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quarta-feira, 17 de junho de 2026

"BD à Lupa" regressa à FNAC neste sábado e haverá novamente livros de BD grátis!


O programa BD à Lupa, iniciativa pioneira em Portugal surgida de uma parceira entre o Vinheta 2020 e a FNAC, está de volta!

Desta vez, vou estar à conversa com três ilustres autores de BD: André F. Morgado, Derradé e Vasco Colombo. Todos eles autores a quem reconheço grande relevância para a BD nacional.

Falaremos de um tópico muito quente e polémico, que certamente vai fazer muita gente querer assistir a esta apresentação: a IA e a Banda Desenhada.

O tema é tão vasto e apetecível que até faço um apelo, não só a todos os leitores aqui do blog, mas também a todos os amigos, autores e editores de BD... apareçam. Será uma conversa rica, tenho a certeza.

E, claro, se isto já é motivo suficiente para que apareçam, há ainda outra coisa a considerar: serão sorteados livros por aqueles que estiverem presentes. É sempre uma alegria ir a um evento gratuito sobre BD e ainda sair de lá com um livro grátis na mão, diria.

Coloquem na agenda: é neste sábado, às 16h, na FNAC do Alegro de Alfragide.

Aos que já foram às iniciativas anteriores, espero ver-vos por lá.

Aos que não foram, não sabem o que andam a perder.


Análise: O Deserto dos Tártaros

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda

Contido no mais recente rol de lançamentos de banda desenhada da editora A Seita, está este O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda, que adapta para banda desenhada o clássico homónimo da literatura da autoria de Dino Buzzati.

Conhecia a obra de reputação, mas nunca a tinha lido, portanto parti para esta leitura sem grandes referências. A história de O Deserto dos Tártaros acompanha a trajetória de Giovanni Drogo, um jovem oficial que é designado para servir na Fortaleza Bastiani, uma fortaleza isolada, situada na fronteira de um vasto deserto. No início, Drogo começa por encarar esta missão como algo temporário e pouco relevante, que servirá especialmente para fazer carreira e ser destacado, passado pouco tempo, para uma carreira militar mais promissora. Assim espera Drogo.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Mas à medida que o jovem soldado se instala na fortaleza, vai sendo envolvido pelo ambiente peculiar daquele lugar, marcado por longos períodos de espera e por uma tensão difusa. Isto porque os oficiais daquele lugar vivem na constante expectativa de um possível ataque vindo do deserto. É um misto de medo pelo ataque em si, mas também de um sentido de ansiedade positiva por esse ataque. Já vos aconteceu estarem tão entediados que nem se importariam que algo de mau vos acontecesse para que o vosso tédio acabasse? Assim parece ser o sentimento que se vive na Fortaleza Bastiani: a rotina dos soldados é tão entediante, que até um ataque das linhas inimigas é visto como algo que, ao menos, poderia finalmente dar sentido à rotina monótona e justificar a presença militar naquele posto.

Naturalmente, com o passar do tempo, Drogo começa a partilhar essa mentalidade dos seus companheiros, alimentando a esperança de que esse momento decisivo chegue. Assim, a vida na fortaleza passa a ser regida por pequenos sinais, rumores e expectativas, que mantêm todos presos a uma promessa incerta de glória e propósito.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
É sensaborona e entediante a vida naquela Fortaleza e, infelizmente, também o é a experiência de leitura deste O Deserto dos Tártaros. Acredito que isso também aconteça no romance original de Dino Buzzati. Com efeito, ao longo da obra, parece que pouco ou nada acontece de concreto, e a rotina repetitiva da fortaleza contribui para uma sensação de estagnação que pode testar a paciência do leitor. Essa ausência de eventos externos significativos pode facilmente ser interpretada como falta de dinamismo narrativo.

Contudo, essa aparente monotonia é, em grande parte, intencional, pois pretende-se dar enfoque ao vazio, à espera e à repetição, fazendo destes elementos centrais algo que é sufocante e que reflete a própria condição do protagonista. A lentidão da narrativa não é, pois, um "defeito" acidental, mas sim um recurso que reforça a experiência psicológica da personagem, colocando o leitor dentro desse mesmo tempo suspenso.

Mais do que narrar ações, o romance centra-se, portanto, no conflito interior de Giovanni Drogo, que se agarra à ideia de uma missão grandiosa e de uma carreira militar promissora como forma de dar sentido à sua vida, evitando confrontar outras possibilidades mais comuns e socialmente esperadas, como, por exemplo, a sua (potencial) vida amorosa com Maria. Essa escolha de Drogo revela uma espécie de fuga, um modo de adiar o confronto com o presente e com as decisões que poderiam aproximá-lo de uma vida mais concreta e partilhada.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Tenho que vos ser sincero: este O Deserto dos Tártaros é um pouco entediante, sim, e talvez, neste caso concreto, não fossem precisas tantas páginas para nos servir a história original de modo inequívoco. Todavia, também não me parece justo que se apelide este livro apenas de "aborrecido", pois o mesmo até ganha alguma profundidade na exploração que faz de temas existenciais como o medo de viver plenamente, a ilusão de um propósito maior e a tendência humana para adiar a vida à espera de um momento decisivo, conforme já sublinhei. 

Em termos de desenho, Pasquale Frisenda, autor de obras de referência como Tex - Patagónia ou Le Storie - Sangue e Gelo, ambos editados em Portugal, oferece-nos um trabalho muito belo.

O ilustrador italiano oferece-nos o seu traço elegante a preto e branco, explorando com mestria a escala de cinzentos para construir imagens de grande expressividade. E isso confere coerência ao tom melancólico da obra, como também acrescenta profundidade e subtileza às ilustrações, permitindo que cada imagem respire e se imponha com uma atmosfera muito própria. É um bom livro para observamos atentamente cada uma das ilustrações.

O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura
Embora as personagens sejam bem executadas e transmitam com eficácia os estados de espírito da narrativa, é sobretudo no desenho das paisagens que, quanto a mim, Frisenda mais brilha. As vastas extensões do deserto, que parecem prolongar-se até ao infinito, a fortaleza isolada e inóspita, ou ainda os jogos de luz e sombra que evocam a névoa, as tardes solarengas e as noites frias passadas naquele local, são particularmente memoráveis. É um livro belo do ponto de vista gráfico, sem dúvida.

