Foi ainda no final de 2025 que a Arte de Autor nos fez chegar o quarto volume de Bug, obra na qual o conceituado autor franco-jugoslavo Enki Bilal continua a desenvolver uma das mais ambiciosas e intrigantes propostas de ficção científica da banda desenhada europeia. O que deve ser motivo de felicidade para alguns dos leitores portugueses que, por vezes, me dizem que gostariam de ver mais BD de ficção científica a ser editada por cá.
Depois de ter lido os três primeiros tomos de forma consecutiva há já algum tempo, quando deles falei na análise que aqui publiquei, confesso que estava curioso para perceber para onde é que o autor iria conduzir a história com este quarto tomo. A resposta, como é habitual em Bilal, é simultaneamente fascinante e algo desconcertante.
Neste Livro 4, Kameron Obb continua a ser o homem mais procurado do planeta. Afinal de contas, desde o grande bug informático global que apagou toda a informação digital do mundo, Obb tornou-se uma espécie de "arquivo vivo" da humanidade. Enquanto governos, organizações e grupos de toda a espécie tentam capturá-lo ou, pelo menos, manipulá-lo, o protagonista procura manter contacto com a sua filha Gemma, que continua envolvida numa teia de acontecimentos cada vez mais complexa e perigosa.
A grande novidade deste álbum reside, no entanto, na forma como Bilal procura aprofundar a própria natureza do bug. Até aqui podíamos encarar o fenómeno sobretudo como uma gigantesca catástrofe tecnológica. Neste quarto tomo, o autor parece querer elevar a questão para um plano mais existencial, já que o referido bug deixa de ser apenas um problema informático para assumir contornos que tocam conceitos como consciência, transcendência, divindade e evolução. Se já era uma história complexa, torna-se ainda mais complexa com este quarto tomo.
A mente de Obb é então invadida por forças que parecem ultrapassar a compreensão humana, e a sua sanidade começa gradualmente a deteriorar-se. A sensação é a de que o protagonista se encontra preso entre o homem que era e algo completamente novo que começa a emergir dentro de si.
Tal como já acontecia nos tomos anteriores, Bilal continua a apresentar ideias extremamente estimulantes, devo dizer-vos. Continua a agradar-me bastante o seu olhar pouco otimista sobre o futuro das nossas sociedades. O autor explora de forma muito interessante esta distopia assente numa dependência tecnológica da humanidade, a perda da memória coletiva e a forma como os seres humanos delegaram grande parte daquilo que são às máquinas que criaram. No tempo corrente, em que a IA parece estar a entrar em todos as áreas possíveis da atividade humana, não poderia ser um tema mais relevante.
Como tal, e mais do que nunca, Bug parece interessado em refletir sobre a relação entre a humanidade e as suas próprias invenções. Entre a consciência humana e aquilo que poderá vir depois dela. São temas extremamente ricos, diria.
O problema é que, paralelamente a estas ideias fascinantes, a narrativa continua a sofrer de algumas das limitações que já me tinham incomodado nos volumes anteriores. A trama é densa, complexa e, por vezes, excessivamente fragmentada. Existem momentos em que parece que Bilal toma decisões narrativas quase por impulso, introduzindo conceitos ou situações que surgem de forma algo arbitrária.
E essa sensação de dispersão acaba por ser ainda mais visível neste quarto tomo. Confesso que me senti mais perdido durante a leitura do que tinha acontecido anteriormente. Em parte, reconheço que isso pode dever-se ao facto de eu ter lido os três primeiros livros de seguida, o que facilitou bastante a assimilação do universo e das múltiplas personagens da série. Agora, com um intervalo temporal maior entre leituras, senti algumas dificuldades em reencontrar todos os fios narrativos. Por essa razão, até recomendo que quem pretender mergulhar em Bug procure ler os vários volumes de forma relativamente próxima. É uma obra que beneficia claramente da leitura contínua, sobretudo porque Bilal não faz grandes concessões ao leitor e raramente perde tempo a relembrar acontecimentos anteriores.
Ainda assim, apesar da crescente complexidade e de alguma confusão narrativa, nunca senti que a série tivesse perdido totalmente o interesse.
E falar de Bug continua a ser falar também dos desenhos do seu autor. E, nesse capítulo, pouco mudou. O trabalho gráfico de Enki Bilal permanece absolutamente singular e espetacular. Basta olhar para uma vinheta durante alguns segundos para identificarmos imediatamente a sua autoria. Poucos artistas possuem um estilo visual tão reconhecível e tão pessoal - o chamado signature style.
As suas figuras humanas continuam a surgir envoltas naquela atmosfera fria, quase melancólica, que caracteriza grande parte da sua obra. Os tons azulados, os cinzentos e os jogos de sombra e luz criam páginas de enorme impacto visual. Mesmo quem não se deixar envolver totalmente pela história dificilmente ficará indiferente à beleza das ilustrações.
Dito isto, mantenho algumas reservas relativamente ao facto do autor continuar a recorrer com enorme frequência a grandes planos e a vinhetas muito amplas que, apesar de visualmente deslumbrantes, nem sempre contribuem para o avanço da narrativa.
A edição da Arte de Autor continua no mesmo nível dos restantes livros da série, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo e boa encadernação, impressão e acabamentos.
Resumindo, este Bug - Livro 4 deixa-me com uma sensação muito semelhante à que já tinha retirado dos volumes anteriores. Continuo a considerar esta uma série interessante, inteligente e visualmente extraordinária. Contudo, também continuo a sentir que a história perdeu parte da força e da objetividade dos primeiros capítulos, afundando-se gradualmente numa complexidade que nem sempre resulta em maior profundidade. Felizmente, a imaginação do autor e a beleza das suas ilustrações continuam a ser mais do que suficientes para justificar a viagem. Mesmo que, por vezes, não saibamos exatamente para onde ela nos está a levar.
NOTA FINAL (1/10):
7.9
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Bug - Livro 4
Autor: Enki Bilal
Editora: Arte de Autor
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 234 x 312 mm
Lançamento: Novembro de 2025
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