A propósito deste Os 7 Crimes de Roma, de Guillaume Prévost e Robert Paquet, que hoje vos trago, começo por opinar sobre uma coisa em específico - e é uma opinião muito pessoal como, aliás, são todas as opiniões dadas neste espaço: sou bem mais compreensivo com as editoras e/ou autores nacionais que não conseguem fazer uma obra de qualidade superior do que com as editoras que importam banda desenhada estrangeira de qualidade duvidosa. Se é para dar oportunidade a uma obra, digamos, "fraquinha"... ao menos que apostemos numa "BD fraquinha" de origem portuguesa. Pelo menos, sempre é uma forma de dar a oportunidade a um autor português para que este possa crescer. Já no que diz respeito à importação de banda desenhada... creio que o papel das editoras portuguesas deve ser o de trazer a melhor obra possível. Bem sei que nem todos temos os mesmos gostos, ou que a aposta pode ser de cariz mais comercial do que qualitativo... mas caramba, há tantas bandas desenhadas boas no estrangeiro (tantas, tantas, tantas!), que me faz confusão como se pode apostar numa obra como este Os 7 Crimes de Roma, que parece mais uma masterclass de como não fazer banda desenhada. Da capa aos desenhos, passando pelo desenvolvimento da narrativa, esta é uma obra que não merecia espaço nas livrarias portuguesas. Peço desculpa pela sinceridade, Gradiva.
E até devo admitir que a premissa da obra, à partida, até tinha tudo para resultar. Colocar Leonardo da Vinci no papel de investigador, envolvido numa série de assassinatos ocorridos na Roma renascentista, parece uma ideia suficientemente apelativa para captar a atenção de qualquer amante de história, mistério ou banda desenhada. Pelo menos, captou a minha atenção. Mas, infelizmente, aquilo que começa por parecer uma proposta promissora rapidamente se transforma numa leitura frustrante.
A narrativa arranca com a descoberta de um cadáver decapitado e com a presença de uma misteriosa inscrição deixada pelo assassino. O contexto histórico é interessante: Roma, em pleno Renascimento, com o Vaticano como pano de fundo e Leonardo da Vinci a circular pelos corredores do poder. São ingredientes que, bem trabalhados, poderiam ter dado origem a um thriller histórico bastante cativante.
No entanto, à medida que a história avança, torna-se cada vez mais evidente que os autores não conseguem explorar convenientemente o potencial da ideia inicial. O mistério perde força rapidamente e a investigação acaba por se tornar pouco envolvente. E em vez de sentirmos curiosidade em descobrir quem está por detrás dos crimes, somos confrontados com uma sucessão de acontecimentos que parecem acontecer porque o argumento assim o exige, e não porque surjam de forma orgânica. Confesso que estive quase a desistir da leitura, mas fiz um esforço e consegui acabãr de ler o livro.
Um dos vários problemas da obra reside na construção narrativa. Existem demasiadas situações que parecem forçadas, artificiais e pouco naturais. Muitas cenas parecem montadas apenas para fazer avançar a história para a página seguinte, sem grande preocupação com a coerência ou credibilidade dos acontecimentos. Os diálogos também não ajudam. Em diversos momentos soam artificiais, arrastados expositivos e pouco convincentes. Falta naturalidade às conversas e falta subtileza à forma como os autores gerem a comunicação entre as personagens.
O próprio Leonardo da Vinci, que deveria ser uma das grandes forças da obra, acaba por surgir como uma personagem de pálido carisma. Em nenhum momento senti que estivesse perante uma recriação memorável de uma das figuras mais extraordinárias da História. E também Guido, o jovem estudante de medicina que acompanha Leonardo, não me conseguiu conquistar.
Por fim, a investigação criminal, que deveria constituir o motor da obra, sofre igualmente de vários problemas. A sensação é a de que os autores querem conduzir rapidamente a narrativa para determinado ponto sem se preocuparem em construir um percurso credível até lá. A leitura torna-se progressivamente mecânica e previsível.
Infelizmente, a componente gráfica também não consegue "salvar" a obra. Embora exista aqui e ali uma ilustração mais bem conseguida ou um enquadramento mais interessante, o resultado global está muito longe de impressionar. Os desenhos apresentam frequentemente um aspeto algo amador, tanto ao nível das figuras humanas como na representação dos cenários, onde há um excesso de ruído visual. As personagens surgem muitas vezes rígidas, com expressões pouco convincentes e uma linguagem corporal pouco natural.
A própria capa está bastante mal concebida a vários níveis. Seja no grafismo, em que as letras são colocadas em cima do texto sem qualquer rigor ou preocupação estética - bem-vindos aos livros editados nos anos 70 - seja na ilustração, particularmente no desenho da mão de Leonardo da Vinci com dedos demasiadamente longos, sem que haja uma tentativa de transformar o desenho em algo caricatural. Posso dizer-vos que não tirei o dia para estar a deitar abaixo a obra... simplesmente são coisas difíceis de não referir.
A edição é em capa dura brilhante, com bom papel brilhante, boa encadernação e boa impressão. As margens a branco do livro parecem-me demasiado curtas, mas tendo em conta o amadorismo da obra, já nem sei se a "culpa" disso é da editora portuguesa ou do trabalho original.
No final, Os 7 Crimes de Roma surge como um daqueles livros em que o conceito é muito mais interessante do que a execução. Não é uma obra que faça justiça ao fascínio de Leonardo da Vinci nem ao enorme potencial do thriller histórico que havia aqui. Pelo contrário, é uma leitura esquecível que deixa a sensação de uma oportunidade claramente desperdiçada. Um livro a evitar.
NOTA FINAL (1/10):
2.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Os 7 Crimes de Roma
Autores: Guillaume Prévost e Robert Paquet
Editora: Gradiva
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 23 x 31 cm
Lançamento: Julho de 2024
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