Nota ainda, muito positiva, para a grande quantidade de referências a outras obras e a outras individualidades, que estão escondidas ao longo do livro, aumentando o valor das ilustrações e convidando o leitor a uma segunda leitura mais atenta.

Considero apenas que a capa poderia ser mais apelativa. A ilustração de Frisenda para a mesma parece-me inacabada, como um esboço que merecia mais algum aprumo visual. Não está feio, mas acho que o autor conseguia fazer melhor.

Em termos de edição, o livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz, e bom papel baço no interior do livro. No final, é incluído um generoso dossier de extras, com 17 páginas, que contém um texto de Gianmaria Contro sobre a obra e várias ilustrações, estudos de personagem e de capa, de Pasquale Frisenda. Esta é mais um dos livros que entram para a chancela Nona Literatura d' A Seita, dedicada às adaptações para banda desenhada de grandes obras da literatura.

Em suma, pode dizer-se que, no conjunto, esta adaptação para BD de O Deserto dos Tártaros revela-se bastante bem conseguida e fiel ao original. Não é um livro em que aconteçam muitas coisas e isso pode dar-nos a sensação de algum marasmo narrativo, mas é uma obra que procura mais fazer-nos viajar e refletir sobre questões existenciais. Ao mesmo tempo que é ilustrada de forma memorável por Frisenda, trazendo esse lado mais contemplativo da obra para o leitor.


NOTA FINAL (1/10):
8.4



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O Deserto dos Tártaros, de Michele Medda e Pasquale Frisenda - A Seita - Nona Literatura

Ficha técnica
O Deserto dos Tártaros
Autores: Michele Medda e Pasquale Frisenda
Adaptado a partir da obra original de: Dino Buzzati
Editora: A Seita
Páginas: 184, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 215 x 285 mm
Lançamento: Março de 2026

terça-feira, 16 de junho de 2026

Análise: As Linhas que Traçam o Meu Corpo

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari

Curiosamente, foi no dia em que li este As Linhas que Traçam o Meu Corpo - e li-o de uma assentada, já que não consegui parar de o ler até chegar à última página - que tive conhecimento do falecimento, mais que prematuro, de Marjane Satrapi que, com a sua obra, em especial o obrigatório Persépolis, abriu as portas do Irão para o mundo ocidental, revelando às mentes mais incautas do ocidente a realidade nua e crua do que se passa no Irão. Muitos anos se passaram desde Persépolis e já um sem número de BDs sobre a realidade no Irão foram publicadas. Só em Portugal, e assim de cabeça, para além de Persépolis, posso referir obras como Frango com Ameixas, Bordados, Mulher Vida LiberdadeAssombrada, A Aranha de Mashhad, Os Pássaros de PapelUma Metamorfose Iraniana e este As Linhas que Traçam o Meu Corpo que hoje vos trago. E sou-vos sincero: este livro é, a par do fundamental Persépolis, o melhor livro que já li sobre a realidade iraniana. Pelo menos, é aquele que mais me marcou.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Esta obra é da autoria de Mansoureh Kamari e chegou-nos há poucas semanas pelas mãos da editora Arte de Autor. E um dos aspectos mais relevantes neste livro é precisamente a forma como a obra evoca, de modo sensível mas inequívoco, a realidade vivida por muitas mulheres no Irão. Desculpem a linguagem grosseira, mas não tenho outro forma de o dizer: ser mulher no Irão é ter uma vida de merda. As mulheres são perseguidas, julgadas, controladas, insultadas, instrumentalizadas, silenciadas e usadas como se fosse objetos. E daqueles objetos a quem nem damos muito valor, pois há objetos e bens que são muito mais estimados do que as mulheres iranianas, que são forçadas a casar cedo, para logo serem posses dos homens que as "compram". Ora são posse dos seus pais, ora são posse dos seus maridos. E mesmo que estes as assassinem... enfrentarão simplesmente uma pena ridículas a cumprir. Como é possível que continuemos a tolerar isto? Como é possível que, enquanto sociedade, engulamos em seco perante isto e continuemos impávidos, com a nossa vida de primeiro mundo?

A autora Mansoureh Kamari fala-nos aqui da sua experiência pessoal, em que viveu os primeiros anos da sua vida com terrores e traumas incutidos pelo seu pai e pelas diferenças de género com que se ia deparando. Ser-se rapaz no Irão não é nada mau, mas ser-se mulher é uma condenação à nascença. E a passagem da infância para a idade legalmente adulta - que no Irão considera-se aos 9(!) anos (sim, leram bem) - é, na verdade, um dia miserável para qualquer mulher iraniana. Porque deixa de ser criança e passa a ser uma mulher, um objeto para que um qualquer homem possa possuir e utilizar a seu belo prazer.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
É triste, é chocante e é marcante a forma como Mansoureh Kamari nos insere na sua vida. Ao mesmo tempo, somos igualmente convidados a conhecer a sua vida mais recente em que, após a fuga do seu país, vive de modo livre, sim, mas com os traumas e recalcamentos do passado. Há uma clara separação - até mesmo do ponto vista gráfico devido a uma mudança cromática - entre o presente, em que a autora nos oferece a sua experiência de fazer trabalhos de nu artístico, e a experiência passada, em que a autora mergulha na sua infância e nas vivências avassaladoras com que teve que lidar na sua infância e pré-adolescência.

É um retrato sensível, triste e alarmante aquilo que Kamari nos coloca nas mãos. São vários os momentos e as formas que a autora utiliza para nos mostrar o que é ser mulher no Irão. Todas elas chocantes. Por exemplo, como conceber a existência de um país que obriga uma mãe que vê as suas duas filhas, de 16 e 15 anos, a serem vilmente assassinadas pelas autoridades a ter que pagar pelo custo das balas utilizadas para tirar a vida das suas filhas? É um filme de terror? Não, é a realidade. E deixa-me ainda mais deprimido chegar à conclusão que só sabemos destas histórias à custa de autoras e autores que se veem forçados a fugir do país para contar a sua história. Só assim conseguem denunciar as atrocidades cometidas por tão infame regime.

