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sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Análise: The Electric State


The Electric State, de Simon Stålenhag

A ASA lançou recentemente o livro The Electric State, da autoria de Simon Stålenhag, que é uma proposta verdadeiramente diferenciada face àquilo que é normalmente lançado pela editora portuguesa. E, já agora, também é diferente de tudo aquilo que é lançado por cá pelas outras editoras de banda desenhada.

Desde já, e convém não esquecer isso, esta não é uma obra de banda desenhada. Isso deve ficar claro. A proposta artística de Simon Stålenhag tem imagem e texto, sim, mas não estamos perante uma obra de arte sequencial. É, pois, um livro ilustrado. E mesmo dentro desse universo dos livros ilustrados – que normalmente obedecem a um conjunto próprio de cânones – este The Electric State assume-se como bastante diferente. E que bom isso é! Haja espaço para a diferença e para a originalidade.

E sim, é bem provável que nunca tenham lido um livro como este. A menos, claro, que já estejam familiarizados com outras obras de Stålenhag.

Aquilo que o autor sueco nos oferece é, pois, deveras singular, com uma linguagem muito própria, que facilmente é identificável. Visualmente, cada ilustração, feita através de pintura com um aspeto hiper-realista, é simplesmente deslumbrante e assustadoramente verossímil, o que faz com que pareça mais que estamos a ver um álbum de um fotógrafo qualquer, do que o álbum de um ilustrador. Cada imagem ocupa uma ou duas páginas do livro e como a obra se apresenta em formato horizontal, a experiência cinematográfica que dela emana é muito premente.

Em termos de texto, são-nos dadas várias páginas de texto corrido em prosa, como se estivéssemos diante de um habitual romance. Quase sempre estas páginas de texto são acompanhadas ou seguidas por uma ilustração que nem sempre retrata aquilo que o texto nos relata. Por vezes, embora raramente e mais para o final da obra, há um conjunto de ilustrações que se seguem umas às outras, sem qualquer relato textual. Esta será, pois, a parte onde podemos vislumbrar uma sequência mais direta entre imagens, esse apanágio básico da banda desenhada.

Quanto à história, a mesma passa-se em 1997 e faz-nos seguir a viagem de carro de uma adolescente fugitiva que se faz acompanhar por um robô de brinquedo. A viagem leva-os em direção ao oeste dos Estados Unidos da América. Aparentemente, esta jovem tem um objetivo muito claro com esta viagem que vamos percebendo à medida que avançamos na leitura do livro. 

Mas o mundo parece ter parado. Quase não há pessoas e, à boa maneira de um Walking Dead, os carros foram abandonados bruscamente em plenas autoestradas. Porém, este não é, de todo, um mundo onde existam zombies - a menos que, metaforicamente, consideremos que zombies são todos aqueles que estão totalmente dependentes da tecnologia e que se “esqueceram” de viver por si mesmos, de forma humana.

Divagações interpretativas à parte, o que existe neste mundo é um verdadeiro cemitério de máquinas de proporções colossais. À medida que a viagem da protagonista vai avançando, esta vai passando por numerosas paisagens rurais onde marcam presença enormes máquinas que estão, quase todas, abandonadas e em ruína. Fica a ideia que este é um tempo que sucede a um enorme desenvolvimento e expansão tecnológica, mas que, por algum motivo, não correu bem, tal não é o cenário de desolação com que os protagonistas desta viagem se vão encontrando.

O autor explora uma fusão de ficção científica com tecnologia verdadeiramente avançada que não conhecemos no nosso mundo – pelo menos da forma em que ela nos é apresentada pelo autor – que habitam o cenário pós-apocalíptico da história. Por outro lado, como o relato se passa num tempo que já passou – os anos 90 – surge-nos como uma realidade alternativa distópica. Com efeito, como os veículos são relativamente antigos e os cenários bastante rurais, gera-se uma interessante e impactante dicotomia visual em que temos o futurista e o antigo a caminhar de braço dado.

A história acompanha a viagem da rapariga enquanto nos faz mergulhar ao seu passado e à relação que esta tinha com a sua família adotiva. Fica claro que Simon Stålenhag nos mostra os perigos de uma sociedade em que todos vivem mergulhados na tecnologia, vivendo mais tempo no mundo digital e virtual do que, propriamente, no mundo analógico e real. A crítica não é particularmente direta, mas torna-se bastante implícita à medida que vamos avançando na leitura. Há bastante espaço para interpretação do leitor, pois o autor apenas nos permite um mergulho superficial neste intrigante mundo por si traçado. Como se fôssemos convidados a adivinhar o que terá acontecido para que o mundo ficasse assim.



Quanto à edição da ASA, estamos perante um belo trabalho. O livro é imponente, apresentando capa dura, com uma agradável textura, bom papel brilhante no miolo e excelente trabalho ao nível da impressão e da encadernação. Parece um verdadeiro coffee table book. Aplaudo a aposta da ASA em lançar este The Electric State, por ser algo fora do que estamos habituados a ver a editora lançar e, também, por antecipar com bom sentido de oportunidade a adaptação para cinema da obra que é esperado que chegue à Netflix no próximo ano.



Em suma, não sendo um livro de banda desenhada, The Electric State é uma obra visualmente deslumbrante, que nos permite uma experiência única enquanto mergulhamos neste mundo pós-apocalíptico - onde máquinas gigantes, robots, drones e instalações científicas convivem em paisagens remotas e rurais – e que nos faz parar para pensar nas implicações de uma tecnologia, cuja progressão não parece estar perto de alcançar um fim, nas relações humanas. Estaremos a perder o controlo da nossa própria criação? É a questão que fica a pairar no ar.


