quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Análise: O Preço da Desonra

O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita

O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita
O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata

Foi já depois de se iniciar no lançamento de mangá, com as séries Butterfly Beast e Kyo Kara Zombie, que a editora portuguesa A Seita fez uma aposta de maior fôlego, editando um dos autores mais famosos do género. Falo de Hiroshi Hirata, unanimemente considerado com um dos maiores mestres do mangá que, com este denso volume, com quase 400 páginas, da sua célebre obra O Preço da Desonra, deixa de ser inédito em Portugal!

Só por isso, esta aposta já seria, quanto a mim, uma vitória por parte d’ A Seita. Mas vai além disso. Uma coisa de que tenho vindo a apontar (sem que tal mereça que se encontre um "culpado"… it is what it is) é que o lançamento de mangá em Portugal tem incidindo muito em obras para jovens adolescentes. Nada de mal há nisso e que bom que é que esse grupo etário tenha mangá direcionado para os seus interesses. No entanto, também considero que é por essa mesma razão que o público mais maduro de banda desenhada europeia ou americana, aponte mais resistência ao mangá e a dar-lhe uma oportunidade.

O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita
Todavia, temos assistido a uma (ainda) ligeira mudança de paradigma. A Devir lançou recentemente as obras Monster, Sunny ou os contos de Junji Ito que, sem dúvida, são prova clara que o mangá também tem muita oferta destinada a um público mais maduro. De certa forma, com Butterfly Beast, A Seita também já tinha feito esse statement editorial. Mas, claro, é com este O Preço da Desonra que, estou certo e desejoso, a editora vai conquistar um certo tipo de público que normalmente não lê mangá.

Em O Preço da Desonra, um conjunto de sete contos sobre um cobrador de dívidas a samurais, não temos uma história infantil. As histórias são adultas e muitas vezes até trazem consigo uma curiosa reflexão sobre a bravura (ou ausência da mesma) daqueles a que a sociedade gosta de apelidar de valentes heróis de guerra.

O protagonista é Hanshiro que tem como função a cobrança de dívidas que foram contraídas em pleno momento da batalha através de uma nota de dívida. Quando estavam à beira da morte, muitos eram os samurais que, cegos com o medo de perder a vida, agarravam-se como podiam à mesma, implorando para que a sua existência lhes fosse poupada em troca da emissão de uma dívida. Como se estivessem a comprar a própria vida, abdicando de questões mais etéreas como a nobreza, a valentia ou a honra.

O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita
E como em qualquer sistema de crédito e cobranças que se preze, não há cá desculpas para ninguém: ou se paga o que se deve em dinheiro, ou se paga com o corpo. Neste caso, com a vida.

A acção toma lugar no Japão, no período Edo. E o que é mais agradável em termos de história é que, contrariamente àquilo que estamos habituados a ver em contos de samurais, em que estes são sempre gloriosos e honrados soldados, em O Preço da Desonra, vemos o outro lado da questão: o dos samurais corruptos, mentirosos, hipócritas e cobardes. Se querem uma opinião meramente pessoal, diria que as histórias que aqui nos são dadas por Hiroshi Hirata aproximar-se-ão muito mais da realidade do que aquela ideia romântica e fabricada de que os samurais eram todos uns valentes guerreiros. Portanto, em via oposta aos valores do Bushido, aqui as histórias tratam temas como o medo de morrer e como contornar essa fraqueza através do dinheiro.

Mas, claro, pagar-se para viver era uma decisão que, depois de tornada pública, trazia vergonha a qualquer família. E, também por isso, interessante é o facto do protagonista, Hanshiro, embora seja implacável na cobrança de dívidas, revelar algum humanismo perante as situações com que se depara na sua atividade. Quase como se ficasse com pena de ter que cobrar uma dívida. Embora o tenha que fazer, claro.

O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita
É natural que nos lembremos da emblemática Lone Wolf & Cub, de Koike e Kojima, um dos mais célebres mangás de samurais. Mesmo assim, e muito por causa desta reflexão moral sobre os valores dos samurais que a obra levanta, O Preço da Desonra é bastante original e fiel a si mesmo.

O desenho é verdadeiramente magnífico, com Hirata a revelar-se um autêntico mestre na ilustração realista das personagens, dos seus combates, dos ambientes e, acima de tudo, das poses que transmitem inequivocamente o ambiente épico e bélico que as histórias de samurais normalmente conseguem criar no nosso imaginário. O traço a preto e branco do autor apresenta alguma sujidade que, quanto a mim, dá o ambiente certo a este tipo de histórias duras e implacáveis onde a morte espreita ao virar da página. Há ilustrações que são de tirar o fôlego!