Outra coisa de que gostei particularmente neste As Linhas que Traçam o Meu Corpo é que a denúncia muitas vezes até é feita através do silêncio. Certas coisas ficam implícitas no desenho pleno de expressividade, sem que haja uma dramatização exagerada da autora. É uma pedrada no charco que nos deixa com um nó na garganta. Será isto possível no tempo atual? Infelizmente, sim. E não só é possível, como os direitos das mulheres iranianas até têm sofrido um agravamento nos últimos anos.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Ao mesmo tempo, a obra mostra como essas adversidades moldam a relação da protagonista com o seu próprio corpo. O corpo torna-se um espaço de resistência, mas também de dor e conflito. As “linhas” que o atravessam representam não só experiências pessoais, mas também as marcas deixadas por um contexto social opressivo. E, claro, apesar das limitações e da repressão, as mulheres encontram formas de afirmar a sua identidade, ainda que de maneira discreta ou interior. Este equilíbrio entre opressão e resistência é tratado com grande sensibilidade e profundidade pela autora.

Se o tema é pertinente, se o relato é marcante... os desenhos são lindíssimos. Aliás, sobre o assunto em questão - e relembro o vasto conjunto de obras já mencionadas por mim, mais acima,- não há nenhum livro que, quanto a mim, chegue sequer perto em termos de beleza de desenho.

Há uma delicadeza, uma ternura, uma tristeza e uma poesia nos desenhos aparentemente simples, mas tão belos, de Mansoureh Kamari, que é raro encontrar em banda desenhada e, especialmente, em banda desenhada com um cunho mais político. O desenho é tão bom que, em vários casos, nem é necessária a colocação de qualquer legenda ou balão de fala, pois está ali tudo, entendido e exposto. O poder da evocação dos desenhos de Mansoureh Kamari é, pois, verdadeiramente impressionante. A várias fases da vida da autora - as do presente e as do passado - vão sendo diferenciadas através da cor. No passado, os desenhos são a preto e branco, em tons de sépia. No presente, a cor vai sendo introduzida paulatinamente.

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor
Diria que, como ponto menos positivo neste livro, que é quase perfeito, encontro apenas uma certa e aparente relutância ou dificuldade da autora em decidir, mais ou menos a meio da obra, para onde levar a sua história. Dito por outras palavras, até meio do livro eu achei: "que maravilha... este livro vai ser nota máxima" e, na última parte achei: "Ok, continua fantástico... mas estava à espera de ser levado para algo ainda mais emocionante, especial ou original no final". Sente-se uma certa insegurança da autora na forma de fechar o livro. Mesmo que, atenção, o final seja bem conseguido. Nada está estragado, descansem, mas foi motivo para que o livro não ficasse perfeito. Mas, não o sendo, é uma das melhores apostas dos últimos meses por parte da Arte de Autor. 

A edição da obra é em capa dura, baça, com detalhes a verniz. Capa essa que tem uma belíssima ilustração, deixem-me que vos diga. Se há boas capas que chamam a atenção daqueles que passeiam numa livraria, esta é um bom exemplo disso. No interior, o livro apresenta bom papel baço e um bom trabalho ao nível da encadernação, impressão e acabamentos. No final, são concedidas duas páginas para que se explique melhor algumas das coisas que nos são reveladas durante a leitura da obra.

O formato da obra é o 17 x 24 cm, um formato em que a editora portuguesa tem vindo a apostar num conjunto específico de obras que, naturalmente, se destinam a um público mais vasto, quiçá menos familiarizado com banda desenhada. Nesse mesmo formato, a editora também editou as obras Radium GirlsO Jardim, Paris ou As Raparigas de Salem. Já os li a todos - e de todos gostei - mas, a meu ver, nenhum é tão bom como este As Linhas que Traçam o Meu Corpo.

Em suma, esta obra consegue ser verdadeiramente notável, não apenas pela sua beleza visual, mas sobretudo pela profundidade e honestidade com que aborda questões de identidade, memória e resistência, que tantas marcas continuam a fazer nas mulheres iranianas. Mansoureh Kamari consegue criar um equilíbrio notável entre o íntimo e o universal, transformando uma narrativa pessoal no espelho das experiências de mais de 40 milhões de mulheres. Um dos livros do ano que deve ser comprado, lido, emprestado e/ou oferecido.


NOTA FINAL (1/10):
9.6


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As Linhas que Traçam o Meu Corpo, de Manshoureh Kamari - Arte de Autor

Ficha técnica
As Linhas que Traçam o Meu Corpo
Autora: Mansoureh Kamari
Editora: Arte de Autor
Páginas: 200, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 17 x 24 cm
Lançamento: Maio de 2026

domingo, 14 de junho de 2026

Análise: Arsène Lupin contra Sherlock Holmes

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle

Uma das mais recentes novidades da Ala dos Livros dá pelo nome de Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, uma obra da autoria de Jérôme Félix e Alain Janolle, originalmente editada em dois volumes, entre 2022 e 2023, e que a editora portuguesa congrega num volume integral.

Este é um trabalho que se apresenta como uma obra apelativa à partida, colocando frente a frente duas das figuras mais icónicas da literatura policial: Arsène Lupin e Sherlock Holmes. Estamos perante uma adaptação - ou releitura - da obra original criada por Maurice Leblanc. E sou-vos sincero: a promessa de um duelo entre o ladrão cavalheiro e o detetive mais célebre do mundo criou-me facilmente uma expectativa imediata, sugerindo uma narrativa intensa, inteligente e cheia de reviravoltas.

A história avança quando Arsène Lupin, ao assumir a identidade de especialista em códigos, é surpreendido por um homem que diz ser ele próprio. Este desconhecido pede-lhe ajuda para decifrar uma sequência enigmática, o que leva Lupin a iniciar a investigação. Descobre então que se trata de Maurice Guercin, ligado a uma família rica cuja herança envolve o suposto segredo alquímico de transformar metais comuns em ouro.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Mas à medida que esta investigação avança, surge uma ameaça familiar: Sherlock Holmes continua determinado a capturar Lupin. O confronto entre ambos intensifica-se então, e revela-se carregado de perseguições, disfarces e jogos de inteligência. 

