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quinta-feira, 16 de julho de 2026

Análise: A Longa Marcha de Lucky Luke

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

Depois dos muito bem recebidos - quer por crítica, quer por público - O Homem Que Matou Lucky Luke e Procura-se Lucky Luke, Matthieu Bonhomme está de volta com o seu terceiro álbum em que revisita a personagem de Lucky Luke, "o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra" e, também, o cowboy mais célebre da banda desenhada.

Este álbum está inserido na coleção Lucky Luke Visto Por... que já conta com oito volumes, todos publicados por cá pela editora A Seita. Gosto bastante desta coleção, pois considero que tem permitido que diferentes autores reinterpretem Lucky Luke, possibilitando a exploração de novas camadas da personagem e das duas aventuras. E Matthieu Bonhomme surge, quanto a mim, claramente isolado face aos demais autores, brindando-nos com os melhores livros da série. E este A Longa Marcha de Lucky Luke, mesmo sendo, por ventura, o livro que menos me impressionou dos três do autor, continua a ser um bom e sólido álbum, que vos convido a ler.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Nesta aventura, Lucky Luke vê-se envolvido numa longa e perigosa travessia pelas florestas geladas do norte dos Estados Unidos, mais concretamente em território da tribo Lakota, sendo acompanhando por um jovem índio branco Nuvem-Vermelha, numa missão que rapidamente ultrapassa os contornos de uma simples missão de escolta. O que começa como uma tarefa relativamente simples transforma-se numa jornada de proteção, sobrevivência e confronto com interesses económicos que ameaçam uma comunidade inteira.

A premissa é eficaz e oferece ao autor um terreno fértil para explorar temas contemporâneos sem abdicar dos códigos clássicos do western. Ao longo da viagem, somos confrontados com a luta pela posse de terras, com a exploração de recursos naturais e com a pressão exercida por figuras de poder económico sobre comunidades mais vulneráveis. Bonhomme utiliza, com desenvoltura, o imaginário do Oeste americano para refletir sobre problemas que permanecem atuais, tecendo as suas próprias críticas ao mundo em que vivemos. O que é algo bem-vindo.

O próprio vilão da história não podia ser mais óbvio, já que o próprio nome, Ronald Cramp - uma clara ligação a Donald Trump - surge como a personificação de um capitalismo agressivo e predatório, interessado apenas no lucro e completamente indiferente às comunidades que prejudica. E também a dimensão ecológica da narrativa merece destaque, pois a terra, enquanto território, não é apresentada apenas como um recurso económico, mas como parte integrante da identidade de um povo e do equilíbrio natural do espaço em que vivemos. 

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Um dos aspetos mais interessantes da narrativa deste A Longa Marcha de Lucky Luke reside na forma como Lucky Luke assume um papel que não lhe é habitual. Tradicionalmente retratado como um herói solitário, independente e de passagem, surge aqui investido de uma responsabilidade mais prolongada enquanto protetor de uma criança. A ligação que estabelece com Nuvem-Vermelha acrescenta uma dimensão emocional invulgar à personagem e permite explorar facetas mais humanas do cowboy. Confesso que até comecei por não gostar particularmente desta personagem de Nuvem-Vermelha, pois parecia-me demasiadamente unilateral e pouco trabalhada, mas reconheço que, ao longo da narrativa, e especialmente mais para o final da obra, Bonhomme conseguiu fortalecer a relação da criança com o protagonista, o que dá boas sensações ao leitor. E permite, claro, que a história fique mais profunda e verossímil, pois sem nunca perder a sua natureza reservada, a personagem de Lucky Luke acaba por revelar uma proximidade e uma preocupação que o tornam mais profundo e acessível do que o habitual, desempenhando, por vezes, uma figura quase paternal na vida de Nuvem-Vermelha. Já em Lucky Luke - Os Indomados, de Blutch, isso tinha acontecido, mas neste caso parece-me que esse feito é alcançado com uma dose de maior poesia e maturidade. 

