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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Análise: O Grande Poder do Chninkel

O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky - Arte de Autor

O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky - Arte de Autor
O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky

Seguramente um dos grandes (re)lançamentos de banda desenhada em Portugal do ano 2025, foi este O Grande Poder do Chninkel, dos autores Van Hamme e Rosinski, que hoje vos trago e que a Arte de Autor nos fez chegar no passado mês de Setembro.

Esta é uma dessas obras raras que parecem existir fora do tempo, pois, mesmo sendo lida nos dias de hoje, quase quatro décadas após a sua publicação original em 1988, mantém intacta a sua força simbólica, narrativa e visual. Van Hamme e Rosinski oferecem-nos com este O Grande Poder do Chninkel um álbum que não só marcou a banda desenhada franco-belga, como ajudou a alargar definitivamente as fronteiras do que a BD podia - e pode - ser: um espaço de reflexão filosófica, espiritual e profundamente humana.

E o mais engraçado é que, à primeira vista, nada leva a crer que esta obra seja assim tão filosófica e profunda, pois a mesma lança-nos num universo de fantasia heroica, habitado por pequenas criaturas oprimidas, guerras tribais e deuses caprichosos. Dentro do seu género, parece "mais do mesmo". Mas rapidamente se percebe que O Grande Poder do Chninkel não está interessado apenas em espadas e batalhas. O que está em jogo é algo bem mais vasto: a eterna luta entre o destino imposto e o desejo visceral de liberdade. O livre arbítrio em oposição a ser-se supostamente predestinado para isto ou para aquilo. Um tema que o argumentista Jean Van Hamme trabalha aqui com uma bela dose de clareza.

O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky - Arte de Autor
J'On, o improvável herói da história, é uma figura fascinante precisamente por não corresponder ao arquétipo clássico do salvador triunfante. Inspirado em figuras bíblicas como Moisés e Jesus, ele é simultaneamente mártir e redentor. E, por muito que o próprio J'On se convença disso, o seu verdadeiro poder não reside na força física - e muito menos na intervenção divina direta -, mas na capacidade de perdoar, de resistir ao ódio e de aceitar o sofrimento como parte do caminho. É isso, afinal de contas, o que nos faz grandiosos. Algo que já nos foi dito mil vezes, mas que parece que o acabamos por esquecer no mesmo número de vezes.

Essa dimensão espiritual da obra, com forte influência no Novo Testamento da Bíblia Sagrada e, portanto, na vida de Jesus Cristo, nunca é apresentada de forma dogmática. Pelo contrário, Van Hamme mistura referências bíblicas com um humor negro e fatalista, quase cruel, que sublinha a fragilidade da condição humana. As repetidas tentativas falhadas de J’On para conquistar a voluptuosa G'Well, a sua mais desejada do que amada, são um exemplo perfeito dessa ironia trágica que atravessa todo o álbum e lhe confere uma humanidade verossímil. Não parece haver uma crítica aguda à religião, mas, acima de tudo, uma reinterpretação dos seus cânones. Ou uma colocação dos mesmos em perspetiva.

Este universo da fantasia imaginada por Van Hamme é depois construído com uma verosimilhança impressionante e com um enorme conjunto de referências óbvias, com vários mitos a serem revisitados, desconstruídos e reinventados ao longo da obra, numa mistura ousada de fantasia heroica, inspiração bíblica e imaginário cinematográfico. E, ainda assim, o grande feito da obra é que tudo soa coeso, natural e bastante bem pensado. Continuando a mencionar algumas das referências, há aqui ecos evidentes dos hobbits de Tolkien. A estas influências juntam-se referências cinematográficas que ampliam ainda mais o alcance da obra, sendo que a alusão final a 2001: Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, com os australopitecos a dançar em torno do monólito, não é apenas um piscar de olho cinéfilo, mas uma afirmação poderosa sobre os ciclos que marcam qualquer existência, incluindo a própria evolução, fechando o álbum com uma ambição quase cósmica. 

O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky - Arte de Autor
Por falar em fecho, uma das muitas coisas cabalmente bem conseguidas com esta obra é a forma como Van Hamme conduz tudo para um final absolutamente certeiro em que nada parece aleatório ou gratuito. Um final que nos deixa um sorriso discreto no rosto e uma pergunta persistente na mente.

Não é difícil imaginar esta história adaptada ao cinema. O seu universo visual forte, a estrutura quase bíblica e o arco emocional de J’On dariam origem a um filme poderoso, capaz de dialogar tanto com o grande público como com espectadores mais exigentes. É uma narrativa que pede outras leituras, outros meios, sem nunca perder a sua essência.

Outra coisa positiva é que este livro, originalmente publicado no final dos anos oitenta, envelheceu muito bem. Este é um assunto delicado para muitos, bem sei, mas por vezes sinto que certas obras consideradas marcos na banda desenhada - com toda a legitimidade, diga-se - não envelheceram muito bem, tornando-se demasiado datadas e presas aos constrangimentos e modus operandi da própria época em que foram feitas. O Grande Poder do Chninkel não é um desses casos. Sendo uma história universal, poderá ser lida daqui a 10, 50 anos com a mesma relevância. Bem, talvez a brigada woke se choque com o flirt despudorado de de J'On a G'Wel, mas quero acreditar que não. Todos estes elementos de fantasia, bem como as mensagens e as referências se mantêm bem-vindos e atuais.

E a própria edição da obra a preto e branco também permite isso. Mais uma vez, talvez esta afirmação seja polémica, mas se há coisas em que a passagem do tempo se revela com mais veemência é na questão das cores. Mais do que o desenho, os processos de colorização passaram a ser muito diferentes com a passagem dos anos. Tal como a cor da fotografia, ou do cinema ou da televisão. E não quer dizer que a cor de obras das outras décadas seja melhor ou pior... quer dizer isso mesmo: que é de "outra época". E se isso pode agradar a um público que procura esse regresso ao passado, não agradará às franjas maiores que, entretanto, evoluíram para outras abordagens cromáticas. Ora, quando estamos a falar do preto e branco, nada disto acontece. O preto e o branco, especialmente o puro, sem escala de cinzentos, não muda e mantém-se sempre atual. Mas já falo desta questão do preto a branco novamente, mais abaixo.

