quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Lançamento: Umbigo do Mundo vol. 1 : Alma Mãe




O fim de semana que se avizinha marca o lançamento da nova obra de Penim Loureiro, juntamente com Carlos Silva, da editora A Seita. O primeiro volume da nova série de ficção científica Umbigo do Mundo, cujo subtítulo é Alma Mãe, terá duas sessões de apresentação e autógrafos.

A primeira sessão decorre a partir das 16h de sábado, na livraria Kingpin Books (Av. Almirante Reis, 82 A). A segunda sessão será na própria Feira do Livro de Lisboa, no stand da Europress (B07/B09/B11), a partir das 15h.

Refira-se que em ambos os dias o autor Penim Loureiro terá ofertas exclusivas para quem comprar o livro.

Abaixo fiquem com a sinopse da obra, algumas imagens promocionais e, no fim, um booktrailer da obra.
Umbigo do Mundo vol. 1 : Alma Mãe, de Penim Loureiro e Carlos Silva

Há muito que as Cidades Antigas ruíram. Agora, são as Cidades Sustentáveis que se desmoronam, atingidas por uma misteriosa praga responsável pela morte de uma grande parte das mulheres. Neste mundo em decadência e conflito, surge uma estranha rapariga que vem desequilibrar a balança. Num continente onde já não existem países, onde não há espaço para a solidariedade, cada sítio é o Umbigo do Mundo.

Da dupla Carlos Silva (Prémio Divergência 2015 com o romance de ficção científica Anjos) e Penim Loureiro (Troféu Central Comics 2016 para o Melhor Desenho com a BD Reportagem Especial) surgiu Alma Mãe, o primeiro álbum da série Umbigo do Mundo, um mergulho num universo de transbordante criatividade resultante de uma crise anunciada.
Fábula dos tempos que correm, como sempre antecipados pelas narrativas de ficção científica.

Umbigo do Mundo é um livro de aventura, passado num universo ficcional onde muitos reconhecerão temas que cada vez mais dominam a atualidade: as alterações climáticas, o perigo do fim do projeto Europeu, o escassear da solidariedade entre as nações, segmentos da sociedade e até vizinhos. E neste mundo, cada vez mais próximo do nosso, os autores tecem uma trama excitante e misteriosa, com vários interesses e poderes em jogo, cada um considerando-se o Umbigo do Mundo.

Este álbum assinala o regresso de Penim (1963) à banda desenhada. Professor no Instituto Politécnico de Lisboa e ilustrador com uma obra que sempre cruzou a arquitectura com a banda desenhada, publicou a primeira BD em 1979. Premiado com o Troféu Central Comics para o Melhor Desenho em 2016, foi o autor convidado para desenvolver um projecto em parceria com a Vista Alegre que une a BD e a porcelana.

Carlos Silva (1989) é escritor de ficção científica e fantasia com contos publicados em Portugal, Espanha e Brasil. O seu romance Anjos ganhou o Prémio Divergência em 2015. É co-autor da biografia em banda-desenhada de Rafael Bordalo Pinheiro, editada pelo museu dedicado a este artista, que ganhou o prémio de Melhor Publicação Independente dos Troféus Central Comics 2020.

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Ficha técnica
Umbigo do Mundo vol. 1 : Alma Mãe
Autores: Penim Loureiro e Carlos Silva
Editora: A Seita
Páginas: 80, a cores
Encadernação: Capa dura
PVP: 14,00€




quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Análise: Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas

A editora A Seita recuperou recentemente uma obra de culto da banda desenhada nacional que estava algures perdida na história. Falo de Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo, que havia sido originalmente publicada no jornal Se7e. Para além dessa história, também NIuIoRk foi recuperada neste livro que, desta forma, reúne as duas aventuras do protagonista Jaca. Este livro acaba, pois, por funcionar como que um “integral” da personagem. Uma boa oportunidade que A Seita soube aproveitar.

Esta é uma história ambientada na Lisboa dos anos 70, com um teor bastante noir na forma e no conteúdo. Jaca, o protagonista, é um ribatejano (bastardo!) que aspira chegar à vida diplomática. Vê-se depois enredado entre mafiosos traficantes de droga, enquanto tenta fazer as suas próprias investigações perante personagens dúbias que não são o que aparentam ser.

