terça-feira, 3 de março de 2026

Análise: História Alegre de Portugal

História Alegre de Portugal, de Artur Correia - Bertrand Editora

História Alegre de Portugal, de Artur Correia - Bertrand Editora
História Alegre de Portugal, de Artur Correia

Há obras que, independentemente da idade com que as descobrimos, mantêm um magnetismo especial na nossa estante. E este História Alegre de Portugal, de Artur Correia, é, sem sombra de dúvida, um desses marcos incontornáveis da banda desenhada nacional. O que o autor conseguiu com esta obra, foi transformar a herança literária de Manuel Pinheiro Chagas num objeto visual vibrante, capaz de atravessar gerações sem perder a frescura. Ainda hoje é uma obra que merece ser (re)conhecida por novas gerações. E, por tudo isso, fiquei satisfeito quando soube que a editora Bertand iria reeditar este livro sobejamente conhecido da banda desenhada portuguesa.

De facto, a proposta de contar a História de Portugal de forma leve e cativante foi, sem dúvida, uma das razões pelas quais esta BD se destacou no panorama literário português, aquando do seu lançamento original, ainda nos anos 1970.

História Alegre de Portugal, de Artur Correia - Bertrand Editora
A narrativa começa com João, um antigo mestre-escola que decide compartilhar as suas experiências e conhecimentos com os habitantes de Agualva. Esta personagem acaba por ser o elo entre o passado e o presente, permitindo que os leitores se sintam imersos naquela que é uma autêntica viagem no tempo, ficando no ar a ideia de que História não é - ou, pelo menos, pode não ser! - um mero conjunto enfadonho de datas estáticas. 

É verdade que estamos perante uma BD de cariz assumidamente didático, mas, lá está, sem que seja uma aborrecida aula de história, mas uma abordagem simples, direta e divertida que põe de lado os formalismos pesados dos manuais escolares. É desse modo que a obra nos guia pela História da nação portuguesa, desde os primórdios da nossa fundação, pelas mãos de D. Afonso Henriques, até ao final do século XIX. 

É uma viagem cronológica, dividida de forma episódica, que se foca naquilo que torna a narrativa histórica cativante: a ação e a personalidade dos seus protagonistas. E, claro, é uma obra onde há espaço para o  humor, que é uma constante ao longo das páginas, com piadas e trocadilhos que tornam a leitura leve e divertida.

História Alegre de Portugal, de Artur Correia - Bertrand Editora
A baliza temporal, que termina em 1895, não é um acaso, pois coincide com o ano da morte de Manuel Pinheiro Chagas, o autor original da obra que serviu de base a esta adaptação. Esta ligação ao texto do século XIX confere à BD um sabor clássico, mas que Artur Correia soube revitalizar com um ritmo narrativo moderno - pelo menos à altura da criação original desta BD, em 1978 - e uma linguagem visual que apela tanto aos mais novos como aos leitores mais velhos.

Além disso, uma das coisas que torna rapidamente reconhecível a obra, assim que a abrimos, é o traço de Artur Correia, colorido e marcadamente "cartoonesco" e caricatural. Deste modo, podemos olhar para as grandes figuras históricas de Portugal de um modo divertido, ainda que respeitador. 

Obviamente, é este registo visual que assegura que a abordagem seja leve e humorística. Mas é um humor que não é gratuito ou meramente focado numa piada pois, em sentido oposto, serve como um veículo para a aprendizagem. Ao rirmos, por exemplo, de uma expressão de D. João I ou de uma situação caricata durante os Descobrimentos, acabamos por reter na memória o acontecimento de forma muito mais eficaz do que através da leitura de um texto meramente factual. Especialmente se formos crianças.

História Alegre de Portugal, de Artur Correia - Bertrand Editora
Embora, ainda assim, me pareça que a obra também deve ser lida por um público adulto, seja por uma questão de obtenção de cultura geral, seja com o intuito de uma aproximação à obra de um dos grandes autores nacionais de banda desenhada.

Além disso, esta é uma edição que também se reveste de uma tentativa editorial de chegar a um público maior. Àquele que não tem por hábito a leitura de BD, mas que se pode interessar pela abordagem leve e divertida ao tema, e, também, ao público mais internacional ou estrangeiro. 