Uma das coisas mais interessantes nesta abordagem é que a mesma se destaca pela forma como reinterpreta estas duas personagens clássicas. Arsène Lupin mantém o seu charme e perspicácia inconfundíveis, mas surgindo aqui como um criminoso sofisticado que ambiciona, curiosamente, reformar-se. Isto faz com que seja fácil para nós criarmos empatia com esta criativa - e divertida - personagem.

Por outro lado, também é interessante que a personagem de Sherlock Holmes nos seja apresentada numa versão bastante diferente daquela a que estamos habituados. Aqui, surge mais como um antagonista do que como um verdadeiro herói, algo que poderá causar estranheza a leitores mais familiarizados com a criação de Conan Doyle. Este é um Sherlock Holmes mais agressivo, por vezes até vingativo.

No que toca ao enredo, a obra tenta construir uma trama intrincada e cheia de surpresas. Há um esforço claro em enganar o leitor, montando e desmontando o puzzle da investigação de forma constante. Este estilo poderá remeter para as obras de Agatha Christie, em particular para as várias bandas desenhadas que a Arte de Autor tem publicado por cá na coleção dedicada às adaptações dos clássicos da escritora britânica. 

Contudo, apesar dessa ambição estrutural, foi com alguma pena que verifiquei que o resultado não atinge plenamente o nível de excelência a que parece aspirar. A história é agradável e envolvente em vários momentos, sem dúvida, mas fica aquém de se tornar verdadeiramente memorável. Há uma sensação persistente de que algo poderia ter sido mais aprofundado ou melhor trabalhado. Ou mais ajustado. É que, por um lado, a obra tem elementos sérios e parece apontar a um público mais maduro e sofisticado. Por outro lado, certas resoluções no enredo e certos eventos na narrativa parecem adquirir um tom demasiadamente juvenil e parcamente trabalhado.

Não é que seja um livro que não se leia bem, mas acho que falha em ser um trabalho mais memorável. Parece muito "ligeirinho" para aquilo que, aparentemente, procura ser: uma história densa, com muitas dimensões e que desafie a nossa inteligência.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros
Uma das principais fragilidades prende-se com a clareza do enredo, que se torna várias vezes confuso. E essa "confusão" não advém de uma complexidade intelectual desafiante, ou de subtramas mais complexas, mas antes de escolhas - e até mesmo diálogos - que parecem forçados. Em vez de enriquecer a história, certos desenvolvimentos acabam por quebrar a fluidez e a coerência da narrativa. Além disso, o ritmo revela-se por vezes demasiadamente acelerado. As situações sucedem-se com rapidez, e algumas resoluções parecem surgir de forma prematura ou pouco desenvolvida. 

Os diálogos também contribuem para essa sensação de artificialidade. Em vários momentos, soam algo forçados. E este aspeto reforça, lá está, a ideia de que a obra se aproxima mais de um estilo mais juvenil do que de uma narrativa adulta mais complexa. E, atenção, não há nada de errado nisso. Apenas acho que o livro sofre de uma certa bipolaridade entre o que quer e o que não quer ser. 

Ainda assim, não se pode dizer que seja uma leitura desinteressante, reitero. Pelo contrário, o livro lê-se bem e mantém um certo ritmo cativante. Simplesmente, não consegue cumprir totalmente a promessa de ser uma história densa e intelectualmente desafiante.

No campo visual, porém, a obra brilha de forma clara. O trabalho de Alain Janolle é muito belo, com um traço limpo e semi-caricatural que remete para importantes nomes da banda desenhada francófona, como Willy Lambil, Bruno Gazzotti ou Pierre Alary, por exemplo. Com as devidas diferenças, claro está. As personagens são expressivas, os cenários bem trabalhados e a planificação dinâmica, contribuindo fortemente para o prazer da leitura.

Também as cores merecem uma nota de apreço, graças ao contributo dos coloristas Delf & Walter. O seu trabalho é harmonioso e inspirado, complementando na perfeição o desenho e elevando o conjunto visual. No final, esta componente gráfica acaba por ser um dos maiores trunfos da obra, compensando em parte algumas fragilidades do argumento.

Em termos de edição, estamos perante mais um belíssimo trabalho da Ala dos Livros. O livro apresenta capa dura baça, com detalhes a verniz e um belo grafismo. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade. Também de boa qualidade é a encadernação, impressão e acabamentos. O dossier de extras, com textos de René Pulsani e Jérôme Félix, é extremamente interessante, pois oferece alguma profundidade à obra e consegue até mesmo amarrar algumas das pontas soltas presentes na obra. Belos extras, portanto. Nota positiva, também, para a opção por editar a obra num volume integral.

Em suma, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes oferece uma leitura envolvente e inteligentemente construída, destacando-se pelo ritmo dinâmico, pelos jogos de identidade e pelo carisma intemporal de Arsène Lupin. A tensão crescente entre Lupin e Sherlock Holmes acrescenta profundidade à narrativa e mantém o interesse até ao fim. Ainda assim, apesar do seu encanto e de algumas reviravoltas bem conseguidas, há momentos em que a história pode parecer algo previsível ou forçada. 


NOTA FINAL (1/10):
7.5


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, de Jérôme Félix e Alain Janolle - Ala dos Livros

Ficha técnica
Arsène Lupin contra Sherlock Holmes
Autores: Jérôme Félix e Alain Janolle
Adaptado a partir da obra original de: Maurice Leblanc
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 235 x 310 mm
Lançamento: Maio de 2026

sábado, 13 de junho de 2026

Análise: Caderno de Memórias Coloniais

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata

A Editorial Caminho publicou, há poucas semanas, o livro Caderno de Memórias Coloniais que é uma adaptação para banda desenhada da obra homónima de Isabela Figueiredo, editada originalmente em 2009. A adaptação para BD contou com a própria Isabela Figueiredo, que reviu o seu texto, e com Júlia Barata que transformou o relato em imagens.

Caderno de Memórias Coloniais é uma obra autobiográfica em que Isabela Figueiredo revisita a sua infância vivida em Moçambique durante o período colonial português. A narrativa é construída a partir de memórias fragmentadas e intensas, nas quais descreve o ambiente social marcado pela desigualdade racial e pela violência estrutural do colonialismo. A autora expõe o quanto o racismo era natural entre os colonos brancos, incluindo dentro da sua própria família, revelando como esse sistema moldava comportamentos e relações quotidianas.

