terça-feira, 24 de agosto de 2021

Análise: Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas)

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre

A série Verões Felizes está de volta para tornar o nosso verão (ainda) mais feliz! Este é o terceiro volume duplo que a Arte de Autor publica em Portugal – e que reúne o 5º e 6º tomos. Desta forma, a série fica integralmente publicada em Portugal. O que é algo digno de valor!

Já muito se escreveu sobre esta série maravilhosa que, na primeira edição dos VINHETAS D’OURO - galardões que premeiam a melhor banda desenhada publicada em Portugal - arrecadou mesmo o prémio de Melhor Álbum Estrangeiro de 2020. Portanto, pelo menos entre críticos da especialidade parece ser comummente aceite que Verões Felizes é uma série fabulosa.

Os autores Zidrou e Jordi Lafebre convidam-nos a conhecer as férias dos Faldérault, uma família belga que todos os anos regista peripécias, acontecimentos marcantes, desenvolvimento pessoal e crescimento natural, sempre que vai de férias. Tem um tom leve e divertido embora traga consigo o levantamento de questões mais adultas e sérias.

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Regresso, portanto, às minhas próprias palavras quando, na análise ao primeiro álbum duplo da série referi que “quando, em 2019, li este Verões Felizes pela primeira vez, mal queria acreditar no que tinha em mãos. Com uma arte visual maravilhosamente desenhada e colorida, bem típica do que de melhor se faz no franco-belga, equilibrando um estilo de ilustração algures entre o cartoonesco e o semi-realista; e com uma história profundamente nostálgica e real que, tem o condão de nos remeter para o passado feliz da nossa infância, bem... a minha certeza foi uma: estávamos perante um clássico instantâneo da banda desenhada.”

Verões Felizes tem muitas boas cartadas em mãos que justificam que seja uma série tão aclamada pelos leitores e pela crítica. Senão vejamos: 1) a história consegue ter a capacidade de nos fazer viajar no tempo, não só para as experiências passadas das personagens como, também, para as nossas próprias experiências do nosso passado, algures repousadas no nosso livro de memórias pessoal. 2) Por outro lado, o conjunto de personagens que Zidrou criou para a família Faldérault conquista facilmente cada leitor. Todas as personagens são muito bem construídas, ao ponto de um leitor atento já conseguir prever como reagirá determinada personagem face a determinado estímulo. Isso só acontece, porque as personagens foram criadas e desenvolvidas com profundidade e de forma muito personalizada. Mas há mais! 3) As ilustrações de Lafebre - e as cores que as povoam - são maravilhosas, dando um aspeto irresistível à componente visual da série. Portanto, se a história e as personagens são excelentes, as ilustrações não ficam nada atrás!

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Tendo em conta que a temática de cada número gravita sempre em torno das férias desta família belga, há um certo risco e/ou necessidade de fazer-se algo novo, do ponto de vista do argumento, para que cada volume não seja mais do mesmo. E, neste terceiro volume, Zidrou volta a fazê-lo de forma airosa e criativa. Especificamente no tomo que abre o livro.

Assim, em A Fuga, não estamos no quente mês de Agosto mas sim em Dezembro, na quadra natalícia. Isto gerou em mim uma certa confusão se tivermos em conta que o título da série, quer em português, quer na língua original (Les Beaux Etés), evoca o verão. Ora, localizando temporalmente na quadra natalícia uma história de uma série ambientada no verão pode parecer um autêntico non sense, certo? É claro que, lendo a história, compreendemos e aceitamos (?) a opção dos autores pois, mesmo em pleno inverno, é possível termos férias com sol e praia, não é verdade? Talvez não o consigamos no sul de França, na Côte d’ Azur mas vá, diria que, não sendo muito verossímil se aceita. Até porque, como muitas vezes a série nos tem mostrado, não é o destino de férias a coisa mais importante numa viagem, mas sim a jornada, propriamente dita. 

