O Município da Amadora divulgou ontem os nomeados para os Prémios de Banda Desenhada da Amadora da próxima edição do Amadora BD que se avizinha.
Entre as 24 obras que estão a concurso em 5 categorias, uma coisa permanece intacta: o regulamento dos prémios continua curto e pouco objetivo a vários níveis. E há (mais uma) polémica.
Vejam, mais abaixo, a minha opinião sobre estas atribuições.
Mas, por agora, deixo-vos com a lista de nomeados, aproveitando para dar os parabéns a todos os autores e editores envolvidos nestas obras.
NOMEADOS PARA MELHOR OBRA ESTRANGEIRA DE BD EDITADA EM PORTUGAL
Soli Deo Gloria, de Jean-Christophe Deveney e Edouard Cour, editado pela Ala dos Livros
Ulysse & Cyrano, de S. Servain e Xavier Dorisson, editado pela Asa/Leya
Blast - Tomo 1/2, de Manu Larcenet, editado pela Ala dos Livros
A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita
NOMEADOS PARA PRÉMIO REVELAÇÃO
A Cada Sete Ondas, de Beatriz Brajal, editado pela Chilli com Carne
Canalha Borrada, de Zé Lázaro Lourenço, editado pel’A Seita
Manda msg quando chegares, de R.G.B, editado pela Iguana, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial
A Solidão do Ser, de Helena Sá, editado pel’A Seita
O Cão Invisível, de Wandson Lisboa, editado pela Iguana, uma chancela da Penguin Random House Grupo Editorial
NOMEADOS PARA MELHOR FANZINE OU PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE
Palácio #5, de Francisco Sousa Lobo, edição de autor.
Alzine #3, de Filomena Fidalgo, Guido Barsi, Nicolas Viñolo, Fil, Hugo Teixeira, Joana Mariano, Luís Sousa, Vasco Lopes, Pedro N, Miguel Santos, Rodrigo Leme, André Vieira, Rita Torres, Marta Vicente, Marcelo Degrazia, João Gordinho, Samir Karimo, José Bandeira, Lança Guerreiro, Graziela Nascimento, Marco Fraga da Silva, Sérgio Santos, Manuel Monteiro, Sandro Leonardo, Keven Rocha, Amanda Bezerra, R Lourenço, Bruna Rodrigues, Mário André, João Gil, Sofia Santos, Sara Pires, Filipe Duarte, Sofia Bernardes, Beny-Draws, Phermad, Luciano Ferreira, José Mendes, Miguel Sánchez, Ana Mota, Rafael Sanzio, Henry Diaz, Hugo Maciel, editado pela Associação Tentáculo
Augusto Trigo: “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um Sonho”, de José Baptista, Augusto Trigo e Jorge Magalhães, editado pela Câmara Municipal de Moura
FANZINE POESIA BD Nº14 – A AVÓ FLORINDA E O AVÔ QUE BEBIA CACHAÇA, de António Tavares e Paulo Diogo, Edição de Autor
NOMEADOS PARA MELHOR OBRA DE BANDA DESENHADA DE AUTOR PORTUGUÊS
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo e Júlia Barata, editado pela Leya/Caminho
Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
Dormindo Entre Cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci, editado pela Zigurate
O Progresso da Humanidade, de João Sequeira e Rui Cardoso Martins editado pela Polvo
Atrahasis, de David Soares e Sónia Oliveira, editado pela Kingpin Books
NOMEADOS PARA MELHOR EDIÇÃO PORTUGUESA DE BD
A Fera vol. 2, de Zidrou e Frank Pé, editado pel’A Seita
O Grande Poder do Chninkel, de Van Hamme e Rosinsky, editado pela Arte de Autor
Os Trabalhadores do Mar, de Michel Durand, editado pel’A Seita
Rare Flavours, de Filipe Andrade e Ram V, editado pela Kingpin Books
Shi - Livro 2, de Zidrou e Joseph Homs, editado pela Ala dos Livros
-/-
Anunciados os nomeados e dados os parabéns a todos pelo trabalho desenvolvido, permitam-me então as minhas opiniões. Sem agenda secreta, sem favorecimentos, sem "tretas". Apenas e só a minha opinião.
