sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Análise: Peregrinação (Volumes 1 e 2)

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge

Uma das poucas obras da coleção Clássicos da Literatura Portuguesa em BD que teve direito a ser um álbum duplo, foi este Peregrinação que adapta para banda desenhada a célebre obra de Fernão Mendes Pinto. Tendo em conta que a obra original tem mais de 600 páginas, compostas por descrições detalhadas sobre as extraordinárias viagens, naufrágios, cativeiros, combates e encontros de Fernão Mendes Pinto pelo Oriente no século XVI, parece-me que a opção por dois volumes, foi mais que acertada.

A adaptação para banda desenhada é-nos dada por João Miguel Lameiras, no argumento, e Miguel Jorge, nos desenhos. Ambos os autores já tinham adaptado outro clássico da literatura portuguesa para BD: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. A edição da obra volta a surgir através da parceria entre a Levoir e a RTP.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
E mesmo sendo esta adaptação em dois volumes, parece-me que João Miguel Lameiras tinha aqui uma hercúlea tarefa de resumir tantas páginas para cerca de 100 páginas de banda desenhada. Tendo em conta a variedade de episódios narrados e a própria natureza híbrida do texto original, esta adaptação era, portanto, um desafio considerável. Mas pode-se dizer que o trabalho de Lameiras se revela bastante sólido e meritório, sendo capaz de preservar a essência da obra sem a reduzir a uma simples sucessão de acontecimentos.

Coisa que, convenhamos, acontece várias vezes em várias adaptações de clássicos para banda desenhada. Muitas vezes, bem o sabemos, este tipo de obras transforma-se numa espécie de resumo ilustrado, útil do ponto de vista pedagógico, mas incapaz de transmitir a complexidade e o espírito do material de origem. Não diria que a complexidade da obra original esteja presente nestes dois livros, mas não deixa de ser verdade que se sente um genuíno esforço para preservar o carácter errante da viagem de Fernão Mendes Pinto e a sucessão de aventuras, perigos, encontros culturais e momentos de descoberta que definem a obra original. É óbvio que é uma obra de maior propensão didática - como também o é a maioria dos álbuns desta coleção, recorde-se - mas, mesmo assim, apreciei este esforço dos autores.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
Particularmente interessante é a forma como a narrativa consegue preservar a sensação de maravilhamento que caracterizou o relato de Fernão Mendes Pinto. O contacto com povos, costumes, religiões e paisagens desconhecidas continua a desempenhar um papel central, permitindo-nos acompanhar a viagem não apenas como uma sucessão de deslocações geográficas, mas também como uma permanente descoberta do mundo. 

No plano visual, porém, os resultados revelam-se mais irregulares. Miguel Jorge demonstra, em vários momentos, possuir uma capacidade assinalável para construir vinhetas interessantes e visualmente apelativas. Existem ilustrações cuja composição impressiona pela capacidade de transmitir a escala das viagens e dos ambientes orientais. Nesses momentos, diria que a obra alcança um nível gráfico bastante elevado.

Contudo, essa qualidade não é mantida de forma consistente ao longo dos dois volumes. Existem sequências em que o desenho parece menos cuidado ou menos expressivo, gerando uma sensação de desigualdade que acompanha toda a leitura. Essa irregularidade acaba por impedir que a componente gráfica atinja o nível qualitativo que, estou certo, poderia atingir.

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
As cenas de ação constituem provavelmente o exemplo mais evidente dessas fragilidades. Apesar da frequência de batalhas e confrontos ao longo da história, nem sempre as personagens transmitem o dinamismo esperado. Em diversas ocasiões, as figuras apresentam poses excessivamente rígidas, fazendo com que as cenas de ação fiquem alto estáticas, o que reduz, obviamente, parte da tensão dramática que esses momentos exigiriam.

Também o trabalho cromático de Inês Lima suscitou-me impressões contraditórias. Há passagens em que a cor contribui de forma muito eficaz para criar atmosferas distintas. Porém, noutras ocasiões, a aplicação da cor parece mais superficial - talvez demasiadamente digital? - sem acrescentar profundidade suficiente às imagens. Tal como acontece com o desenho, a sensação predominante é a de uma qualidade variável, alternando entre momentos bastante conseguidos e outros algo medianos.

Um aspeto particularmente agradável da leitura é a inclusão de diversas referências visuais e pequenos easter eggs dispersos pela narrativa. Só para nomear alguns, posso dizer que apreciei especialmente a referência ao célebre quadro de Théodore Gericault, A Jangada da Medusa, ou o aparecimento de uma personagem com os mesmos traços faciais de um dos mais famosos autores portugueses de banda desenhada. Quem será?

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP
A edição dos livros é, à boa maneira dos restantes livros da mesma coleção, em capa dura baça, com bom papel brilhante no miolo, boa encadernação e boa impressão. Em cada um dos livros encontramos, no final, um dossiê de extras, elaborado por Paulo Silva Pereira, com informações adicionais sobre Fernão Mendes Pinto, a obra Peregrinação e o contexto histórico de ambos. 

Uma nota negativa para uma questão que, não sendo enorme, merece, quanto a mim, referência. Quando colocadas lado a lado, as lombadas dos livros - que têm exatamente o mesmo texto, exceptuando a menção ao facto de serem o "Peregrinação I" ou o "Peregrinação II" - apresentam o texto de forma bastante diferente. É a mesma font, sim, mas o texto aparece com um espaçamento e dimensão demasiadamente diferente. Sei que é uma coisa pequena, que não é isso que tira valor à obra, mas considero que é nestes (não tão) pequenos que está a diferença entre uma edição rigorosa e menos rigorosa.

No balanço final, Peregrinação afirma-se como uma adaptação competente e relevante de um dos maiores clássicos da literatura portuguesa. Não é uma obra isenta de falhas, sobretudo devido à sua natureza graficamente intermitente, mas consegue cumprir aquilo que era a sua missão fundamental: oferecer uma transposição acessível, respeitosa e suficientemente abrangente do texto de Fernão Mendes Pinto. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Fichas técnicas
Peregrinação - Primeira Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Maio de 2024

Peregrinação (Volumes 1 e 2), de João Miguel Lameiras e Miguel Jorge - Levoir e RTP

Peregrinação - Segunda Parte
Autores: João Miguel Lameiras e Miguel Jorge
Adaptação da obra original de: Fernão Mendes Pinto
Editora: Levoir
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 mm
Lançamento: Outubro de 2024

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