NOTA FINAL (1/10):
8.8



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
The Electric State
Autor: Simon Stålenhag
Editora: ASA
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 245 x 270 mm
Lançamento: Novembro de 2023

quinta-feira, 21 de dezembro de 2023

Análise: Bouncer #12 - Hecatombe

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq

Em sentido contrário a diversos heróis do faroeste que a banda desenhada nos deu, com as séries de Blueberry ou Tex a serem as que mais me veem à memória neste ponto, Bouncer sempre primou por tentar ser, com sucesso, o oposto a esse western limpinho, onde os bons são sempre muito perfeitos e onde vence sempre o bem. Não tenho nada contra esse tipo de história mais clássica, atenção, mas a verdade é que a exigência de uma história mais adulta, com vários níveis de interpretação e onde a ação é mais crua e menos "hollywoodesca", vai muito mais ao encontro do que, pelo menos na atualidade, procuro numa história. E não falo apenas de histórias do faroeste. Falo de qualquer tipo de história.

Bouncer mostra-nos o lado mais negro, mais sujo, mais velhaco, mais ingrato, mais chocante do antigo faroeste. E mesmo sendo verdade que o protagonista da série, Bouncer, se reja por um quadro de princípios éticos que até podemos considerar – pelo menos grande parte – como corretos à luz da justiça e da retidão, tudo o que acontece em Barro City, a cidade onde se desenrola a ação, põe em causa qualquer tipo de moralidade e bem que poderíamos esperar. Bouncer não nos dá uma visão positiva das coisas, opta por nos dar uma verdade gutural e amarga. E, por tudo isso, quer-me parecer, talvez seja mais verossímil do que a maioria de todos os outros westerns – e não são tão poucos assim – que há em banda desenhada.

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Este Bouncer, que a Arte de Autor publicou por cá há algumas semanas, já é o 12º volume tomo da série e assinala o regresso de Jodorowsky à escrita do argumento. Com muita satisfação vos digo que há muitos anos que não lia um argumento do autor franco-chileno que considerasse tão bem equilibrado e que me enchesse tanto as medidas. Este é, afinal de contas, pelo menos para os meus gostos, um autor algo "bipolar", pois consegue o melhor e o pior. Como tal, sempre que me aproximo de um livro do autor, engulo em seco, desejando o melhor, mas preparando-me para o pior. Aquela tendência que o autor foi sedimentando de colocar as suas personagens em situações extremas, mais para chocar o leitor do que em prol de uma boa construção narrativa, aliada à vertente metafísica das suas histórias, que sempre me pareceu algo gratuita e vaga em demasia, deixa-me por vezes desapontando.

No entanto, e é por isso que toco no assunto, em Hecatombe, Jodorowsky aparenta estar no pleno das suas capacidades. Esta é uma história verdadeiramente down to earth, sem que haja espaço para desvarios narrativos. Bem, em boa verdade, bem próximo do final da história, Jodorowsky parece não ter resistido a uma certa divagação metafísica que, quanto a mim, até acaba por ser o lado menos bom deste livro. Mas, tirando esse pequeno (grande) detalhe, que não aprofundarei para não estragar a surpresa a ninguém, Jodorowsky revela-se bastante contido, com uma trama bem montada, terra-a-terra, que vai crescendo em interesse e impacto para o leitor.

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Aprofundando a história de Hecatombe, a mesma segue a linha narrativa dos tomos anteriores, intitulados O Ouro Maldito e O Espinhaço de Dragão – embora não seja obrigatório que tenhamos lido esses tomos para bem compreender este 12º volume – em que Bouncer se viu a braços com um enorme tesouro em lingotes de ouro. Com efeito, Bouncer e a sua trupe depositaram o ouro de origem mexicana no banco de Barro City. Mas, expetavelmente, todo aquele tesouro, embora guardado por um forte e moderno cofre, desperta a cobiça alheia. E não é, portanto, de admirar que comecem a chegar à cidade muitas pessoas – algumas da pior espécie – com intenções algo dúbias, embora ocultas.

Um dia, o ouro desaparece do cofre sem deixar qualquer rastro, sem que se oiça um único tiro e sem que tenha havido, sequer, arrombamento do cofre. Como terá isto acontecido? Jodorowsky brinca muito bem com o leitor, sugerindo-lhe um caminho de interpretação para, logo a seguir, mostrar-lhe que as coisas não são o que parecem.

E como resultado do roubo do dinheiro, a cidade torna-se ainda mais violenta, com a multidão à procura de um bode expiatório para tão enigmático roubo.

Apetecia-me falar das interessantíssimas e bem desenvolvidas personagens que entram neste Hecatombe, mas opto por não o fazer, para não desvendar mais do que pretendo em relação à história. Posso, no entanto, dizer que são personagens cheias de carisma e que sabem ser más e astutas, elevando o enredo em termos de qualidade. E, claro, há um grande número de momentos trágicos, com várias baixas importantes. O que seria de prever se pensarmos em como hostil e violenta esta história consegue ser. Uma autêntica “hecatombe”, portanto.

Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor
Falando das ilustrações, acho que, se tenho que dar mérito à crueza com que Jodorowsky arquiteta esta história, também tenho que prestar louvores à forma como François Boucq dá vida, forma e cor a este faroeste sujo, agreste, inóspito e tantas vezes desumano. É algo que já vimos nos tomos anteriores, sim, e talvez por esse motivo, não surpreende particularmente (nem desilude) os que já conhecerem a série. Ainda assim, diga-se que o início da história, marcado pela chuva torrencial que jorra nas ruas de Barro City, é verdadeiramente genial. O autor consegue transportar-nos para aquele ambiente vívido e carregado de lama. Sem prados belos ou montanhas floridas porque o "verdadeiro faroeste" era assim mesmo: vazio, badalhoco e cheio de pó e lama.