São três as coisas com alguma gravidade que, a meu ver, devem ser referidas:
1) A primeira delas é a questão da obra de autor nacional ou obra nacional. Não é tema novo, é tema recorrente. Já muito se escreveu sobre o assunto e até mesmo eu, que já fui Presidente do Júri noutras edições, o revelei publicamente, e sem medos, mesmo durante o exercício das minhas presidências dos Prémios: o regulamento, tal como está, é insuficiente e é lato.
Vejamos: as obras Rare Flavours e Dormindo Entre Cadáveres, ainda que sejam frutos da criação portuguesa, são obras que foram concebidas por e para mercados internacionais. Rare Flavours para o mercado americano e Dormindo Entre Cadáveres para o mercado brasileiro. Fará sentido que sejam premiadas pelos prémios de um mercado que não as desenvolveu? Talvez não faça. Mesmo assim, e porque me considero uma pessoa bastante coerente tenho que dizer que não atribuo, minimamente, as "culpas" destas nomeações aos jurados. Neste ponto, os jurados estiveram bem e não mudo de opinião. Se o Regulamento não faz menção a que a obra tenha que ser feita pelo e para o mercado português e que só procura premiar uma obra que tenha sido publicada em Portugal e que tenha na sua autoria um português, então os jurados estiveram bem. Cumpriram as regras. É o regulamento que deve corrigir esta questão. Isto, claro está, se a Organização achar que deve ser corrigida. Este ano houve algumas melhorias no regulamento, concedo, mas ainda há algum trabalho a fazer. Já o digo há 6 anos, todos os anos, desde que o Vinheta 2020 foi criado.
2) Se no ponto anterior considero que os jurados estiveram bem, neste segundo ponto em concreto tenho que lhes estender a minha crítica. Este ano, temos a atribuição de duas nomeações que me parecem completa e incrivelmente sem sentido: Manda msg quando chegares, de R.G.B, e O Cão Invisível, de Wandson Lisboa. O que coloco em causa não é a qualidade maior ou menor das obras em questão, mas uma coisa ainda mais óbvia: não são obras de banda desenhada. São livros ilustrados. Não é uma questão opinativa... é um facto. Notem que até me considero bastante tolerante em relação aos cânones da banda desenhada. Vejo muita gente, mais purista, que apenas considera como BD os livros que têm uma determinada planificação, com um conjunto de vinhetas, pranchas e balões, mais clássicos. Eu não sou essa pessoa. Acho que devemos abrir-nos a novas abordagens. Agora, vamos lá ter bom senso! É que, convenhamos, ter um livro sem qualquer sequencialidade gráfica, e apenas com algumas ilustrações e um ou outro ocasional balão... não é estarmos diante de um livro de banda desenhada. Não se trata de embirração minha. É o que é. Ou será que os Prémios de Banda Desenhada da Amadora podem premiar, no futuro, obras de culinária, só porque têm alguns desenhos? Manuais escolares? Cadernos de Normas de Segurança das Companhias aéreas? Vamos lá ser mais sérios e rigorosos.
3) Por último, e igualmente polémico, há um livro nomeado que, a julgar pelo Regulamento, não reúne as condições para ser considerado nestes prémios. Esse livro é Soli Deo Gloria, editado recentemente pela Ala dos Livros. Ora, segundo as regras - não fui eu que as inventei - "as obras a concurso deverão ter data de lançamento entre 1 de agosto do ano transato e 31 de julho do ano referente aos prémios." Ora, isto quer dizer que, para este ano, apenas podem contar as obras publicadas em Portugal entre 1 de agosto de 2025 e 31 de julho de 2026. Acontece que Soli Deo Gloria tem como data de edição o mês de Agosto de 2026. Está na ficha técnica. É factual. Logo, esta obra não podia nem devia ter sido considerada para estes prémios. Mas ninguém lê o próprio regulamento, for god's sake? Soli Deo Gloria pode até ser nomeada para o prémio no próximo ano. E até sair vencedora... mas, se os regulamentos servem para qualquer coisa, não pode ser nomeada este ano.
