Hoje trago-vos dois livros emblemáticos da produção nacional no que à banda desenhada humorística diz respeito: A Loja e A Demanda do G. No caso do primeiro livro, editado em 2019, temos o veterano Derradé enquanto autor completo, assumindo desenhos e argumento. No caso de A Demanda do G, originalmente editado em 2016, a obra conta com Geral e Derradé no argumento e Derradé nos desenhos. Ambos os livros foram publicados pela editora Polvo.
Estas são duas obras que, apesar de diferentes na sua estrutura narrativa e nos seus universos ficcionais, partilham alguns elementos que até nem são tão comuns assim na banda desenhada nacional: o humor, a ironia, a cultura popular e, diria até, uma certa recusa em respeitar convenções narrativas demasiado rígidas. Além disso, as duas obras revelam a capacidade de Derradé (e de Geral) para cruzar o quotidiano português com situações absurdas, inesperadas e frequentemente cómicas.
Em A Loja, acompanhamos Bernardo Duarte, um homem que abandona uma carreira estável na informática para concretizar o sonho de gerir uma loja especializada em banda desenhada. Trata-se de uma ficção com claros laivos autobiográficos. Não que Derradé tenha tido - tanto quanto sei - uma loja de banda desenhada, mas por também ele ser informático de profissão e um acérrimo amante e defensor da banda desenhada. A premissa é simples e bastante direta, com vários elementos cómicos e muitas, muitas referências que o público mais conhecedor da BD em Portugal certamente vai encontrar. Tudo num registo carregado de sarcasmo, que nos deixa bem dispostos ao longo da leitura. Mesmo assim, e tal como o autor haveria de fazer, uns anos mais tarde, no seu O Fogo Sagrado, a obra também tem um lado mais sério que nos deixa a refletir de um modo mais amplo sobre vocação, realização pessoal e os riscos associados à perseguição de um sonho.
Uma das maiores virtudes de A Loja é precisamente a sua autenticidade. O leitor percebe rapidamente que as situações descritas têm origem em experiências vividas ou observadas de perto. Esta proximidade com a realidade confere credibilidade à obra e permite uma representação bastante fiel das dificuldades enfrentadas por pequenos empresários no setor cultural português, particularmente num nicho tão específico como o da banda desenhada. Se trabalhar em cultura já não é fácil... imaginem trabalhar em banda desenhada, um "nicho do nicho" da cultura.
Ao mesmo tempo, a obra evita cair no dramatismo excessivo. Derradé utiliza o humor como instrumento de análise social, mostrando que o fracasso, as dificuldades financeiras e as desilusões podem ser retratados de forma leve, mas sem perder profundidade. Acaba, pois, por ser um livro especialmente bem sucedido por conseguir ser, ao mesmo tempo, divertido e melancólico. E se há coisa que nos demonstra é que - quer queiramos, quer não - muitos dos nossos sonhos individuais acabam por se confrontar constantemente com as limitações da realidade em que vivemos. Há contas por pagar, filhos por criar, sonhos por deixar.
Tal como já referi acima, considero ainda que outro dos feitos da obra é a homenagem que presta à (sub)cultura da banda desenhada. O livro funciona quase como um retrato de uma comunidade específica de leitores, colecionadores e apaixonados pela nona arte. Nesse sentido, ultrapassa a história individual do protagonista para se tornar uma reflexão sobre a sobrevivência das pequenas livrarias especializadas e sobre a persistência de certas paixões culturais num mundo cada vez mais dominado pela lógica comercial. Gosto muito deste A Loja. Não consegue, quanto a mim, ser tão profundo como O Fogo Sagrado, o meu livro favorito do autor, mas anda lá perto. E, claro, mesmo sendo um livro mascarado de comédia pura e dura, traz também uma seriedade e uma reflexão que importa referir.
Já A Demanda do G segue um caminho radicalmente diferente. A história tem início com o desaparecimento misterioso de G, vocalista dos fictícios The BadSummerBoys Band, desencadeando uma procura que rapidamente se transforma numa viagem delirante povoada por referências musicais, literárias e culturais. Pelo percurso surgem figuras tão improváveis como Federico García Lorca, Serge Gainsbourg, Vinicius de Moraes, Joe Strummer, entre muitos outros.