No entanto, apesar do interesse dos temas abordados, é precisamente ao nível da construção narrativa que o livro me parece ficar um pouco aquém dos anteriores trabalhos de Bonhomme. Existe a sensação de que a história procura conciliar demasiadas ideias em simultâneo: a jornada iniciática de uma criança, a crítica ao capitalismo, a defesa do ambiente, a questão da herança e da propriedade da terra, bem como o comentário político contemporâneo. Nenhum destes elementos é propriamente mal desenvolvido, mas fica-se pela rama, fazendo com que o conjunto acabe por transmitir uma certa sensação de alguma dispersão.

Há também uma inevitável sensação de déjà vu. Quando reduzimos a história aos seus elementos fundamentais, nomeadamente: 1) uma criança perseguida por interesses económicos; 2) um magnata disposto a tudo para obter terras que não lhe pertencem moralmente e 3) um herói encarregado da  proteção e escolta dessa criança; percebemos que se trata de uma estrutura narrativa amplamente utilizada, não só no western, em concreto, como em histórias de aventura, em termos gerais. Bonhomme consegue introduzir algumas nuances interessantes, concedo, mas raramente consegue libertar-se completamente dessa familiaridade.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
Mesmo assim, não foi isso que mais me apoequentou nesta leitura, pois o aspeto que me parece menos conseguido em A Longa Marcha de Lucky Luke é a introdução dos irmãos Dalton na história. Que fique bem assente que eu adoro os irmãos Dalton. E saber que os mesmos entrariam nesta terceira aventura de Bonhomme até começou por me deixar satisfeito. Todavia, esta opção simplesmente não funciona. E é fácil perceber porquê: é que a representação dos quatro irmãos segue de forma muito próxima a tradição humorística estabelecida por Morris e Goscinny, surgindo como figuras essencialmente estúpidas e caricaturais. Em circunstâncias normais - leia-se na série canónica - isso seria perfeitamente legítimo e bem-vindo. Contudo, dentro do universo criado por Bonhomme para Lucky Luke, esta abordagem gera alguma estranheza e um total deslocamento de Joe, William, Jack e Averell. Recordo que desde O Homem que Matou Lucky Luke, Bonhomme tem construído uma visão mais realista, sóbria e madura deste universo, com as personagens a serem mais humanas, os conflitos mais ambíguos e a violência mais plausível. Por isso, a presença dos Dalton nesta versão excessivamente cómica parece pertencer a um registo diferente da restante narrativa, quebrando o tom da mesma. Tendo em conta que os Dalton até nem são tão importantes assim para a forma como a narrativa se desenrola, até fica a ideia que estão ali mais por um motivo comercial, para agradar a antigos fãs da série. Mas o resultado é, pelo menos quanto a mim, o oposto. 

Em consequência, a narrativa revela ocasionalmente um certo caráter remendado. A sucessão de acontecimentos é suficientemente fluida para manter o interesse, mas falta-lhe talvez a força e a unidade dramática de O Homem que Matou Lucky Luke ou de Procura-se Lucky Luke. Não me interpretem mal: a obra continua a ser sólida e envolvente, e volta a estar entre os melhores desta coleção, porém fica um pouco - não muito - aquém dos álbuns anteriores de Bonhomme. 

Já graficamente, Matthieu Bonhomme volta a confirmar o enorme talento que o tem tornado  numa das vozes mais interessantes da banda desenhada franco-belga mais recente. O seu traço semi-realista afasta-se claramente do estilo original da série, mas preserva-lhe a essência. E acho que este equilíbrio não é nada fácil de conseguir. Requer muito talento e capacidade. Isto porque reconhecemos imediatamente Lucky Luke, apesar de praticamente todos os detalhes que compõem a personagem terem sido reinterpretados por Matthieu Bonhomme. E quão especial é esse feito? Trata-se de uma harmonia difícil entre fidelidade e reinvenção que o autor domina com grande habilidade.

A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita
As paisagens nevadas constituem um dos grandes triunfos visuais do álbum. A vastidão dos espaços, o silêncio transmitido pelos cenários e a dureza das condições naturais criam uma atmosfera muito particular, simultaneamente bela e ameaçadora. E a opção de manter o vilão Ronald Cramp frequentemente oculto ou envolvido em sombras funciona igualmente bem, reforçando a sua dimensão quase misteriosa e ameaçadora. Em termos visuais, parece-me que Bonhomme continua a evoluir e, nesse ponto em concreto, este até pode ser o melhor dos seus Lucky Luke.