Ao longo do livro, Isabela Figueiredo confronta a figura do pai, um colono português que exemplifica a mentalidade dominante da época, autoritária e profundamente racista. A relação ambígua com ele é central: ao mesmo tempo em que ele representa afeto e proteção na infância, também encarna a violência do sistema colonial. Essa tensão contribui para o tom crítico e doloroso da narrativa, em que a autora procura compreender e denunciar o papel dos colonos, sem se poupar a si mesma enquanto testemunha e participante passiva nesse contexto.

E talvez seja esse o ponto que traz mais força ao relato. É que, falando do próprio pai, a autora alcança uma dicotomia narrativa interessante: é que, por um lado, traz-nos memórias que se revelam fraternas, pois trata-se da relação especial que tinha com o pai; por outro lado, ao dar especial enfoque ao seu pai e aos comportamentos do mesmo, acaba por nos traçar um retrato cru do homem branco colono que, invariavelmente, era racista. Eram outros tempos, era outra época e, se calhar, à luz desse tempo passado, certos comportamentos não eram socialmente questionados ou condenados da mesma forma que hoje são. Faz parte da evolução humana termos comportamentos mais certos e justos à medida que o tempo vai passando, diria. Ou, pelo menos, assim deveria ser. Digo eu, que sou otimista. Com efeito, revivendo agora no tempo presente estes eventos, quer autora, quer os seus leitores, se apercebem do que hoje não pode nem deve ser tolerado.

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
E esta duplicidade traz-nos duas valências importantes: 1) Isabela Figueiredo é uma autora corajosa e de uma honestidade intelectual louvável; 2) este livro é um belo exemplo daquilo que, quanto a mim - e isto é uma opinião muito pessoal, reconheço - deve ser a reflexão sobre erros passados: mais do que recriminação, mais do que "cancelamento" a posteriori, mais do que a reescritura da História, devemos olhar para o passado com a luz do nosso tempo presente, mas sabendo contextualizar devidamente aquilo que fizemos, enquanto sociedade, no passado. Não me entendam mal: não defendo que se deve desculpar ou minorar o sofrimento infligido pelos (ou aos) nossos antepassados. Pelo contrário! Mas defendo que devemos olhar para o passado com um olhar clínico mais didático, para que aprendamos a não perpetuar os erros passados e a incrementar as coisas que foram bem feitas.

E considero que, de facto, Caderno de Memórias Coloniais consegue fazer isto muito bem. Consegue ser uma boa ferramenta de aprendizagem e reflexão, sim, mas de um modo redentor, apontando mais um caminho para o presente e futuro do que negando o passado. 

Além disso, a obra também reflete sobre o retorno a Portugal após a independência de Moçambique, destacando o sentimento de desenraizamento e deslocamento vivido por Isabela Figueiredo. A autora aborda a dificuldade de reconstruir a identidade após a ruptura com o passado colonial, evidenciando a experiência dos chamados “retornados”. O livro, assim, articula memória pessoal e reflexão histórica, oferecendo uma denúncia contundente do colonialismo e um testemunho íntimo das suas marcas duradouras.

Quanto às ilustrações de Júlia Barata, as mesmas desempenham um papel fundamental na adaptação de Caderno de Memórias Coloniais para banda desenhada, ao traduzirem visualmente a carga emocional e a densidade das memórias narradas por Isabela Figueiredo. 

O traço de Júlia Barata, bem próximo do que quem acompanha a autora já conhece, apresenta-se simplista, assente numa linha fina e depurada, que privilegia mais a sugestão do que o detalhe. Não obstante, essa contenção gráfica não suaviza em nada a violência descrita. Pelo contrário, acentua-a, criando espaço para que o leitor complete e interprete o que em alguns casos - mas não em todos - está apenas a ser insinuado. Ainda assim, também se encontram alguns momentos em que essa opção por um grafismo mais simples não resulta tão bem, com alguns desenhos a darem a sensação de estarem inacabados.

Por outro lado, o uso da cor revela-se particularmente expressivo e eficaz. A paleta de cores confere aos desenhos um carácter mais próximo do expressionismo, contribuindo decisivamente para a intensidade emocional da obra e aumentando o interesse visual de muitas páginas. Há vários exemplos de composições especialmente bem conseguidas, em que a combinação entre cor e a tal economia de traço, já por mim referida, resulta em imagens visualmente fortes e memoráveis. 

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho
No ponto em que, visualmente falando, a obra me deixou menos agradado, foi no cariz menos sequencial da mesma, fazendo com que este Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica se aproxime demasiadas vezes mais de um livro ilustrado, do que de um livro de banda desenhada. Essa sensação é reforçada pela frequência com que se opta por uma única imagem a ocupar uma página, acompanhada de uma legenda extensa no topo. Ainda que essa escolha possa ter sido pensada para preservar a força do texto original, fica a impressão de que, em alguns casos, teria sido mais eficaz dividir essa carga textual por várias vinhetas menores, promovendo um maior dinamismo narrativo e uma articulação mais fluida entre imagem e palavra.

Seja como for, com as suas valências e fraquezas, este é um belo livro que merece ser lido e - porque não? - estudado e analisado em contexto de sala de aula. O relato de Isabela Figueiredo é demasiadamente precioso e relevante para que não seja devidamente difundido. E nesse ponto concreto - que será até o mais relevante, convenhamos -, este livro acaba por funcionar bastante bem.

Para além disso, a edição da Editorial Caminho é em capa mole baça, com badanas, e o papel do miolo do livro é decente. No final da obra, encontramos um posfácio de cada uma das autoras que acabam por ser especialmente úteis para percebermos o "porquê" e o "como" desta obra, bem como as dificuldades que surgiram a Isabela Figueiredo e Júlia Barata durante a feitura da obra.

Em suma, Caderno de Memórias Coloniais afirma-se como um relato histórico de grande importância, não apenas pelo seu valor literário, mas sobretudo pelo seu contributo para a memória coletiva. Ao revisitar, sem concessões, a experiência colonial portuguesa em África, a obra recorda-nos o que foi feito por nós, enquanto sociedade, e pelos nossos antepassados, num período marcado pela violência e pela desigualdade. Sendo um testemunho por vezes revoltante e até vergonhoso, torna-se ainda mais essencial que seja lido e debatido, para que não se apague nem se deturpe esse passado. Importa que todos nós - colonizadores e colonizados - possamos reconhecer os erros cometidos, não para perpetuar culpas, mas para aprender com eles e, assim, contribuir para a construção de um presente mais consciente e um futuro mais justo.

