Foi há poucas semanas que a Ala dos Livros concluiu a publicação de O Mercenário, o clássico do autor espanhol Vicente Segrelles. E isto é, quanto a mim, um belo feito, pois esta era uma série (mais uma) que não estava integralmente publicada em Portugal. Os primeiros 9 tomos tinham tido publicação pela Meribérica / Liber, é verdade, mas a série acabou por ficar incompleta, pois teve continuidade até 2019, sendo constituída por 14 volumes.
E como se não bastasse a publicação integral da obra, a Ala dos Livros ainda teve a audácia de fazer uma coleção absolutamente perfeita da série. Com encadernação e acabamentos de autêntico luxo, e com extensos dossiers de extras, esta é uma daquelas edições que considero que fazem jus à relevância da obra. Mas disso, já falarei mais à frente.
Por agora, centro-me na série, propriamente dita.
O Mercenário é uma daquelas obras que ocupa um lugar muito particular na história da banda desenhada europeia. Publicada originalmente entre 1982 e 2019, tornou-se uma obra de culto pela sua identidade visual absolutamente singular e pela forma como funde fantasia medieval, ficção científica, aventura e elementos oníricos num universo que parece não obedecer a nenhuma lógica que não seja a da imaginação do seu criador.
A premissa geral da série é relativamente simples. Num mundo composto por montanhas intermináveis, mares de nuvens e cidades perdidas, onde os cavaleiros cavalgam dragões em vez de cavalos, acompanhamos as aventuras de um mercenário sem nome que vende os seus serviços de espada a quem os possa pagar. Pelo seu caminho surgem alquimistas, sacerdotes, monstros, reis tirânicos, criaturas lendárias, invenções impossíveis e, naturalmente, uma sucessão de donzelas em apuros, normalmente, desnudas.
À medida que a série avança, esse universo vai-se expandindo e revelando mais camadas. E o que inicialmente parece apenas um mundo de fantasia medieval acaba por incorporar gradualmente elementos de ficção científica, tecnologia avançada, civilizações perdidas e mesmo viagens cósmicas. É uma mistura improvável, por vezes um pouco over the top, reconheço, e que revela que Vicente Segrelles nunca se preocupou demasiado em estabelecer fronteiras rígidas entre géneros. Aliás, se há algo que posso dizer desta obra, é que a mesma procura agradar, em primeiro lugar, ao seu criador. E quando assim é, normalmente encontramos obras únicas. Até podem não apelar a toda a gente, mas são obras com muita personalidade.
Todavia, e olhando para esta obra à luz do tempo atual, considero que há algo que deve ser dito sobre O Mercenário: estamos perante uma obra criada por um ilustrador extraordinário e não necessariamente por um grande contador de histórias. As narrativas dos vários álbuns são simples, lineares e frequentemente previsíveis. As personagens raramente apresentam grande profundidade psicológica e os conflitos morais costumam ser bastante elementares. O bem e o mal surgem normalmente identificados de forma evidente e unilateral e a evolução dramática das personagens é reduzida.
Nesse sentido, as histórias servem mais como um pretexto para que o autor possa desenhar aquilo que verdadeiramente o fascina, do que outra coisa qualquer. Recuperando a expressão "dress to impress", acho que podemos dizer que O Mercenário é uma obra que nos remete para uma lógica de "draw to impress". Dragões gigantescos, castelos suspensos, monstros aterradores, batalhas aéreas, paisagens impossíveis, mulheres voluptuosas, cavaleiros e até naves espaciais. Tudo parece existir para alimentar a imaginação visual de Segrelles.
Portanto, quem procura argumentos sofisticados, diálogos memoráveis ou personagens particularmente complexas... lamento, mas não as encontrará em O Mercenário. Por outro lado, quem valoriza a construção de mundos visuais e a contemplação artística encontrará aqui uma obra praticamente única no panorama da banda desenhada. Nesse sentido, é um autêntico "prato cheio".
E não se trata apenas de uma série de BD com bons desenhos... é uma série de BD com desenhos únicos. E o que a distingue das demais é a técnica utilizada por Vicente Segrelles. Em vez de recorrer aos métodos convencionais da banda desenhada, o autor optou por pintar cada vinheta com tinta a óleo. Só por si, esta escolha revela uma ambição pouco habitual na banda desenhada, para não dizer única.
O resultado é absolutamente impressionante. A técnica de pintura a óleo de Segrelles é fenomenal, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos que estamos perante uma banda desenhada. Existem páginas e vinhetas que poderiam perfeitamente ser expostas num museu de pintura. As montanhas, as nuvens, os dragões e os cenários monumentais possuem uma riqueza visual e uma profundidade raramente vistas. Poucos autores conseguem criar ilustrações tão belas e tão ricas em atmosfera. Diria que é uma obra que tanto se lê como se contempla.