Já agora, permitam-me dizer ainda que o autor também é um excelente capista. Todas as capas dos seus livros de Lucky Luke têm sido espetaculares, e este A Longa Marcha de Lucky Luke não é exceção.

Quanto à edição, estamos perante mais um bom trabalho da editora A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, bom papel baço e um belo trabalho a nível de impressão, encadernação e acabamentos. No final do livro, há ainda um dossier de extras, com 10 páginas, que inclui esboços, estudos de capa e de pranchas, que são um deleite para observarmos. Tal como em edições anteriores, a loja Wook recebeu uma capa exclusiva - também ela muito bonita.

Em suma, A Longa Marcha de Lucky Luke é uma leitura muito recomendável, que confirma a qualidade da abordagem de Bonhomme à célebre personagem. Embora fique, na minha opinião, um pouco abaixo dos seus dois álbuns anteriores, continua a oferecer uma visão inteligente, pessoal e respeitosa do cowboy solitário que tantas gerações de leitores tem conquistado. Pela ambição temática, pela inegável qualidade gráfica e pela capacidade de dialogar simultaneamente com a tradição e com o presente, merece ser lido por toda a gente.


NOTA FINAL (1/10):
8.5





Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme - A Seita

Ficha técnica
A Longa Marcha de Lucky Luke
Autor: Matthieu Bonhomme
Editora: A Seita
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
Lançamento: Abril de 2026



quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Seita edita novo "Lucky Luke" de Matthieu Bonhomme!



Já está disponível o mais recente livro de Lucky Luke, da coleção Lucky Luke Visto Por..., que a editora A Seita tem vindo a publicar em Portugal!

O novo título chama-se A Longa Marcha de Lucky Luke e volta a trazer-nos a interpretação do "cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra" de Matthieu Bonhomme, autor que já nos deu os belíssimos Procura-se Lucky Luke e O Homem Que Matou Lucky Luke. Que são, aliás, os melhores álbuns da série, quanto a mim. Pelo que, não fosso negar, estou muito curioso para mergulhar nesta terceira aventura da personagem que Bonhomme arquiteta.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

“Talvez ainda estejamos a tempo de salvar o nosso mundo!”

Uma aventura de Lucky Luke nas florestas geladas e percorridas por lobos do território Lakota, no norte da América, na companhia de um jovem rapaz, Nuvem-Vermelha… um western simultaneamente clássico e actual, que demonstra mais uma vez o virtuosismo gráfico de Matthieu Bonhomme! A edição portuguesa d’A Seita inclui um caderno de extras adicional.

Nascido em Paris, em 1973, Matthieu Bonhomme iniciou-se na BD como assistente de Christian Rossi, o extraordinário desenhador que substituiu Jean ‘Moebius’ Giraud como desenhador da série Jim Cutlass – o “outro” western a que o desenhador do Tenente Blueberry esteve ligado.

Grande fã do western, Bonhomme confessa que “aprendi a desenhar com Lucky Luke, série que foi um dos pilares da minha formação como leitor” e agarrou a possibilidade de escrever e desenhar uma aventura da sua personagem preferida sem hesitação, e produziu um dos mais aclamados álbuns do cowboy de Morris, “O Homem que Matou Lucky Luke”. Vencedor de vários prémios em Angoulême ao longo da sua carreira, Bonhomme voltou ao período do western com a sua série ‘Charlotte Imperatriz’, sobre a princesa belga que se tornou imperatriz do México em 1864, antes de assinar “Procura-se Lucky Luke”. 

Neste momento é de longe o mais popular e aclamado autor de homenagens a Lucky Luke, pelo que não se estranha que neste ano em que se festejam os 80 anos do cowboy que dispara mais rápido que a sombra, tenha regressado ao seu universo com eles “A Longa Marcha de Lucky Luke”.