NOTA FINAL (1/10):
8.3



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Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata - Editorial Caminho

Ficha técnica
Caderno de Memórias Coloniais - Novela Gráfica
Autoras: Isabela Figueiredo e Júlia Barata
Editora: Editorial Caminho (LeYa)
Páginas: 144, a cores
Encadernação: Capa mole
Formato: 23,5 x 15,6
Lançamento: Maio de 2026

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Análise: Os Trabalhadores do Mar

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand

Uma das mais recentes apostas da editora A Seita é este Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, que adapta para banda desenhada o clássico da literatura da autoria de Victor Hugo. Esta obra insere-se na coleção Nona Literatura que a editora portuguesa tem vindo a fortalecer aos poucos, sempre com livros de bela qualidade. 

É o caso desta obra que vos trago hoje, que me deixou extremamente bem impressionado!

Adaptado pelo francês Michel Durand, de quem, confesso, ainda não tinha lido nada, este Os Trabalhadores do Mar é uma obra que impressiona desde as primeiras páginas, não apenas pela sua ambição, mas pela intensidade com que se entrega ao espírito do romance original de Victor Hugo. Sente-se em cada uma das 168 páginas que compõem esta obra, um respeito profundo pelo texto original, mas também uma vontade clara de o reinventar - ou de lhe dar uma nova vida eloquente, se preferirem - através da linguagem própria da banda desenhada. É uma belíssima adaptação!

Antes de mais, importa sublinhar que a força da narrativa pertence, indiscutivelmente, a Victor Hugo. Não conhecia a obra original, mas rapidamente pude constatar que a história, de tom clássico e trágico, bem ao jeito de alguma da melhor literatura da época, é verdadeiramente impressionante. Que bela história, que belo enredo e que bela narrativa. Trata-se de um universo literário denso e apaixonado, uma história de grande fôlego em que a condição humana é testada até aos seus limites. É essa dimensão clássica, quase monumental, que esta adaptação de Michel Durand preserva com notável fidelidade.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Falando-vos um pouco do enredo, sem querer revelar em demasia, a história decorre na ilha de Guernsey e centra‑se na personagem de Gilliatt, um homem solitário, afastado da comunidade local e envolto numa aura de mistério face aos habitantes daquela pequena localidade. Apaixonado por uma jovem da ilha e levado a acreditar na reciprocidade dos sentimentos desta perante si, acaba por aceitar o desafio - aparentemente impossível - de recuperar a máquina de um navio a vapor naufragado e preso de forma cirúrgica entre dois rochedos traiçoeiros, num ambiente completamente inóspito que é dominado pela violência do mar. Convém explicar que para os habitantes de Guernsey, este navio é verdadeiramente importante, pois é a única embarcação a motor  vapor que ali existe, o que permite ao seu dono, Mess Lethierry, prosperar. É por essa importância tão grande da embarcação que o velho Lethierry não se impede de prometer a mão da sua bela filha, Déruchette, ao homem que salvar o motor da embarcação que, aparentemente, se mantém intacto. É por isso que Gilliatt, um homem com pouco a perder e muito a ganhar, se põe a caminho destes rochedos com o objetivo de recuperar a famigerada máquina a vapor. Mais não conto sobre a história em si, já que esta tem alguns plot twists e um belíssimo texto que nos deixam bem agarrados a ela.

De forma mais global, uma coisa é certa: estamos perante uma história arquitetada como uma verdadeira epopeia individual, onde o confronto entre o ser humano e a natureza assume uma dimensão quase mítica. O isolamento, o esforço físico extremo e os constantes obstáculos transformam a jornada de Gilliatt numa prova de resistência, mas também numa viagem interior. Mais do que ser uma simples aventura marítima, esta história tem o condão de nos revelar a grandeza silenciosa de um indivíduo perante um mundo vasto, indiferente e muitas vezes cruel.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
É uma bela história, sem dúvida, mas também há que dar mérito à excelente adaptação de Michel Durand que nos dá uma história bem montada, e bem narrada, captando o inteligente e inspirado texto de Victor Hugo e sendo, para além de tudo isto, visualmente impressionante. O autor oferece-nos um elegante traço a preto e branco, que evoca a tradição da gravura, com um uso expressivo de tramas, sob a forma de hachuras, que conferem densidade, textura e profundidade às imagens. É um trabalho meticuloso verdadeiramente impressionante. A história flui depois com naturalidade, tornando-se acessível mesmo para quem não conhece o romance original, como era o meu caso, sem nunca abdicar da sua complexidade emocional.

Cada cena, cada personagem e cada ambiente são ilustrados com uma devoção e detalhe arrebatadores, mas é o mar - elemento central da narrativa, diga-se - aquilo que ganha uma presença quase física nas maravilhosas pranchas que nos são dadas por Durand. As ondas parecem mover-se, os rochedos impõem-se com peso e aspereza, e o ambiente transmite constantemente uma forte tensão entre beleza e perigo. É impossível não sentir o impacto dessa natureza em fúria. As cenas do mar são belas, por um lado, e ameaçadoras, por outro. 

Sem descurar minimamente a beleza poética de cada página deste livro, que é indiscutível, devo admitir, no entanto, que houve certas cenas no mar, na parte em que Gilliatt tenta resgatar a máquina de vapor da embarcação encalhada, em que tive alguma dificuldade em perceber o que estava ali a acontecer. Talvez nessas partes em que o fulgor do mar era demasiadamente grande, o detalhe na ilustração devesse ter sido simplificado de alguma forma, diria.

Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita
Mas isto é um detalhe pequeno, ainda assim, pois cada ilustração, seja grande ou pequena, é trabalhada com um cuidado incrível, havendo uma atenção ao detalhe que não se limita ao virtuosismo técnico, mas que revela uma sensibilidade artística profundamente envolvente. Diria mesmo que em vez de ter ficado preso a uma função meramente ilustrativa, Michel Durand foi além disso e estabeleceu aquilo a que podemos considerar como uma boa simbiose com o universo criado por Victor Hugo, conseguindo o feito de deixar a história fluir com naturalidade, tornando-a acessível mesmo para quem não conhece o romance original - como era o meu caso -, mas sem que isso leve a narrativa a abdicar da sua complexidade emocional.