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

E a história de A Fuga é capaz de ser a menos linear em toda a série. O ano de 1979 não foi especialmente bom para a família devido a diversas coisas que lhes foram acontecendo: Madô não gosta do seu trabalho; a filha mais pequena, Pêpete, esteve doente; as férias de verão na Bretanha foram um fracasso, com chuva sempre presente; e a Pierre é feita a proposta de desenhar uma série de bd da qual ele está farto. Ora, face a tudo isto, os Faldérault decidem celebrar o Natal ao sol, viajando “rumo ao sul”! Mas as coisas não acontecem como planeado. 

Julie-Jolie a filha mais velha, tem que estudar para os exames e Louis, que tinha comprado viagem e bilhete para ver os Pink Floyd em Londres, não fica nada entusiasmado com esta ideia de férias inesperadas. E decide então fugir a meio da viagem! Como já disse, e talvez a par do terceiro tomo, Menina Esterel, este A Fuga é possivelmente o álbum onde Zidrou se afasta mais da premissa base da série. Por um lado, isso é bom, pois oferece-nos diversidade. Por outro lado, talvez não ofereça (tanto, vá!) aquilo que os fãs da série estariam mais à espera. Seja como for, e depois de algumas reviravoltas na história, o tom fraterno e amoroso da história mantém-se bem presente. Mais não seja porque, à medida que os filhos vão crescendo e desenvolvendo gostos, vocações e novas relações, a noção clássica de momentos em família acaba por ser alterada. E, para os pais, nem sempre é fácil de lidar com isso. E é precisamente isso que sucede neste quinto tomo. No final há ainda um pequeno conto de 7 páginas, escrito em prosa e adornado com ilustrações de Lafebre que traz consigo (mais) uma interessante abordagem às personagens.

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Depois, no tomo seguinte, intitulado As Giestas andamos para trás no tempo, até ao ano de 1970, e já temos aquilo que considero um álbum "mais clássico" de Verões Felizes.

É verão e a família inicia a sua viagem “rumo ao sul” na sua Renault 4L, carinhosamente apelidada pela família como “Menina Esterel”. Mas, a meio da viagem, um pequeno acidente com o carro faz com que este não possa prosseguir viagem até que fique totalmente consertado pelo mecânico. Felizmente, os Faldérault têm a sorte de ser acolhidos por Esther e Estelle, duas lindas mulheres que dirigem a quinta “As Giestas”, ali nas proximidades. Portanto, desta vez as férias não são na praia, mas sim na quinta, com as crianças a adorarem esta experiência junto dos animais e ambiente rural. Este tomo traz consigo o tema da sexualidade e como o mesmo era compreendido pelas crianças – e não só – no início da década de 70. A história é mais do que isso, mas não deixa de ser pertinente que os autores tenham sabido trazer esta temática para a história. Funcionou muito bem, a meu ver.

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Acima de tudo, é no carinho e nas relações tão profundas e marcantes que desenvolvemos com a nossa família face aos grandes e pequenos acontecimentos da vida, onde esta série mais sabe conquistar os leitores. E, em seis vezes, os autores foram bem sucedidos nessa demanda.

Em termos de ilustração Lafebre mantém-se muito inspirado neste 3º volume. Tudo o que já era bom nos volumes anteriores também o é aqui. Na verdade, até me parece que, em determinados momentos, Lafebre nos oferece neste livro algumas das suas melhores vinhetas de toda a série. O louvor ao autor que tenho assinalar novamente, pois já escrevi o escrevi no passado é que “para além de ser um ilustrador completo, com uma grande capacidade de desenho de objetos, ambientes, veículos, paisagens... penso que é na construção das personagens que o seu trabalho mais impressiona. O tal estilo franco-belga que (…) é semi-realista e cartoonesco, encaixa que nem uma luva nesta história e nestas personagens. Outra coisa onde diria que Lafebre está entre os melhores, é na caracterização das expressões das personagens. É que, sendo esta uma série emotiva, as personagens presenteiam-nos com as mais variadas expressões: cómicas, tristes, interrogativas, pensativas, etc. E ainda por cima, com tantas crianças, que são sempre muito expressivas, o desafio de ilustração era grande. Mas isso, é passado de forma sublime para as páginas do livro, através de uma grande capacidade de ilustração de expressões. Não raras vezes, o leitor fica com o mesmo sorriso terno perante um momento terno, com a mesma cara pateta perante um momento pateta ou com o mesmo nó na garganta perante um momento que deixa as personagens com um nó na garganta. Lafebre é um especialista em desenhar “expressões verdadeiramente expressivas”, passo a redundância.”

Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

A edição da Arte de Autor acompanha aquilo que a editora já fez nos dois volumes anteriores. Capa dura brilhante, bom papel baço e boa qualidade de encadernação. Tudo bem feito. Nada negativo a apontar. Nota positiva para a pertinência da editora em utilizar para capa a imagem da capa do 6º volume e não a do 5º volume que remeteria para o natal. Tendo em conta que o livro foi agora lançado neste mês de Agosto, acho que foi uma decisão certa e lógica.

Disse-o em relação ao primeiro volume, mas posso dizê-lo sobre toda a série: Verões Felizes “é um daqueles casos raros em que o livro é recomendável para toda a família. Para crianças com 8 anos e para idosos com 88 anos. Para toda a gente. Porque, afinal de contas, quem de nós não gosta de aproveitar uma viagem às memórias de um passado feliz? Algo correu mal na vida de alguém que me diga que não aprecia nada neste livro. Será que, simplesmente, não tem coração? Tenho 35 anos e adoro esta série. Sei que daqui a 30 anos continuarei a adorar esta série. Adorá-la-ia se a tivesse lido com 10 anos. E é por isso que é um clássico instantâneo. A partir do momento em que a lemos.”

Em suma, e depois de 6 tomos, Verões Felizes lembra-me aquela máxima do futebol: “em equipa que ganha, não se mexe”, senão vejamos: o argumento continua fantástico; as personagens continuam irresistíveis; as referências culturais aos anos em que as histórias se desenrolam são ricas e deixam-nos nostálgicos; os desenhos e as cores são lindos; e a edição da Arte de Autor mantém-se ótima. A pergunta sacramental para todos aqueles que ainda não leram(!) esta série é apenas uma: “De que é que estão à espera para o fazer?”


NOTA FINAL (1/10):
9.5



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas), de Zidrou e Jordi Lafebre - Arte de Autor

Ficha técnica
Verões Felizes - 3 (A Fuga | As Giestas)
Autores: Zidrou e Jordi Lafebre
Editora: Arte de Autor
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Agosto de 2021

A Ala dos Livros estreia mais uma série de banda desenhada!




Conforme já ontem aqui dei nota, a Ala dos Livros prepara-se para lançar o primeiro volume da série Wild West, dos autores Jacques Lamontagne e Thierry Gloris.

Trata-se do primeiro número de uma série que, em França, conta, até ao momento, com dois volumes publicados. Neste primeiro tomo, conhecemos o percurso da célebre Calamity Jane.

Não conheço muito sobre a obra mas devo dizer que estou bastante empolgado com a mesma, a julgar pelas ilustrações maravilhosas que já pude observar.

Abaixo fiquem com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.
Wild West 1 - Calamity Jane, de Jacques Lamontagne e Thierry Gloris

Após a Guerra Civil, o movimento em direcção ao Oeste era imparável. Para alguns, o vasto território era sinónimo de riqueza e novas oportunidades. A linha férrea, em construção, significava novas oportunidades e enriquecia muitos. Mas nem todos os que se aventuravam na travessia do vasto continente americano conseguiam chegar ao seu destino.

Num bordel em Omaha, Martha tem 16 anos e está suficientemente desesperada para se tornar prostituta. É então que conhece o caçador de recompensas Wild Bill Hickok, que lhe revela uma verdade simples: o Velho Oeste não é lugar para quem tem um coração mole. Mas em contrapartida, a liberdade está ao alcance de todos. Basta um colt, alguns cartuchos e vontade de usá-los.
Com isso, até uma donzela aparentemente frágil se pode libertar das garras de um proxeneta corpulento.

E assim começa a incrível história de Martha Cannary, que viria a ficar conhecida como Calamity Jane, uma das grandes lendas do Velho Oeste.