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Ficha técnica
A Longa Marcha de Lucky Luke
Autor: Matthieu Bonhomme
Editora: A Seita
Páginas: 88, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 320 mm
PVP: 18,99€

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Análise: Lucky Luke - Dakota 1880

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno

Com já sete volumes editados até à data - e estando nós perto de vermos chegar um novo Lucky Luke por Matthieu Bonhomme - a verdade é que esta série Lucky Luke Visto Por... , que A Seita nos tem feito chegar, já apresenta um conjunto bastante interessante e alargado de obras e autores. Este Dakota 1880, com argumento de Appollo e ilustração de Brüno, é a mais recente entrada na coleção.

Eis-nos perante uma banda desenhada que revisita o imaginário do faroeste, e de Lucky Luke em particular, para nos contar uma história maior dividida em várias histórias mais curtas. E fá-lo abordando este ícone da banda desenhada mundial com respeito, inteligência e uma clara vontade de o compreender para lá da caricatura. 

Talvez por isso, este álbum não parece focado em tentar competir diretamente com a série canónica criada por Morris; antes, propõe-se a dialogar com ela, preenchendo lacunas, explorando silêncios e oferecendo uma leitura mais séria e madura de um herói que todos julgamos conhecer de cor e salteado.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Acontecendo, como o próprio título da obra indica, no ano de 1880 e nas terras áridas do Dakota, a narrativa acompanha Lucky Luke numa fase anterior àquela que o consagrou enquanto figura lendária do Oeste. Aqui, Lucky Luke ainda é um jovem que trabalha enquanto guarda de uma diligência que viaja até à Califórnia. Esqueçam os irmãos Dalton, o Rantanplan e até mesmo Jolly Jumper. Aqui, temos apenas Lucky Luke. Mas o cowboy não está só. São várias as personagens históricas que desfilam diante de si nesta viagem atribulada. Louis Riel, Annie Oakley, Paul V. Sullivan, John Arthur Cullingam, Curly Wilcox ou Baldwin Chenier são apenas algumas dessas personagens. É uma travessia física, mas também simbólica, em que o mito começa lentamente a ganhar forma.

A estrutura do álbum assenta em sete histórias curtas, inspiradas por relatos e personagens históricas reais. À primeira vista, esta opção episódica poderia sugerir uma leitura fragmentada, mas rapidamente se percebe que Appollo constrói algo mais ambicioso. Cada episódio acrescenta uma camada à personagem e ao contexto, funcionando como peças de um mesmo percurso narrativo, que ganha coerência e fôlego à medida que avançamos. E como são histórias que acontecem durante a viagem de diligência - ou, pelo menos, nos são contadas durante essa travessia -, há todo um fio condutor que granjeia dinâmica e unidade à soma do todo. Não estamos, portanto, perante uma antologia de histórias curtas sobre Lucky Luke. Não. Estamos perante uma história que se espraia por sete capítulos que, mesmo podendo parecer distantes entre si, contribuem para um todo. E esta opção narrativa é muito bem conseguida.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
Há uma continuidade temática e emocional que liga todos estes diferentes encontros e situações, criando a sensação de estarmos perante uma única grande viagem, marcada por perigos, descobertas e pequenas epifanias. É nesse percurso que Lucky Luke começa verdadeiramente a tornar-se Lucky Luke.

Um dos aspetos mais interessantes do álbum é precisamente a forma como nos é revelada a origem da alcunha “Lucky”. Sem recorrer a grandes dramatismos ou explicações forçadas, Appollo integra esse momento na narrativa de forma orgânica, quase casual, mas suficientemente marcante para ganhar peso simbólico. Passando-se a ação no ano de 1880, fica claro que estas são as primeiras aventuras da personagem, ainda antes de Morris, o seu criador, nos ter dado a sua primeira aventura com Arizona.

O leque de personagens secundárias é outro dos pontos fortes da obra. Escravos libertos, mulheres determinadas, fotógrafos visionários, poetas e pistoleiros cruzam-se com Lucky Luke de forma episódica, mas nunca gratuita. Cada encontro serve para refletir uma faceta do Oeste americano e, ao mesmo tempo, para revelar algo do próprio protagonista, mesmo quando este permanece, como sempre, lacónico e reservado.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
No campo gráfico, o trabalho de Brüno destaca-se pela sua aparente simplicidade. O seu traço linear, direto e em linha clara pode, à primeira vista, parecer minimalista, mas revela-se profundamente eficaz. Há uma elegância discreta no desenho, uma clareza narrativa que nunca distrai da história, antes a serve com rigor e contenção.

