeadamente com a presença de algumas das personagens do primeiro livro e, claro, por também nos trazer André Juillard enquanto autor completo que, além do desenho, também assegura o argumento de ambas as histórias.

E confirmar a capacidade de argumentista do autor, cujo trabalho enquanto ilustrador o fez bastante célebre - já nem referindo a sua popularidade por ser um dos desenhadores mais respeitados da série Blake e Mortimer - foi, possivelmente, a melhor surpresa que esta leitura me ofereceu.

O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir
A narrativa de O Caderno Azul inicia-se com uma avaria no metro de Paris, que deixa uma carruagem parada diante de uma janela sem cortinas. Nessa janela, Louise, que, depois de um banho quente, caminha nua pela sala, é vista por Armand, que se encontrava no metro parado em frente à janela da casa desta bela mulher. E o resultado é fulminante: Armand fica automaticamente apaixonado por Louise! Mas o que poderia parecer ser o mero início de uma história de amor convencional revela-se, na verdade, uma exploração profunda das diferentes perspectivas e interpretações dos mesmos eventos. E isso acontece porque surge depois uma terceira personagem, masculina, que se envolve com Louise e que complica, no bom sentido da palavra, a estrutura narrativa da história.

André Juillard utiliza a técnica de recontar a mesma história sob diferentes pontos de vista, uma abordagem mais comum no cinema, mas menos explorada com tanta profundidade na banda desenhada. Esta estrutura narrativa inovadora confere à obra, está claro, uma qualidade cinematográfica, mantendo o leitor constantemente envolvido e desafiado a reconsiderar as suas próprias percepções. E até a fazer uma nova leitura do livro já depois de chegar à última página, já que a complexidade da narrativa e a profundidade das personagens exigem uma segunda leitura para apreciar plenamente as nuances e detalhes que podem ter passado despercebidos na primeira vez. Esta qualidade de "leitura dupla" é um testemunho da riqueza da obra e da habilidade de Juillard como narrador.

Com efeito, embora Juillard seja amplamente celebrado pelo seu talento no desenho realista, foi na construção da narrativa deste O Caderno Azul que me surpreendeu positivamente. A habilidade de tecer uma história tão complexa e envolvente, utilizando uma estrutura narrativa menos linear, demonstra uma mestria que vai além do domínio do desenho.

O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir
Mas não ficamos por aqui. Conforme já referi, esta edição traz um segundo tomo, um segundo livro, denominado Depois da Chuva. Esta segunda narrativa, embora mais clássica na sua abordagem, mantém o interesse do leitor com uma trama envolvente de amor e de mistério, que despois se desenvolve para uma história de cunho policial, com alguma ação e violência. 

Se O Caderno Azul é uma história mais sensorial, com camadas diversas que nos levam a refletir, Depois da Chuva é uma história mais expectável na estrutura e forma. Lê-se bem e acaba por ser um complemento muito bem-vindo à primeira parte do livro, mas não posso dizer que seja um trabalho tão singular, com o mesmo nível de elegância e profundidade, de O Caderno Azul. Não obstante, considero que Depois da Chuva oferece, ainda assim, uma leitura agradável, que mantém vivo o interesse do leitor, proporcionando uma visão mais ampla do universo criado por Juillard.

O estilo gráfico de André Juillard é, claro, outro dos ponto altos desta obra. Conhecido pelo seu desenho realista e detalhado, o autor traz Paris à vida com uma sensibilidade única, capturando a essência da cidade e das emoções humanas com precisão. As expressões faciais e os gestos das personagens comunicam sentimentos profundos, muitas vezes mais do que as palavras poderiam expressar. A paleta de cores suaves e as composições cuidadosas criam uma atmosfera intimista e sensual que convida o leitor a mergulhar na história. Isto já para não falar nas personagens femininas que são misteriosamente belas e que irradiam uma sensualidade muito própria.