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

Acredito que é sempre uma boa notícia que aquelas obras relevantes da banda desenhada nacional que, por uma razão ou outra, ficaram perdidas no passado, possam ser recuperadas, dando a oportunidade: 1) aos que procuravam há anos aquela bd de a voltar a ler ou, também, 2) aos mais novos de conhecer bds emblemáticas para a história da 9ª arte em Portugal.

Devo, porém, dizer que, por mais ternura e saudade que possamos ter pela obra – e ainda mais, pelo seu criador -, este é um livro que apresenta várias fraquezas. Ao nível do argumento, existe alguma pobreza por não ser muito claro para onde o autor pretende levar a personagem e a narrativa. Parece que vai fabricando a história à medida que os desenhos vão saindo. E isso torna ambas as histórias deste livro num exercício um tanto ou quanto oco. Sem ser do género slice of life, quase que diria que parece sê-lo pois, de facto, aquilo que Relvas nos dá, é um conjunto de momentos, de acontecimentos que rodeiam as personagens, mas que, depois, não são minimamente aproveitados ou mesmo correlacionados entre si.

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

Relembre-se, porém, que, sendo a história bastante confusa, isso não quer dizer que o texto de Fernando Relvas não seja bom. Porque o é. A forma como Relvas escreve – com várias frases marcantes e até com um bom recurso de vocabulário – dá profundidade àquilo que é dito pelas personagens, especialmente por Jaca, que faz algumas considerações muito interessantes, com uma boa dose de sarcasmo.

Diria também que a grande valência desta obra é a sua capacidade para nos pintar um fresco com certas idiossincrasias adjacentes à cultura portuguesa, em particular a lisboeta, a estarem bem presentes e a parecerem funcionar como que um souvenir desses tempos idos das décadas de 70 e 80 da noite lisboeta. As roupas, os penteados, a decoração do espaço, a forma de convivência. Tudo isso está presente nesta obra, o que lhe confere um certo valor histórico-cultural.

Mas é em termos de arte ilustrativa que este livro mais brilha. Parece trazer-nos um estilo que já não se usa em bd. Pelo menos, de forma muito comum. E quando digo isto, digo-o da forma mais lisonjeadora possível. Isto porque o estilo de desenho que Relvas nos dá nesta obra, a excelente utilização que faz do preto e do branco e a dinâmica que consegue imprimir à ação, fazem com que as suas ilustrações sejam agradáveis à vista, com influências que poderiam ser encontradas na escola franco-belga clássica ou nos fumetti italianos. O autor sabe ilustrar as expressões das personagens muito bem embora seja visível uma certa inconsistência nesta área. O próprio Jaca aparece, não raras vezes, com expressões e até traços de fisionomia díspares de vinheta para vinheta.

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

A planificação da obra é bastante dinâmica com as vinhetas a parecerem muitas vezes arrumadas algo “à pressão”. Se isso dá algumas pranchas muito boas, também gera outras que acabam por ficar um pouco confusas. Nota ainda para a legendagem onde a anarquia gráfica ainda mais impera. Temos legendas dactilografadas com a máquina de escrever que, por vezes, ocupam o tamanho inteiro de uma vinheta, mas também temos legendas escritas à mão, muitas vezes sem a envolvência de um balão.

A edição d’A Seita é bastante boa e dá à obra o requinte que a mesma merecia. Quase que em forma de homenagem. Capa dura, bom papel baço, bom design e ainda um prefácio que contextualiza a obra de Fernando Relvas, um texto do mesmo sobre este trabalho, uma bibliografia completa do autor e um conjunto de esboços inéditos. No fundo, um trabalho aprumado e carinhoso por parte dos editores. Quem já é admirador de Relvas vai admirar esta edição, estou certo!

Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

Relativamente à ilustração e grafismo da capa, a fazer lembrar alguns desenhos de Hugo Pratt, acho que poderia ter sido mais bem conseguida. Compreendo que se tenha optado por utilizar duas ilustrações desenhadas por Relvas. Mas basta dizer que a primeira página do livro, com o fundo a preto e com Jaca a transportar, com maus modos, a rapariga no seu braço daria, quanto a mim, uma capa fantástica e bem melhor. Mas é uma questão de gostos, reconheço.

