segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Análise: Dostoiévski: O Sol Negro

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr

A segunda obra a ser lançada na mais recente Coleção de Novelas Gráficas da Levoir e do jornal Público foi este Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr. Obra que procura traçar-nos uma biografia em banda desenhada sobre um dos mais célebres escritores de todos os tempos: Fiódor Dostoiévski. Escritor esse que, já agora, parece merecer especial atenção pela Levoir, já que a editora já nos fez chegar duas adaptações do autor para banda desenhada: Crime e Castigo, de Bastien Loukia, e O Idiota, de André Diniz.

De facto, Fiódor Dostoiévski é um dos mais importantes escritores da literatura mundial, autor de várias obras fundamentais e mais do que um "simples" romancista, pois conseguiu ser um dos grandes exploradores da alma humana, sendo igualmente capaz de mergulhar nas zonas mais sombrias da consciência, de forma a transformar as suas próprias angústias - e as da população, de um modo geral - em literatura.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Este Dostoiévski: O Sol Negro começa com um dos episódios mais extraordinários da sua vida que eu, sinceramente, desconhecia. Em dezembro de 1849, Dostoiévski é conduzido para um pelotão de fuzilamento após ter sido condenado por atividades consideradas subversivas pelo regime czarista. No momento em que a execução parece inevitável, chega a ordem que suspende a sentença e a converte em trabalhos forçados na Sibéria. É a partir desse instante decisivo que os autores constroem uma viagem ao passado do autor em que revisitam alguns dos principais acontecimentos da sua vida.

E que vida foi essa! Ainda antes de se transformar no autor que todos conhecemos, Dostoiévski teve uma existência bastante conturbada e não particularmente fácil. Era jogador compulsivo, o que o deixou na penúria financeira e amorosa, já que a sua companheira - e compreensivelmente - foi perdendo a paciência para com o incessante vício ao jogo de Fiódor Epiléptico. Além da "vida vivida", o autor também tinha um demarcada "vida pensada", já que era constantemente assombrado por dúvidas espirituais, o que o fez viver em conflito consigo próprio e com o mundo que o rodeava. Consequentemente, a sua relação com a religião, com a política, com o amor e com a própria ideia de liberdade alimentaria grande parte da sua obra literária.

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Nota-se que a argumentista belga Chantal Van den Heuvel procurou realizar um trabalho sério e bem documentado. O livro percorre as várias fases da vida de Dostoiévski, desde a juventude até aos seus últimos anos, cruzando acontecimentos biográficos com o contexto político, social e cultural da Rússia do século XIX. Há um esforço evidente para mostrar a complexidade da personagem e a forma como as suas vivências influenciaram a sua produção literária.

Contudo, é precisamente aqui que surge, a meu ver, a principal limitação da obra. Ao tentar abarcar praticamente toda a vida do escritor, o livro acaba por se tornar um pouco difuso. Há tantos acontecimentos, tantas relações, tantas crises pessoais e tantos contextos históricos para abordar que a narrativa perde, por vezes, alguma concentração. Não é que fique desinteressante, mas sim confusa.

Acredito que teria sido (muito mais) preferível selecionar apenas os episódios mais relevantes e desenvolvê-los com maior profundidade. Em vez disso, a obra opta frequentemente por uma abordagem "panorâmica" que nos apresenta uma enorme quantidade de informação, mas sem dar a determinadas situações o espaço que mereciam para adquirir verdadeiro peso dramático. A questão do vício do jogo do autor é um ótimo exemplo disto. Embora seja uma faceta importante da personalidade de Dostoiévski, existem várias sequências que acabam por repetir essencialmente a mesma ideia: o descontrolo financeiro de Fiódor, a sua compulsão e as expectáveis consequências. Ficamos com situações que acabam por ser recorrentes, sem que isso mude muito a narrativa. É um desperdício de vinhetas. 

Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público
Curiosamente, noutros momentos acontece exatamente o contrário. Certos períodos da vida do autor ou determinadas reflexões filosóficas surgem condensados em poucas páginas ou vinhetas, obrigando o leitor a absorver grandes quantidades de informação num curto espaço de tempo. O equilíbrio entre síntese e aprofundamento nem sempre é o mais eficaz, portanto.

Em termos visuais, o autor dinamarquês Henrik Rehr apresenta um trabalho competente e frequentemente interessante. Mais importante que isso, é um trabalho eficiente que consegue transmitir a atmosfera opressiva de São Petersburgo, o sofrimento físico do escritor e as várias situações que nos são relatadas. Não diria que o resultado gráfico seja verdadeiramente deslumbrante, mas é um desenho que cumpre bem os seus propósitos. 

Algo que considero menos positivo é a a planificação que se revela bastante densa, com muitas vinhetas por página. E tendo em conta o formato relativamente contido do livro, este tipo de planificação não ajuda a que os desenhos respirem. Em diversos momentos, a leitura adquire uma sensação algo claustrofóbica, não tanto por opção artística, mas pela quantidade de informação visual concentrada em cada página.

A edição da Levoir é na habitual capa dura baça, com bom papel baço no miolo e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação. No final do livro há cinco páginas com ilustrações e estudos de personagem, que sendo tão belos, também nos mostram que quiçá o trabalho final de Rehr nas ilustrações pudesse ter sido melhor. Pelo menos, havia potencial para tal.

Em suma, Dostoiévski: O Sol Negro não é uma obra-prima da banda desenhada biográfica nem uma leitura particularmente inovadora do ponto de vista formal, mas cumpre bem os seus propósitos. Não é um livro fantástico, mas é um livro útil, interessante e suficientemente competente para justificar a sua leitura, sobretudo junto daqueles que desejem conhecer melhor a vida atribulada de um dos maiores escritores de sempre.


NOTA FINAL (1/10):
7.8


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Dostoiévski: O Sol Negro, de Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr - Levoir - Público

Ficha técnica
Dostoiévski: O Sol Negro
Autores: Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr
Editora: Levoir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 195 x 270 mm
Lançamento: Junho de 2026

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