A edição da Devir apresenta capa dura baça, bom papel baço no interior e um bom trabalho a nível de impressão e encadernação. No final, há um dossier de extras com generosas 16 páginas, onde nos são dados esboços, estudos de capa e ilustrações de Juillard, bem como textos do jornalista Thierry Bellefroid sobre O Caderno Azul e Depois da Chuva.

Neste caso concreto, em que o formato da obra se mantém nos 17 x 24 cms, parece-me que se torna uma dimensão algo curta para uma melhor imersão na obra e estética dos desenhos do autor. Não diria que não dê para absorver bem a obra, mas poderia funcionar melhor se a dimensão fosse um pouco superior, tenho que referir.

Em suma, O Caderno Azul é uma leitura aconselhada a qualquer apreciador de banda desenhada que procure uma narrativa profunda e bem construída, aliada a uma arte visual impressionante, num estilo gráfico refinado e sensual. A originalidade da estrutura narrativa e a riqueza das personagens fazem desta obra uma experiência literária e visual que merece ser explorada e apreciada.


NOTA FINAL (1/10):
9.0



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O Caderno Azul | Depois da Chuva, de André Juillard - Devir

Ficha técnica
O Caderno Azul | Depois da Chuva
Autor: André Juillard
Editora: Devir
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cms
Lançamento: Julho de 2025

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Análise: O Silêncio de Malka

O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir

O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir
O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero

Inserida na Coleção Angoulême, que a editora Devir tem vindo a lançar durante este ano, está esta obra do argentino Jorge Zentner e do espanhol Rubén Pellejero, intitulada O Silêncio de Malka e que chegou às livrarias portuguesas há algumas semanas.

Este é um belo livro que nos conta a história de uma família judia que, vítima das perseguições que marcaram a Rússia no final do século XIX, é forçada a abandonar a sua terra natal e a procurar um novo futuro na Argentina. Logicamente, e esse será um dos principais focos desta obra, essa mudança não é apenas geográfica, mas também cultural e espiritual, pois contrariamente ao que poderiam desejar, estes recém-chegados da Rússia à Argentina, enfrentam a dureza do trabalho agrícola e a adaptação a um território desconhecido, onde os migrantes são tratados com desdém pelos locais. Infelizmente, é algo que, passe o tempo que passar, parece continuar a assolar a sociedade. Se calhar, é algo que está adjacente ao facto de os humanos não serem tão humanos assim, diria eu.

Mas avancemos.

O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir
O Silêncio de Malka
 é constituído por seis histórias distintas, cada uma centrada num momento ou período específico, que em conjunto formam um retrato profundo da experiência dos imigrantes russos na Argentina. No centro do enredo, está Malka, uma criança cuja inocência contrasta com as duras realidades que a vão rodeando desde tenra idade. A sua voz - ou melhor, o seu silêncio - funciona, pois, como símbolo da sua vulnerabilidade, mas também da sua resiliência, já que, convenhamos, se resistir a um destino malfadado não é tarefa fácil, imaginem fazê-lo sem poder falar. Há silêncios que são mais ruidosos do que muitas palavras ocas e insípidas e essa é a metáfora mais presente neste O Silêncio de Malka.

Os seis capítulos que compõem a obra, mesmo fazendo parte de um todo, apresentam alguma independência narrativa, podendo até ser lidos de forma isolada. À primeira vista, o leitor poderá ficar com a ideia de que Zentner não tinha uma estrutura narrativa fechada quando começou a escrever a obra e que foi acrescentando episódios ao longo do tempo. Consequentemente, essa fragmentação inicial pode dar a sensação de que não existe uma orgânica muito forte entre todas as partes. Confesso-vos que dei comigo a sentir isso à medida que lia a obra. Mas uma segunda leitura, com mais atenção a algumas pistas deixadas pelo argumentista, permitiu-me constatar que cada capítulo tem uma ligação subtil com os outros, compondo, no fim, um quadro muito mais coeso do que se poderia supor.