E, claro, o desenho das personagens – algumas delas com uma fealdade que encaixa perfeitamente na personalidade das mesmas – é verdadeiramente soberbo. E também a nível de cores este é um belo álbum, com as mesmas a darem a cada uma das cenas o ambiente cromático que era necessário.

Quanto à edição da Arte de Autor, estamos perante mais um bom trabalho de edição, sem algo de negativo a apontar. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel brilhante e uma boa impressão e encadernação. Nota positiva para o facto deste volume ter sido lançado em simultâneo com a edição francesa. É sempre bom quando estamos alinhados com a atualidade de lançamentos em mercados estrangeiros.

Em suma, este Bouncer #12 é o regresso em grande de um dos melhores westerns em banda desenhada! Sendo a série que é, já estava à espera de algo bom, mas não esperava que fosse tão bom! História e ilustrações caminham de mãos dadas para nos dar um dos mais maduros e bem concebidos tomos de toda a série. E, por conseguinte, de todos os westerns em BD, uma vez que coloco esta série bem lá em cima, entre as melhores das melhores bandas desenhadas com o tema do faroeste como pano de fundo. Numa palavra: fantástico!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Bouncer #12 - Hecatombe, de Alejandro Jodorowsky e François Boucq - Arte de Autor

Ficha técnica
Bouncer #12 - Hecatombe
Autor: Alejandro Jodorowsky e François Boucq
Editora: Arte de Autor
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23,2 x 31 cm
Lançamento: Novembro de 2023

quarta-feira, 20 de dezembro de 2023

Análise: Os Mares do Sul

Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir

Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir
Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí

Já vem sendo hábito que a Levoir seja a editora que, em Portugal, edita os álbuns do autor espanhol Bartolomé Seguí. Na verdade, este Os Mares do Sul, que hoje vos trago, já é o quinto álbum do autor editado em Portugal. Sempre nas coleções de novelas gráficas da Levoir. As Serpentes Cegas tiveram argumento de Felipe Cava Hernandez, enquanto que o fabuloso Histórias do Bairro teve argumento de Gabi Beltrán. Mas pensando nas adaptações dos romances policiais do célebre autor espanhol Manuel Vázquez Montalbán, que têm como protagonista o anti-herói detetive Pepe Carvalho, este já é o terceiro álbum de Bartolomé Seguí que, neste périplo, tem tido a companhia do autor Hernán Migoya no argumento, ao nível da adaptação para banda desenhada. Primeiro foram os livros Tatuagem e A Solidão do Executivo, e agora temos o mais recente álbum, intitulado, Os Mares do Sul que é, aliás, a história de Montalbán mais célebre dedicada a Pepe Carvalho.

Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir
Escrevendo de forma simples e direta: para os leitores que já gostaram dos anteriores livros desta dupla, certamente, ficarão agradados com este Os Mares do Sul. Por ventura, até é capaz de ser o melhor dos três livros. Continuam presentes as mesmas coisas boas e a coisa menos positiva que, para mim, é a densidade e complexidade da história que, quanto a mim, carece de alguma simplificação para ser melhor absorvida. Mas já lá irei.

A história passa-se em Barcelona, no ano de 1979, por altura das eleições municipais da cidade. Após a descoberta do cadáver esfaqueado de Carlos Stuat Pedrell, um homem de negócios importante que tinha desaparecido misteriosamente, Pepe Carvalho, o protagonista, é chamado pela viúva de Pedrell para investigar o caso. Stuart Pedrell era um homem difícil de ler para aqueles que o rodeavam. Sendo imensamente rico e influente em termos locais, nutria uma paixão pelo trabalho do pintor Gaugin e sonhava viajar para a Polinésia e para os seus “mares do sul”. E então, sem grande aviso, Pedrell desaparece, deixando todos a achar que este havia começado essa longa viagem pelos mares do sul. Mas, passado um ano, quando o seu cadáver é encontrado, as perguntas sucedem em catadupa. Talvez a viagem de Pedrell não tenha sido exatamente aquilo que parecia.

Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir
O que é mais interessante neste livro é que além de toda a trama que envolve este caso misterioso e da investigação adjacente ao mesmo, é-nos permitido um olhar à sociedade de então, do final dos anos 70, e às alterações que iam acontecendo, não só na cidade de Barcelona, como em toda a Espanha. A vinda de muitas pessoas para Barcelona em busca de uma vida melhor, enquanto trabalhavam na indústria que florescia na cidade, levou à criação de bairros-dormitório que, por sua vez, funcionavam como uma micro-cidade dentro de uma grande cidade. E isto, claro está, também foi causa-efeito para que surgissem muitos poderosos homens de negócios ligados à construção. Como Carlos Stuat Pedrell, em que se centra a investigação de Pepe Carvalho.

Onde a adaptação apresenta alguns problemas – como já apresentou em Tatuagem ou em A Solidão do Executivo é na densidade da trama que, por vezes, torna a leitura escusadamente complexa. Não tenho nada contra a complexidade de uma trama em banda desenhada. Normalmente, até é algo bem-vindo. Mas, lá está, essa complexidade só funciona como um plus, como algo que melhora a experiência de leitura, quando é doseada e bem explanada em termos narrativos. Porque, se formos desfolhando cada uma das camadas acessórias da história de Os Mares do Sul, a trama até não é assim tão complexa. Até é simples. E, das duas uma: ou a banda desenhada precisava de mais páginas para que essa complexidade do enredo fosse mais bem conseguida ou a história precisava de ter menos texto, de forma a não ficar tão enfiada à força na obra. É, pois, natural que se sinta um sobrepovoamento das pranchas de Seguí com demasiado texto. Não é que a obra perca o interesse e, seguramente, não é por isso que não aconselho a leitura deste belo livro. Mas é especialmente por este motivo que, quanto a mim, a própria obra não se permite a si mesma voos mais altos.

Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir
Quanto ao trabalho de Seguí, volta a ser muito bem conseguido. A atmosfera captada pelo ilustrador da cidade de Barcelona é verdadeiramente brilhante. Ao invés de uma opção pelos ícones arquitetónicos mais célebres da cidade, da autoria de Gaudí, o autor parece dar mais atenção às ruas sujas e sombrias da cidade, bem como às artérias mais movimentadas pelas multidões urbanas. Porque, sim, o enfoque é sempre nas pessoas. E, por essa mesma razão, há muitas cenas que são passadas de portas para dentro, seja em ambientes da alta sociedade, seja em locais pobres e degradados. 

Os desenhos do autor apresentam também um ambiente que nos remete automaticamente para os anos 70/80. De facto, se não soubéssemos a data de lançamento desta banda desenhada, quase que poderíamos apostar que a mesma tinha sido criada há 40 ou 50 anos, tal não é realista a forma como Seguí ilustra e dá cor aos desenhos. Com efeito, para isso também contribuem as belas cores que encaixam muito bem nos desenhos muito característicos de Bartolomé Seguí.

Recuperando as minhas próprias palavras na análise que aqui fiz ao livro A Solidão do Executivo, “há uma continuidade no desenho e no estilo, que é mantida nesta nova aventura da personagem Pepe Carvalho. (…) O trabalho de cores é, possivelmente, a arma secreta de Seguí que lhe permite ter uma aura tão histórica nos desenhos que nos apresenta nesta história. O resultado é fantástico! E mesmo sendo verdade que o traço do autor é fino, há também uma presença de carvão a sombrear as ilustrações, que dá o tal toque original ao trabalho de Seguí, que o distingue dos restantes autores. Em termos de desenho, apresenta uma vertente semi-realista que funciona muito bem. A planificação das páginas é interessante, apresentado uma boa variedade e dinâmica, e os “planos de câmara” também são bem conseguidos por parte de Seguí. Diria que, em termos gráficos, é uma obra cheia de qualidade. Pode-se gostar ou não do estilo de ilustração do autor. Mas acho que é facilmente aceitável por todos que, em termos de ilustração, este é um álbum muito interessante.”

Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir
Quanto à edição, e à boa maneira da coleção de Novelas Gráficas da editora Levoir, o livro apresenta capa dura baça, com bom papel baço no miolo. A impressão tem os tons um pouco escuros em demasia, tenho que referir, mas a encadernação é bem executada. O prefácio é da autoria de João Ramalho-Santos.

Ainda sobre a edição, devo dizer que li alguns comentários bastante negativos a propósito da editora ter reduzido o formato original da obra. Fui então investigar e verifiquei que, sim, a Levoir reduziu o formato da obra. Meio centímetro na largura e 1,5 cms na altura. Meus caros, parece-me que as reações tão arreliadas com a edição da Levoir foram exageradas. Mesmo admitindo que em termos de mancha de impressão, o livro até acabe por ficar mais reduzido do que o 1,5 cm, não me parece que seja motivo para tantas "birras". Sou o primeiro a afirmar que prefiro sempre que as edições portuguesas tenham a mesma dimensão (ou maior, se possível) das edições originais. Mas, caramba, se estamos a falar de um livro que sai com um preço de amigo (cerca de 25% mais barato do que a edição da Norma Editorial) acho que também podemos dar lugar a algum tipo de cedências, não? A mim, aborrecem-me mais erros de tradução, de revisão e de legendagem. Coisa que neste Os Mares do Sul, se existe, não me saltou à vista.

Concluindo, Os Mares do Sul mantém a continuidade em termos qualitativos que a dupla formada por Migoya e Seguí já nos tinha dado nas anteriores adaptações para banda desenhada que fez da obra de Manuel Vázquez Montalbán. Trata-se, acima de tudo, de um romance policial protagonizado por Pepe Carvalho, uma personagem carismática, dura e perspicaz, bem à semelhança de Nestor Burma, de Leo Malet. Não sendo isento de fraquezas, é uma bela aposta da Levoir que se recomenda!


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Os Mares do Sul, de Hernán Migoya e Bartolomé Seguí - Levoir

Ficha técnica
Os Mares do Sul
Autores: Hernán Migoya e Bartolomé Seguí
Editora: Levoir
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 280 mm
Lançamento: Setembro de 2023

terça-feira, 19 de dezembro de 2023

Especial Antologias de BD - 5 títulos que li recentemente


Por motivos de formação académica, as antologias de banda desenhada remetem-me sempre para as Noites da Publicidade, uns eventos que, há uns anos pululavam por Lisboa, onde eram transmitidas, durante toda a noite, maratonas de publicidade. O que era interessante nestes eventos é que os presentes iam sendo brindados com um sem-número de spots publicitários. Uns eram brilhantes, outros eram medíocres, outros seguiam uma escola, outros seguiam outro género. Mas o que era mais interessante, diria, era esse guisado, esse misto de tantas e diversas formas de produzir um spot publicitário.