NOTA POSTERIOR À PUBLICAÇÃO DESTE ARTIGO: já fui informado que, na ficha técnica do livro Soli Deo Gloria aparece a data de julho de 2026. (Embora em TODOS os websites que visitei a data de edição do livro apareça como agosto de 2026, o que também constitui um erro de alguém). De qualquer maneira, sou sempre o primeiro a assumir o meu erro. Se o livro tem, efetivamente, data de publicação como julho de 2026, apresento as minhas desculpas aos envolvidos e digo: já cá não está quem falou. Pelo menos, relativamente a este terceiro ponto em particular. Tudo o resto se mantém.
Permitam-me acabar este artigo de opinião com uma reflexão. Não devemos olhar para o regulamento de qualquer coisa como algo que nos possa favorecer, se o fintarmos e formos mais espertos que os outros. Ninguém é mais esperto do que os outros e não há maior atentado à esperteza que é achar isso mesmo: que somos mais espertos do que os outros. Portanto, é melhor jogarmos sempre com fair play.
Dou-vos um exemplo: sei que a CERCIOEIRAS submeteu o seu livro inVISÍVEIS, do qual sou coordenador e autor, a estes prémios. E provavelmente até poderia estar entre os nomeados para, pelo menos, Melhor Publicação Independente. Digo eu. Mas isso não aconteceu... e porquê? Porque Luís Louro, que também participa nesse livro em questão, fazia parte do júri, o que criava um conflito de interesses. Como tal, imagino (e espero) que o livro inVISÍVEIS tenha sido prontamente descartado. E há algum problema nisso? Claro que não! Se está nas regras, é para cumprir. Sabemos que em anos anteriores houve casos em que obras de membros das famílias dos jurados foram vencedoras. Os jurados nessa situação abstiveram-se de votar, é certo, mas isso acabou por, ainda assim, condicionar a atribuição dos prémios. Até porque, não esqueçamos, são apenas três os jurados, o que é manifestamente pouco.
Falo nisto, pois considero mesmo que a bem da legitimidade, da clareza e da justiça, é melhor jogarmos sempre com fair play. Vale mais uma derrota com fair play do que uma vitória sem fair play. Digo eu, que sou um romântico. E é também importante que não haja dois pesos e duas medidas. Ou bem que cumprimos sempre as regras, ou bem que nunca as cumprimos. No meu caso, acho preferível que se cumpram sempre as regras. Desculpem-me caros amigos da CERCIOEIRAS, mas ainda bem que o vosso (nosso) livro não foi nomeado. Chamem-me choninhas... mas sempre vou preferir estar do lado dos que cumprem as regras. Ou se ganha cumprindo as regras ou não vale a pena ganhar.

Concordo com todos os teus pontos. A mim não me choca a inclusão de obras como "Rare Flavours" e "Dormindo Entre Cadáveres" tal como o "Shangai Dream" foi incluído em 2021. Da mesma maneira que se publicarem para o ano um livro como o "A Righteous Thirst For Vengeance" faz-me sentido aparecer nesta categoria.
ResponderEliminarLevanto-te só a pergunta, para perceber a tua opinião: sobre a melhor edição achas que deve aparecer apenas as obras inéditas ou todas? Na minha óptica faz sentido aparecer todas porque a edição de um livro de 2026 é diferente da edição de 2001, por serem objetos diferentes, pessoas diferentes, editoras diferentes, etc. O caso do Grande Poder de Chninkel é um belo exemplo. Não acgo que seria justo a Arte de Autor ficar de fora só porque a Meribérica lançou anteriormente o livro.
Da mesma maneira que o Akira da JBC venceu em 2019 a categoria "Melhor obra de BD Clássica".
De uma forma geral acho que é necessário ter de forma mais clara os requisitos/condições para CADA UMA das categorias.
O júri continua a ser curto mas noto a presença de um elemento feminino para diversificar (além de ser alguém competente para o papel a representar).
Finalmente a divulgação das escolhas junto do justificativo seria muito bom para a clareza as atribuições, principalmente tendo em vista que certas categorias tem prémios monetários.
Um abraço!
Ai está o FB amadora,comics nunca se existe, mesmo quando dominou o mercado...💡
ResponderEliminar