O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir
Esse aspeto faz com que a leitura seja enriquecedora, sendo possível encontrar ecos, símbolos e pequenos detalhes que estabelecem pontes entre pequenos eventos que poderiam parecer soltos ou independentes. Este é, portanto, um daqueles casos em que a narrativa ganha profundidade ao ser revisitada, demonstrando que a fragmentação aparente é, na verdade, uma forma de refletir a própria condição das personagens, feita de momentos dispersos que só no tempo se consolidam num todo mais profundo.

Outro elemento notável deste O Silêncio de Malka é a forma como a obra equilibra fantasia e realidade. Quem acompanha as minhas análises já se deve ter dado conta que, por vezes, eu tenho uma certa tendência a considerar que "demasiada fantasia" pode arruinar os intentos narrativos de uma obra. Como o "céu é o limite" na utilização da fantasia, dou-me conta de que muitos autores se deixam levar por essa atratividade mas deixando, depois, que as suas obras fiquem inverossímeis ou demasiado imberbes. Em O Silêncio de Malka há fantasia, sim, mas de um modo temperado e equilibrado, abrindo o véu para uma reflexão mais profunda, mas através de uma postura credível ou, pelo menos, sensata. Há, de facto, momentos em que elementos mágicos, inspirados tanto pela tradição judaica da Torá como pelas crenças populares da Argentina rural, atravessam a narrativa. Esses episódios não são meras fugas para o irreal, mas funcionam como metáforas das esperanças e medos das personagens. E ao conjugar o fantástico com o registo mais histórico e informativo do livro, Zentner constrói um retrato complexo que ultrapassa a simples crónica da migração dos russos.

O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir
Este equilíbrio entre fantasia e realidade também contribui para que a obra seja envolvente sem perder densidade. Por um lado, mergulha o leitor na experiência concreta dos migrantes russos que procuraram uma vida melhor na Argentina; por outro, abre espaço para a imaginação e para o intangível, como se nos sugerisse que toda a experiência humana é atravessada por forças invisíveis, sejam elas religiosas, culturais ou emocionais. Gostei desta profundidade temática.

O livro peca apenas, na minha opinião, por ser algo curto. Fico com a ideia que, com mais algumas páginas, certos eventos poderiam ter sido mais bem retratados.

O traço de Rubén Pellejero é outra das coisas que merece destaque absoluto. O estilo daquele que haveria de se tornar no ilustrador da atual série Corto Maltese, é, nesta obra, original e familiar ao mesmo tempo, conseguindo criar empatia imediata com o leitor. As expressões faciais, os cenários e a caracterização das personagens são muito belos e conseguem transmitir uma humanidade palpável. Além disso, as cores utilizadas são belíssimas, conferindo uma atmosfera particular a cada capítulo. É um trabalho de cores que não serve apenas para embelezar a obra, mas também para reforçar o tom emocional de cada episódio. Aprecie especialmente esta vertente cromática da obra.

O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir
A beleza dos desenhos faz com que, mesmo nos momentos mais duros da narrativa, haja sempre um espaço para a contemplação estética. Pellejero consegue transformar a dor, o desespero ou a solidão em imagens de grande impacto, sem nunca resvalar para a gratuitidade. 

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça e bom papel baço no interior. O trabalho de encadernação e impressão também é bom. O livro é ainda composto por um epílogo de três páginas, alguns esboços de Pellejero e um texto sobre a obra, da autoria de Benoit Mouchart. Há também um texto introdutório à obra por parte de Zentner. São generosas 26 páginas de extras. A edição continua ter o formato de 17 por 24 cms. Um formato que muitos consideram pequeno em demasia. Não diria que seja grande, mas no caso em concreto, sinto que a leitura não sei prejudicada pela escolha deste formato.

Em suma, O Silêncio de Malka é uma obra comovente e sofisticada, que combina narrativa histórica, fantasia simbólica e belos desenhos de Pellejero. A parceria entre este e Zentner resulta num livro belo e melancólico, que fala da dor do exílio, da força da memória e da capacidade de resistência das comunidades perseguidas. Eis um livro que espero que não orbite fora dos radares dos leitores portugueses.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



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O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner e Rubén Pellejero - Devir

Ficha técnica
O Silêncio de Malka
Autores: Jorge Zentner e Rubén Pellejero
Editora: Devir
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Junho de 2025

terça-feira, 3 de junho de 2025

Devir prepara-se para editar BD premiada de Zentner e Pellejero!