Aqui as reflexões mais sérias de A Loja ou O Fogo Sagrado dão lugar a uma narrativa que não tem medo de adoptar uma lógica assumidamente absurda. Em vez de procurar coerência realista, o livro aposta mais na acumulação de situações extravagantes e encontros improváveis. Esta opção aproxima a obra de uma corrente mais nonsense, com a viagem dos protagonistas a ser mais importante pelas situações inesperadas que as personagens encontram ao longo do caminho, do que pelo próprio destino final.
Um dos elementos mais interessantes de A Demanda do G é, portanto, a utilização da cultura popular como matéria-prima narrativa. Música punk, literatura, cinema e mitologias urbanas convivem num mesmo espaço ficcional.
Mas onde a obra surpreende mais é na forma como está estruturada, em termos de planificação. Temos a história principal - chamemos-lhe assim - a ocupar, mais ou menos, 66% de cada página, e temos uma sub-narrativa a acontecer em simultâneo, em forma de tira, no fundo de cada página. Aqui, a narrativa aproxima-se mais de gags que reagem à ação principal da história. São os autores a comentarem a própria história, vá. Quase como se essa tira representasse um coro grego que reage à própria história, numa abordagem meta-narrativa. A ideia é super audaz e original, sendo vista poucas vezes na BD. Mas bons exemplos desta técnica podem ser encontrados, por exemplo, em Fat Freddy's Cat ou Krazy Kat.
E quando esta abordagem funciona bem, é hilariante. Foram várias as vezes em que gargalhei com os disparates contidos nestas tiras. Por outro lado, também tenho que ser justo e referir que à medida que a leitura vai avançando, esta iniciativa se torna um pouco repetitiva e que até acaba por retirar a nossa atenção da ação principal. É um pau de dois bicos, portanto - no pun intended.
Comparando ambas as obras, percebe-se que A Loja é mais intimista e realista, enquanto A Demanda do G aposta no delírio imaginativo. Ainda que ambas nos façam rir em diversos momentos. É um humor inteligente, frequentemente autorreferencial e recheado de referências culturais. Mesmo quando os contextos são muito distintos, a "voz" do autor mantém-se reconhecível, assente numa observação irónica do comportamento humano e numa simpatia evidente pelas figuras marginais, excêntricas ou sonhadoras.
Em termos de desenho, o autor apresenta o mesmo tipo de ilustrações a que já estamos habituados, com as personagens a serem delineadas com um traço caricatural a preto e branco que evidencia emoções e contribui para o humor presente nos textos e nas situações. Em A Demanda do G, na tal parte que já mencionei das tiras humorísticas, o estilo de desenho é ainda mais direto e "cartoonesco" do que nas outras ocasiões. Percebo a escolha, até porque permite separar melhor as duas narrativas, mas acho que em termos visuais não funciona tão bem, uma vez que deixa cada página mais cheia, causando uma certa sensação de claustrofobia gráfica.
Em termos de edição, cada um dos livros publicados pela Polvo apresenta capa mole, com badanas, e bom papel baço no interior. A impressão e a encadernação são boas. Nota para o acabamento brilhante, em tons dourados, da capa de A Demanda do G, que a torna um pouco mais distinta do que o habitual nos lançamentos da Polvo.
Em suma, A Loja e A Demanda do G demonstram não apenas a versatilidade criativa de Derradé, mas também a vitalidade de uma banda desenhada portuguesa capaz de oscilar entre a reflexão intimista e o humor mais delirante. Eis duas obras diferentes, mas de certo modo complementares, unidas por um olhar irónico sobre o mundo e por uma profunda paixão pela cultura popular. Indispensáveis para os amantes de BD humorística... e não só.
NOTA FINAL (1/10):
A Loja: 8.3
A Demanda do G: 7.4
Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020
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A Loja
Autor: Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Novembro de 2019
Autores: Geral e Derradé
Editora: Polvo
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 16 x 22 cm
Lançamento: Agosto de 2016
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Muito Obrigado Hugo. Ainda bem que te agradou. Embora produzir BD seja para mim quase que uma necessidade existencial, e que custa cada vez mais, ter leitores agradados é fundamental para que tudo isto valha a pena. Abraço
ResponderEliminaro comentário anterio saiu como anónimo. I'm too old for this shit...
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