Não me é, pois, difícil imaginar este traço a ilustrar outras grandes séries clássicas da BD franco-belga. Imagino, por exemplo, Brüno a ilustrar com sucesso séries como Blake e Mortimer ou mesmo Tintin - caso fosse possível que outros autores ilustrassem histórias do famoso repórter, claro está.

E embora a abordagem estética contribua para uma (bem-vinda) atmosfera séria e quase melancólica do livro, também reconheço que pode parecer algo fria para alguns leitores. Especialmente para os fãs mais acérrimos da série canónica. As personagens surgem por vezes algo rígidas, com expressões contidas e gestos pouco expansivos. Ainda assim, tendo em conta o tom da narrativa, não considero que isso funcione necessariamente mal. Pelo contrário, essa contenção reforça a ideia de um Oeste duro, pouco dado a sentimentalismos, mas que, ao mesmo tempo, abre espaço para algumas paisagens idílicas.

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
E já que falo na componente séria deste Dakota 1880, permitam-me afirmar que é precisamente nesta abordagem mais séria e realista que, quanto a mim, este tipo de adaptações de Lucky Luke Visto Por... melhor funciona. Sempre que os álbuns da coleção tentam recuperar o humor da série canónica - e mesmo quando o conseguem pontualmente - acabam inevitavelmente por ser comparados com algo que dificilmente superam. O humor visual dos desenhos de Morris, bem como os argumentos divertidos de Goscinny - depois reproduzidos com maior ou menor sucesso por outros autores que se lhes seguiram, como Achdé nas ilustrações, e um conjunto alargado de argumentistas - raramente conseguem ser superados nos Lucky Luke Visto Por... que procuram ser humorísticos. Por outro lado, as abordagens mais sérias das duas adaptações assinadas por Matthieu Bonhomme e, agora, este Dakota 1880, permitem que esta iniciativa faça aquilo que deve fazer: humanizar a personagem e o seu universo, libertando-os para algo diferente. Dito por outras palavras, uma coisa é um músico tocar uma canção feita por outro músico, fazendo-o da forma mais parecida possível com o original. Outra coisa, mais interessante a meu ver, é um músico pegar na mesma canção e mudá-la completamente. É assim que nascem as verdadeiras homenagens. 

Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita
É que, ao optar por uma leitura mais madura, Dakota 1880 oferece-nos um Lucky Luke mais humano, mais vulnerável e, paradoxalmente, mais próximo do leitor. Não perde o estatuto de herói, mas ganha profundidade. Passa a ser alguém moldado pelas circunstâncias, pelos encontros e pela dureza do caminho, e não apenas um símbolo imutável.

Em termos de edição, voltamos a ter um bom trabalho d' A Seita. O livro apresenta capa dura brilhante, com bom papel baço no interior. A encadernação e a impressão são boas. No final, há ainda uma curiosa entrevista de duas páginas com Gustav Frankenbaum. Nota para a opção da editora em lançar a obra com uma capa alternativa - exclusiva da loja online Wook - e dois ex-libris: um para os 100 primeiros leitores que compraram o livro no site da editora, e outro para os primeiros 100 compradores da versão da Wook.

No balanço geral, Lucky Luke - Dakota 1880 é um belo livro e uma homenagem muito bem conseguida ao "cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra". Se excluirmos os álbuns de Matthieu Bonhomme - que considero os melhores desta coleção - Dakota 1880 é, muito provavelmente, o ponto mais alto de Lucky Luke Visto Por…. Não é um livro que seja uma obra prima, mas é uma obra bastante sóbria, bem pensada e carregada de bom gosto autoral. 


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Lucky Luke - Dakota 1880, de Appollo e Brüno - A Seita

Ficha técnica
Lucky Luke - Dakota 1880
Autores: Appollo e Brüno
Editora: A Seita
Páginas: 64, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 24,5 x 33 cms
Lançamento: Novembro de 2025