Em termos de edição, estamos perante um trabalho superlativo d' A Seita. O livro é editado em grande formato - o mesmo grande formato dos livros da mesma coleção dos irmãos Brizzi - e a capa dura é baça, com detalhes a verniz. No interior, o papel é brilhante e a encadernação, impressão e acabamentos são bastante bons. No final, há ainda um extenso caderno com 16 páginas de extras, em que podemos encontrar vários esboços de Durand e uma longa e peculiar entrevista com este que é conduzida por Christelle Pissavy-Yvernault.

Sobre a coleção Nona Literatura, tenho que fazer um louvor ao trabalho da editora. Depois dos belos livros de Georges Bess (Drácula, Frankenstein e O Corcunda de Notre Dame) e dos irmãos Brizzi (Dom Quixote de la Mancha e O Inferno de Dante), este Os Trabalhadores do Mar não lhes fica nada atrás e ajuda a sedimentar a relevância e bela curadoria desta coleção d' A Seita.

Em suma, a adaptação de Michel Durand de Os Trabalhadores do Mar impõe‑se como uma obra de rara intensidade e beleza, onde a fidelidade ao espírito de Victor Hugo se alia a uma expressão gráfica profundamente pessoal e arrebatadora. Mais do que uma simples transposição, trata‑se de uma recriação viva e pulsante, em que cada página respira poesia, esforço e grandiosidade. Eis um dos livros mais bonitos do ano e com uma história bem poderosa que se afirma como altamente recomendável!


NOTA FINAL (1/10):
9.7


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Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand - A Seita

Ficha técnica
Os Trabalhadores do Mar
Autor: Michel Durand
Adaptado a partir da obra original de: Victor Hugo
Editora: A Seita
Páginas: 168, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 240 x 340mm
Lançamento: Março de 2026

Hoje há lançamento de mais uma novela gráfica da Levoir!




Decorre hoje, na Feira do Livro de Lisboa, às 18h00, no Auditório Sul, uma apresentação do livro Dez Mil Elefantes, de Pere Ortín e Nzé Esono Ebalé. Depois da apresentação, haverá uma sessão de autógrafos com os autores, que também marcarão presença no evento, juntamente com a editora da Levoir, Silvia Reig.

Este que é o terceiro volume da nova Coleção de Novelas Gráficas da editora, já deverá estar à venda na Feira do Livro no dia de hoje, sendo depois lançado, a nível nacional, na próxima sexta-feira, dia 19 de Junho, com o jornal Público

Falando-vos um pouco da história deste Dez Mil Elefantes, posso adiantar que esta é uma história que nos leva à Guiné Equatorial, durante o período da colonização espanhola, com base numa expedição organizada por Franco em 1944. É uma história que recupera fotografias e cartas de Manuel Hernández Sanjuán, bem como o testemunho de Ngono Mbà, um dos participantes africanos nesta expedição, o que permite cruzar a visão do colonizador e do colonizado.

Ala dos Livros completa a coleção de O Mercenário!



Já está disponível o 14º e último volume da série O Mercenário, de Vicente Segrelles!

Eis mais uma série de BD finalizada! Cada vez mais, o fantasma das séries incompletas que assolou a nossa edição... é uma coisa do passado! 

No caso concreto, esta série recebeu uma edição verdadeiramente luxuosa e carregada de extras apetecíveis para qualquer fã.

Por tudo o que foi alcançado, deixo os meus louvores à editora Ala dos Livros.

Deixo-vos, mais abaixo, com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.

O Mercenário #14, de Vicente Segrelles

Nestas páginas, narradas em prosa e com 24 ilustrações a página inteira, descobriremos o que aconteceu ao pérfido Claust, qual será o fim do País das Nuvens Permanentes e o que acontecerá aos nossos amigos do Mosteiro da Cratera.

Uma história emocionante, ao sabor das histórias antigas e um grande fim para uma colecção com mais de 35 anos de existência, que marca a história da Banda Desenhada de fantasia e da ilustração.

Como suplemento, em homenagem à origem desta banda desenhada, este álbum inclui ainda uma história curta de dez páginas com o título “A Evidência”.

Obra-prima da banda desenhada de fantasia, “O Mercenário” é uma série essencial que ressurge numa edição última, revista e aumentada.

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Ficha técnica
O Mercenário #14
Autor: Vicente Segrelles
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 64, a cores
Encadernação: 235 x 310 mm
PVP: 23,90€

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Análise: O Cheiro Dele Depois da Chuva

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor
O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera

Vou começar por dizer uma coisa: quando soube que a Arte de Autor iria editar este livro em Portugal, senti um arrepio. Deixem-e recuar um pouco no tempo e falar-vos duma história pessoal.

No ano passado, em pleno Amadora BD, recebi um telefonema da minha mulher a dizer para ir para casa, pois o nosso cão Quixote, o meu melhor amigo dos últimos anos, estava a finar-se. Já sabíamos que ele estava doente, com um cancro nas supra-renais já diagnosticado, que era tratado com cuidados paliativos, mas a verdade é que, até àquele dia, a sua vida era feita de forma tão normal quanto possível, sem que ele estivesse em sofrimento. Mas, infelizmente, os cães têm este defeito - talvez o único? - de terem vidas curtas quando comparadas com as nossas. O nosso Quixote acompanhou-nos, a mim e a minha mulher, e às duas filhas que entretanto chegaram, durante 14 anos e meio, tendo estado sempre presente nos momentos-chave dessa década e meia. Perdê-lo custou muito, como devem imaginar.

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor
Portanto, quando soube de lançamento deste livro, sobre a relação de um homem com o seu cão, fiquei com uma enorme vontade de o ler, por um lado, e com receio de mergulhar nesta leitura, por outro. 

Esta banda desenhada da autoria de José Luis Munuera resulta da adaptação da obra original de Cédric Sapin-Defour que, em França, alcançou o feito de mais de um milhão de exemplares vendidos.