O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky - Arte de Autor
Importa ainda sublinhar o trabalho de Grzegorz Rosinski, que em O Grande Poder do Chninkel nos apresenta uma criação plena de liberdade, talvez precisamente por estar fora das amarras canónicas e narrativas da série Thorgal. É óbvio que há semelhanças entre uma e outra obra em termos visuais, mas aqui, o desenhador sente-se mais solto, mais experimental, mais autoral. O preto e branco não é apenas uma opção estética, mas uma verdadeira ferramenta expressiva que lhe permite explorar contrastes, texturas e atmosferas com uma força quase visceral. Há um traço mais cru e mais arriscado que reforça a dimensão trágica e simbólica da história. O resultado é uma obra visualmente poderosa, que não serve apenas o argumento de Van Hamme, mas dialoga com ele de igual para igual, elevando O Grande Poder do Chninkel a um patamar verdadeiramente excecional.

Graficamente, Rosinski atinge, pois, com esta obra um dos pontos mais altos da sua carreira. Liberto da cor, o preto e branco ganha uma expressividade brutal. As páginas respiram, os enquadramentos são precisos e a escala das cenas impressiona ainda hoje.

A edição da Arte de Autor está um mimo para os olhos e mente. O livro apresenta capa dura baça, com verniz localizado. A lombada é em tecido e com impressão a prateado. No miolo, o papel é baço e de boa qualidade, tal como a impressão e a encadernação. Há ainda uma breve nota introdutória de João Miguel Lameiras. No final do livro, encontramos um grande dossier de extras, com 20 páginas, em que somos convidados a mergulhar ainda mais na obra. Há um texto de Benoît Mouchard e extensas entrevistas feitas aos autores Van Hamme e Rosinski, que são acompanhadas por várias ilustrações a cores, esboços e pranchas coloridas, bem como as capas dos três volumes em que a obra foi originalmente editada. É demonstrada ainda a comparação entre uma prancha a preto e branco e uma prancha colorida.

Sobre esse assunto, convém que não esqueçamos que a edição da obra a preto e branco vai ao encontro da ideia inicial dos dois autores. Esta obra foi pensada e concebida para ser a preto e branco. Portanto, são infundadas algumas das críticas que li em relação à opção da Arte de Autor por lançar a obra em preto e branco. Não se pode ser mais fiel a uma obra do que editá-la da exata forma que os autores queriam, certo? Compreendo que, com o anterior lançamento da obra na sua versão a cores, no início dos anos 2000, pela Meribérica, muitos de nós - inclusive eu - nos tenhamos apaixonado por essas cores. De facto, essas cores estavam boas. Mas, lá está, essa versão, sim, desvirtuava a ideia original que os autores tinham para a obra. Façam como eu e optem por ter as duas versões da obra em casa. Acho que justifica, sinceramente. Se só poderem ter uma, optem pela versão a preto e branco.

No fim de contas, O Grande Poder do Chninkel é uma história magnífica, poética e filosófica que ainda hoje está atual e impactante. Um verdadeiro marco da banda desenhada franco-belga, um conto universal que todos deveríamos ler - sejamos nós adeptos de BD ou não. Um daqueles livros que merece, sem discussão, um lugar de destaque numa boa estante de banda desenhada.


NOTA FINAL (1/10):
9.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky - Arte de Autor

Ficha técnica
O Grande Poder do Chninkel - Edição Integral
Autores: Van Hamme e Rosinski
Editora: Arte de Autor
Páginas: 184, a preto e branco (con caderno de extras a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Setembro de 2025

As novidades da Devir para 2026!



Hoje falo-vos das novidades que a Devir tem preparadas para 2026, com especial enfoque neste primeiro trimestre do ano.

E esperem, por parte desta editora, nada mais, nada menos, do que 30(!) novos livros de banda desenhada apenas para os primeiros três meses do ano!

Entre as obras referidas, a editora destaca a aposta numa nova série de mangá que era, há muito, muito solicitada pelo público português, a conclusão de várias séries em andamento e algumas (poucas?) novas apostas na banda desenhada de origem europeia.

Ora vejam.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Análise: Terrea

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Terrea, de Ricardo Cabral

Foi durante o último Amadora BD que as editoras A Seita e Comic Heart editaram Terrea, de Ricardo Cabral, um dos livros mais bonitos da banda desenhada nacional do ano 2025. Pelo menos, relativamente às ilustrações. Quanto à história, a conversa já será outra, mas já lá irei.

Contextualizando a obra Terrea, importa não esquecer que o projeto começou há 10 anos de forma bastante fragmentada e experimental, quando, em 2015, Ricardo Cabral auto-editou um pequeno livro composto por desenhos sequenciais que, inicialmente, nem sequer constituíam banda desenhada no seu sentido mais tradicional, mas exercícios de desenho automático com um ambiente muito próprio, advindo do universo da fantasia, que sugeriam uma narrativa. A partir daí, foram publicados ao longo dos anos vários capítulos deste universo de forma dispersa, com destaque para aquele contido na antologia TLS - The Lisbon Studio Series.

Agora, com esta recente bela edição d' A Seita e da Comic Heart, podemos mergulhar neste universo de Terrea como um todo. 

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
A história apresenta-se-nos algo complexa e difusa, onde fica claro que foi feita por camadas, ou acrescentos, à medida que ia tomando forma. Desenrola-se num universo fascinante e misterioso, onde a cidade de Terrea assume um papel central, quase mítico, como domínio da Deusa, uma figura mitológica. A narrativa constrói-se depois a partir da rivalidade entre Terrea e as enigmáticas Três Sombras, num conflito que molda o destino deste mundo fantástico, abrindo espaço para múltiplos acontecimentos simultâneos que envolvem exércitos, viajantes e dimensões paralelas.

