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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Análise: Tudo no Máximo


Tudo no Máximo, de Sarah Lippett e Ziggy Hanaor

Foi recentemente que a Nuvem de Letras, uma chancela da Penguin, editou este Tudo no Máximo, de Sarah Lippett e Ziggy Hanaor.

Trata-se de uma banda desenhada especialmente direcionada para um público adolescente que, não obstante, pretende abordar alguns temas mais densos e sérios, como o bullying e a afirmação dos adolescentes numa altura em que as suas hormonas se encontram à flor da pele. 

A história é centrada em Nel, uma adolescente de quinze anos que atravessa um período particularmente difícil da sua vida. Na escola, toda a gente goza com ela e tem poucos amigos, à excepção de Kit. Ninguém parece compreender as reais necessidades desta jovem e esta acaba por se refugir na música. É quando está a ouvir os seus cantores e bandas favoritos que Nel parece encontrar algum tipo de consolo. Por oposição, ela tem um irmão gémeo, Ludo, a quem tudo parece correr bem: ele é popular, tem muitos amigos, pertence a uma banda e até parece obter uma maior aceitação por parte da mãe de ambos. 

Tudo isto acaba por fazer com que a Nel se rebele - e acabe por explodir - contra tudo e contra todos. Mesmo assim, de um momento para o outro, o feitiço parece virar-se contra o feiticeiro e, inesperadamente, Nel vê-se enquanto figura popular na escola, pertencendo até a uma banda de rock, enquanto Ludo passa a encarar problemas que pareciam não o atingir no início da obra.

A narrativa acompanha os altos e baixos desta fase da adolescência, marcada pela intensidade das emoções e pela sensação de que cada problema assume proporções gigantescas para os jovens - daí o título Tudo no Máximo, que na edição original tem o nome de Everything Amplified. A obra procura, portanto, retratar a adolescência sem filtros, mostrando uma fase da vida em que a identidade ainda está em construção e em que as emoções surgem amplificadas. A tristeza, a raiva, a vergonha ou a felicidade são sentidas de forma extrema, e diria que o livro consegue captar essa intensidade emocional com alguma autenticidade. Há aqui uma clara tentativa de reproduzir a forma como muitos adolescentes experienciam o mundo, onde cada acontecimento parece decisivo e irreversível.

A música ocupa também um papel importante neste livro, pois além de ser o tal refúgio da protagonista, também marca a nossa experiência de leitura, através da partilha de alguns pedaços de letras de canções marcantes ou através de pequenas notas biográficas de músicos tão célebres como The Carpenters, The Beach Boys, The Slits, Courtney Love, Janis Joplin, Patti Smith, Pixies, entre vários outros. Isto é particularmente interessante para os leitores mais maduros do livro que poderão encontrar nele um misto positivo de sensações nostálgicas, do tempo em que a música também lhes servia como ponto de abrigo durante as dores de crescimento experienciadas durante a adolescência. Todos nós já passámos por isso, certo?

Mesmo tendo em conta os seus bons intentos, a história acaba por ser algo superficial, com as personagens a carecerem de um melhor desenvolvimento. Além disso, o ritmo narrativo é bastante acelerado, fazendo com que alguns acontecimentos surjam e desapareçam rapidamente, sem o desenvolvimento necessário para produzirem um impacto emocional mais sério. Em determinados momentos, a história parece mais preocupada em acumular conflitos do que em explorá-los em profundidade. Acho até que abusa um pouco desses conflitos entre Nel e aqueles que a rodeiam.

E a própria relação entre Nel e Ludo - que é o motor narrativo da obra - acaba por, lá mais para o meio do livro, perder destaque, ficando quase como uma nota de rodapé. É verdade que o irmão volta a aparecer mais para o perto do final, mas sem que haja a intensidade emocional que o início da obra parecia prometer.

Esta falta de profundidade afeta também alguns dos temas mais delicados que o livro procura abordar. Questões complexas como a saúde emocional, os problemas familiares ou a exclusão social são apresentadas de forma acessível, mas raramente ultrapassam uma abordagem introdutória. 

Do ponto de vista visual, os desenhos de Sarah Lippett cumprem eficazmente a sua função narrativa. O traço é simples, limpo e facilmente legível, privilegiando a clareza da leitura em detrimento do detalhe. Não estamos perante um trabalho visualmente deslumbrante ou particularmente inovador, mas as ilustrações conseguem transmitir as emoções essenciais das personagens e acompanhar adequadamente o tom da história.

A edição da Nuvem de Letras é em capa mole com badanas. No interior, o papel utilizado é baço e de boa qualidade. A impressão e encadernação são boas. No final, estão contidas das biografias dos artistas mais presentes na obra e é incluída ainda uma playlist da personagem de Nel com um QR Code para que possamos ouvir estas músicas.

Em suma, Tudo no Máximo é uma leitura claramente direcionada para um público juvenil, sobretudo para leitores que se encontram próximos da idade da protagonista. A sua maior força reside na forma como retrata a intensidade emocional da adolescência e na homenagem sincera que presta à música enquanto espaço de refúgio e descoberta pessoal. Apesar de abordar temas importantes e facilmente reconhecíveis para muitos jovens, ou para aqueles que ainda se lembram de terem sido jovens, a narrativa nem sempre aprofunda estas questões com a consistência desejável, resultando numa obra agradável e acessível, sim, mas que dificilmente se revelará particularmente marcante ou inesquecível para leitores mais experientes.


NOTA FINAL (1/10):
5.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens dos álbuns. www.instagram.com/vinheta_2020


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Ficha técnica
Tudo no Máximo
Autoras: Sarah Lippett e Ziggy Hanaor
Editora: Nuvem de Letras
Páginas: 272, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 160 x 207 mm
Lançamento: Setembro de 2026