Se procuram uma das bandas desenhadas mais chocantes, impressionantes, maquiavélicas e sombrias que podem ler, este Ed Gein, de Harold Schechter e Eric Powell, pode bem ser o livro de que precisam!
Para quem não sabe - e acredito que já sejam poucos, depois da recente série da Netflix, Monstros -, Ed Gein foi um dos mais famosos e infames assassinos que habitou o planeta. Nascido em 1906, Ed Gein assassinou, na década de 1950, mulheres e profanou sepulturas, tornando-se uma das figuras mais assustadoras da história criminal. O seu legado retorcido foi tanto que até acabou por inspirar várias histórias e filmes de culto como Psycho, Massacre no Texas ou O Silêncio dos Inocentes. Lembram-se do homem da motosserra que nos perseguia na antiga Passagem do Terror,na extinta Feira Popular de Lisboa? Pois bem, também essa personagem, de Massacre no Texas, era inspirada em Ed Gein.
E por um motivo em particular. É que, para além de assassinar mulheres, Ed Gein também profanava sepulturas para recolher restos mortais, que depois utilizava de formas macabras dentro da sua casa, construindo peças de decoração com ossos e pele dos cadáveres. E embora tenha sido condenado por apenas dois homicídios, a natureza particularmente grotesca dos seus crimes fez deste homem uma referência incontornável do imaginário do horror moderno. Mesmo hoje em dia, Ed Gein continua a ser estudado como um dos casos mais perturbadores e incompreensíveis de sempre.
Este Ed Gein, da autoria de Harold Schechter e Eric Powell, procura traçar um retrato das origens deste assassino necrófilo e revela-se como uma obra impressionante e perturbadora. É lógico que esta é uma leitura para aqueles de estômago forte, mas, ainda assim, não me parece que este livro procure sensacionalismo gratuito. É chocante, sim, mas como não nos chocarmos quando falamos de Ed Gein e das atrocidades que cometeu? O livro procura apresentar um retrato detalhado de Ed Gein, explorando os acontecimentos que moldaram a sua personalidade e ajudaram a criar uma figura assim. O resultado é uma leitura tão envolvente quanto inquietante.
A narrativa destaca-se pela forma como consegue equilibrar rigor biográfico e ritmo dramático. Harold Schechter constrói um relato sólido e bem documentado, permitindo ao leitor acompanhar a evolução de Gein desde a infância até aos crimes que chocaram a América e o mundo. O livro não procura justificar os seus atos, até porque são injustificáveis, logicamente, mas tenta compreender as circunstâncias que contribuíram para a formação de uma mente profundamente perturbada.
E um dos aspetos que, quanto a mim, é mais interessante nesta obra é a tentativa de olhar para além do monstro. Gein surge-nos como uma figura simultaneamente patética, assustadora e incompreensível. O leitor é constantemente confrontado com a pergunta de como alguém aparentemente banal se transformou num dos maiores monstros e assassinos que alguma vez pisaram o planeta. Essa reflexão acompanha toda a leitura e torna-a particularmente marcante.
O livro não evita os aspetos mais chocantes da história de Ed Gein. Pelo contrário, apresenta-os de forma direta e muitas vezes brutal. Existem momentos verdadeiramente difíceis de ler ou observar, não apenas pela violência descrita, mas sobretudo pelas implicações psicológicas dos atos cometidos. O horror que sentimos resulta da eficácia da narrativa e da honestidade com que os factos são apresentados. O livro consegue transmitir repulsa sem perder a seriedade nem cair na exploração gratuita da violência, portanto.
Também é digno de nota o modo como a obra evidencia a influência da mãe de Ed Gein - tão psicopata como o filho, diga-se - e o ambiente extremamente repressivo em que cresceu. Sem apresentar explicações simplistas, os autores mostram como determinados fatores familiares e psicológicos podem ter contribuído para o desenvolvimento de comportamentos profundamente desviantes de Ed Gein.
O trabalho artístico de Eric Powell - com o qual eu já estava bastante familiarizado devido à sua série Goon - é simplesmente extraordinário. As suas ilustrações, executadas em tons de cinzento, criam uma atmosfera sombria e opressiva que combina na perfeição com o tema abordado.
Cada página transmite desconforto, tristeza e inquietação, reforçando o impacto emocional da narrativa sem recorrer a excessos visuais. Também os contrastes entre luz e sombra ajudam a criar uma sensação permanente de decadência e isolamento, refletindo tanto o ambiente rural onde os acontecimentos decorrem, como o estado mental do protagonista.
Além isso, a caracterização das personagens também merece destaque. Mesmo as personagens secundárias possuem profundidade suficiente para parecerem pessoas reais, com medos, limitações e emoções credíveis. Isso torna os acontecimentos ainda mais perturbadores, porque o horror não surge num universo fictício distante, mas num contexto humano reconhecível.
Em termos de edição, este livro da editora brasileira Darkside - que adquiri na loja Casa da BD, em Lisboa - apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, bom papel baço e um bom trabalho ao nível da impressão, encadernação e acabamentos. No final, há ainda um conjunto de apêndices bem-vindos que nos falam sobre os factos concretos relatados e ainda nos oferecem entrevistas a George Arndt e Irene Hill Baileu, que estudaram Ed Gein ao pormenor, bem como algumas fotografias do assassino. Parece-me que as ilustrações de Eric Powell mereciam um formato um pouco maior em dimensão para melhor respirarem, mas, fora isso, estamos perante uma bela edição.
Enquanto banda desenhada, Ed Gein é um exemplo notável do potencial do meio para abordar temas complexos e difíceis. Trata-se de uma obra que demonstra bem como a BD pode ser tão poderosa e impactante quanto qualquer romance ou filme. Na verdade, até considero que esta BD ultrapassa em qualidade a série da Netflix.
Em suma, Ed Gein é uma leitura fantástica e uma das bandas desenhadas mais pesadas que já li. É uma experiência exigente, por vezes quase sufocante, mas que recompensa quem procura uma leitura madura, intensa e intelectualmente estimulante. Poucas obras conseguem provocar simultaneamente fascínio, horror e reflexão de forma tão eficaz. A combinação entre a escrita rigorosa de Harold Schechter e a arte magnífica de Eric Powell resulta numa obra memorável, capaz de nos confrontar com algumas das facetas mais sombrias da condição humana. Não é um livro para todos os leitores, mas para quem tiver estômago para mergulhar numa escuridão tão profunda. Quem é que aceita o desafio?
NOTA FINAL (1/10):
9.8
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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Ed Gein
Autores: Harold Schechter e Eric Powell
Editora: Darkside
Páginas: 224, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 26 x 17 cm
Lançamento: Maio de 2022
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