Não é uma leitura fácil, tenho que o dizer, pois por vezes a história parece um pouco over the top no modo como é abstrata, sentindo-se a falta de um fio condutor que possa unir melhor os pontos. Consequentemente, alguns leitores poderão sentir-se perdidos. Mesmo assim, e tendo em conta a forma como esta obra nasceu, também não posso dizer que a história não seja interessante o suficiente para que a possamos acompanhar com agrado, mesmo que por vezes tropecemos em alguns eventos que parecem algo aleatórios.

Mas o que mais importa destacar nesta história(s) imaginada(s) por Ricardo Cabral é o seu fantástico worldbuilding, onde o autor português se revela muito criativo, dando-nos um mundo credível e belo de admirar, com personagens impactantes. Talvez por isso, pela conceção destes mundos e atmosferas, considero que Terrea representa, até à data, o auge da criatividade de Ricardo Cabral. A obra transmite uma sensação de vastidão e complexidade que não é comum na BD portuguesa, e isso dá-lhe uma força própria, quase épica. 

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Mas é claro que aquilo que mais sobressai neste livro é mesmo a plena e maravilhosa capacidade de Ricardo Cabral para ilustrações que são lindíssimas e cheias de detalhes, convidando-nos a que nelas nos percamos durante longos momentos para melhor as absorver, bem como ao virtuosismo técnico do autor. Posso até dizer que a narrativa de Terrea me parece mesmo um mero pretexto para a exploração gráfica. É impressionante como Cabral consegue transformar cada vinheta num espaço de descoberta, onde os pormenores visuais carregam significados tão ou mais relevantes que o texto. Cheguei mesmo a achar se a obra não teria funcionado enquanto BD muda. Talvez fosse difícil compreendermos a história sem qualquer texto, reconheço, mas não deixa de ser menos verdade que, mesmo com texto, a história não se torna muito fácil de acompanhar. Por vezes senti mesmo que certas legendas ou balões estavam ali a mais, criando ruído na vinheta que eu queria absorver com tempo e calma.

A maior parte do livro é em preto e branco. Através desta abordagem podemos ver como o desenho do autor é meticuloso e sempre muito inspirado e singular. O uso de um preto e branco puro, sem escalas de cinzentos, atribui às ilustrações de Ricardo Cabral um cariz muito artístico, a fazer lembrar, com as devidas distâncias, alguns mestres da banda desenhada clássica europeia, como Moebius, Schuiten ou Rosinski.

Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart
Cada elemento visual, por mais surreal que pareça, contribui para a construção do universo de Terrea, tornando-o verosímil dentro das suas próprias premissas. Os traços variam entre o delicado e o vigoroso, criando texturas que conferem profundidade e movimento a cada página. A composição visual é muitas vezes complexa, com sobreposições e camadas que exigem atenção detalhada, mas que recompensam o leitor com uma sensação de imersão total no mundo criado. Além disso, a criatividade gráfica de Cabral é evidente na forma como as vinhetas se organizam e se interconectam. Cada desenho parece simultaneamente autónomo e parte de uma grande tapeçaria visual, o que reforça o carácter de saga da obra. 

Mas, se o desenho a preto e branco é impressionante, o desenho a cores no único capítulo da história a cores - aquele que também apareceu em TLS - The Lisbon Studio Series - é, quanto a mim, ainda mais majestoso. É que, para além de ser um fantástico desenhador, Ricardo Cabral também é um exímio colorista e, quando presentes, as cores garridas e fortemente contrastantes, explodem com uma intensidade quase sobrenatural, contribuindo para o efeito de maravilhamento e reforçando o carácter fantástico da obra. 

A edição d' A Seita e Comic Heart está muito bonita, com o livro a apresentar capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior. O próprio grafismo do livro também é muito elegante e apelativo. Nota positiva para o facto de terem sido lançadas duas capas diferentes da mesma obra. A impressão e a encadernação são de boa qualidade e há espaço ainda, no final, para um dossier de extras com 10 páginas, que reúne um conjunto de esboços, estudos de capa, fotografias e um texto em que o autor nos conta, na primeira pessoa, a origem deste trabalho. Gostei especialmente que fosse o autor a falar da sua própria obra, pois considero que isto aumenta o seu envolvimento e, por conseguinte, o seu laço com os leitores.

Em conclusão, Terrea é uma obra que impressiona pelo virtuosismo gráfico que nos deixa sem palavras. Ricardo Cabral constrói um mundo fascinante, profundo e aberto à interpretação, onde a história, embora vaga em alguns momentos, serve como veículo para um espetáculo visual e simbólico extraordinário onde fica clara a relevância do autor para a banda desenhada nacional.


NOTA FINAL (1/10):
8.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Terrea, de Ricardo Cabral - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Terrea
Autor: Ricardo Cabral
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 164, a preto e branco (com um capítulo a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm 
Lançamento: Setembro de 2025

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Análise: Something is Killing The Children #1

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto

Foi ainda durante 2025, no final do ano, que a editora Devir se lançou numa das séries de banda desenhada de horror mais aclamadas dos últimos tempos: Something is Killing the Children, que conta com argumento de James Tynion IV, desenhos de Werther Dell'Edera e cores Miquel Muerto.

Relembro que, do argumentista James Tynion IV, já a editora nos tinha feito chegar, também no ano passado, A Bela Casa do Lago, dessa feita com ilustrações de Álvaro Martínez Bueno.