Talvez seja por isso que a Bertand optou por editar a obra em português, mas também em inglês, com o título A History of Portugal. Acredito, por isso, e espero, que este livro possa surgir, para além das livrarias, nas muitas lojas turísticas espalhadas pelo país.

A edição da Bertrand é em capa mole, com badanas, baça e com verniz localizado. No miolo o papel é baço e de boa qualidade, com a encadernação e impressão a serem igualmente boas. Como é uma obra que considero de ser de consulta, penso que teria sido bem-vinda, no fim ou no início do livro, um índice cronológico para os vários episódios aqui constantes. 

Em suma, História Alegre de Portugal é, acima de tudo, um livro que nos faz sorrir perante o nosso passado luso, provando que a História, quando bem desenhada, é tudo menos aborrecida. Continua a ser um clássico da 9ª arte portuguesa que deve ser relembrado e oferecido a todo um grupo de novos leitores, tenham eles a idade - ou nacionalidade - que tiverem.


NOTA FINAL (1/10):
8.2


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020

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História Alegre de Portugal, de Artur Correia - Bertrand Editora

Ficha técnica
História Alegre de Portugal
Autor: Artur Correia
Adaptado a partir da obra original de: Manuel Pinheiro Chagas
Editora: Bertrand
Páginas: 256, a cores
Encadernação: Capa mole com badanas
Formato: 166 x 242 mm
Lançamento: Janeiro de 2026

Há polémica com a Feira do Livro de Lisboa!


Ainda estamos a alguns meses da próxima Feira do Livro de Lisboa, o maior evento do género em Portugal, e a polémica já se instalou à conta de (mais) um disparate da APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros).

Isto porque, alegadamente, a Associação decidiu excluir mais de 40 editores independentes, incluindo alguns que se dedicam à edição/comércio de banda desenhada, como a Convergência, por exemplo, que vende bastante banda desenhada.

A APEL também é acusada por estes comerciantes de estar a favorecer os grandes grupos editoriais.

Tudo isto é extremamente lamentável, vergonhoso até, pois parece que a APEL esquece o pressuposto básico e universal de uma Feira do Livro que é o de levar os livros aos leitores e aos potenciais leitores. 

Ora, se excluímos alguns editores/comerciantes - e, vá-se lá saber porquê, são sempre os mais pequenos que são prejudicados - estamos a fazer um desserviço não só a esses editores/comerciantes, como aos próprios visitantes da feira. Já bem basta as cada vez maiores praças de cada grande grupo editorial que já desvirtuam aquilo que uma Feira do Livro deveria ser. Mas, lá está, se isso ainda se admite, não se pode admitir que os mais pequenos sejam excluídos do evento.

E, claro, o próprio aparente motivo de não haver mais espaço/pavilhões parece-me infundado se tivermos em conta que a Feira do Livro ocupa pouco mais de meio Parque Eduardo VII. Espaço para novos pavilhões é o que não falta. Aliás, se há espaço para tantos espaços e roulottes de street food, tem forçosamente de haver espaço para todos os editores. Por muito que eu aprecie ir a eventos dedicados ao street food, parece-me que o evento ainda se chama "Feira do Livro de Lisboa" e não "Feira da Street Food de Lisboa".

Concentrar a cultura e contribuir para um monopólio cultural é algo digno de uma autocracia cultural. 

Não o queremos, não o aceitamos!

Já há uma petição a circular, contra este situação, que eu já assinei e que vos convido a assinar. Podem encontrá-la neste link.





segunda-feira, 2 de março de 2026

Análise: Old Pa Anderson | Redenção

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H.

O primeiro livro de banda desenhada editado pela Arte de Autor em 2026 trouxe-nos mais um livro da dupla de autores formada por Hermann e Yves H. Desta feita, através de um volume duplo que inclui as histórias Old Pa Anderson e Redenção. A primeira decorre durante os anos 1950 - sendo, por isso, uma história mais contemporânea - enquanto que a segunda é um western mais clássico na abordagem.

A capa pode induzir-nos em erro e levar-nos a crer que estamos perante um duplo western, mas, como já disse, são duas narrativas passadas em períodos distintos. Mesmo assim, a junção dos dois livros num só volume não choca já que, além da autoria das obras, há aqui um denominador comum: a violência. Ambas as histórias nos transportam para ambientes duros, personagens moralmente ambíguas e uma violência extrema que, não obstante, também não é gratuita, mas antes consequência de contextos sociais e humanos muito específicos. 