É no próximo dia 19 de Junho que chega às livrarias o terceiro volume da Coleção Angoulême, que a editora Devir tem vindo a lançar por cá. 

Desta vez, a obra em questão é O Silêncio de Malka, da autoria de Jorge Zentner e Rubén Pellejero, originalmente lançado em 1996.

Por agora, o livro já se encontra em pré-venda no site da editora.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


O Silêncio de Malka, de Jorge Zentner & Rubén Pellejero

Vítimas das perseguições feitas aos judeus no final do século XIX, Malka e a sua família são obrigados a deixar a Rússia e emigram para a Argentina.

Aí terão que se habituar à dura vida de agricultores e às diferenças culturais em que a mistura de magia da Torá com a magia local obtém um resultado que nem sempre é o melhor.

O relato desenvolve-se em seis comoventes histórias, centradas em períodos específicos e iluminadas pelas cores magistrais de Pellejero.

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Ficha técnica
O Silêncio de Malka
Autores: Jorge Zentner e Rubén Pellejero
Editora: Devir
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
PVP: 22,00€

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Análise: Alack Sinner - Bófia ou Detetive

Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo - Devir

Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo - Devir
Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo

A segunda obra lançada na Coleção Angoulême, que a Devir tem vindo a editar neste ano, não só é um clássico da banda desenhada sul-americana, como um clássico da banda desenhada internacional que muito influenciou outras obras que lhe sucederam. Falo de Alack Sinner, que é da autoria de José Muñoz e Carlos Sampayo.

Esta obra emblemática da banda desenhada noir, uma série da qual este livro lançado pela Devir é o segundo de um total de sete volumes, mistura crítica social e política, ao mesmo tempo que tem um estilo gráfico singular, que ainda hoje impacta pela sua original utilização do preto e branco puro.

Esta obra com mais de 40 anos tem como protagonista o detetive particular Alack Sinner, um ex-polícia cínico, solitário e introspectivo que opera numa Nova Iorque infestada de decadência, injustiça e corrupção. Além de ser uma narrativa policial protagonizada por uma cativante personagem desencantada com a vida, a obra consegue ir além dessa valência, procurando ser igualmente uma crónica sobre a condição humana e sobre a sociedade contemporânea. E mesmo passadas várias décadas desde o seu lançamento, é um daqueles livros que envelheceu bem e que se mantém atual e relevante no tempo atual.

Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo - Devir
Para isso, também contribui o facto do protagonista, Alack Sinner, ser uma figura que foge aos arquétipos convencionais do "detetive-herói". Ao contrário de outras personagens de histórias de detetives, Alack Sinner é imperfeito, alcóolico, melancólico, contraditório e em constante transformação ao longo dos capítulos. E chamo a atenção para esta última característica da personagem. À medida que vamos avançando no livro (e relembro que este é apenas um de sete volumes) vamos vendo uma personagem em mutação constante, que se vai definindo aos poucos. Se isso é interessante e enriquecedor para o leitor, pois está perante uma personagem multidimensional e, consequentemente, muito (mais) verossímil, a verdade é que isso também causa uma certa aleatoriedade, quer na personagem, quer nas suas aventuras que nos são apresentadas como histórias avulsas, embora com alguma ligação entre si. 

E é especificamente a primeira história - ou o primeiro capítulo - deste Bófia ou Detetive, em que Alack Sinner, ainda polícia em atividade, se vê confrontado com um classe trabalhadora corrupta que silencia aqueles que querem acusar as corrupções existentes no seio da polícia, que eleva a obra para um patamar cimeiro. Há toda um dicotomia nesta primeira vivência da personagem, que faz com que a leitura seja impactante e enriquecedora. O facto da sua jornada profissional se misturar com a sua trajetória pessoal, em que as questões éticas o invadem, faz da obra uma banda desenhada quase existencial e filosófica. Alack Sinner acaba por ser mais vítima do que herói, numa abordagem desencantada que aproxima o leitor da experiência realista e amarga de viver numa sociedade desigual.

Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo - Devir
A crítica social está bem presente em toda a obra: temas como o racismo, a desigualdade, a violência policial, a guerra, o capitalismo predatório e a alienação das pessoas no meio urbano são presença constante. A cidade de Nova Iorque é-nos dada como um local onde os marginalizados não têm voz e os poderosos se mantêm impunes. A denúncia política é feita sem grandes dramatismos ou atitudes panfletárias, através da mera representação da vida quotidiana como ela é e dos casos que Sinner investiga, que muitas vezes revelam mais sobre a falência do sistema do que sobre o crime em si.

Há um certo charme nestas histórias - ou não fosse esta uma história noir - que é sublinhado pela  música - o jazz em particular - que atravessa a obra como elemento estético e simbólico. Sinner frequenta bares onde músicos tocam temas melancólicos que dialogam com o estado de espírito das personagens. Essa ligação com o jazz remete à improvisação e à fluidez narrativa da obra, o que reflete o que já referi acima: há um lado bom em ler estas histórias, pois não sabemos bem para onde as mesmas nos vão levar -, mas também há um lado menos positivo: lá por adorarmos uma curta história que nos aparece, isso não quer dizer que não possamos achar enfadonha ou desinspirada a história seguinte. Mas assim é a vida e é isso que mais admiro na obra Alack Sinner, pois considero que esta progressão não linear, com a personagem a envelhecer e a mudar de opinião sobre vários assuntos, é rara, o que confere à obra um caráter quase literário, com a passagem do tempo e o desgaste físico e emocional do protagonista a funcionarem como uma clara metáfora da passagem histórica e das mudanças (ou da estagnação) sociais.

Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo - Devir
Se o protagonista e o tema são aliciantes, o estilo visual da obra também não nos deixa indiferentes. Especialmente se pensarmos que por esta altura ainda nem existia a obra-prima de Frank Miller - Sin City - fica fácil de compreender que Alack Sinner influenciou muito Sin City - para além do próprio nome das obras.

O estilo gráfico de Muñoz, expressivo e muito inovador, oferece traços carregados, contrastes acentuados entre um preto e branco puros, uma boa exploração do espaço negativo visual e uma estética expressionista ousada, contribuindo decisivamente para a atmosfera pesada e emocional da narrativa. Os rostos caricaturais, as sombras densas e os espaços urbanos claustrofóbicos refletem a tensão interna das personagens e o ambiente hostil que as cerca. A arte não serve apenas como pano de fundo, mas participa ativamente na construção de significado, funcionando como metáfora visual da decadência social. 

Reconheço que, aqui e ali, há algumas vinhetas que se tornam um pouco complexas de decifrar, seja pelas poses algo deformadas das personagens, seja por um expressionismo mais exacerbado do que o habitual, mas também não deixa de ser verdade que, noutros casos, os desenhos de Muñoz são belíssimos.

A edição da Devir é em capa dura baça, com bom papel baço, boa encadernação e boa impressão. O formato mantém-se nos 17 x 24 cms - e será este o formato de todos os livros da Coleção Angoulême - o que será bastante reduzido para algumas obras da coleção. Mesmo assim, e ao contrário de A Trilogia Nikopol que saiu mais prejudicada por este formato diminuto, Alack Sinner não sofre tanto com este formato.

Em suma, Alack Sinner é uma obra madura, densa e de uma profundidade rara em banda desenhada, rompendo com fórmulas fáceis, desconstruindo aquilo que normalmente consideramos ser "um herói", ao mesmo tempo que nos oferece uma abordagem visual original, de enorme dimensão estética. Muñoz e Sampayo desenvolveram um universo sombrio, mas profundamente humano, em que cada página carrega uma reflexão sobre o mundo, a moralidade e o fracasso da modernidade. É uma leitura que exige envolvimento e recompensa com camadas de significado. Totalmente recomendável!