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Ficha técnica
Wild West 1 - Calamity Jane
Autores: Jacques Lamontagne e Thierry Gloris
Editora: Ala dos Livros
Páginas: 56, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 14,90€

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Novos eventos e livros nesta rentrée!


Foram várias as novidades de interesse para os leitores portugueses de banda desenhada que foram ocorrendo nas últimas semanas.

Faço aqui um apanhado geral dessas ocorrências que merecem destaque. Isto não invalida que nos próximos dias eu não vá vá fazendo referências maiores e mais detalhadas a todas estas novidades. Tentarei fazê-lo. Mas, por agora, um apanhado geral!

Em primeiro lugar, os eventos!

Depois de mais de um ano em que nenhum evento dedicado à banda desenhada ocorreu no nosso país, devido à célebre pandemia de covid-19, é tempo de voltarmos a ter eventos dedicados à 9ª arte!

E o primeiro deles é o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja que decorrerá de 3 a 19 de Setembro, na Casa da Cultura de Beja. É um festival que tem crescido de ano para ano e cada vez é mais relevante no nosso país. Já por várias vezes tentei marcar presença neste evento mas nunca consegui comparecer - muitas vezes motivado por compromissos profissionais e/ou familiares que quase sempre me acontecem na altura do ano em que o evento geralmente sucede (Maio). Mas, este ano, o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja ocorrerá no mês de Setembro, daqui a duas semanas e, desta vez, não faltarei. Nem deverão faltar todos aqueles que são apreciadores da banda desenhada. Até porque já se conhecem alguns dos nomes sonantes que marcarão presença no certame. Destaque para o facto de, no primeiro fim-de-semana do festival estarem presentes todos os autores das 13 exposições.



Também em relação a outro evento de grande relevância para a banda desenhada em Portugal, já se conhecem algumas novidades. Falo do Amadora BD (ou FIBDA - Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, para os mais antigos). O festival decorrerá de 21 de Outubro a 1 de Novembro e terá um novo local que será o Ski Skate Amadora Park. Confesso que estou curioso face a esta nova aposta da Organização em termos de localização. Mas, para já, um destaque muito positivo merece ser dado à introdução de um prémio pecuniário de 5.000€ para a Melhor Banda Desenhada de Autor Português. É sempre uma boa iniciativa promover-se (e apoiar-se) a criação portuguesa de banda desenhada!



A Feira do Livro de Lisboa também está de regresso, já a partir do próximo dia 26 de Agosto. Não sendo, propriamente, um evento dedicado à banda desenhada, mas sim a todo o tipo de livros, (também) é, por conseguinte, um evento obrigatório para que os amantes de bd possam passear e adquirir algumas raridades ou as novidades que as editoras prepararam para esta rentrée.




E, por falar nessas novidades, devo dizer que são várias e apetecíveis!

A Seita edita Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo, do autor português Fernando Relvas. 

Concerto para 8 Infantes e 1 Bastardo
de Fernando Relvas

A mesma editora lança, em parceria com a Arte de Autor, a obra Os Olhos do Gato, da célebre dupla de autores Alexandro Jodorowsky e Moebius.

Os Olhos do Gato
de Moebius e Jodorowsky

Por sua vez, a Arte de Autor, acaba de publicar o terceiro volume de Verões Felizes, de Zidrou e Jordi Lafebre, que nos traz os tomos 5 e 6 da série, deixando-a integralmente publicada em Portugal; bem como mais dois tomos da coleção a preto e branco de Corto Maltese, de Hugo Pratt, nomeadamente A Juventude e Tango.

Verões Felizes 3 - A Fuga | As Giestas
de Zidrou e Jordi Lafebre


Corto Maltese - A Juventude
de Hugo Pratt

Corto Maltese - Tango
de Hugo Pratt


A Ala dos Livros também acaba de nos presentear com dois lançamentos: 
O quinto volume d' O Corvo, do português Luís Louro, cujo título da obra é Inimigos Íntimos. Depois de Os Covidiotas, este é o segundo livro que a editora publica de Luís Louro em 2021.