Este O Cheiro Dele Depois da Chuva é um relato profundamente íntimo e sensível sobre a relação que o autor construiu com o seu cão, Ubac. Mais do que uma simples história sobre um animal de estimação, o livro mergulha na forma como essa ligação se torna central na vida do autor, influenciando o seu quotidiano, os seus pensamentos e até a sua identidade. 

É uma história simples e escorreita, que não procura ser lamechas, mas antes demonstrar a beleza da presença e das pequenas rotinas partilhadas, revelando como o vínculo entre um humano e um animal pode ser tão intenso quanto qualquer relação humana.

À medida que Ubac envelhece, a narrativa ganha uma tonalidade mais melancólica, explorando de forma honesta e poética a inevitabilidade da perda. O autor aborda o luto com grande sensibilidade, captando a dor, mas também a gratidão por tudo o que foi vivido. 

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor
José Luis Munuera - de quem a Arte de Autor já por cá publicou Um Conto de Natal, Bartleby, o Escriturário, A Corrida do Século e Peter Pan de Kensington - dá-nos aqui aquele que, quanto a mim, passa a ser o melhor livro do autor publicado em Portugal. Talvez por ser uma história simples, mas carregada de emoção e contemplação, sem que isso seja um pretexto para uma dramatização em excesso.

Acompanhamos a vida de um homem de meia idade, Cédric, um professor de educação física, que vive sozinho, de forma desprendida, e que decide adotar um Cão da Montanha de Berna, a quem dá o nome de Ubac. A partir daí, a história de Cédric deixa de ser vivida de forma tão solitária e Ubac passa a estar nos momentos mais importantes da sua vida. Daí a conhecer uma mulher por quem se apaixona, por fazer alterações drásticas na sua profissão e localidade onde vive, é apenas um pequeno passo natural.

É possível que quem leu ou viu Marley e Eu, de John Grogan, encontre alguns pontos em comum com este O Cheiro Dele Depois da Chuva. Todavia, são histórias algo diferentes na abordagem. Este livro de que vos falo tem um tom mais contemplativo, quase poético, que não convida tanto às gargalhadas nem às lágrimas, como o famosíssimo Marley e Eu, embora, ainda assim seja pontuado por alguns momentos mais divertidos ou mais emocionantes.

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor
Munuera parece particularmente inspirado, oferecendo-nos um trabalho que nos faz sentir a ideia da obra original, através de um belo texto em monólogo - possivelmente captando o texto original de Cédric Sapin-Defour - e de ilustrações cativantes e poéticas, que além de nos contarem a história, nos fazem senti-la através dos silêncios, dos enquadramentos e dos ritmos visuais lentos - mas nunca enfadonhos - que surgem em cada página.

O traço de Munuera assume aqui um papel determinante. Com uma linha equilibrada, semi-realista e subtil, o autor consegue captar tanto a expressividade das personagens quanto a atmosfera dos espaços naturais que atravessam a obra. Há uma contenção muito eficaz no desenho: nada é excessivo, mas tudo está carregado de intenção, permitindo que o leitor projete as suas próprias emoções nas cenas.

A cor, trabalhada por Sedyas, reforça essa capacidade evocativa. As tonalidades são ricas sem nunca se tornarem excessivas, criando ambientes que oscilam entre o conforto e a melancolia. Há uma sensibilidade cromática que acompanha o estado emocional da narrativa, sublinhando as transições do tempo e, sobretudo, da vida.

A estrutura da obra, dividida em sete partes que percorrem treze anos de convivência entre Cédric e Ubac, é particularmente feliz. Cada segmento funciona quase como um fragmento autónomo, que vai assinalando momentos relevantes na vida do protagonista. E convém aqui explicar que esses momentos relevantes até podem não ser "grandes acontecimentos". Por vezes, até são os gestos aparentemente insignificantes, como um passeio, um olhar ou uma rotina partilhada, aquilo que constrói verdadeiramente uma relação. E é precisamente nessa atenção ao detalhe que a obra encontra a sua verdade, mostrando como os laços mais fortes se tecem a partir de pequenas repetições.

O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor
A questão do apego e da perda entre dono e cão surge de forma inevitável, claro, mas não é um assunto que seja explorado em termos dramáticos até à exaustão. Para quem já passou pela perda de um companheiro de quatro patas, o impacto pode ser verdadeiramente intenso. Ainda assim, importa sublinhar que a obra nunca resvala para o sentimentalismo fácil. É comovente, sim, mas mantém sempre uma elegância emocional que a distingue de narrativas mais "manipuladoras". 

É difícil explicar racionalmente porque nos ligamos tanto a um animal, mas a obra consegue tornar essa ligação compreensível através da experiência sensível que nos oferece. E quando chega o momento da despedida, o vazio que fica é grande, mas também é grande a sensação de plenitude de uma vida cheia que tivemos e que devemos guardar, com carinho, nas nossas memórias. 

Há também uma dimensão universal que atravessa toda a obra. Embora se centre numa relação muito específica, ela acaba por falar de algo maior: o amor, o tempo, a memória e a inevitabilidade da perda.

A edição da Arte de Autor é em capa dura, de textura aveludada e com detalhes a verniz. No miolo, o livro apresenta bom papel baço, boa impressão, boa encadernação e bons acabamentos. Há ainda um posfácio do autor do romance original, Cédric Sapin-Defour, que enaltece a adaptação para banda desenhada de José Luis Munuera.

Em suma, O Cheiro Dele Depois da Chuva deixa-nos com a sensação de termos lido algo verdadeiramente especial. Uma história de amor profundamente tocante, que aquece e aperta o coração ao mesmo tempo. Sensível sem ser piegas, sincera sem ser adornada, bela sem ser demasiado plástica, esta obra é um belo livro que nos lembra do quão importantes são as relações que temos com os nossos amigos de quatro patas.


NOTA FINAL (1/10):
9.4


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Cheiro Dele Depois da Chuva, de José Luis Munuera - Arte de Autor

Ficha técnica
O Cheiro Dele Depois da Chuva
Autor: José Luis Munuera
Adaptado a partir da obra original de: Cédric Sapin-Defour
Editora: Arte de Autor
Páginas: 136, a cores
Encadernação: Capa dura
Formato: 210 x 285 cms
Lançamento: Maio de 2026