Em conclusão, quer Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo, quer NIuIoRk, são obras que do ponto de vista do argumento, ficam bastantes furos abaixo daquilo que eu consideraria um bom argumento para bd. No entanto, reconheço que há um sentimento revivalista agradável em voltar a estas histórias. Quanto ao desenho de Relvas, sendo imperfeito por vezes, apresenta-nos, noutras ocasiões, vinhetas do melhor que já se fez na banda desenhada portuguesa. Acima de tudo, diria que Fernando Relvas e a sua obra, especialmente aquela que nos dá neste livro, pertencem a um outro tempo e a uma outra escola da banda desenhada. Por isso mesmo, este é um livro a recordar por aqueles que já conhecem a obra e um livro a conhecer por aqueles que (ainda) a desconhecem.


NOTA FINAL (1/10):
7.0



Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk, de Fernando Relvas - A Seita

Ficha técnica
Concerto para Oito Infantes e Um Bastardo / NIuIoRk
Autor: Fernando Relvas
Editora: A Seita
Páginas: 64, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Julho de 2021

A Seita anuncia a aposta em mais 3 novas obras de BD!



A editora A Seita aproveitou - e bem! - o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja para anunciar, através de dois dos seus editores, José Pedro Castello-Branco e João Miguel Lameiras, mais três obras a lançar futuramente, numa das suas coleções que é, igualmente, uma das mais recentes apostas da editora em banda desenhada.

A coleção em questão é dedicada a adaptações para bd de obras clássicas da literatura, e intitula-se Nona Literatura. Abriu em grande com o lançamento, há uns meses, da sua primeira obra, Drácula, de Georges Bess, um livro soberbo que já aqui foi analisado.

Mas agora são conhecidos mais alguns títulos que deverão chegar ao mercado nos próximos meses.

Avancemos, então, para a partilha com os leitores do Vinheta 2020 das novidades referentes a esta coleção d' A Seita:

terça-feira, 7 de setembro de 2021

O meu olhar sobre o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja





São 21h do dia 3 de Setembro de 2021. As gentes locais e as gentes forasteiras de Beja começam a aglomerar-se à porta da Casa da Cultura. Pequenos grupos que vão falando entre si, entreolhando outros grupos circundantes. Muita gente parece conhecer-se. Assim que se reencontram, são muitas as caras que se transfiguram num amável sorriso, que antecede palavras calorosas como: “Então? Como estás? Há quanto tempo?”. 

A energia é positiva e facilmente captável por qualquer pessoa minimamente atenta. Até para mim, que nunca ali tinha estado. Foram várias as vezes que eu, compelido por esse amor pela 9ª arte, que partilho com aqueles que me seguem aqui no Vinheta 2020, fiz combinações e preparações para conhecer esse tal Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja que tanto carinho parecia receber. Mas em todos os anos, invariavelmente, por uma ou outra razão, normalmente sempre relacionada com datas familiares importantes ou compromissos profissionais, acabava por me afastar de Beja. 


Este ano, e causado ainda por estes tempos de pandemia anormais, aos quais nos vamos(?) acomodando, como se já fossem normais, o Festival passou do mês de Maio para o mês de Setembro. O que, para mim, acabou por ser uma excelente notícia. Já não tinha razões para não lá ir. E agora, que o primeiro e mais importante fim de semana do festival terminou, posso dizer que fiquei verdadeiramente admirado com aquilo que ali se vive. Para os que ainda não lá foram, posso dizer simplesmente: “esqueçam todos os eventos de BD a que já foram… Beja é something else”.

Em teoria – e até se olharmos para a programação do festival – parece que estamos apenas perante um clássico e expetável festival de bd. Há artistas convidados, nacionais e estrangeiros, que fazem as concorridas sessões de autógrafos; há exposições, dedicadas a esses mesmos artistas; atividades paralelas a decorrer, como o lançamento de livros, concertos desenhados, o anúncio de novidades, entre outros; e uma boa loja de BD – o Mercado do Livro.

Mas, na prática, o que este evento tem de mais especial, é o seu ambiente muito singular. Onde todos falam com todos. Onde o introvertido é desafiado pelo extrovertido. Onde o aspirante a autor de bd, que deseja publicar a sua primeira história, pode partilhar experiências com autores consagrados ou com editores portugueses. No fundo, parece mesmo que a única razão para estar ali acaba por ser uma: a banda desenhada. E o amor que se tem por ela. E que é partilhado por todos.

Posto isto, abordo algumas questões que me parecem relevantes.