E isto também é claramente sentido nos festivais de cinema. E se estivermos a falar de festivais de curtas metragens, talvez o paralelismo com as antologias de banda desenhada ainda seja mais imediato. É que, tal como nesses festivais de curtas-metragens - em que vamos sendo presenteados com pequenas histórias que se sucedem umas às outras, apresentando diversos estilos e formas - também nas antologias de banda desenhada o pressuposto é mesmo esse: são-nos dados pequenos ensaios, pequenas tentativas, pequenos exercícios, dos mais variados estilos e géneros, para banda desenhada. Algumas histórias têm autores consagrados, outras têm autores desconhecidos. Umas apresentam um produto final que, ao nível do objeto-físico e da qualidade gráfico-narrativa, é absolutamente profissional, enquanto outras há que se revelam amadoras nesses mesmos parametros. Tudo é válido e bem.vindo, diria!

Bem, mas serve toda esta introdução para vos falar, de forma conjunta e compacta, de cinco antologias que li nos últimos dias e que merecem, quanto a mim, uma breve menção e análise aqui no Vinheta 2020.

Ora vejam:

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

Análise: Mau Género

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House
Mau Género, de Chloé Cruchaudet

Dizendo-o – ou escrevendo-o – de forma sintética, é muito simples: Mau Género é um dos livros do ano! Disso não tenho dúvidas! E é, até agora, a proposta mais certeira em banda desenhada por parte da editora Iguana!

Mas vamos por partes.

Esta obra da autora francesa Chloé Cruchaudet – que até esteve por cá, no último Amadora BD para o lançamento deste livro – até foi originalmente lançada no mercado franco-belga em 2013. Mas, infelizmente, só chegou até nós passados dez anos, pelas mãos da Iguana. Mas, como em tudo o que é bom, vale mais tarde do que nunca.

Mau Género é inspirado em La Garçonne et l'Assassin, dos historiadores Fabrice Virgili e Danièle Voldman, que, num programa de rádio, deram esta história insólita a conhecer à própria autora Chloé Cruchaudet que rapidamente percebeu que o tema merecia uma adaptação livre para banda desenhada.

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House
Sendo Mau Género originalmente lançado em 2013, talvez isso seja justificativo suficiente para que as questões de identidade de género que aqui são abordadas o sejam feitas de forma bem mais madura e sociologicamente profunda, face a muitas das obras mais atuais que também tratam o tema da sexualidade ou do género, mas que aparentam fazê-lo de forma mais panfletária ou navegando a onda deste assunto, quer se queira, quer não, trendy para leitores e, por conseguinte, para autores e editoras. Mau Género vai muito, muito, mas mesmo muito, mais além nos temas que aborda. E, portanto, considero que a obra deve ser convenientemente separada das demais, pois independentemente daqueles que me lerem se identificarem mais ou menos com obras que tratam o assunto da identidade de género, Mau Género é uma obra obrigatória. Avancem para a compra sem medo!

A história que a autora nos propõe é baseada na história verídica de Paul e Louise que, tal como tantos outros casais, se conhecem, se apaixonam e se casam. Estamos em Paris, no período que antecede a Primeira Guerra Mundial e, quando esta realmente eclode, Paul é mobilizado para ingressar na frente de combate, deixando a sua mulher à sua espera. Uma vez nas trincheiras, o inferno e drama com que se depara é tanto que, sabendo que não é talhado para este tipo de vida – mas quem o será?, diria eu - Paul decide escapar dali a todo o custo. Nem que tenha que se tornar num desertor.

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House
Mas os castigos para os desertores de guerra são enormes (pagam-se com a vida) e, como tal, depois de fugir da frente de combate, Paul terá que permanecer escondido, nas sombras, sem que ninguém saiba da sua existência. Refugia-se então num quarto de hotel onde recebe visitas da sua mulher. Mas estar tanto tempo recluso num só espaço fechado não é fácil, o que leva Paul a encontrar uma solução para poder sair à rua. Passa então a vestir-se de mulher, ocultando deste modo a sua identidade. Numa primeira fase, fá-lo de uma forma algo atabalhoada, mas, à medida que vai entrando na nova personagem por si criada, a que chama Suzanne, Paul vai-se tornando cada vez mais feminino, parecendo também – a si e aos outros - mais verosímil a personagem que cria.

O que é absolutamente interessante do ponto de vista de estudo social é que, às tantas, talvez esta forma de vida que Paul encontra para ultrapassar um problema, seja mais agradável do que aquilo que ele imaginaria numa primeira instância. Às tantas, esta sua nova identidade fá-lo sentir-se melhor consigo mesmo. E fá-lo querer experimentar certas coisas, quer do âmbito sexual, quer do âmbito de sociabilização, que, até então, não lhe passariam pela cabeça – ou será que passariam?

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House
E mesmo já depois da Guerra ter terminado e já depois de ter sido dada amnistia a todos os desertores de guerra, quererá Suzanne voltar a ser Paul? E quererá Louise, a esposa, ter nos seus braços o mesmo homem com quem casou? Ou já será este casal um casal diferente por tudo aquilo que superou em comunhão?

Há que lembrar que, há mais de 100 anos, a forma como a sexualidade era encarada era, naturalmente, muito mais fechada do que nos tempos atuais. E isso permite à autora Chloé Cruchaudet explorar de forma bem certeira todas estas dicotomias vividas pelo casal formado por Paul/Suzanne e Louise.

Mas Mau Género não é apenas um livro sobre as questões do género e da sexualidade. É muito mais que isso! Aborda a guerra e o trauma que a mesma traz para todos aqueles que a têm de viver na primeira pessoa, deixando marcas para toda uma vida, por um lado, e, por outro, também aborda a questão da violência doméstica já que, de portas para dentro, Paul tem um comportamento abusivo e violento para com Louise.

