sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Análise: Jane nas Nuvens

Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre - Arte de Autor

Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre

A editora Arte de Autor surpreendeu tudo e todos quando, há poucas semanas, fez saber que editaria uma nova coleção, intitulada Curtas de BD, que é composta por quatro livros, cada um com 32 páginas, editados em capa mole, e com a participação de autores sugestivos da banda desenhada como Jordi Lafebre, Pierre-Henry Gomont, Cristina Bueno ou Javi Rey. 

A coleção abre com este Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre, autor que tanto admiro e que do qual ainda está para vir o primeiro livro que não é do meu agrado. Obras como Verões Felizes, Apesar de Tudo, Brigada de Costumes, Lydie, Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido ocupam um lugar muito especial na minha coleção de BD.

E este Jane nas Nuvens, embora seja uma obra de pequena dimensão, não me deixou minimamente defraudado. É um daqueles livros que conseguem criar um universo próprio em poucas páginas. A história apresenta-nos Jane Ground, uma jovem inglesa do início do século XIX que vive marcada pela narcolepsia, condição que a faz adormecer nos momentos mais inesperados. Mas longe de se resignar às limitações impostas pela sua doença ou, diria também, pelas convenções do seu tempo, Jane sonha com algo tão improvável quanto fascinante: aprender a voar de balão de ar quente. Para tal demanda, tem ao seu lado o seu amigo de infância, Timothy, alguém que é incapaz de tomar decisões e cuja personalidade é a perfeita antítese da energia destemida da protagonista.

Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Assim sendo, o voo que Jane e Timothy se propõem realizar, funciona sobretudo como uma metáfora da liberdade, da superação e da procura de identidade. Jane deseja, por um lado, elevar-se acima das limitações que a sociedade e o próprio corpo lhe impõem, enquanto Timothy procura libertar-se da insegurança que o acompanha. Se o conseguem ou não, terão que ler o livro. Apesar das escassas 32 páginas, Lafebre consegue criar uma boa história, com princípio, meio e fim(?), personagens memoráveis e ainda uma boa mensagem. 

Ainda assim, o reduzido número de páginas acaba por ser simultaneamente uma virtude e uma limitação. Se estivermos acostumados às narrativas mais longas do autor, é natural que sintamos que o livro termina demasiado depressa. A história está bem construída, funciona enquanto relato autónomo e oferece uma conclusão coerente, sim, mas permanece uma sensação de potencial por explorar. E senti que gostaria de passar mais tempo na companhia destas personagens e de aprofundar algumas das suas inquietações e sonhos.

Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
Se posso dizer algo menos positivo é que achei a personagem de Jane algo parecida com Eva Rojas, de Sou o Seu Silêncio ou Sou um Anjo Perdido. Talvez menos "louca", mas bastante parecida. Evidentemente, Jane possui traços próprios e uma personalidade distinta, mas certas atitudes, expressões e formas de encarar a vida evocam inevitavelmente essa personagem anterior. Não chega a constituir um problema sério, sobretudo porque Eva Rojas é uma das melhores criações de Lafebre, e uma personagem que eu adoro, mas gera uma ligeira sensação de déjà vu.

No plano gráfico, porém, temos um "prato cheio" em termos de qualidade. Os desenhos de Jordi Lafebre continuam absolutamente esplêndidos. Poucos autores contemporâneos possuem uma capacidade tão evidente para transmitir emoções através das expressões faciais das personagens. Bastam duas ou três vinhetas para compreendermos o estado de espírito de Jane ou Timothy, algo que revela um enorme domínio dos recursos narrativos da banda desenhada, por parte de Lafebre.

Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre - Arte de Autor
A expressividade das personagens é acompanhada por um sentido notável de composição visual. Os enquadramentos são cuidadosamente construídos, a planificação mantém um excelente ritmo de leitura e os cenários revelam um impressionante nível de detalhe. As cores merecem igualmente destaque. Lafebre recorre a uma paleta luminosa e acolhedora, capaz de transmitir simultaneamente a tranquilidade dos campos ingleses e a vertigem das alturas.

Neste livro em particular, o autor parece ter experimentado a utilização de algumas ferramentas digitais, mais perceptíveis na folhagem das árvores, na relva e no desenho dos céus e das nuvens, que inicialmente se estranha um pouco, mas que acaba por não funcionar mal.

Em termos de edição, o livro apresenta capa mole, brilhante e sem badanas, e, no miolo, o papel utilizado é brilhante e de boa qualidade. É um tipo de edição bastante incomum para a Arte de Autor, que normalmente edita livros em capa dura e com bastante requinte em termos de materiais, mas que se justifica e é bem-vindo, por ter claramente o intuito de chegar a um outro tipo de público e formar novos leitores. E, relembre-se, para um preço abaixo dos 12,00€, que é raro nos dias atuais, parece-me uma edição bem conseguida. Nota ainda, positiva, para a introdução do título da obra e do nome do autor na lombada. Parece um detalhe - e é -, mas para mim é um detalhe importante, pois permite que, quando arrumado, seja fácil de encontrar o livro em coleções grandes de banda desenhada. 

Em suma, Jane nas Nuvens confirma o enorme talento de Jordi Lafebre enquanto contador de histórias e autor gráfico. A verdade é que estas 32 páginas, que não são assim tão poucas quanto à primeira vista parecem, conseguem contar uma história completa, emocionante e visualmente deslumbrante. Pode deixar um certo sabor a pouco, mas talvez essa seja precisamente a melhor prova do sucesso da obra: quando termina, tudo o que apetece é continuar a voar ao lado de Jane.


NOTA FINAL (1/10):
8.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Jane nas Nuvens, de Jordi Lafebre - Arte de Autor

Ficha técnica
Jane nas Nuvens
Autor: Jordi Lafebre
Editora: Arte de Autor
Páginas: 32, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 17 x 24
Lançamento: Outubro de 2026

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