Tenho, porém, uma queixa que, infelizmente, interfere sobejamente na boa fluição da leitura: é que as figuras masculinas desenhadas por Hirata (e em mais de 90% dos casos, são homens que aparecem nestas histórias) são demasiadamente semelhantes entre si. E isso faz com que tenhamos que andar ali à pesca, à procura de um qualquer elemento diferenciador, para perceber quem é quem e quem diz ou faz o quê. Quanto a mim, é algo que me deixa bastante frustrado quando acontece em banda desenhada. Reitero que o desenho é magnífico, sim. Mas se não conseguimos diferenciar as personagens ao longo da leitura, esta sai afetada de forma negativa. Esta é a minha grande queixa acerca deste O Preço da Desonra.

O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita
Porque o que é facto é que as histórias não apresentam argumentos complexos ou com dinâmicas narrativas muito audazes, mas apresentam pontos de vista pertinentes e realidades que prendem a ação do leitor. Os desenhos são muito belos e enchem-no o olho. Mas lamentavelmente, as personagens são tão parecidas que acabamos por ficar perdidos na narrativa., que até nem é complexa.

A edição da obra apresenta capa mole, com badanas e bom papel baço, bem escolhido para o tipo de obra que temos em mãos. A encadernação e a impressão também são de boa qualidade. Embora seja um livro muito espesso, e em capa mole, depois de terminada a leitura, a lombada do meu exemplar não ficou com aquele vinco inestético que, por vezes, neste tipo de obras maiores em capa dura, acontece. No final das histórias há ainda espaço para dois posfácios: um de Hiroshi Hirata e outro de Pedro Bouça, um dos editores d’A Seita.

Portanto, concluindo, O Preço da Desonra é uma aposta ganha por parte d’ A Seita, pois traz-nos a publicação (pioneira) de um dos mestres mais bem cotados do mangá, numa bela e integral obra de samurais, completamente adequada para um público mais adulto e, diria, apreciador de banda desenhada europeia e/ou americana. É com a aposta em mangás deste gabarito e teor maduro que, estou certo, o número de leitores mais adultos vai aumentar nos próximos tempos.


NOTA FINAL (1/10):
8.7



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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O Preço da Desonra, de Hiroshi Hirata - A Seita

Ficha técnica
O Preço da Desonra
Autor: Hiroshi Hirata
Editora: A Seita
Páginas: 396, a preto e branco
Encadernação: Capa mole
Formato: 15,5 x 22,6 cm
Lançamento: Agosto de 2023

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Termina hoje a série O Assassino!




Chega hoje às bancas o sétimo e último volume da série O Assassino, de Matz e Jacamon, que a ASA tem vindo a lançar com o jornal Público!

Refiro que este último volume não é um álbum duplo mas, em compensação, reúne um interessante e extenso dossier de extras, fechando com chave de ouro esta bela coleção que, em boa hora, a ASA decidiu lançar por cá.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais. Partilho também as imagens e sinopses referentes ao penúltimo livro que, por motivos pessoais, não tive oportunidade de partilhar.

O Assassino #13 - Pontos de fuga | Making Of, de Matz e Luc Kacamon

O fim do caminho: eis o volume final da grande saga do Assassino. Cuba, Argentina, Chile… Abalado com a morte do seu ex-comparsa colombiano, o Assassino entrega-se à introspecção durante algumas semanas de errância pela América Latina, ao sabor dos seus impulsos. Entrar na legalidade e envolver-se mais na sua parceria com Haywood na empresa petrolífera cubana Petroleo Futuro Internacional? Tentar desaparecer, de uma vez por todas no coração da floresta, com a sua companheira e o seu filho? Contudo, não terá a possibilidade de remoer durante muito tempo sobre o seu niilismo radical.

Devido ao seu passado violento, é apanhado por dois agentes secretos franceses na capital chilena, pelo que este solitário inveterado não terá alternativa senão seguir o caminho traçado por si muitos anos antes, optando categoricamente pela independência e o anonimato definitivo, de armas na mão…

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Ficha técnica
O Assassino #13 - Pontos de fuga | Making Of
Autores: Matz e Luc Jacamon
Editora: ASA
Páginas: 96, a cores
Encadernação: Capa mole
PVP: 12,90€
O Assassino #11 e #12 - Quando o Passado nos Persegue | A Mão que Alimenta, de Matz e Luc Kacamon

11.Quando o Passado nos Persegue
A Petroleo Futuro Internacional, a grande empresa petrolífera na qual o Assassino aceitou trabalhar publicamente, funciona em pleno há quatro anos e os seus lucros ultrapassam todas as expectativas. 

O Assassino tornou-se agora um homem rico e poderia finalmente retirar-se, para se dedicar apenas à família. Mas uma pessoa não se desliga de um passado adquirido com tanta dedicação. Mariano, o amigo colombiano do Assassino, tornou-se ministro no seu país e aspira a subir na hierarquia, ainda que tenha de eliminar alguns concorrentes incómodos.

Assim, o ex-mafioso decide recorrer ao talento do Assassino, que, por amizade e ociosidade, aceita «ajudar» Mariano…


12. A Mão que Alimenta

O Assassino voltou ao serviço. Mas a eliminação (pertinente) de um agente da CIA tem um inconveniente: dar nas vistas. 