O livro assume, portanto, uma aura negra e pesada que muitas vezes nos deixa impressionados, tristes ou felizes, mas nunca indiferentes.

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House
Não se procura justificar, perdoar ou promover qualquer tipo de comportamento. Quer seja o comportamento padrão ou o comportamento desviante. Apenas se pretende passar para o leitor um relato sensível, com uma forte componente humanista de algo que aconteceu. Não me admiro nada pelo facto de Mau Género ter conquistado vários prémios aquando o seu lançamento original. São devidos, sem dúvida!

Se a história é extremamente original, bem concebida, e bem narrada pela autora, a componente visual deste Mau Género é verdadeiramente bela e poética. Os desenhos das personagens são bastante expressivos, assumindo um registo que se fica entre o "cartoonesco" e, ao mesmo tempo, entre o desenho de época. O resultado é muito charmoso e belo.

Raramente as vinhetas aparecem divididas pelas tradicionais linhas que as delimitam, mas, mesmo assim, a leitura é escorreita e linear, conseguindo um belo efeito em termos visuais. A autora também se permite arriscar ainda mais em algumas páginas onde nos oferece ilustrações onde nem sequer há separação visual entre as mesmas. Mas isto também não faz com que se gere uma certa anarquia visual. Pelo contrário, parece sempre haver uma harmonia e uma delicadeza visual em Mau Género.

Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House
E também as cores encaixam que nem uma luva de cetim neste livro, alterando entre um registo a preto e branco e um registo a sépia onde, ocasionalmente, entram os tons avermelhados para dotar a componente visual em algo mais dinâmico e artístico.

Para já, é esta a grande obra da editora Iguana! É certo que, mais recentemente, a editora pertencente ao grupo Penguin Random House, tem apostado em número e em qualidade, em várias bandas desenhadas, mas é, quanto a mim, e até agora, Mau Género o melhor livro da editora que merece, portanto, uma palavra de louvor pela aposta bem conseguida. 

De resto, o livro apresenta capa dura baça e bom papel brilhante. Na minha opinião, e tendo especialmente em conta o tipo de traço de Chloé Cruchaudet, a escolha por um papel baço (mate) teria funcionado melhor do que o papel brilhante (couché) que nos é dado. Mas fica apenas o comentário. A impressão e a encadernação apresentam boa qualidade.

Nota ainda para o facto de o livro trazer um dossier de extras com mais de 30 páginas, onde nos é permitido aprofundar o nosso conhecimento sobre a história que nos é dada, através de excertos dos arquivos originais do advogado de Louise - já que todo este caso chegou aos tribunais como, aliás, é visível nesta banda desenhada - bem como a introdução de belíssimas ilustrações de Chloé Cruchaudet. É uma bela edição, portanto.

Em suma, Mau Género assume-se como o melhor livro da editora Iguana e uma das melhores bandas desenhadas editadas em Portugal durante este ano. A história é (verdadeiramente) impactante, dando luz às questões que, realmente, importam ao nível da identidade de género - que nem sempre são as questões “da moda”. E, enquanto isso, também consegue ser um excelente documento histórico, baseado em factos reais, que apresenta uma magnífica ilustração elegante e charmosa que nos embala neste doce, embora por vezes triste, relato. Notável e obrigatório!


NOTA FINAL (1/10):
9.8


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Mau Género, de Chloé Cruchaudet - Iguana - Penguin Random House

Ficha técnica
Mau Género
Autora: Chloé Cruchaudet
Editora: Iguana (Penguin Random House)
Páginas: 192, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 170 x 240 mm
Lançamento: Setembro de 2023

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Análise: Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2

Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros

Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros
Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon

O livro da famosa saga de François Bourgeon, Os Passageiros do Vento, intitulado O Sangue das Cerejas (Tomo 2) que a Ala dos Livros publicou há umas semanas, pode muito bem ser a grande desilusão das minhas leituras de 2023. E é com pena que digo isto, já que esta é uma série de banda desenhada que marcou bastante a minha adolescência. Mas, convenhamos, se tivermos a frieza de fingir que não é o nome de François Bourgeon que consta na capa do livro enquanto autor nem, tampouco, que se trata de um volume de Os Passageiros do Vento, essa série marcante da banda desenhada europeia, pelo menos em termos de história/narrativa/enredo, este é um livro mal concebido.

É certo que muitas vezes as (des)ilusões estão muito interligadas com a expetativa que temos para algo. É assim com tudo na vida, aliás. E, sim, as minhas expetativas eram altas. Até porque esta é uma série longa, com quase 10 tomos, que já nos deu muito. Relembro que Os Passageiros do Vento se pode dividir em 3 ciclos. O primeiro deles tem 5 tomos (e é o melhor) e foca-se na escravatura do século XVIII. O segundo ciclo, A Menina de Bois-Caïman, com 2 tomos, centra-se na Guerra da Secessão Americana. E o terceiro ciclo, este O Sangue das Cerejas, também é constituído por dois tomos, que tem a sua ação a decorrer em Paris no período de tempo em que a sociedade de então esteve dividida pela Comuna de 1871.

Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros
Já aquando o lançamento do primeiro volume do díptico, em 2020, percebi que havia algumas questões no livro que não estavam executadas da forma a que autor nos habituou. Mesmo assim, pelo renovado cariz político ou das interligações entre as personagens, que me pareciam aliciantes, acabei por ficar com uma sensação positiva perante a obra. Também gostei particularmente do ambiente boémio da cidade de Paris e das personagens Zabo (ou Clara) e Klevi.