Naturalmente, esta mesma opção estética da pintura a óleo também tem algumas consequências. Por mais extraordinárias que sejam as pinturas, elas tendem a transmitir uma certa sensação de imobilidade. Muitas figuras parecem posar para o artista em vez de estar efetivamente em movimento. E nas cenas de ação, claro está, essa característica torna-se particularmente evidente. Falta, por vezes, dinamismo e fluidez ao movimento das personagens, parecendo que as personagens humanas são bonecos de cera. Maravilhosamente pintados, sim, mas bonecos de cera.
Outro aspeto interessante na série, especialmente se lida de forma seguida como o fiz recentemente, é a evolução técnica do próprio autor. Durante grande parte da obra, nos primeiros nove tomos, Segrelles manteve-se fiel à pintura tradicional a óleo. Contudo, nos últimos volumes, começou gradualmente a incorporar ferramentas digitais no seu processo criativo. Devo dizer-vos que essa mudança não foi abrupta e que o autor procurou preservar a identidade visual da série. Aqui e ali, se olharmos com olho clínico, podemos encontrar alguma imagem que fica um pouco estranha ou artificial, especialmente em algumas texturas, devido ao recurso a ferramentas digitais. Mesmo assim, posso dizer que o autor conseguiu atingir uma certa linha de continuidade visual. Os leitores mais incautos até poderão não detetar a diferença de técnicas.
Em termos de relevância histórica, O Mercenário merece lugar de destaque na banda desenhada europeia. Não porque tenha revolucionado a narrativa gráfica ou introduzido conceitos particularmente inovadores do ponto de vista do argumento, mas porque demonstrou até onde a banda desenhada pode aproximar-se da pintura clássica sem perder a sua identidade. E isso dá-lhe uma enorme originalidade. Digo até mais: conheço várias pessoas - não muitas, mas algumas - que até não leem BD, ou que leem pouca BD, mas que têm a totalidade desta série. Dito por outras palavras, O Mercenário é tão original que até pode ter seguidores que não leem habitualmente banda desenhada. E isso é sempre algo para enaltecer numa banda desenhada.
Quanto à edição, esta é uma das melhores edições de banda desenhada em Portugal. E a todos os níveis! Os livros apresentam capa dura, de textura aveludada e com detalhes a verniz. A lombada é feita num material baço que simula a pele de dragão. É verdadeiramente diferenciado. No interior, os livros apresentam excelente papel brilhante, boa encadernação, boa impressão e bons acabamentos. Como input construtivo, não sei se não poderia haver uma ilustração conjunta a ser formada pelo conjunto das 14 lombadas alinhadas. Penso que seria a cereja no topo do bolo, mas também compreendo que talvez a editora não tenha enveredado por esse caminho, por haver, por ventura, uma significativa parte dos leitores portugueses que já possuía na sua coleção alguns tomos de O Mercenário editados pela Meribérica.
Ainda focando na edição, os dossiers de extras destes livros são grandiosos. Cada livro traz textos em que o autor nos explica, na primeira pessoa, o que fez, como fez, que técnicas utilizou, o que pretendia... etc. Além de que são introduzidas ainda fantásticas ilustrações - algumas nem sequer estão relacionadas com o universo de O Mercenário. É uma edição verdadeiramente espetacular, uma das mais bem feitas em Portugal e merece os meus mais sinceros louvores. É preciso ter amor pelas obras e pelos livros para se avançar com uma edição deste gabarito.
Chamo a atenção para o facto de o 14º volume da coleção não ser um livro de banda desenhada, mas uma história em prosa do mesmo universo que é depois complementada com bonitas ilustrações. Curiosamente, em termos de história, é capaz de ser a melhor de todos os livros, já que Vicente Segrelles se permitiu dar o tal desenvolvimento às personagens e à trama que não acontece nos restantes livros. Este 14º livro inclui ainda, como extra, a história curta A Evidência.
No final, O Mercenário é uma daquelas obras em que a forma acaba por ser mais importante do que o conteúdo. As histórias são clássicas, simples, por vezes até algo insípidas e unilaterais. Mas a arte é tão extraordinária, tão virtuosa e tão única que acaba por elevar toda a experiência. É uma série que dificilmente figurará entre as melhores da história ao nível do argumento, mas que permanecerá para sempre entre as mais impressionantes manifestações de beleza visual e originalidade que a banda desenhada europeia alguma vez produziu.
NOTA FINAL (1/10):
8.0
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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O Mercenário #1 - O Fogo Sagrado
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Junho de 2021
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Janeiro de 2022
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Janeiro de 2022
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Julho de 2023
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Março de 2024
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Março de 2024
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2025
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2025
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Maio de 2026
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Junho de 2021
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Julho de 2023
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2024
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Dezembro de 2024
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 242 x 318 mm
Lançamento: Junho de 2026
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