Haywood, o sócio do Assassino na empresa petrolífera Petroleo Futuro Internacional, aconselha este último a ser discreto e a esquecer temporariamente o seu amigo comum, Mariano, demasiado envolvido na sua nova carreira política na Colômbia…
E, de facto, quando se cruza com Mariano em Bogotá, o Assassino sente claramente que a relação entre ambos mudou. A começar pelo ingrediente indispensável quando se partilham tantos segredos incómodos: a confiança. E, depois de ser seguido por desconhecidos na Martinica e nos Barbados, o Assassino poderá confirmar que a sua intuição estava certa. Mas não como ele imaginava: Mariano, cujo guarda-costas foi eliminado, desapareceu subitamente…

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Ficha técnica
O Assassino #11 e #12 - Quando o Passado nos Persegue | A Mão que Alimenta
Autores: Matz e Luc Jacamon
Editora: ASA
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa mole
PVP: 12,90€



terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Vinheta 2020 com nova imagem criada por autor nacional!



Chegámos a Janeiro de 2024 e, com isso, também é tempo de refrescar a imagem do Vinheta 2020!

Como vem sendo hábito desde o lançamento deste espaço em Janeiro do ano 2020, a cada 6 meses convido um autor nacional para desenhar algo inédito para o blog.

Desta vez, tive o prazer de contar com a arte de Jorge Coelho, um autor que muito admiro.

E vejam lá se não ficou fantástico! 

Jorge Coelho é um dos mais aclamados autores portugueses de banda desenhada, tendo feito numerosos trabalhos para a multinacional Marvel. Mais recentemente, lançou por cá a sua - e de Ted Adams - adaptação para banda desenhada do clássico de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby, que está verdadeiramente fenomenal!

E é mesmo a personagem de Gatsby que o autor escolheu para generosamente ilustrar o cabeçalho do Vinheta 2020.

Jorge Coelho junta-se assim a um belo conjunto de autores que já ilustraram a imagem do Vinheta 2020 que são: Henrique Gandum, Daniel Maia, Joana Afonso, Ricardo Santo, Luís Louro, Osvaldo Medina e Telmo Estrelado.

Obrigado, Jorge!

TOP 15 Expectativa - BDs anunciadas para 2024


Como primeiro artigo deste novo ano que agora começa, trago-vos o meu TOP 15 de Maiores Expectativas que tenho para 2024, com base nos álbuns que as editoras anunciaram, em primeira mão e em exclusivo, aqui no Vinheta 2020, através das várias entrevistas concedidas nas últimas semanas de Novembro e Dezembro.

Informo também que já tomei conhecimento off the record, de duas ou três obras que prometem abalar positivamente este novo ano editorial. Mas, por uma questão de ética, não falarei de nenhuma dessas obras, naturalmente, pois ainda estão no segredo dos deuses.

Por "expectativa", em termos da nova banda desenhada anunciada para 2024, entendamos os livros que me deixam empolgado, por um motivo ou outro, e dos (ou sobre os) quais já li alguma coisa, mas que não cheguei mesmo a ler de forma completa.


Atenção que nem sempre "expectativa" é sinónimo de "satisfação" ou mesmo de "qualidade". É óbvio que nos podemos valer dos autores das obras, que já nos conquistaram com outros trabalhos, ou do poder das sugestões, prémios e críticas alheias. Mas o que é certo é que essa suspeição ou sugestão de qualidade não garante, por si só, que o livro será bom para os nossos critérios pessoais. Depois de lida uma obra que muito esperávamos é que podemos verificar se realmente ela é espetacular; se, afinal de contas, é uma valente desilusão; ou se é simplesmente razoável e nos deixa com aquela sensação de "meh". 

Como tal, e depois de reler todas as entrevistas que tive com as principais editoras portuguesas de banda desenhada para aferir quais as novas obras que serão lançadas em 2024, decidi fazer um compacto TOP 15 das obras que me deixam com mais expectativa para o próximo ano. Algumas até podem ser amargas desilusões - devido a eu ter as expectativas em altas - mas, lá está, estão a deixar-me muito empolgado com o seu lançamento!


Antes de avançar para o meu TOP 15, deixem-me deixar-vos ainda com uma última nota: das novas obras que foram anunciadas, há algumas que, como já as conheço por ter lido noutra língua, não as considero neste artigo, pois já não há propriamente "expectativa" da minha parte, mas sim "segurança" e "confirmação" quanto a serem obras magníficas cuja compra é obrigatória! 

Falo, por exemplo, de Yellow Cab, de Chabouté (Levoir), Vento nos Salgueiros, de Michel Plessix (Arte de Autor) ou Le Petit Frère, de Jean-Louis Tripp. 

Estes livros são obrigatórios. Confiem em mim e coloquem-nos na vossa lista de compras!




Avancemos então, mais abaixo, para o meu TOP 15 Expectativa - BDs anunciadas para 2024: