O oitavo lançamento da atual Coleção de Novelas Gráficas, da Levoir e do jornal Público, trouxe-nos este Estamos Todas Bem, de Ana Penyas, obra bastante aclamada em Espanha, aquando do seu lançamento original em 2017, tendo conquistado vários prémios, entre os quais o Premio Nacional del Cómic.
E estamos perante um livro deveras interessante, de facto. Não diria que seja um livro perfeito, até porque fica um pouco aquém do próprio potencial que apresenta, como veremos adiante, mas é um belo e singular livro.
A obra nasce das memórias familiares da autora, mas rapidamente se transforma em algo maior. Através das recordações das suas avós, Maruja e Herminia, Ana Penyas traça o retrato de uma geração de mulheres que viveu sob o peso do franquismo e que atravessou, já em idade adulta, a transição para a democracia espanhola. E mais do que contar uma história linear, a autora recupera fragmentos de vidas, momentos aparentemente banais, mas que juntos formam um mosaico profundamente humano sobre aquilo que é ser mulher... e idosa... e avó no mundo moderno.
Talvez por isso seja uma obra que facilmente nos toca a todos, fazendo-nos pensar no peso da velhice e da solidão da sensação de se estar no último capítulo da vida. E não é que estes sejam temas analisados de forma profunda pela autora, mas, mesmo assim, é quase impossível que não reflitamos sobre os mesmos quando lemos este Estamos Todas Bem que, também pelo título, me remeteu para o fabuloso filme Estão Todos Bem, com Robert de Niro.
Desde as primeiras páginas, somos apresentados a Maruja já na velhice, enfrentando uma cidade que parece ter deixado de ser feita para ela. Caminhar torna-se um desafio, os percursos mais simples transformam-se em pequenas odisseias e a solidão espalha-se pelos dias. Já Herminia, a outra avó, sente-se igualmente só, mesmo que tenha tantos filhos. Mas os filhos têm as suas próprias vidas ocupadas e não visitam a mãe tantas vezes como esta gostaria. E é neste presente silencioso que as memórias começam a emergir, misturando tempos, vozes e emoções.
A narrativa alterna constantemente entre passado e presente. As recordações da juventude, do trabalho, da família e das limitações impostas às mulheres daquela época surgem sem avisar, quase como acontece com as próprias memórias. Há algo de muito verdadeiro nesta forma de contar, porque a vida raramente se organiza em capítulos perfeitos. O passado aparece-nos aos pedaços, ligado por sentimentos mais do que por datas. É verdade que, em termos de fluência narrativa, acaba por não ser perfeito, como abordarei mais à frente.
Gostei particularmente da forma como a obra presta homenagem às mulheres comuns. Não às heroínas dos livros de História, mas àquelas que cozinharam, limparam, criaram filhos, trabalharam sem reconhecimento e carregaram sobre os ombros o peso de uma sociedade profundamente desigual. Ana Penyas devolve-lhes uma voz que durante demasiado tempo permaneceu ausente.
O tom da narrativa revela uma sensibilidade admirável. É um relato emotivo, mas sem nunca se tornar lamechas ou excessivamente sentimental. A autora Ana Penyas mostra-nos que a emoção mais forte muitas vezes até pode habitar nos mais pequenos gestos, como uma fotografia guardada numa gaveta, uma conversa interrompida, um silêncio à mesa. O livro encontra essa beleza subtil nessas coisas aparentemente insignificantes.
E, claro, à semelhança de um Rugas, de Paco Roca, de um O Mergulho, de Séverine Vidal e Víctor Pinel, de um Não Me Esqueças, de Alix Garin, ou mesmo de um O Corvo #VII - O Despertar dos Esquecidos, de Luís Louro, este Estamos Todas Bem oferece-nos uma reflexão muito subtil sobre o envelhecimento. O corpo que já não responde como antes, os amigos que desapareceram, a sensação de que o mundo continua a avançar sem esperar pelos mais velhos. Ana Penyas aborda estes temas com delicadeza, sem dramatismos desnecessários, permitindo que seja o leitor a descobrir a tristeza e a dignidade escondidas em cada página.
Ainda assim, em termos narrativos, a obra não é totalmente irrepreensível, como já referi. Por vezes, falta um certo fio condutor que una melhor os acontecimentos, havendo alguma desconexação entre momentos, o que nos pode dar a ideia que a história é algo remendada. Bem sei que referi acima que o passado nos aparece aos pedaços. É verdade. Mas, mesmo assim, a obra tem algumas fragilidades na própria passagem entre momentos que, em alguns casos, parece que "caíram de paraquedas" em determinada prancha, como se fosse obra do acaso.
E esta opção acaba por gerar uma certa sensação de infinitude, pois parece que a obra não fica particularmente fechada. E quando digo isto não me refiro ao final propriamente dito, que até gostei, mas à própria resolução narrativa. Talvez seja isso aquilo que não permite que a obra se torne tão inolvidável, ainda que seja um bom livro, com boas ideias. Fica quase a ideia de que havia potencial para mais. Ainda assim, aquilo que nos é oferecido é suficientemente rico e interessante para justificar plenamente a viagem.
Em termos de desenho, Ana Penyas apresenta um trabalho muito particular. Os desenhos possuem um traço caricatural, por vezes grotesco e até algo sorumbático. Pessoalmente, não foi um estilo que me conquistasse por completo, e imagino que possa afastar alguns leitores. Contudo, é impossível negar que confere à obra uma identidade visual muito própria e que, naturalmente, são desenhos com a sua própria beleza.
Além disso, uma nota positiva deve ser dada à forma como a autora procura não se repetir em termos visuais, dando-nos uma planificação dinâmica - e que sabe beneficiar do formato italiano da obra - utilizando colagens e vinhetas de diversos tamanhos, para não se tornar repetitiva.
A edição é em capa dura, com papel baço no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.
Tenho que referir que, novamente, não faz sentido que a edição portuguesa da obra tenha o subtítulo "Homenagem a Uma Geração de Mulheres Sem Voz". Percebo o apelativo comercial que a editora quer atribuir à sua obra, mas considero que há formas e formas de o fazer e aquela que foi escolhida, não é particularmente feliz. Já fiz referência a esta opção da editora em Albert Londres tem de Desaparecer e tenho que o fazer novamente. E, por esse motivo, até cito as minhas próprias palavras: "mais do que ser um subtítulo que não era necessário, nunca poderia ter sido colocado daquela forma, com aquela dimensão, naquele local da página. Acho que foi um ato falhado que até acaba por estragar a bela ilustração da capa." Talvez no caso deste Estamos Todas Bem o crime de grafismo não seja tão grande como em Albert Londres tem de Desaparecer, mas ainda assim, não devia ter ocorrido.
Em suma, Estamos Todas Bem é daqueles livros que não impressionam tanto pelo que contam, mas pela forma como permanecem connosco depois de fechados. As memórias destas mulheres acabam por se confundir com as memórias das nossas próprias avós, das nossas mães, ou de tantas outras mulheres que viveram vidas discretas e, por isso mesmo, tantas vezes esquecidas. Apesar de algumas fragilidades narrativas e de um estilo gráfico que dificilmente reunirá consenso, Ana Penyas consegue construir uma obra cheia de humanidade e de ternura.
NOTA FINAL (1/10):
8.7
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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