Neste primeiro volume de Something is Killing the Children, a história toma lugar numa pequena localidade americana marcada por um trauma coletivo: várias crianças desapareceram ou foram encontradas brutalmente assassinadas, e apenas uma delas, James, sobreviveu para contar a história que, expectavelmente, parece impossível àqueles que a ouvem. Isto porque, segundo James, os responsáveis por tais desaparecimentos são monstros que habitam a floresta próxima da localidade. Estes monstros são criaturas invisíveis aos olhos dos adultos, mas terrivelmente reais para as crianças. A comunidade, mergulhada no luto e na incredulidade, oscila entre o ceticismo perante as confissões do rapaz e o pânico de algo maior, e mais nefasto, que possa estar, efetivamente, a acontecer.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
É neste cenário que surge Erica Slaughter, uma figura enigmática, de comportamento frio e métodos pouco ortodoxos. Armada com uma espada e um profundo conhecimento do inimigo, com quem aparenta já ter lutado no passado, Erica acredita no testemunho de James. Mas, sendo adulta, acaba por contrariar a suposta incapacidade dos adultos para verem estas criaturas. Erica sabe que não só os monstros existem, como parecem alimentar-se do medo infantil para se fortalecerem.

Senti, logo desde o início, uma familiaridade entre Something Is Killing the Children e o imaginário da série televisiva de enorme sucesso, Stranger Things: a pequena cidade, a infância ferida e, especialmente, o sobrenatural escondido além da perceção adulta. Estes pontos em comum não se tratam propriamente de um problema, mas mais de um ponto de partida reconhecível, que até facilita a entrada do leitor neste universo de medo e perda, caso, claro está, seja apreciador de Stranger Things e outras franquias semelhantes.

Esta premissa de apenas as crianças - e alguns adultos - conseguirem ver os monstros parece-me muito interessante e com enorme potencial para desbravarmos esse mundo especial - embora potencialmente perigoso - do mundo imaginário das crianças.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
Poder-se-ia alimentar esta história com a ideia de que o horror é tanto físico quanto simbólico, utilizando os monstros como metáfora para traumas, medos e violências que os adultos se recusam a reconhecer, mas não se foi tão longe. Pelo menos por agora. Havia aqui pano para mangas, sim, todavia o desenvolvimento do enredo acaba por ser mais básico e linear daquilo que poderia ser. O que, sinceramente, me parece uma oportunidade perdida.

Entretanto, à medida que investiga os ataques na companhia de James, Erica confronta não só as criaturas da floresta, mas também a hostilidade da própria comunidade, que desconfia das suas intenções. Os combates entre Erica e os monstros sucedem-se em violentas cenas de ação.

O rápido ritmo narrativo é um dos aspetos mais evidentes do livro. As 136 páginas que compõem este primeiro volume leem-se com enorme rapidez, quase num só fôlego. Essa cadência veloz é eficaz na criação de tensão imediata e torna a leitura altamente cativante, mas cobra um preço: a ambiência de mistério, essencial a este tipo de narrativa sobrenatural, dissipa-se demasiado depressa.

À medida que os monstros surgem com clareza, o desconhecido perde força. E aquilo que inicialmente se insinua como terror difuso e psicológico da obra, transforma-se rapidamente numa ameaça concreta, visível e explicável. O suposto "medo" que emana da história deixa de se alimentar do mistério do invisível e passa a ser literal, o que empobrece ligeiramente a experiência sensorial e emocional do leitor. Pelo menos, aconteceu comigo.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
E surge aqui um "problema" - se é que lhe posso dar esse nome - e que me surpreende que ninguém o tenha referido aos autores: é que se dizemos o que é que está a matar as crianças logo no primeiro volume, destruímos rapidamente a sensação de mistério que o belo nome da série nos fez primeiramente sentir. A partir deste ponto, o título deixa de fazer pleno sentido e, a partir do segundo volume, talvez devêssemos chamar à obra "We Already Know What is Killing The Children" em vez de Something is Killing The Children. Piadolas à parte, é claro que, depois de finalizada a leitura deste primeiro volume da série, ainda é pouco o que sabemos sobre os monstros e a sua origem. Porém, parece-me óbvio que a história teria beneficiado mais se fosse revelada com uma dosagem menor de revelações logo no primeiro volume da série.

É que essa clareza precoce afeta o impacto da obra. O mistério, uma vez resolvido, deixa pouco espaço para especulação ou inquietação duradoura. O horror passa a funcionar mais como mecanismo de ação do que como campo de reflexão, aproximando a história de algo mais processual onde já sabemos o que é que as personagens têm de combater, restando apenas o como.

Ainda assim, Erica Slaughter é uma personagem extremamente carismática, que me agradou bastante. A sua postura fria, o visual marcante e a relação ambígua com as crianças conferem-lhe uma presença forte, capaz de sustentar a narrativa mesmo quando o argumento vacila. É nela que reside grande parte do interesse emocional e simbólico do livro.

Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir
No plano visual, Werther Dell’Edera apresenta um trabalho sólido e eficaz. O seu traço, menos polido e mais indie, afasta-se do registo comercial clássico dos comics americanos e encaixa bem na atmosfera sombria da história. Há uma crueza gráfica que reforça o desconforto, sobretudo nas expressões faciais, em especial nos olhares assustados das personagens, e nos corpos fragmentados pelo medo.

O trabalho do autor distingue-se ainda pela forma como ilustra o horror. Os monstros, quando surgem, são tão feitos de sombra quanto de matéria, e os rostos das personagens - especialmente das crianças - carregam uma expressividade crua que comunica medo, trauma e incredulidade sem necessidade de grandes artifícios. É um desenho que não procura seduzir pelo espetáculo, mas antes inquietar pela atmosfera, servindo muito bem a narrativa.

Em termos de edição, a Devir optou por editar este livro em capa mole, com badanas, e um papel algo fino, mas bom, no miolo do livro. De resto, a impressão e a encadernação são de boa qualidade. Nota ainda para a inclusão de uma galeria de capas alternativas, todas elas muito bonitas e impactantes.