Mas as primeiras 20 páginas deste segundo tomo quase me fizeram desistir de o ler. São confusas, com informações completamente “all over the place”, em que se tenta contextualizar as personagens – sem que se tenha sucesso na tarefa – e em que se procura dar também um enfoque a questões políticas, mas não sem que isso seja feito de forma algo atabalhoada. Há inúmeras referências ao primeiro ciclo da série, especialmente, mas parecem metidas “a martelo” na história. 

Em termos de história, continuamos a acompanhar o percurso de Zabo/Clara, mergulhando no drama que a mesma viveu quando, depois de abrigar um soldado jovem, acabou por ser violada pelos soldados do regime que não a deixaram sem que visse (ou ouvisse) o assassinato do seu próprio bebé. Entretanto, Zabo é deportada, juntamente com muitos outros presos políticos. 

Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros
Indo ao âmago da história, o enredo até é simples. Mas Bourgeon parece fazer questão de complicar o simples. É que uma coisa é ser-se confuso pelo facto do tema ou da trama serem complexos e intrincado, outra coisa é ser-se confuso por má expressão escrita ou por frases proferidas de forma vaga e sem conexão. Se este não fosse o último álbum da série, ainda poderíamos congeminar que talvez o autor estivesse propositadamente a deixar pontas soltas para as fechar mais tarde, noutro livro. Agora, como não é isso que aqui acontece, a sensação é menos positiva.

Temos muitos diálogos desnecessários como, por exemplo, quando as personagens conversam sobre os horários dos comboios que, depois, nem sequer dão origem a nada de relevante para a história. Além de que tudo o que é dito, é dito de forma muito palavrosa e com um texto bastante redundante. Sei que os balões e legendas carregados de texto sempre foram uma tendência do autor, mas, no caso concreto deste livro, parece que Bourgeon abusou mais desta característica do que nos álbuns anteriores da série. E isso faz com que os diálogos não adquiram a verosimilhança desejável e que se tornem aborrecidos. É um livro difícil de ler. Porque ninguém fala como estas personagens falam.

Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros
Como tal, esta minha análise algo negativa da minha parte, acaba por me doer bastante ter que escrever. Porque é claro e inegável que o autor consegue – ou, pelo menos, conseguia – construir uma obra tão melhor. E é isso que dói. Imaginem que vão ao vosso restaurante preferido e são confrontados com um prato que está tantos furos abaixo do que normalmente vos apresentam nesse restaurante, que ficam incrédulos. Os Passageiros do Vento até pode não ser a minha série de BD preferida, mas, mesmo assim, está facilmente, quanto a mim, entre um conjunto não muito alargado das melhores séries de BD franco-belga. Portanto, se não fosse esta uma das séries mais aclamadas da banda desenhada europeia em todo o mundo, talvez a coisa passasse mais de “fininho”. Além de que, tendo também em conta que este é o final para uma série de culto com mais de quarenta anos, ou o autor foi muito negligente – não ouvindo opiniões/sugestões alheias, pois tenho a certeza que não posso ser só eu a apontar “o elefante na sala” – ou não teve inspiração e capacidade de terminar a série da merecida forma.

Se a relação entre Zabo e Klevi até sustentou bem o primeiro tomo do díptico, este segundo tomo mete “as mãos pelos pés”, baralha mais do que resolve e tem diálogos incrivelmente grandes para aquilo que efetivamente importa dizer. Até porque a densidade histórica que pontua o relato, parece não ter o equilíbrio certo entre algo educativo e algo meramente de enquadramento. Ou seja, se Bourgeon não pretende ser tão educativo assim, porquê introduzir tanta informação histórica? Ou, por outro lado, se o objetivo é que o livro seja educativo, para quê colocar as coisas de forma tão vaga e tão desenquadrada? Fica-se pelo meio.

Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros
Em termos de ilustração, acho que o livro funciona bem e mantém os níveis desejáveis. O estilo do autor com cuidadosos pormenores ao nível do desenho dos cenários, das personagens, da indumentária das mesmas, ou dos animais, quando aparecem, é digno de louvor. Não será o melhor livro do autor, pois são várias as expressões das personagens que parecem meio toscas e talvez precisassem de mais aprumo visual por parte de Bourgeon, mas, mesmo assim, funcionam bem e remetem-nos, de forma inequívoca, para o estilo conhecido do autor. Não é aí que o livro falha, quanto a mim. E também seria injusto da minha parte não admitir que, apesar de algumas personagens apresentarem expressões, como já disse, algo atabalhoadas, também há exemplos opostos onde determinadas expressões ou gestos das personagens adquirem uma realidade impressionante, parecendo que o autor retirou um frame concreto das expressões que fazemos na nossa vida. E isso humaniza as personagens, claro.

De resto, e recuperando o que já havia escrito para o primeiro tomo deste O Sangue das Cerejas, com uma tónica clássica na execução, diria que o desenho “se trata de uma arte, quiçá, mais destinada a um público mais maduro e com uma cultura de banda desenhada franco-belga já bem presente. A maneira como o autor desenha os cenários, as personagens ou as situações que se vão passando com o desenrolar da história, é muito convincente e atenta ao detalhe.”

Quanto à edição, o trabalho da Ala dos Livros é irrepreensível. O livro tem capa dura brilhante, com papel couché de boa qualidade. A impressão e a encadernação também são boas. Uma nota para a legendagem que é particularmente custosa de ler – como, aliás, tem sido apanágio na obra de Bourgeon. Embora, isso seja algo a que a Ala dos Livros é alheia, uma vez que a legendagem original, quer ao nível da font, quer ao nível da balonagem, é exatamente igual.