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Pai e filho (Yves H. ou Yves Hermann é filho de Hermann, para quem não sabe) voltam a trabalhar em conjunto num livro que, mesmo com diferenças claras de qualidade entre as duas histórias, se revela uma leitura interessante e consistente no seu tom sombrio.

Em Old Pa Anderson, originalmente editado no ano 2016, somos transportados para o sul profundo dos Estados Unidos do início dos anos 50, para um Mississipi sufocado pela segregação racial, onde o racismo estrutural dita leis não escritas e onde o homem branco parece deter o direito à vida e à morte sobre a população negra. É um cenário historicamente envenenado e a narrativa também não procura suavizar arestas: pelo contrário, mergulha de frente na brutalidade desse período. E ainda bem que o faz, digo eu.

A premissa é simples: um velho afro-americano decide agir depois da morte da sua esposa e do assassinato impune da neta. Portanto, podemos dizer que a narrativa é tão linear quanto isso. Trata-se, pois, e sem rodeios, de uma história de vingança. Contudo, essa aparente simplicidade não impede que o impacto seja profundo. Pelo contrário, é precisamente essa frontalidade que torna o álbum tão eficaz. A injustiça racial é sentida em cada página, e o leitor é confrontado com uma revolta que se adensa vinheta após vinheta. .

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Em vários momentos, não consegui evitar a associação a filmes como Tempo de Matar, com Matthew McConaughey e Samuel L. Jackson, ou Mississipi em Chamas, com Gene Hackman e Willem Dafoe. Não porque a narrativa lhes seja semelhante em termos estruturais, mas porque partilha essa mesma sensação de indignação perante um sistema judicial cúmplice e uma sociedade profundamente racista e segregadora.

O enredo pode ser básico, sim, mas é muito bem conduzido. Yves H. demonstra maturidade ao não dispersar a narrativa em subtramas desnecessárias. O foco mantém-se no essencial: a dor, a humilhação, a perda e a inevitável resposta. Tão violenta quanto possível. Cada passo dado pelo protagonista da história é sentido como a consequência lógica de um mundo que lhe negou qualquer forma de justiça e lhe tirou o seu bem mais precioso.

Nem todos os livros da dupla Hermann/Yves H. têm sido particularmente felizes. Há álbuns que passaram quase despercebidos ou que não atingiram o impacto esperado. Contudo, Old Pa Anderson é, muito provavelmente, um dos melhores trabalhos que pai e filho produziram em conjunto. Pode não ser brilhante em todos os aspetos, mas é um bom livro, coeso, simples e emocionalmente forte, que prende o leitor da primeira à última prancha.

Há ainda um mérito adicional da obra, pois funciona como lembrete histórico da segregação racial nos Estados Unidos, não se tratando de uma lição académica, mas de um retrato humano que expõe feridas ainda longe de estarem completamente saradas. Ainda nos tempos presentes...

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Já Redenção, leva-nos para outro território... o do western clássico. Aqui, o foco desloca-se para uma história de cowboys, num faroeste duro - muito duro mesmo! - onde a violência atinge patamares igualmente elevados. A herança da culpa e o peso dos atos passados estruturam uma narrativa centrada numa relação pai/filho marcada pela ausência, pelo crime e por escolhas erradas.

Buck Carter, pai de um rapaz que não herdará propriamente virtudes, é um homem sem escrúpulos procurado por um xerife de métodos rápidos e expeditos. Buck abandonou a sua família mesmo no exato momento em que esta mais precisava de si. Ao fazê-lo, não só traiu aqueles que mais amava - ou que deveria amar - como despojou a sua vida de qualquer sentido profundo, transformando-se num fora-da-lei implacável e procurado. Não há aqui espaço para heróis tradicionais. Até porque o seu filho não se revela muito melhor. Na verdade, quase só encontramos vilões nesta história, o que até vai ao encontro do faroeste duro, sujo e violento que mais aprecio. 

Ainda que não seja um livro que se lê mal - e, na verdade, ambos os livros até se leem bastante depressa - comparativamente falando, Redenção, originalmente editado em 2015, não está ao mesmo nível de Old Pa Anderson. A história, apesar de competente, revela-se mais previsível e oca e, no final, algo esquecível. Falta-lhe, quanto a mim, o peso emocional e a relevância temática da primeira narrativa. 

Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor
Quanto à questão visual da obra, temos um Hermann inspirado. É verdade que, nos últimos anos, o autor nos tem oferecido obras onde fica aquém daquilo que produziu nos seus anos dourados. No entanto, aqui entrega-nos um trabalho bastante belo, com desenhos expressivos e, claro, uma aguarela muito própria, que continua a ser uma das suas imagens de marca. Quer em Old Pa Anderson, com veículos clássicos num ambiente mais citadino e urbano, quer em Redenção, com cavalos e pradarias de perder de vista no Wyoming, o autor revela-se inspirado.

Claro que nem tudo é irrepreensível. Encontramos, por vezes, pranchas algo desequilibradas, onde uma vinheta verdadeiramente impressionante convive com outra em que determinada personagem surge numa pose menos credível. Esse ligeiro desnível gráfico tem sido mais comum no Hermann das últimas duas décadas. Ainda assim, este livro mantém uma qualidade gráfica muito agradável.

A edição da Arte de Autor está bastante bonita. O livro tem uma capa própria, retirada de uma vinheta do livro Redenção, que nos é dada em capa dura, com um bonito acabamento aveludado. No interior, o papel é brilhante e de boa qualidade e o trabalho efetuado ao nível da encadernação e da impressão também é bom. Parece-me que a editora optou bem por colocar a melhor história em primeiro lugar no livro, mas talvez pudesse ter - também por isso - escolhido uma imagem de Old Pa Anderson para a capa do livro.

Em suma, este álbum duplo que nos traz um Hermann ainda bastante em forma, funciona especialmente bem, graças à primeira das duas histórias que nos oferece um dos melhores trabalhos conjuntos da dupla. No seu todo, é uma leitura dura e violenta, recomendável especialmente para quem aprecia um Hermann capaz de revisitar o seu melhor registo humanista e implacável.


NOTA FINAL (1/10):
8.7


Convite: Passem na página de instagram do Vinheta 2020 para verem mais imagens do álbum. www.instagram.com/vinheta_2020


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Old Pa Anderson | Redenção, de Hermann e Yves H. - Arte de Autor

Ficha técnica

Old Pa Anderson | Redenção
Autores: Hermann & Yves H.
Editora: Arte de Autor
Páginas: 112, a cores
Encadernação: Capa dura
Lançamento: Fevereiro de 2026


Devir termina coleção Angoulême!




A Devir acaba de publicar o último volume da sua Coleção Angoulême, coleção essa que nos trouxe um belo conjunto de obras premiadas no Festival de Angoulême, o maior evento europeu dedicado à banda desenhada.

Embora algumas das obras contidas nesta coleção, como Silêncio ou A Trilogia Nikopol, por exemplo, já tivessem tido edição portuguesa em tempos, outras obras houve que tiveram o seu primeiro lançamento em Portugal através desta coleção.

Fica agora no ar a dúvida se a Devir vai dar seguimento ao lançamento deste tipo de obras de banda desenhada que são diferentes, na abordagem e no público a que se destinam, daquelas que podemos encontrar nos mangás ou comics americanos que a editora tem editado.



A obra que fecha esta coleção é Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet, uma biografia sobre a célebre artista francesa.

O livro já pode ser encontrado em livraria.

Mais abaixo, deixo-vos com a sinopse da obra e com algumas imagens promocionais.


Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet

Kiki de Montparnasse foi uma artista de cabaret e pintora, famosa por frequentar os círculos boémios de Montparnasse no início do séc. XX, onde conheceu artistas como Chaim Soutine, Jean Cocteau, Amedeo Modigliani, Man Ray e Alexander Calder, entre muitos outros.

Uma das primeiras mulheres emancipadas em relação aos constrangimentos culturais e sexuais impostos pela sociedade da altura, tornou-se a musa de muitos artistas e companheira de Man Ray, que a imortalizou numa das suas obras mais icónicas.

Neste livro, José-Louis Bocquet e Catel Muller relatam, de forma inteligente e sensível, a história de uma artista carismática, que contribuiu de forma inegável para uma das épocas mais estimulantes e criativas do século.

Prémio Essencial Angoulême 2008



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Ficha técnica
Kiki de Montparnasse
Autores: Catel & Bocquet
Editora: Devir
Páginas: 406, a preto e branco
Encadernação: Capa dura
Formato: 17x24 cm
PVP: 22,00€