NOTA FINAL (1/10):
9.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Alack Sinner - Bófia ou Detetive, de Muñoz e Sampayo - Devir

Ficha técnica
Alack Sinner: Bófia ou Detetive
Autores: Muñoz e Sampayo
Editora: Devir
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Abril de 2023

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Análise: A Trilogia Nikopol

A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir

A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir
A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal

Foi no mês passado que a editora Devir lançou a sua nova coleção dedicada a obras conceituadas da banda desenhada europeia que dá pelo nome de Coleção Angoulême. O primeiro dos volumes dessa coleção que, para já, tem oito obras anunciadas, é A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal.

Trata-se de um verdadeiro clássico da banda desenhada mundial, com muitos fãs, sendo uma das obras mais emblemáticas da banda desenhada europeia e composta por três álbuns: A Feira dos Imortais (originalmente editado em 1980), A Mulher Armadilha (1986) e Frio Equador (1992). 

Situada num futuro distópico, a trilogia acompanha a figura de Alcide Nikopol, um homem que regressa à Terra, após ter passado duas décadas congelado, e se vê a braços com um mundo devastado por regimes autoritários, guerras e influências divinas vindas do Antigo Egito. O surrealismo da narrativa é intensificado pela presença de deuses como Hórus, que interagem diretamente com os humanos, misturando mitologia com crítica política e social.

A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir
Desde o seu lançamento, a trilogia marcou um ponto de viragem na banda desenhada europeia, devido à capacidade notável de Bilal em introduzir uma estética visual profundamente singular, aliada a uma narrativa que se distancia do convencional, optando por uma abordagem mais filosófica, onírica e muitas vezes hermética. Essa fusão entre arte e literatura, entre imagem e reflexão, confere à obra uma densidade rara no meio, inspirando gerações de autores e leitores em todo o mundo.

E que bem que começa esta obra com o tomo A Feira dos Imortais que se assume como o ponto de partida mais coeso da trilogia. Aqui, o enredo é bem delineado, com personagens claras, um ritmo narrativo equilibrado e uma crítica mordaz ao totalitarismo, à decadência das sociedades modernas e à manipulação mediática. Apesar do traço de Bilal ainda não estar no auge da maturidade técnica que viria a alcançar mais tarde, a força da história sustenta o álbum de forma impressionante. Há uma urgência narrativa, um pulsar constante que cativa o leitor até à última página.

A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir
Por outro lado, nos volumes seguintes – A Mulher Armadilha e Frio Equador – nota-se uma mudança significativa na estrutura narrativa. A história torna-se mais fragmentada, mais contemplativa e menos centrada num fio condutor coeso. A densidade simbólica cresce, assim como a presença de figuras enigmáticas, identidades fluidas e espaços labirínticos. Bilal mergulha num universo mais introspectivo e alegórico, o que pode afastar parte dos leitores que, tal como eu, esperavam a continuidade do tom do primeiro volume.

Por outro lado, a evolução gráfica é notória a partir do segundo volume da série. Bilal atinge aqui um domínio técnico inquestionável: as cores sombrias, os rostos marcados pela dor e pelo tempo, os cenários opressivos e desumanizados – tudo contribui para uma atmosfera única, onde o visual se torna parte integrante da narrativa. É como se, nas últimas duas partes, o desenho começasse a falar mais alto do que o próprio texto, assumindo um papel quase de protagonista no desenrolar dos acontecimentos.

Essa dicotomia entre narrativa e estética, entre a força do enredo do primeiro álbum e o esplendor visual dos seguintes, é talvez o aspeto mais intrigante da trilogia e que me faz ter sentimentos mistos e considerá-la algo titubeante. Por um lado, temos no primeiro volume uma história envolvente e bem estruturada que padece de um estilo gráfico ainda em formação. Por outro lado, temos nos segundo e terceiro volumes dois tomos visualmente deslumbrantes, mas com uma narrativa mais difusa e excessivamente ambígua. Este contraste provoca-me um misto de admiração e frustração – como se a obra nunca conseguisse ter o melhor dos dois mundos ao mesmo tempo.