Em suma, e com muita pena minha, pois estava muito empolgado com este último volume de Os Passageiros do Vento, este livro fica muito aquém do expectável, com um enredo desnecessariamente complexo, que se perde a si mesmo e que faz com que a apoteose que se poderia esperar de uma série tão relevante como esta, seja, de certo modo, um "tiro no pé" de um autor tão inquestionável como Bourgeon. É como se a montanha tivesse parido um rato. E é pena que assim seja.


NOTA FINAL (1/10):
6.0



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Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2, de François Bourgeon - Ala dos Livros

Ficha técnica
Os Passageiros do Vento – O Sangue das Cerejas – Livro 2
Autor: François Bourgeon
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Outubro de 2023

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Análise: A Ilha

A Ilha, de Mayte Alvarado - Levoir

A Ilha, de Mayte Alvarado - Levoir
A Ilha, de Mayte Alvarado

Foi ainda durante o Amadora BD que a Levoir lançou o livro A Ilha, obra de estreia da autora espanhola Mayte Alvarado. Tratando-se de um dos poucos livros que a editora lançou durante este ano de forma isolada, sem estar inserido dentro de qualquer coleção – embora mantendo a etiqueta de “Novela Gráfica” na capa – parece-me que o acontecimento se reveste de maior importância. Ou, pelo menos, aos olhos da editora este livro parece ter maior relevância.

Começando pelos vários prémios que a obra ganhou – cuja referência é feita através de um autocolante colocado na capa do livro – A Ilha tem, de facto, obtido bastante sucesso e admiração.

Quanto à história, é a própria “ilha” a principal personagem do livro, já que os seus habitantes parecem viver na eminência da concretização de uma certa lenda, segundo a qual chegará um dia uma grande onda que tudo varrerá consigo. E depois, através das várias personagens que vão aparecendo nos vários capítulos nos quais o conto é dividido, vamos conhecendo diferentes percursos que, embora aparentemente independentes, parecem estar impactados pelo próprio mar.

A Ilha, de Mayte Alvarado - Levoir
Será "a ilha" a representação máxima de uma tela em branco, onde pintamos as nossas vidas? Que, sendo diferentes, todas caminham para a mesma perdição? O doloroso fim? O infindável vazio? E será o mar a entidade máxima e circular da vida que dá e tira? É apenas uma interpretação que lanço. Não mais ou menos válida do que a qualquer interpretação que o leitor faça.

Aquilo que a autora nos oferece é uma reflexão, uma pausa para pensar e indagar sobre o ciclo da vida. O tom é totalmente contemplativo, deixando a interpretação ao critério do leitor. Se isso é bom, pois permite que 100 leitores deste livro tenham 100 interpretações potencialmente diferentes, por outro lado, carece, quanto a mim, de um fio condutor narrativo mais objetivo e coeso. Se o abstracionismo dos desenhos é uma magnífica viagem, esse mesmo abstracionismo aplicado ao enredo, confere-lhe poesia, sim, embora também o torne mais vago e menos claro.

Seja como for, a obra vale por todo esse aspeto sensorial, delicado e íntimo que traz consigo e, desse ponto de vista, torna-se especial e marcante. Para tal, muito contribui a bela arte ilustrativa da autora.

A Ilha, de Mayte Alvarado - Levoir
Os desenhos que nos são dados assentam num estilo de ilustração bastante bonito, estético e original - de alguma forma mais reminiscente dos livros de ilustração do que de banda desenhada – onde as cores são peça fundamental e onde os desenhos das personagens não apresentam contornos. Será, pois, mais certo considerar este como um livro com pinturas, do que um livro com desenhos. Ora, por estes motivos, cada bela vinheta adquire uma aura poética que é o espírito e vida do livro. É, pois, na componente visual deste A Ilha onde me parece que a experiência acaba por ser mais impactante para o leitor.

Além de que acho incrível como, num álbum com poucas falas, ficamos com a clara ideia de estar a ouvir os ruídos do mar, bem como a cheirar os odores do mesmo.

Com as devidas diferenças, está claro, as ilustrações de Mayte Alvarado remeteram-me para o tipo de ilustração de duas autoras nacionais: Alice Prestes, no seu recente Vinil Rubro, e Susa Monteiro, nas várias ilustrações com que já nos brindou ao longo do seu vasto percurso criativo.

A edição da Levoir é bastante diferenciada face àquilo a que, habitualmente, a editora nos tem habituado. O livro apresenta uma capa dura bastante espessa, em que se percebe que se trata de um certo tipo de cartão, que é poucas vezes utilizado em livros de banda desenhada. Normalmente, este material é mais usado em livros de ilustração e/ou infantis. O resultado final é bastante agradável à vista e ao toque. De resto, o papel é baço e de boa qualidade. Tal como a impressão e a encadernação apresentam qualidade. Torna-se portanto, também em termos de objeto-livro, um belo exemplar.

Em suma, aplaudo esta aposta da Levoir numa bela edição diferenciada de uma obra bastante onírica, quer na história, quer no tipo de ilustração que representa um tipo de banda desenhada mais independente e que, portanto, também merece a sua oportunidade e que tem, além disso, o claro potencial de, justamente por ser diferente, poder chegar a outros públicos.


NOTA FINAL (1/10):
8.3


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A Ilha, de Mayte Alvarado - Levoir

Ficha técnica
A Ilha
Autora: Mayte Alvarado
Editora: Levoir
Páginas: 152, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 265 mm
Lançamento: Outubro de 2023