Em suma, Something Is Killing the Children é um primeiro volume competente, envolvente e visualmente apelativo, mas longe de ser revolucionário. Funciona bem enquanto entretenimento rápido, mas perde profundidade à medida que o mistério se vai dissolvendo cedo demais. É um bom começo para quem aprecia banda desenhada de horror, ainda que não inesquecível.


NOTA FINAL (1/10):
7.6



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Something is Killing The Children #1, de James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto - Devir

Ficha técnica
Something is Killing the Children #1
Autores: James Tynion IV, Werther Dell'Edera e Miquel Muerto
Editora: Devir
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 18 x 27,5 cm
Lançamento: Novembro de 2025

Análise: Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet

Um dos lançamentos de banda desenhada que está a marcar o início deste ano - e, julgo, continuará a marcar todo o ano - é a mais recente edição da Ala dos Livros que dá pelo nome de Blast, de Manu Larcenet, autor de quem a editora portuguesa já lançou os fabulosos álbuns O Relatório de Brodeck A Estrada. Também a obra O Combate Quotidiano já teve edição em Portugal mas, dessa vez, pelas mãos das editoras A Seita e Arte de Autor.

Originalmente editada em 4 volumes, Blast é, na verdade, uma mini-série, que a editora Ala dos Livros optou por editar em dois volumes integrais. Cada livro inclui, pois, dois volumes da obra. Neste caso, este primeiro volume que acaba de chegar às livrarias é composto pelos tomos Carcaça Gorda e O Apocalipse segundo S. Jacky. E o facto da editora portuguesa já ter anunciado a edição do segundo volume integral para o segundo semestre de 2026 é uma boa notícia, pois significa que não teremos que esperar (assim) tanto tempo para podermos concluir a leitura desta singular obra.

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
A história deste Blast gira à volta de um interrogatório entre dois inspetores e o protagonista da obra, Polza, um homem cuja obesidade mórbida salta à vista no primeiro momento e que, aparentemente, está relacionado com algum crime ocorrido. Não sabemos que crime foi esse, mas são-nos dadas algumas luzes, já que o nome de Carole Oudinot é referido como estando em coma artificial e com respiração assistida. E tudo indica que Polza está implicado no ataque a essa mulher. 

Então, começando a sua história pelo princípio - mesmo pelo princípio! - Polza confidencia aos inspetores, e a nós, que a sua profissão era a de escritor mas que, após o falecimento do seu pai - uma figura de assaz relevância no seu percurso - decide largar a vida que vivia, experenciando um novo sentimento de libertação. Libertação essa que advém especialmente da sua família, à qual já não precisa de agradar, mas não só. Consequentemente, abandona a sua profissão, deixa a sua mulher e decide ser vagabundo. Não um sem abrigo, mas um vagabundo. Passa a viver na floresta e diz ter o melhor dos verões da sua vida devido a esta mudança. Pelo seu caminho de vagabundo, encontra algumas pessoas que o impactam - em especial S. Jacky que aparece na segunda parte do livro - e que, assim parece, são também a causa pela qual o obeso protagonista se encontra sentado naquela sala de interrogatório. Há, por parte de Polza, uma recusa consciente da sociedade, mas também uma apropriação romântica de viver à margem. Este homem escolhe a floresta, a errância e o verão eterno. Mas essa felicidade soa sempre suspeita, como um êxtase que cobra juros mais tarde.

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Blast
é uma descida lenta a um território onde a culpa, a memória e o corpo se entrelaçam de forma quase indissociável. Manu Larcenet não nos oferece nesta obra uma narrativa linear nem confortável; oferece-nos antes um espaço de escuta. Escuta densa, pesada, feita de pausas, silêncios e palavras que parecem sempre esconder mais do que revelam. Desde as primeiras páginas, sentimos que esta não é apenas a história de Polza, mas uma anatomia do mal-estar contemporâneo.

A estrutura do interrogatório funciona, pois, como uma moldura claustrofóbica onde tudo acontece. Dois inspetores e um homem sentado. Um corpo excessivo que ocupa o espaço físico e simbólico da sala. Polza é interrogado, mas é também ele quem conduz o ritmo, quem dita o tempo da narrativa. A verdade surge aos soluços, fragmentada, como se cada revelação exigisse um preço emocional demasiado alto para ser paga de uma só vez.

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
A obesidade mórbida de Polza não é um mero dado físico; é metáfora viva. O seu corpo parece carregar o peso de tudo aquilo que não foi dito, resolvido ou compreendido. É um corpo que incomoda, que provoca repulsa e curiosidade, tal como as suas palavras. Larcenet obriga-nos a olhar, a permanecer, a não desviar o olhar... como se a leitura fosse também um interrogatório dirigido a nós.

A narrativa em conta-gotas, sem revelar muito de nada, quais preliminares que nos embalam docemente para algo apoteótico, é uma das grandes forças de Blast. Somos conduzidos como os próprios inspetores: ouvintes atentos, desconfiados, ora repelidos, ora seduzidos pelo discurso de Polza. 

Além disso, Polza é uma daquelas personagens que dão gosto ler, porque aquilo que ela tem a dizer parece diferente e, mais uma vez, "fora da caixa". Não sabemos bem se é um impostor ou se é um autêntico poeta e filósofo da modernidade. Ficamos, por isso, sempre na dúvida se estamos perante um visionário ou um mentiroso talentoso. E é isso que dá riqueza à personagem e ao relato. E mesmo não sabendo ao certo o que aconteceu, sentimos que algo se quebrou de forma definitiva. Larcenet constrói esta expectativa com mestria, mantendo-nos num estado constante de inquietação moral.

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
O mal-estar atravessa toda a obra: sente-se no corpo de Polza, no seu olhar, nos rostos imóveis dos inspetores, nas pausas longas que dizem mais do que qualquer confissão. Blast é uma obra que pesa, que exige disponibilidade emocional, que não se lê de forma ligeira nem distraída.