O Corvo V - Inimigos Íntimos
de Luís Louro


A mesma editora traz-nos também uma nova série intitulada Wild West . O primeiro número é Calamity Jane, de Lamontagne e Gloris. Trata-se de um western que nos revela as origens dessa personagem icónica do faroeste americano que foi Calamity Jane.

Wild West - 1. Calamity Jane
de Lamontagne e Gloris


Por sua vez, a Levoir volta a editar dois livros da sua coleção Clássicos da Literatura em BD. O primeiro - o 10º volume da série - é a adaptação da obra original de Alexandre Dumas, Os Três Mosqueteiros, por Fabrizio Lo Bianco e Andrés José Mossa. E o segundo álbum é a muito aguardada adaptação de Os Maias, de Eça de Queiroz, por José de Freitas e Canizales.

Os Três Mosqueteiros
de Fabrizio Lo Bianco e Andrés José Mossa

Os Maias
de José de Freitas e Canizales


Já aqui foi anunciado no Vinheta 2020 mas faço a nota de que a Gradiva lança agora o primeiro volume da série Tango, da autoria de Philippe Xavier e Matz, e a Escorpião Azul apostou n' A Aranha, de Carlos Pais. 

Tango - 1 Um Oceano de Pedra
de Xavier e Matz

A Aranha
de Carlos Pais


Também os portugueses Duarte e Henrique Gandum se preparam para lançar, numa co-edição da Mudnag com a Ego Editora, Amélia: Uma História do Congo.

Amélia: Uma História do Congo
de Duarte e Henrique Gandum

Para já, são estas as obras conhecidas mas certamente conheceremos algumas mais nos próximos dias. Fiquem atentos! 

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Análise: Cañari #1 – As Lágrimas d’Ouro



Cañari #1 – As Lágrimas d’Ouro, de Didier Crisse e Carlos Meglia

Este é mais um dos livros publicados pela extinta editora Vitamina BD e que se podem encontrar por aí – em mercados de livros, feiras do livro de rua, ou nos sites PromoBooks ou MBooks – a preços a rondarem os 5,00€.

Mas, infelizmente, há um duplo sentido de oportunidade perdida nesta série Cañari, que até aparentava ter algumas ideias interessantes. Em primeiro lugar, e isto é algo que aconteceu em várias séries em que a Vitamina BD pegou, com a extinção da editora, os leitores ficaram "agarrados" com o primeiro volume da série, não tendo sido publicado o álbum seguinte. Em segundo lugar, com o falecimento do autor Carlos Meglia em 2008, a coleção original manteve-se incompleta pois só foram publicados dois álbuns. Desta vez, os leitores portugueses ficaram apenas com um dos dois livros publicados em português, mas convenhamos que, mesmo que o segundo livro tivesse sido publicado por cá, a história ficaria incompleta à mesma.


Portanto, admito que pode não ser muito aliciante a leitura deste livro sabendo, de antemão, que ficaremos a meio da história. Ainda assim, não resisti ao preço, à capa fantástica desta obra e à arte do autor Carlos Meglia, onde a expressividade das suas personagens, ao estilo da escola Disney, me convenceu.

Esta é uma história de aventura fantástica que nos remete para o México ancestral - onde a cultura maya marca presença - do tempo que antecedeu as invasões dos conquistadores europeus e, ao mesmo tempo, nos transporta, em simultâneo para o século XXI. Por outras palavras, é uma história que se desenrola em dois tempos distintos.

E até começa no tempo presente quando Wayne, um jovem surfista de Los Angeles que se faz acompanhar pelos seus amigos, viaja para a praia de Tulum, no México, após ter recebido um postal deste local de alguém que nem sequer o assinou. Intrigado, Wayne passou então a visitar várias vezes este local e está de volta a este sítio especial. E mesmo não havendo ondas para surfar, acredita que um dia haverá uma grande onda que ele não quer deixar de aproveitar, em cima da sua prancha de surf. 