A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir
É legítimo considerar que essa mudança de tom nos capítulos seguintes possa refletir também a evolução pessoal e artística do autor. Bilal, ao longo dos anos, foi-se afastando da banda desenhada tradicional e aproximando-se das artes plásticas e do cinema. Essa metamorfose sente-se em A Mulher Armadilha e Frio Equador, onde há uma procura mais evidente pela experimentação formal e pelo discurso visual em detrimento da linearidade narrativa.

Mesmo assim, e apesar das suas imperfeições e desequilíbrios internos, A Trilogia Nikopol é uma obra maior. Revolucionou a forma como se concebe a banda desenhada, elevando-a a um patamar artístico que rivaliza com outras formas de expressão cultural, como o cinema ou a literatura. Bilal não só abriu portas para novos criadores, como redefiniu os limites do que a BD pode ser – política, filosófica, estética e provocadora.

A edição da editora Devir é, conforme já percecionado, integral, reunindo os três volumes que compõem esta minissérie. O livro é editado em capa dura, baça e bom papel baço no seu interior, apresentando um bom trabalho de impressão e encadernação. Mas é no seu formato contido, de apenas 17 por 24 cms, que tenho visto surgir o maior número de críticas, pois a obra foi originalmente editada em grande formato, sendo substancialmente maior do que a versão que agora nos chega pelas mãos da Devir. 

A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir
Ora, se compreendo que, especialmente tendo em conta a obra em questão, que tem muitas informações, de texto e detalhes no desenho que merecem ser observados com facilidade, este é um formato que não faz total justiça à obra, também tenho que relembrar uma coisa que talvez as inúmeras críticas que se têm levantado a esta edição não têm lembrado: é que esta é uma obra inserida numa coleção muito especial que, ao invés de se direcionar para o público mais habitual da banda desenhada, procura levar obras emblemáticas da banda desenhada a um público menos conhecedor. E fá-lo num formato homogéneo (todos os livros da coleção terão as mesmas dimensões), mais portátil e a um preço (mais) convidativo. Relembro ainda que não foi a Devir que imaginou esta coleção. Esta coleção, praticamente no mesmo formato, já existe em França e serve os mesmos propósitos que acabo de referir. E, aliás, se vamos comparar a edição portuguesa com a edição original francesa desta coleção, os leitores portugueses até saem beneficiados pelo simples facto da coleção portuguesa ser em capa dura e a coleção original ser em capa mole, ainda que uns milímetros maior. 

Claro que também é legítimo afirmar que a dimensão do mercado franco-belga possibilita este tipo de coleções de entrada na banda desenhada, assegurando, ao mesmo tempo, as edições em formato original para o público mais conhecedor de banda desenhada. E Portugal não tem essa dimensão. E tendo em conta que já é muito impossível de encontrar as edições que a Meribérica e a ASA fizeram desta obra, em formato substancialmente maior, é questionável a proposta da Devir.

Assim, bem vistas as coisas, percebo que os leitores habituais de banda desenhada se sintam desagradados com esta opção de formato diminuto para lançar esta obra, mas também não posso deixar de sublinhar que como a coleção não é especialmente pensada para esses mesmos "leitores habituais", talvez até faça bastante sentido o formato escolhido. A ver vamos com se comporta esta coleção em termos comerciais.

Em suma, A Trilogia Nikopol é uma obra que desafia e fascina. A sua dualidade entre forma e conteúdo, entre o início promissor da narrativa e a maturação estética posterior, provoca no leitor uma experiência rica, ainda que por vezes desconcertante. É precisamente essa complexidade, essa recusa em ser facilmente categorizada, que lhe assegura o seu lugar entre os grandes clássicos da banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
9.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Trilogia Nikopol, de Enki Bilal - Devir

Ficha técnica
A Trilogia Nikopol
Autor: Enki Bilal
Editora: Devir
Páginas: 180, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cms
Lançamento: Março de 2025