Visualmente, Larcenet atinge aqui um dos seus picos criativos. O desenho de Larcenet em Blast é de uma beleza rude e desconfortável, onde cada mancha de negro e cada silêncio entre traços parecem respirar angústia, transformando o papel num espaço vivo de peso, carne e vertigem existencial.

O preto e branco denso, sujo, carregado de cinzentos, constrói uma ambiência sufocante que dialoga intimamente com o texto. As raras pranchas a cores surgem quase como intrusões sensoriais, momentos de rutura que sublinham estados emocionais extremos... os tais momentos de "blast". O traço oscila entre o artístico e o caricatural, conferindo uma humanidade brutal às personagens. Pode parecer estranho ao início, mas logo nos toma nos seus braços.

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
As cenas na sala de interrogatório são particularmente exemplares, com o desenho de longos silêncios, recorrendo a enquadramentos fechados e a rostos que falam sem palavras. O jogo de luz e sombra é magistral e quase musical. 

Em termos de edição, o trabalho da Ala dos Livros, está em consonância com a grandiosidade da obra: o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, papel baço de primeira qualidade no miolo e um excelente trabalho ao nível da impressão e da encadernação. Nota ainda, muito positiva, para a fita marcadora em tecido que granjeia ainda mais elegância à edição.

Voltando à obra, e em jeito de conclusão, é Polza a verdadeira estrela da companhia deste Blast, pois assume-se como O Homem Contemporâneo esmagado pelo peso da existência, pela fricção constante entre o desejo de fuga e a impossibilidade de redenção total. 

Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros
Pode-se, portanto, afirmar que, no fundo, o protagonista desta obra é o retrato de todos nós, homens e mulheres do século XXI, gordos ou magros, que, de algum modo, sentimos o peso da nossa existência. Talvez esse peso não seja da carne que nos envolve os ossos, mas de todas as dificuldades, vicissitudes, provações e dramas que enfrentamos, bem como da dor intensa de viver para e junto dos outros. E ainda que nos consideremos - uns mais do que outros - pessoas felizes, realizadas e com objetivos claros de vida, tantas são as vezes em que nos sentimos no abismo, no buraco e na solitude da escuridão, almejando, à custa do que for, apenas esse escape momentâneo que nos é dado num pequeno e fugaz instante de júbilo, de euforia e de um contacto mais profundo connosco próprios e com o mundo, qual momento de explosão interior, qual Blast!

Por outro lado, a única coisa que me faz temporizar o meu júbilo e a minha satisfação perante esta obra é a sensação de que, finda a leitura deste primeiro volume de dois, só considero estar a meio da travessia de um rio tumultuoso. Ainda há muito por resolver em termos narrativos e isso é suficiente para a minha prudência de não conseguir, à data, afirmar que este livro é, sim, algo de fantástico e marcante para toda uma vida de leitor de banda desenhada. Tendo em conta que, após o término da leitura, tudo fica em aberto, será que a obra vai atingir todo o seu potencial? Quero acreditar que sim, que estamos perante um livro de nota máxima e um dos melhores do ano - e dos últimos anos -, mas, por ora, opto pela prudência de lhe dar nota máxima, dizendo que, sim, já dá para dizer sem medo que esta é uma grande e sentida obra, mas que falta ainda chegar a segunda leva da mesma para, nessa altura, poder ter uma opinião mais vincada, completa e formada. Que chegue, então, depressa a publicação desse segundo volume!


NOTA FINAL (1/10):
9.6



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Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2, de Manu Larcenet - Ala dos Livros

Ficha técnica
Blast - Edição Integral - Volume 1 de 2
Autor: Manu Larcenet
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 408 páginas a preto e branco (com algumas a cores)
Encadernação: Capa dura
Formato: 225 x 280 mm
Lançamento: Janeiro de 2026

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Análise: Henri Vaillant

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi
Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi

Um dos livros com que a editora ASA fechou o seu ano editorial de 2025, foi este Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi, que mais não é do que uma prequela ao universo de Michel Vaillant.

Tendo sido inicialmente editado em três álbuns, a editora ASA optou, e bem, por editá-los num só volume triplo, uma vez que a história fica encerrada no conjunto destes três livros.  

Henri Vaillant é o pai de Michel Vaillant e, tal como o nome da obra assim faria crer, é nele que se centra esta história. Henri Vaillant é-nos apresentado pelo argumentista Marc Bourgne como um homem forjado pela adversidade e pelo seu tempo. Sendo um mecânico talentoso a viver numa época em que o contexto europeu é marcado por convulsões sociais, guerras e instabilidade económica, Henri mostra-se resiliente e forte de tal modo, que consegue construir a pulso uma marca automóvel, não só com ambições industriais, como também desportivas, já que Henri é apaixonado pelas corridas de carros e até participa em algumas enquanto condutor, embora não tenha tanto talento assim como, um dia, mais tarde, o seu filho Michel virá a ter. Mas isso é algo que todos nós, conhecedores da série, já sabemos.

Henri Vaillant é um homem obstinado, orgulhoso e frequentemente incapaz de demonstrar afeto - atitude considerada normal e viril à época -, que se revela, numa vertente, um visionário empresarial e desportivo e, noutra, um homem cheio de falhas: é um marido imperfeito, marcado pela infidelidade, e um pai impaciente que coloca o trabalho acima da família. A sua vida é feita de compromissos difíceis, escolhas moralmente ambíguas e de uma vontade quase obsessiva de vencer, não por glória pessoal, mas pela necessidade de provar que é possível criar algo duradouro num mundo em constante colapso, lançando assim as bases da marca Vaillante.