E depois a ação transporta-nos para um tempo longínquo(?) do México em que conhecemos a protagonista desta história, de seu nome Cañari. Esta bela jovem tem 3 irmãos mais novos e é tarefa dela tomar conta deles. Mas quando o irmão mais pequeno, Kaotil, desaparece, o seu pai fica fulo e obriga-a a encontrá-lo antes do Dia de IX, o dia em que os homens encontram os seus deuses. E é a partir daí que Cañari, acompanhada pelos outros dois irmãos, parte para a selva em busca do seu irmão perdido.

A partir daí sucedem-se vários eventos, que nos fazem colocar mais questões sobre a trama, enquanto se vão juntando a Cañari alguns personagens curiosos. 

O problema da história é que me parece não saber muito bem para onde quer ir. É legítimo que tenhamos em conta que o autor Crisse estaria neste primeiro tomo a apresentar personagens e a trama sem nos dar muitos desenvolvimentos que viriam, certamente, nos volumes seguintes. Mesmo assim, não achei que a narrativa que nos é oferecida prendesse o leitor de forma suficiente. As bases são lançadas mas parcamente aproveitadas por Crisse para nos envolver no argumento por si criado. O tom é claramente juvenil e, olhando por esse prisma, talvez se compreenda que o autor não tenha aprofundado muito certas questões que poderiam tornar a leitura mais aliciante.


A arte de Meglia neste Cañari tem coisas muito interessantes e outras que, quanto a mim, não funcionam tão bem. O seu estilo é em muito inspirado nas personagens da Disney com a personagem de Cañari a fazer-me lembrar uma mistura feliz entre as personagens de Pocahontas e de Rapunzel, por exemplo. Para mim, que tanto gosto da estética e da “escola-disney” isto são boas notícias. Além de que a expressividade das personagens – podendo até ser exagerada para muitos leitores, calculo – é uma das mais valias na arte de Meglia. Torna-se quase impossível não criarmos facilmente um laço com estas bonitas e bem desenhadas personagens. 

Mas depois, em termos de cenários, o trabalho do autor já me deixou com alguns sentimentos mistos. Tendo uma abordagem mais em estilo de aguarela, parece-me que não encaixa tão bem assim nas personagens que são, todas elas, muito estilizadas e de estilo mais moderno. Ou seja, parece que se juntam dois estilos de ilustração que não encaixam tão bem assim um no outro. Por um lado, temos o estilo das personagens, que é mais computorizado e moderno e, por outro lado, temos, depois, o estilo utilizado nos cenários onde as cores são mais arrastadas, criando muitas vezes a ilusão de imagem desfocada. Não fiquei muito convencido.


Em termos de cores, é um álbum bonito, com uma paleta luxuriante que consegue encher o olho. Mesmo assim, pareceu-me que talvez o autor tenha abusado em demasia da componente digital, tornando a cor em algo “sintético” demais para os meus gostos. Destaque ainda para o facto da linha do autor não ser em tom preto, como é mais normal, mas sim em tom acastanhado. Numas vezes funciona bem mas noutros casos, especialmente quando os fundos ou luzes são amarelos, laranjas, vermelhos ou castanhos, não funciona tão bem e torna-se algo artificial.

Quanto à edição da Vitamina BD, é em formato franco-belga, com capa dura, papel de boa qualidade e boa qualidade de impressão. A qualidade da edição é boa porque já é um livro com muitos anos a circular de feira em feira - imagino! - e, ainda assim, mantém-se em "boa forma física".

Em suma, uma arte bastante interessante, pródiga em oferecer-nos personagens expressivos, com quem nos identificamos, e a temática do México e dos Mayas não chega para considerar este livro espetacular. Ainda assim, é uma leitura interessante, com bons momentos. Pena é que tenha sido mais uma série que não foi finalizada. Oh, esses tempos da edição de bd em Portugal aos quais nenhum de nós quer voltar! Antes poucas séries terminadas do que muitas séries começadas e deixadas a meio. Digo eu!


NOTA FINAL (1/10):
7.0


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020



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Ficha técnica
Cañari #1 – As Lágrimas d’Ouro
Autores: Didier Crisse e Carlos Meglia
Editora: Vitamina BD
Páginas: 48, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Dezembro de 2006