Hoje falo-vos de Adèle Blanc-Sec, de Jacques Tardi, uma série que já conheço há muitos anos e que, embora já tivesse sido editada, em parte, pelas editoras Bertand e ASA, só foi integralmente editada, no final do ano passado, pelas mãos da editora Levoir. Coisa que merece as minhas vénias, pois a série tinha estado décadas - sim, décadas! - incompleta. Demorou 47 anos(!) entre a publicação do primeiro tomo, pela Bertrand, em 1978, e o último, em 2025, e não sei se isto é algo que nos devamos orgulhar ou envergonhar. Mas adiante!
Esta é uma série especial e profundamente original, que marcou bastante as minhas leituras durante os anos 90, quando a li pela primeira vez. E esta releitura que fiz de alguns clássicos - bem como, a primeira leitura de alguns dos tomos que eu ainda não conhecia - levou-me a mergulhar neste universo especial que, naturalmente, ocupa um lugar muito particular na história da banda desenhada europeia.
Publicada originalmente a partir de 1976, Adèle Blanc-Sec é uma série que parece diferente de todas as outras e que rapidamente se destacou pela sua combinação improvável de fantasia, terror, mistério, ficção científica, policial e sátira social. Sim, Adèle Blanc-Sec é tudo isso!
A protagonista, Adèle Blanc-Sec, é uma das grandes heroínas da banda desenhada europeia. Ela é escritora, aventureira, investigadora e uma mulher com uma independência pouco comum para a época em que as histórias decorrem. Adèle move-se por um mundo repleto de fenómenos inexplicáveis, cientistas loucos, sociedades secretas, múmias, monstros pré-históricos e conspirações de toda a espécie. E o mais curioso é que, apesar da extravagância dos acontecimentos, a personagem mantém quase sempre uma atitude pragmática perante o absurdo que a rodeia.
Considero que um dos maiores méritos da série é precisamente a forma como Tardi mistura géneros. As aventuras de Adèle começam muitas vezes como histórias policiais ou de mistério, mas rapidamente derivam para territórios fantásticos e surrealistas. Dinossauros que sobrevoam Paris, experiências científicas impossíveis ou figuras saídas do ocultismo - "you name it" - convivem naturalmente com uma recriação histórica meticulosa da capital francesa do início do século XX.
Paris é, aliás, uma verdadeira protagonista da série. As ruas, os cafés, as avenidas, os monumentos e os bairros são recriados com um rigor impressionante por parte de Jacques Tardi. Como tal, essa é outra das coisas que me agrada nesta série: a de ser transportado para uma cidade que tanto admiro. As próprias guardas dos livros não só são lindas, como representam um autêntico postal ilustrado de Paris!
Outra das coisas que aprecio na série é o seu humor. É verdade que há uma presença frequente da morte, do crime, do sobrenatural e de acontecimentos perturbadores, mas a série é constantemente atravessada por uma ironia subtil. Tardi ridiculariza autoridades, cientistas, militares, burocratas e figuras do poder com uma elegância mordaz. Mas atenção que não é um tipo de humor que se apoie em gags ou trocadilhos... é um estilo de humor que nasce mais do contraste entre a seriedade das personagens e o absurdo das situações em que elas se veem metidas.
Mas nem tudo é leveza na série porque, contrariamente a algumas bandas desenhadas mais clássicas de aventura, há frequentemente uma atmosfera melancólica e desencantada. E isso, parece-me, acontece porque existe uma certa dureza no olhar de Tardi sobre a sociedade, sobre o exercício do poder e sobre a natureza humana.
É também justo reconhecer que Adèle Blanc-Sec nem sempre é uma leitura fácil ou entusiasmante. A liberdade criativa de Tardi, que constitui uma das grandes forças da série, reconheço, pode igualmente transformar-se numa das suas maiores limitações. Isto porque a sucessão constante de acontecimentos absurdos ou delirantes tende, nalguns casos, a enfraquecer a credibilidade do enredo e a reduzir o envolvimento emocional do leitor. Pelo menos, foi isso que senti nesta nova leitura que fiz de alguns álbuns mais clássicos. Certos elementos do fantástico deixaram-me muito impressionados quando li a série enquanto adolescente, mas, no tempo presente, senti que alguns acontecimentos nas histórias eram algo forçados em demasia.
Visualmente, os desenhos de Jacques Tardi, essa celebridade da banda desenhada francesa - e não só - apresentam um traço verdadeiramente reconhecível. Tardi é mais um daqueles autores em que nos basta olhar durante segundos para um desenho seu para percebermos logo quem é o autor. Não se trata de um desenho exuberante ou excessivamente espetacular, mas de um estilo profundamente eficaz e expressivo. Considero que, por vezes, existe algum caos visual, com balões com bastante texto e encavalitados junto às personagens, mas diria que isso também faz parte do charme singular das obras do autor.
Pessoalmente, considero que os primeiros volumes continuam a representar o auge criativo da série. Existe neles uma frescura, uma imprevisibilidade e um sentido de descoberta que dificilmente se repetem mais tarde. Ou melhor, até se repetem, mas sem a mesma frescura. Isso não significa que os álbuns posteriores sejam fracos. Apenas que os primeiros tomos possuem, a meu ver, uma maior energia criativa e um encanto difícil de replicar.
Em termos de edição, a Levoir apresentou-nos um bom trabalho. Cada um dos volumes apresenta capa dura brilhante - exceto os dois últimos volumes, O Labirinto Infernal e O Bebé de Buttes-Chaumont, o que merece a minha única chamada negativa à edição. Tratando-se de uma coleção integral, este lapso foi uma pena. De resto, os livros apresentam bom papel brilhante no interior e um bom trabalho ao nível da impressão e encadernação.
No final, Adèle Blanc-Sec permanece uma das grandes criações da banda desenhada europeia, e recomenda-se a públicos de todas as idades. Original, inventiva e elegante, a série demonstra que é muito mais do que uma simples sucessão de aventuras fantásticas. É uma obra que continua a surpreender pela inteligência, pela imaginação e pela capacidade de transformar o passado histórico num território sem limites para a fantasia. Um clássico da banda desenhada, portanto.
NOTA FINAL (1/10):
9.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Adèle Blanc-Sec #1 - Adèle e o Monstro
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Junho de 2024
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Julho de 2024
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Setembro de 2024
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Fevereiro de 2025
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025
Autor: Jacques Tardi
Editora: Levoir
Páginas: 72, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 224 x 297 mm
Lançamento: Outubro de 2025
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