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi
Este é um livro que me agradou especialmente, tendo em conta que, confesso, não sou um enorme fã da série. Quer das temporadas mais recentes, quer mesmo dos tempos dourados de Jean Graton. Reconheço-lhe relevância, claro está, e em criança também eu me maravilhei um pouco com as dinâmicas e emocionantes corridas de carros em banda desenhada que Graton nos ofereceu, mas sempre achei que, do ponto de vista do argumento, faltava algo à série. E talvez seja mesmo este Henri Vaillant que, partindo de uma personagem secundária do universo de Michel Vaillant, consegue um feito especial ao propor-se fazer aquilo que muitas vezes falta nas grandes séries: parar, olhar para trás e perceber de onde tudo veio.

A personagem de Henri Vaillant já era vista como o patriarca duro e rabugento e visionário, sim, mas aqui, em oposição a isso, ganha finalmente espessura humana. O livro traça de forma muito competente a história da família Vaillant, colocando o foco quase exclusivo no pai de Michel, e conseguindo fazê-lo sem recorrer a truques fáceis ou a dramatizações artificiais.

O grande mérito do argumento de Marc Bourgne está precisamente nessa abordagem contida. Gostei especialmente do lado humano - e até "normal", diria - com que Henri é retratado: um homem com qualidades e defeitos bem visíveis, sem nunca cair na tentação de o transformar num herói trágico ou numa vítima do destino. A história flui com naturalidade e revela um cuidado raro na construção psicológica da personagem. Até a própria personagem de Michel Vaillant que aqui aparece, primeiramente, como uma criança e, depois como um jovem adulto intempestivo e rebelde, ganha alguma profundidade.

Não estamos perante uma história maior do que a vida, daquelas que nos marcam para sempre, mas confesso que, tendo em conta que estamos a falar de um livro de Michel Vaillant, ou do seu universo, não estava à espera de algo tão sólido. 

Acima de tudo, trata-se de uma narrativa profundamente verosímil. Bourgne apresenta-nos um homem moldado pela sua época, afetado pelos contextos político-sociais da Europa do início do século XX, e que tenta, a pulso, criar uma marca automóvel capaz de sobreviver no mercado e competir nas pistas. Nada soa forçado ou deslocado. Poderia ser a história real de uma pessoa.

A questão da infidelidade está lá, bem presente, conforme já mencionei, e contribui para essa sensação de realidade crua e pouco romantizada. Não obstante, considero que esta nuance "salgada" na vida de Henri talvez pudesse - ou, diria mesmo, devesse - ter sido mais explorada, pois teria reforçado ainda mais a credibilidade emocional da narrativa e o seu tom mais adulto.

Se a história convence e surpreende, já no campo gráfico a experiência é mais irregular. O trabalho de Claudio Stassi é eficiente e cumpre satisfatoriamente a sua função narrativa, mas raramente vai além disso. Para um álbum que se assume como uma produção especial dentro do universo Michel Vaillant, devo dizer que esperava um pouco mais de arrojo visual.

Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi
Não é que os desenhos sejam maus - longe disso -, mas sente-se a ausência de algo verdadeiramente distintivo, com várias vinhetas a carecerem de maior apuro e composição, algo que poderia ter elevado o impacto visual da obra e acompanhado melhor a força do argumento.

Em vários momentos, os fundos reduzem-se a manchas de cinzento que servem apenas para preencher espaços, deixando os cenários mais despidos do que o desejável.

É, no entanto, no desenho dos carros e sobretudo na quase ausência de sensação de movimento, que o traço do argumentista Claudio Stassi mais peca. Especialmente, se compararmos o seu trabalho com o do mestre Jean Graton  E, lá está, num universo onde o automóvel e a velocidade são elementos tão importantes, esta limitação torna-se mais evidente. Também as expressões faciais surgem por vezes algo rígidas e estáticas. Mantenho que não acho que a obra se deva "envergonhar" pelo seu desenho, mas simplesmente também não se pode propriamente vangloriar do mesmo.

Mais de metade do livro é apresentada a preto e branco, numa escala de cinzentos bastante sóbria. O segundo terço da obra passa gradualmente à cor, numa clara tentativa de assinalar a passagem do tempo. Gostei da forma faseada como esta transição é feita, permitindo ao leitor perceber a intenção narrativa sem que a mudança se torne abrupta.

A edição da ASA é em capa dura baça, com bom papel ligeiramente brilhante, boa encadernação e boa impressão. No final do livro, há uma página a simular um álbum de fotografias da família Vaillant e uma página com o modelo, em lápis de carvão, do carro Vaillante Le Mans 01.

Em suma, não só Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios me surpreendeu pela positiva - mesmo sem ser especialmente empolgante em termos gráficos, admita-se - como é uma leitura indispensável para qualquer fã da série. Prova ainda que há espaço para contar boas histórias no universo Michel Vaillant desde que se tenha a coragem de abrandar, olhar para as personagens e tratá-las como pessoas de carne e osso.


NOTA FINAL (1/10):
8.4




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Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios, de Marc Bourgne e Claudio Stassi

Ficha técnica
Henri Vaillant - Uma Vida de Desafios
Autores: Marc Bourgne e Claudio Stassi
Editora: ASA
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 295 x 221 mm
Lançamento: Novembro de 2025

As novidades da Penguin para 2026!



Hoje trago-vos as novidades de banda desenhada que o grupo Penguin, através das suas chancelas Iguana e Distrito Manga, prepara para este primeiro semestre de 2026!

São mais de 20 os novos lançamentos que podemos aguardar para estes primeiros seis meses do ano!  A editora já confirmou também que, além destas novidades, poderão chegar-nos outras, a anunciar brevemente.

Naturalmente, quase todos esses lançamentos correspondem a novos números de séries em continuação, mas há, ainda assim, algumas novas apostas em autores nacionais, autores internacionais e duas novas séries.

Vejam, mais abaixo, as referidas novidades da Penguin.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Análise: Macho-Alfa #4

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina

O quarto e último volume da série portuguesa Macho-Alfa chegou-nos no final do ano passado como um murro final, a vários níveis, que se revelou como um derradeiro golpe, seco e sem aviso prévio, para todos os que acompanhávamos esta série desde o seu começo, da autoria de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina.

E foi um duro golpe a dois níveis. Em primeiro lugar, por este livro ter o significado simbólico de ser o último trabalho de Filipe Duarte Pina que, lamentavelmente, faleceu a meio de 2025. Além disso, por marcar o fecho de uma saga de banda desenhada nacional que sempre jogou no limite entre a desconstrução do mito do super-herói e a sua celebração mais crua, mais física, mais humana. 

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este quarto volume não procura teorizar muito as ideias que foram levantadas nesta série - e foram muitas -, mas sim encarar de frente o abismo que sempre esteve à espera de David, o protagonista, um super-humano num mundo que nunca soube o que fazer com ele. Se em muitas das histórias de super-heróis nos é dada a ideia que ser-se super-herói deve ser espetacular... em Macho-Alfa fica bem presente que talvez ter super-poderes seja mais uma cruz do que uma benção.

Ao longo da série, Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina construíram uma narrativa que piscava o olho à cultura dos comics americanos, mas sem nunca abdicar de uma identidade muito própria, profundamente portuguesa no seu desencanto, na sua ironia e no seu pessimismo social. 

David já não é, neste quarto volume, o anti-herói em crise existencial nem o peão de um sistema que o usa e descarta. É, acima de tudo, um sobrevivente. Confrontado com a verdade sobre o seu passado e com a revelação da sua némesis, tudo o resto se torna irrelevante: não há terapia, não há reforma, não há apaziguamento possível. Há apenas a luta. E essa escolha narrativa confere ao álbum uma urgência brutal, quase sufocante, com cada uma das páginas a ganhar peso acrescido, levando a que cada decisão narrativa pareça carregar uma vontade clara de ir até às últimas consequências. 

Narrativamente, este último volume centra-se quase exclusivamente no combate entre David e o seu rival. Cerca de metade do álbum - aproximadamente 30(!) páginas - se destina ao combate entre ambos, o que é uma opção ousada e pouco comum, sobretudo no contexto da banda desenhada portuguesa, e remete-nos imediatamente, lá está, para as grandes batalhas épicas dos comics de super-heróis. Uma escolha que, pessoalmente, apreciei muito pela sua audácia e confiança, pois se há série nacional que termina em apoteose, esta é uma delas.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
Este combate não é apenas longo... é denso, agressivo, físico e emocionalmente carregado. A violência atinge aqui um patamar que, sinceramente, não me recordo de encontrar noutras obras nacionais. Esta violência - que alguns até poderão achar exagerada, mas não eu - é consequência lógica de tudo o que foi sendo construído ao longo da série e, claro, por serem personagens - quer o herói, quer o vilão - de um poder indescritível. Não poderia ser de outra forma, acredito. 

Este conforto está particularmente bem conseguido, por parte do ilustrador Osvaldo Medina. A coreografia do combate é clara, o ritmo é eficaz e as decisões visuais demonstram um controlo narrativo impressionante. Há uma sensação constante de perigo real, de que tudo pode acabar a qualquer momento, e isso mantém o leitor preso até à última página.

Nem tudo, contudo, é isento de críticas. Olhando para a série como um todo, é impossível não notar que, a determinada altura - especialmente no segundo volume - a história pareceu afastar-se um pouco do seu potencial inicial mais relevante. Algumas ideias surgiram de forma algo aleatória, deixando pontas soltas em termos de enredo que nunca chegam a ser totalmente resolvidas. Entretanto, o terceiro volume melhorou a narrativa, já depois de um primeiro álbum que prometia muito.

Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart
E não é que este Macho-Alfa #4 resolva todas as pontas soltas que a série trouxe. Sinceramente, até parece não haver esse objetivo por parte dos autores. Ainda assim, este livro consegue, de forma notável, recentrar o foco e fechar a saga com uma clareza e uma força que compensam essas fragilidades anteriores. O final é brutal, violento, imprevisível e chocante, e não tenta agradar a todos. É um final coerente com o universo que foi criado desde o início.

Em termos de edição, o trabalho d' A Seita e da Comic Heart, mantém-se em consonância com os volumes anteriores, apresentando capa dura baça, bom papel brilhante no miolo, boa impressão e boa encadernação. Além disso, foi feita uma homenagem, mais do que merecida, a Filipe Duarte Pina, que inclui a fotografia do autor, um nota introdutória dos editores e homenagens sentidas e emotivas de Filipe Andrade, Filipe Homem Fonseca, Nuno Lourenço Rodrigues, Osvaldo Medina, André Oliveira, Joana Afonso, Jorge Coelho, Luís Simões. Nélson Dona, Nuno Saraiva, Paulo Monteiro, Pedro Ribeiro Ferreira, Ricardo Cabral e Pedro Moura. Há ainda um esboço da personagem de David que, a julgar pelo traço, acredito ser da autoria de Filipe Duarte Pina. Acabou por ficar uma edição bonita e especial por todos estes motivos.

Em suma, Macho-Alfa termina como começou: incómodo, provocador e profundamente humano. Um adeus em alta e que deixa marcas. Este livro é também especial por razões que extravasam a própria ficção. Marca o fim da carreira em banda desenhada de Filipe Duarte Pina, falecido no ano passado, e saber que o autor concluiu este álbum enquanto lidava com uma doença terminal acrescenta uma camada emocional difícil de ignorar. Há aqui uma perseverança e uma coragem que arrepiam, que comovem e que impõem respeito. Ler Macho-Alfa #4 é, também por isso, e de forma dupla, um ato inevitável de despedida.


NOTA FINAL (1/10):
8.3



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Macho-Alfa #4, de Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina - A Seita e Comic Heart

Ficha técnica
Macho-Alfa #4
Autores: Filipe Duarte Pina e Osvaldo Medina
Editoras: A Seita e Comic Heart
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 200 x 280 mm
Lançamento: Outubro de 2025